Stalemate II.
17 XVII. ??/??/20XX
Notas iniciais
Pela falta de luz que minhas pálpebras fechadas conseguiam identificar, a noite chegara. Talvez do mesmo dia, do dia seguinte, da semana seguinte: eu não fazia ideia. Com o tempo, as visitas de Cire e Eric ficaram mais espaçadas e geralmente só um deles aparecia para me alimentar. Muito pior do que a fome ou a sede, o cheiro insuportável de um ser humano sem higiene contribuía para meus vômitos constantes, fazendo com que nem água nem comida permanecessem dentro de mim por muito tempo.
Quando em condições deploráveis de estresse extremo, a maioria das pessoas começa a quebrar de cima para baixo. A mente vai primeiro, o raciocínio lógico rapidamente substituído por instintos de sobrevivência. A ação superando a razão, consumindo a racionalidade humana em um piscar de olhos. Depois, aliado a essa instabilidade mental, uma falta de ar abate os funcionamentos do corpo. Logo braços e pernas, sem o suprimento necessário, começam a falhar e o cativo passa a precisar dos quatro membros para se locomover. Rebaixado à condição de mero escravo de suas necessidades, o humano já não é mais humano.
Mello mostraria resistência logo no início, sua teimosia blindando sua inteligência com diamante.
Mas Matt sempre foi uma pessoa comum. Ele caiu rápido. Um peão descartável, que não fazia diferença dentro ou fora do tabuleiro.
Era tão mais fácil falar desse peão como se fosse outra pessoa, exteriorizar a dor como se pertencesse a outro idiota seduzido por uma criminosa.
— Ô verme! Hora de com-- Nossa, que fedor! Eric, desce aqui. – Encolhi-me automaticamente com o som das vozes, a dor em minha barriga voltando.
Mello, eu não quero mais sofrer.
Não tenho escolha.
Perdoe-me.
— Aqui, toma logo. – um balde quase acertou minha cabeça. Arrastei minhas pernas até ficar de joelhos e enterrei o rosto naquela água gelada, bebendo audivelmente. O líquido acariciava meus lábios e minha garganta ressecados, gemidos de alívio escapando da minha boca. Reprimi um desejo insano de me jogar aos pés de Cire agradecendo. Ela jogou dois pães velhos no chão perto de mim. Eu os agarrei e tentei enfiar um inteiro na boca, infelizmente sem sucesso. – Ugh. É tudo que vai ganhar por hoje.
— Mana. – Eric desceu as escadas e Cire foi falar com ele. Ignorei os dois por um bom tempo, apreciando aquela refeição dos deuses, até que o balde ficasse vazio e os pães sumissem em segundos. Minha barriga roncou.
Quase não senti quando Eric ergueu-me do chão e me colocou sentado em uma cadeira alta de madeira. Nos braços do móvel, meus pulsos foram encaixados em fivelas e bem apertados, assim como meus tornozelos nas pernas da cadeira. Fechei os olhos, esperando.
— Tudo bem Matt, hoje nós vamos tentar uma coisinha diferente. – Atrás de Cire, Eric trouxe a maleta misteriosa para uma mesa longa e frágil. A mulher remexeu em seu conteúdo, ainda sem me deixar ver seu interior. – Esqueça Salazar. E deixe pra lá também a pessoa com quem ele está negociando. O que me interessa agora é o seu papel em tudo isso. Apesar desse seu estilo meio descolado, meio brega, você é normal demais. Chora na nossa frente, implora por água e comida, já parece acabado depois de cinco dias. A única diferença é esse medo de baratas e aranhas, mas isso é só covardia. – Ela afastou a minha franja do rosto, segurando meu queixo e sorrindo de leve. – O que leva à pergunta de um milhão de dólares: o que você fez, Matt? Qual foi sua contribuição nisso tudo? Por que o grandão te quer morto?
Se tivesse forças, eu explodiria em gargalhadas. Como a vida podia ser irônica. De todas as pessoas com quem Salazar poderia implicar, de todos que já o prejudicaram na vida, quem ele escolheu? Matt, o zero à esquerda, o canhoto ruivo bissexual que ama listrado, o geek dos óculos de natação, a sombra de olhos verdes.
Minha contribuição na parte de espionagem não era nada de que me gabar. Qualquer um com o nível de conhecimento de um professor universitário com doutorado poderia me substituir. Mello facilmente poderia ter me trocado, aliás, acredito que ele mesmo poderia fazer o meu trabalho.
