Stalemate II.
16 XVI. 26/07/20XX
— Quanto tempo vai durar esse negócio?
— Sei lá, eu só enfiei aquele pano na boca dele, como você mandou.
— E nem se prestou pra ler o rótulo do líquido que colocou no pano?!
— Ai, Cire! Mas você não pediu!
— Seu inútil. Da próxima vez, faço tudo sozinha.
Meu primeiro sentido a despertar, mesmo que fraco, indicou duas vozes desconhecidas e bem próximas, uma feminina e outra masculina. Havia ainda outros sons, bem mais fracos, como água pingando, pequenos passos, barulhos metálicos e minha respiração. O cheiro também não era nada agradável e meu nariz coçava por causa da poeira. Tentei lembrar o que eu estava fazendo ali, fragmentos de memória demorando a se juntar e fazer sentido. A Dama de Vermelho. Muita dor. Escuridão.
Ah, eu fui sequestrado. De novo.
As dores do espancamento faziam-se presentes no meu peito, minha barriga, no meio das costas e nas pernas. Principalmente nas pernas. O frio do ambiente acentuava ainda mais as dores, além de deixar meus pés e minhas mãos gelados. Meu corpo amolecido não dava sinais de conseguir se mover e eu não tinha nenhuma intenção de obrigá-lo. Meu pescoço cansado pendia para frente, dolorido e desconfortável. Em minha boca, um pano molhado com gosto amargo impedia-me de falar.
— Mmmmmfff! – alguém reclamou.
— Ugh, cala a boca dela.
Sons de socos seguidos de silêncio. Então mais alguém estava comigo no cativeiro. Até agora, dois prisioneiros e dois sequestradores, mas poderia haver mais. A voz feminina não pertencia à Dama de Vermelho, o que era muito preocupante. Mello sempre me dizia para me livrar dos inimigos perigosos no primeiro melhor momento que aparecesse. Rápido, mas com cautela.
Era calmo, apesar do desconforto, fingir que ainda dormia. Talvez eu pudesse ficar daquele jeito. Para que tentar fugir? Para apanhar ainda mais? Cansei de sentir dor. Eu já sofri o suficiente para uma vida inteira. Se eu não me mexesse, quem sabe eles não fossem embora? Podiam achar que eu estivesse morto e me deixassem ali. Seria rápido, alguns dias sem água e comida e Matt seria encontrado morto e abandonado em sua própria urina.
— Ei. Se quiser fingir que está dormindo, não balance tanto os dedos dos pés.
Meus cabelos foram puxados com violência para trás e água fria com pedaços de gelo foi jogada no meu rosto, meus protestos abafados pelo pano socado fundo em minha boca. Devagar, tentei abrir os olhos e me acostumar à pouca iluminação. O cômodo demorou a parar de girar, o que me deixou ainda mais nervoso. Eu tô desorientado e minha boca tá com gosto estranho. Maravilha.
O lugar era pequeno, cheio de tralhas espalhadas por todos os cantos, com panos que cobriam alguns móveis e cadeiras velhas. Bem perto de mim, uma mulher morena meio baixinha observava minhas reações com a cara fechada. Era ela quem segurava meus cabelos. Um pouco mais distante, um cara alto segurava um balde vazio.
— Que olhos bonitos. – ela fez o desenho do meu maxilar com o dedo, sorrindo – Meu nome é Cire. E ele é o Eric. – o cara acenou com a cabeça. – Nós somos irmãos gêmeos, não é legal? Diz que achou legal. – ela esperou alguns segundos e depois riu. – Ah, é. Você não pode. Ei, nós vamos brincar um pouco, tá?
Olhei de um para o outro, em pânico. Fiz força para me mexer, mas meus braços não respondiam normalmente, assim como minhas pernas doloridas. Pulsos e tornozelos, ambos presos por correntes ao chão e à parede gelada e úmida. Arrisquei uma olhada em volta. Minha única saída era uma escada que levava ao andar de cima, mas para chegar até lá eu teria que passar pelos gêmeos. Então, eu estava no subsolo…
— Não tem nada mais lindo do que um homem assustado.– a morena Cire levantou meu queixo com uma mão, cheirando meu pescoço. A mão era fria e suas unhas me espetavam. – Huuum. Medo. Eu gosto disso.
Um pouco acima da minha cabeça, duas pequenas janelas retangulares deixavam entrar um quase nada de ar e luz do sol. A maior parte do lugar era iluminado por uma única lâmpada, que pendia perigosamente do teto coberto por teias de aranha.
Não.
Desfiz-me de seu toque, olhando para o chão escuro e sujo. Uma ratazana corria para longe dos barulhos, chiando e desaparecendo no meio da sujeira. Baratas mortas jaziam em todos os cantos que eu olhava, suas carcaças sendo devoradas por formigas vermelhas.
Não.
— O que que deu nele? – Eric perguntou enquanto eu me arrastava até a parede, o barulho alto das correntes que me prendiam ao chão preenchendo meus ouvidos. Aquele chão áspero, o ar parado, os ruídos de animais.
A sensação de impotência.
De novo não.
— Eu acho… que ele tem medo de barata. – Cire pegou uma morta e eu me arrastei com mais vontade para longe. As dores a cada movimento não eram nada perto do meu medo revivido. A mulher gargalhou. – Olha isso, Eric! Nem parece homem! – ela me provocava com a barata morta, calafrios involuntários percorrendo meu corpo. – Ah, eu vou te colocar na linha rapidinho. Mas antes…
Cire jogou o inseto no meu colo e eu gritei, jogando-o longe. Os gêmeos riram, a humilhação me destruindo.