Por que então ele me manteve por tanto tempo por perto?
Sinceramente, eu não fazia ideia. Talvez por ter alguém próximo para pisar. Talvez porque aliviava as tarefas dele.
Talvez porque ele amasse.
Não. Não posso pensar nisso.
Não agora quando estou prestes a entregá-lo.
Cire logo tirou uma ferramenta da caixa, segurando em frente aos meus olhos desfocados. O alicate com pelo menos 25 cm de comprimento era grosso o suficiente para nocautear um homem adulto com um golpe.
Ela posicionou a extremidade do objeto em uma das unhas da minha mão.
— Só pra você saber que eu não estou brincando. – sussurrou Cire. A sombra de Eric atrás de mim cobria a única luz do porão, uma lâmpada que pendia precariamente do teto. – Agora… Qual o seu envolvimento com Salazar e com essa pessoa com quem ele faz negócios?
Abri e fechei a boca umas quatro vezes, sem que som algum saísse. Em minha mente, eu contava tudo à Cire, desde meu envolvimento pessoal com o líder da Máfia Japonesa, até a compra de armamento que realizamos com Salazar. Ela abriria um sorriso e me soltaria, jogando-me na frente de algum hospital qualquer.
Na realidade, eu balbuciava fragmentos de palavras, consciente do quão ridículo soava. Delatar tudo que acontecera era ainda mais difícil do que suportar os castigos físicos de Cire.
— Nada? Que pena... Bom, você vai ter dez chances tá?
Dez?
— Segura ele.
Só tive tempo de sentir as mãos grandes de Eric em meus ombros e fechar os olhos. Enquanto Cire arrancava minha unha pela raiz, um monstro entoava cânticos de ódio contra todos os seres conhecidos, seu urro gutural rasgando meus ouvidos até que eu percebesse que saía da minha própria boca.
O movimento durou uma centena de anos, expondo lentamente a carne viva. Os tremores espalhados pelo meu corpo variavam de intensidade conforme a dor, assim como o abrir e fechar dos meus olhos. O cheiro de sangue misturado ao gosto das lágrimas levava-me cada vez mais próximo ao inferno na Terra.
Quando Cire finalmente conseguiu arrancar a unha, ela se afastou para admirar o trabalho. Precisou falar mais alto que os meus gritos para ser ouvida.
— O que Salazar quer com você, Matt? O QUE VOCÊ FEZ?
Roubei, sequestrei e matei para satisfazer os caprichos de outra pessoa. Vivi cercado de dinheiro para comprar o que eu bem entendesse e transei até desmaiar inúmeras vezes. Não me arrependo.
Abri lentamente a boca, lutando para manter o olhar e o queixo erguido.
— Eu… Escolhi o lado mais infantil.
Cire franziu o cenho.
— O que quer dizer?
— Não sei nada sobre Salazar, sua vadia burra, nunca trabalhei pra ele. – Arrependi-me no instante em que cuspi essas palavras, mas era tarde demais. Cire posicionou o alicate em outra unha, puxando com mais força do que antes.
— Melhor responder direito, Matt. – Eric gritava mais alto do que eu, segurando minha cabeça com as duas mãos para que eu não desmaiasse de tanto me bater. — Ela não tem muita paciência.
Fechei os olhos, rindo internamente do conselho de Eric.
Como se eu não estivesse acostumado a lidar com vadias impacientes.
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— Eu tentei te avisar. – suspirou Eric, carregando um grande móvel coberto por um pano até a minha frente. – Não vale a pena passar por tudo isso. Por que você não entrega logo o cabeça do esquema?
Se tivesse forças para responder, eu diria a Eric que é exatamente o que estava tentando fazer.
O sequestrador retirou o pano e limpou de qualquer jeito o objeto que estava coberto, um espelho oval de corpo inteiro.
— Ela mandou deixar isso aqui. Não entendi bem por quê... Tortura psicológica ou algo do tipo. – ele tirou meus cabelos do rosto e me deu um pouco de água. Mal consegui beber, desesperado por um pouco de descanso. – Certeza que não quer falar nada?
Eu não consigo falar, seu idiota!
Não percebi quando ele saiu, deixando-me sozinho a enfrentar uma imagem decrépita. Eu não conhecia aquele rosto caído, aqueles braços e pernas moles e cansados, aquele queixo barbudo. A quem pertenciam aquelas estrelas verdes apagadas? E o cabelo bagunçado?
— Você tá bem, moço?
Se não estivesse preso à cadeira, eu teria pulado de susto. Lentamente, como quem é pego fazendo algo errado, um menininho surgiu atrás do espelho. A franja vermelho-escura quase cobria os olhos grandes e assustados, que me espiavam com cautela.
— Não precisa ter medo. – tranquilizei a criança. – Pode vir.
Devagar, o menino caminhou até mim mordendo o lábio, apertando as mãozinhas umas nas outras. As bochechas cheinhas e a voz fina, aliadas ao olhar inocente, diziam que ele teria entre sete e oito anos. Os tênis vermelhos desamarrados faziam pouco barulho no chão gelado e áspero. Enquanto ele andava, comecei a me preocupar se não estaria com frio: suas calças jeans e as mangas longas listradas pareciam muito pouco para protegê-lo da temperatura do porão.
— O que é isso na sua mão? – ele interrompeu meus pensamentos, apontando para as bandagens que circundavam as pontas de todos os dedos das minhas mãos.
Como explicar para uma criança que sequestradores não querem que você pegue uma infecção ou sangre até a morte pelas pontas dos dedos sem unhas?
— Eu caí e machuquei. Vai sarar logo. – em seis meses, no mínimo.
— Hum… Você tá doente?
— Um pouquinho. Ãhn, melhor você ficar mais longe, não vai querer ficar doente também.
Ele assentiu e se afastou, tomando cuidado para não encostar nos móveis cobertos. Os olhos verdes observavam com um misto de medo e curiosidade.
— Esse lugar me lembra alguma coisa…
— Ei! – Desesperei-me por um segundo. Já bastava o meu pânico, eu não precisava que ele se recordasse do nosso antigo medo. – Você gosta de jogos?
Os olhos do ruivinho se iluminaram e ele assentiu fervorosamente.
— Funciona assim: você fecha os olhos e imagina uma coisa bem complicada e me dá umas dicas pra adivinhar. Mas não pode abrir até eu acertar.
— Tá bom! – O Matt-criança apertou os olhos e se concentrou. – É uma coisa beeeeem alta, branca e muito, muito fria!
Uma montanha, provavelmente.
— Hum… deixa eu ver… Um vulcão?!
— Você é bobo? – perguntou-me com uma careta. – Vulcões são quentes!
Isso, Matt. Continue com a brincadeira, continue com essa inocência.
Você ainda não precisa abrir os olhos e encarar a realidade.
— Ah, desculpa! Deixa eu pensar… Alta, branca e bem fria...
— É, e as pessoas vão lá o tempo todo!
Alpinistas.
— Essa é difícil… – ignorei uma pontada em meu estômago e continuei a sorrir, mesmo que p Matt-criança não pudesse ver.
— Quer mais dicas? – ele se balançava no mesmo lugar, apoiando o peso do corpo nas pontas dos pés.
— Não, eu desisto, você é muito esperto.
Ele abriu os olhos, sorrindo de orelha a orelha.
— É uma geladeira! Qual é, tava fácil!
Era realmente uma pena que eu não conseguisse gargalhar. Só de pensar em como tudo parece gigante aos olhos de uma criança, eu queria abrir o sorriso mais feliz do mundo para aquela versão mirim de mim.
— Você me pegou… Nem pensei em uma geladeira.
— Não pensou ou não quis dizer? – uma terceira voz me fez voar da cadeira e por um momento pensei que os sequestradores haviam voltado. Depois, no entanto, notei que uma silhueta mais alta saía de trás do espelho, sorrindo de lado como quem possui o mundo na palma da mão. O adolescente retirou os fones de ouvido e os entregou junto com o celular ao Matt-criança. – Ei, quer jogar um pouco? Eu e o moço precisamos conversar. É só apertar aqui pra correr e aqui pra pular.
O ruivinho grudou os olhos no aparelho e colocou os fones, sentando-se em um canto e esquecendo do mundo.
— Por trás dessa cara de quem não dorme nem come direito há dias, até que eu fiquei gostoso. – O Matt-adolescente parou a centímetros do meu rosto, as mãos nos bolsos dos jeans largos e um cigarro pela metade nos lábios cortados e sorridentes. O rosto mais anguloso e os ombros mais largos não substituíam o olhar infantil, mesclado com a rebeldia da idade. – Eu tenho uma pergunta muito importante pra te fazer, ancião… Você tem tanquinho?
Sem comentários.
— Que foi? Eu quero saber se vou continuar pegando mulher depois de velho.
— Quantos anos você tem? – perguntei com uma sobrancelha erguida.
— Catorze.
Ah, tá explicado.
Sorri com dificuldade.
— Ah, você vai transar bastante sim. – Como eu não usei a palavra mulher em momento algum, tecnicamente não era mentira.
Ele deu um soquinho no ar e fez uma dancinha tosca. Naquela época, eu ainda não havia desenvolvido sentimentos por Mello, então minha personalidade era um tanto… divertida, para não dizer bizarra ou ridícula.
— Ok, falando sério agora… – ele olhou sobre o ombro, checando se o Matt-criança continuava entretido no joguinho. – O que caralhos aconteceu com você? Ou melhor… comigo?
Você quer um resumo ou a versão estendida para DVD?
— Mello. – respondi simplesmente.
— O que tem ele?
— Ele aconteceu.
Matt-adolescente ergueu-se em um pulo, apertando os punhos.
— FOI AQUELE FILHO DA PUTA QUE NOS BATEU ASSIM?
— Não… – apressei em corrigir. Nossa, como eu era idiota com catorze anos. – Nem é culpa dele que eu tô aqui. Não é culpa de ninguém.
— Então por que você falou dele?
— Você perguntou o que aconteceu. Ele aconteceu.
Matt-adolescente ficou me olhando por alguns momentos com uma cara de “quê?” antes de se jogar no chão com as pernas bem abertas.
— Sem tanquinho e senil… Que porcaria de futuro.
— Acredite, piora.
— Sem tanquinho, senil e dramático.
— Se você malhasse, eu teria tanquinho.
— Ah, cala a boca.
— Cala a boca você, eu sou mais velho… Esquece. – Não acredito que estou discutindo comigo mesmo.
Resmungando, ele cruzou os braços sob a cabeça e deitou de barriga para cima. Nós dois fechamos os olhos, cada um com suas próprias lembranças. Infância, adolescência, idade adulta… Quase todas as fases da minha existência estavam reclusas naquele porão. Só faltava a última.
Mas essa viria logo.
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— Ô verme! Hora de acordar! – O balde com água gelada na cara. O puxão de cabelo. O grito em meu ouvido.
Rotina.
— O negócio é o seguinte. – ameaçou Cire, o olhar obscuro fixo em mim. – Cansei de brincar com você. Já te xinguei, espanquei, dei comidas exóticas e ainda levei na manicure. Hoje, sem falta, você vai me dar as respostas de que preciso. – ela fez um sinal para Eric, que trouxe uma…
Uma…
Uma...
— Era exatamente esse olhar de medo que eu queria ver. Agora… – ...uma serra. Ele havia trazido uma serra. – Qual deles você gosta menos?
Depois de muito tempo é que percebi a ferramenta apontando para os meus pés.
Não… Não, eu não quero morrer aqui.
As versões mais jovens de mim não estavam mais ali. Elas nunca estiveram, pelo menos não fisicamente. Nas minhas lembranças, contudo, todos os Matts anteriores viraram a atenção para seus respectivos futuros.
Ou seja, para meu terrível presente.
— Se não escolher, eu escolho por você.
— N-não, por favor… E-eu falo… Eu falo.
Creio que este é o melhor momento para as minhas considerações finais. Primeiro, quero pedir desculpas ao Watari e a todos os monitores da Wammy’s House por ser um adolescente tão largado e causar tantos problemas. Como daquela vez em que prendi uma monitora no armário porque ela roubou o meu jogo… Espera, essa ela mereceu. Esquece, não peço desculpas por essa. Na verdade quem realmente precisa me perdoar é o diretor. Se bem que, se ele estivesse vivo, duvido que perdoaria o que Mello e eu fizemos na mesa dele.
Desculpa, Watari, eu não me arrependo.
A saudade absurda que eu sinto do orfanato jamais poderá ser expressa em palavras. Eu sei que é estranho para um órfão dizer isso, mas para mim é como se a própria mansão tivesse me adotado. Cada cômodo transmitia uma sensação indescritível de lar, razão pela qual não visitá-la antes da minha morte é um dos meus maiores arrependimentos.
Em segundo e último lugar, meu lamento vai para ele.
Perdoe-me Mello.
Perdoe-me por não ter sido o amigo de infância que você precisava. Perdoe-me por ser tão diferente de você e precisar tanto de proteção quando éramos crianças. Perdoe-me por ter te parado nos momentos em que estudava demais – eu realmente acreditei que era para o seu bem. Perdoe-me por ser um adolescente estranho e ter te surpreendido com a minha sexualidade. Perdoe-me pelas nossas brigas no instituto, uma mais idiota do que a outra. Perdoe-me por ter feito um escândalo quando você disse que ia embora. Perdoe-me por não ter cumprido meu papel na máfia, por ter arruinado seus planos, por não ter te ajudado como você precisava para superar Near ou para capturar Kira. Perdoe-me por ter ficado em seu caminho ao trono de L. Perdoe-me por ter atrapalhado tanto a sua vida. Perdoe-me por não ter sido homem o suficiente para você.
Por entregá-lo com meu último suspiro, Mello, por favor me perdoe.
— …
— Fala mais alto, verme, eu não consigo te ouvir.
— Mais… perto… chega… mais… p-perto...
Os cabelos de Cire aproximaram-se quando meus lábios rachados abriram, prontos para dizer aquele pequeno nome. Cinco letras, era tudo que eu precisava. Cinco letras e todo o meu sofrimento terminaria. Cinco letras e eu seria um homem livre.
Cinco letras e o amor da minha vida seria perseguido até os confins do inferno.
Não faço ideia do que me consumiu naquele momento. Raiva pela impotência, tristeza pela minha solidão. Mas não foram palavras que saíram da minha boca. Cire pareceu não acreditar quando aquele monte de cuspe grudou-se em seus lindos e sedosos cabelos negros. Um pouco até respingou em suas bochechas.
— Vai. Se. Foder. – ditei com toda a repulsa e coragem que pude reunir, ciente de que seriam minhas últimas palavras nessa vida.
A sequestradora não disse nada. Seus movimentos se resumiram em se levantar, lavar o rosto sujo com a água da pia do banheiro e voltar.
Ah, e começar a serrar meu pé direito.
— Você nunca mais vai sair desse porão seu verme escroto, escória da humanidade, merda que fala… – as serras moviam-se um pouco acima do meu tornozelo, em uma região com menos ossos. A cada insulto, o movimento da ferramenta tornava-se mais frenético, pouco a pouco amputando meu pé.
Uma vez que se aceita a morte, não é tão difícil ter seu pé cortado fora. Tirando, claro, a dor excruciante. E a humilhação. E o fato de que se perde um pé inteiro.
Já mencionei a dor?
Ter minha alma arrancado do corpo doeria menos. Um objeto cortante perfurando as camadas da sua pele e entrando em contato com vasos sanguíneos já é terrível. Somando-se a isso o rompimento de tendões, a degradação do músculo e a passagem de uma serra de um lado a outro do osso, tal cenário constitui a experiência mais terrível de toda a minha vida. Os berros e as lágrimas que cobriam meu rosto contorcido, uma máscara do que já fui, eram música para os ouvidos de Cire, que ria abertamente enquanto esforçava-se para completar a amputação. A sensação de desmaio que tentava tomar conta de mim era a maior benção que um condenado poderia receber.
Deixe-me dormir. Por favor.
Eu só quero paz.
Mello… Socorro.
— Cire! CIRE! – ouvi Eric entrar correndo no cômodo, gritando mais alto do que eu. Cire o ignorou por um tempo, terminando o serviço.
Exauri minha garganta, berrando até ficar sem voz. Os gêmeos gritavam um com o outro, completando o circo. Peguei apenas fragmentos da conversa.
— Nos buscar? Como assim?
— ...foto… sabe que ele está aqui… quem mandou… não é seguro… é pior que Salazar.
Pensando em quem poderia ser pior que Salazar, finalmente perdi os sentidos.
…
Alguém estava em cima de mim.
— Matt, não… Por favor, não. Não, não, não, não... MATT!
Meus olhos abriram uma mínima fenda. Algo bateu no meu rosto.
Parecia um crucifixo.
…
O mundo balançava, despertando um ínfimo da minha consciência. O chão abaixo de mim era macio, como o estofado de um carro. A dor era constante e me cobria como uma segunda pele, abraçando-me e nos tornando um. Ao longe, o sol nascia em filamentos verticais e movia-se rapidamente para os lados. Aquele era o momento ideal para apreciar algo tão trivial quanto o nascer do sol. Era ainda mais dourado, mais brilhante, mais macio e mais liso do que eu me lembrava. Aquecia-me com sua luz até trazer um sorriso torto aos meus lábios.
— Fica parado Matt, não olha pra baixo, não se mexe, não fala, não faz nada, ok? Tenta ficar acordado, tenta me ouvir.
Minha estrela estava de volta.
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