Quando eu era criança, minha casa foi invadida por assaltantes. Em uma tentativa desesperada,corri para o porão, onde fiquei preso por horas. Mello me ajudou muito com aquele trauma, por meio de anos de conversa. Ele sempre dizia que aquele assalto não fora minha culpa, que qualquer ser humano normal criaria uma aversão por lugares fechados e pequenos animais. Eu precisava me lembrar disso.
Meu nome é Matt, tenho 25 anos e já superei esse medo de infância.
— Sabe, quando recebi a informação fiquei na dúvida. – ela pegou uma cadeira e sentou cruzando as pernas, olhando-me de cima. Tentando me intimidar. – Quem diria que a cabeça de um cara comum como você valeria um nota. Maaas, eu não sou de julgar as pessoas pela aparência. – Ao ver que eu não entendia nada, ela riu e pisou na minha coxa com o salto fino, espetando-a. Foi quando eu percebi que estava só de cueca e o resto das minhas roupas não estava a vista. – Você se meteu com um cara perigoso, ruivo. Salazar deve querer mesmo te ver morto.
Ah, então era isso. O desgraçado ainda queria atingir Mello através de mim.
Cire tinha razão. Eu me meti com um cara perigoso sim.
Mas não era Salazar.
— Com licença queridos. – arregalei os olhos. Aquela voz...
— Aqui embaixo!
— Ugh, eu não viria aqui se não fosse obrigado. – duas pessoas desceram as escadas fazendo barulho, suas silhuetas um pouco desfocadas por causa da minha tontura. Uma delas eu pude deduzir a quem pertencia, por causa da roupa vermelha. A Dama dessa vez não usava um vestido, mas uma regata e o que eu não soube identificar se era uma saia ou um short.
A outra pessoa eu reconheci pela voz.
Joey.
— Ah Eric, lindo como sempre. Pena que não posso dizer o mesmo de você, Cire. – ele passou a mão em Eric, que se afastou. Cire sorriu.
— Não vai cumprimentar sua amiga? – Cire perguntou.
— Oh me perdoe, eu não tinha te visto aí… Dianne. – ele se dirigiu para um monte que eu achei se tratar de tralhas empilhadas. Meu coração disparou, o medo transformando minhas pernas em chumbo. Quem gritou antes e levou um soco… Dianne. Agora eu tinha mais uma pessoa com quem me preocupar. Como eu podia me livrar das correntes, passar pelos gêmeos, pegar Dianne e subir pelas escadas com todas aquelas dores?
— Melhor se despedir. – Eric comentou. – Cire vai se livrar dela rápido.
— Aproveitem bem cada pedacinho dela, ok? – A figura de Joey caminhava na minha direção. – Só joguem fora o fígado. Ela é cachaceira.
— A gente vende mais barato. – Cire e a Dama de Vermelho riram.
— Por que essa cara assustada, Dimitri? – Joey se ajoelhou entre minhas pernas, a cabeça virada para o lado. – Surpreso? Bom, eu não ganho tanto dinheiro assim dando pra caras como você. Então, eu atraio os homens… e eles acordam em uma banheira sem um dos rins. Isso quando acordam. – A Dama de Vermelho pigarreou e Joey olhou para trás por um instante. – Claro, eu conto com a ajuda da deusa da Iara. É meio triste ver esses rostinhos lindos partindo, mas no seu caso pelo menos vou ganhar alguma coisa. – ele apertou o meio das minhas pernas, seus olhos fixos nos meus e um sorriso nos lábios molhados. – Sabe, eu ainda não tenho um vibrador de 16 cm feito de carne humana.
—Na verdade… – Cire se adiantou. – Os planos mudaram. Ele vai ser vendido pra um cara. Vivo. Gente nossa. Mas não se preocupem, vão receber a parte de vocês. – comecei a me debater e puxar as correntes, uma tentativa fraca que fez a Dama de Vermelho, ou melhor, Iara, e Eric rirem.
Joey se levantou, irritado.
— Não foi isso que a gente combinou, Cire.
— Não é você que escolhe. Nem eu.
Eles se encaram até concordarem em silêncio.
— Já chega, Joey. – Iara já subia as escadas e Joey logo se juntou a ela, mas não sem antes me soprar um beijo. A Dama nem se preocupou em me dirigir a palavra.
— Não precisa se desesperar… Matt. – Cire acendeu um cigarro, os olhos brilhando. Todo o meu corpo ficou tenso, meus ouvidos atentos ao que ela tinha a dizer. Como… como ela sabia meu nome? Salazar teria dito, ao espalhar que minha cabeça valia ouro? Mas como ele sabia? – É mentira. Você não vai a lugar nenhum. – Eu sabia que não deveria ficar feliz com aquela notícia, qualquer lugar longe dali seria melhor, mas não pude evitar uma leve onda de alívio. – Só existem duas possibilidades pra um traste como o Salazar querer a sua cabeça em uma bandeja. Ou você é um antigo aliado que o traiu e de alguma forma conseguiu escapar da morte… – Ao longe, Eric comentou que não seria o primeiro. – Ou é um inimigo, provavelmente aliado da pessoa com quem ele fez um negócio que deu errado. – Isso era mal, era péssimo. Já tinha gente sabendo da negociação de armas que Mello fizera com Salazar. – Oh… – ela sorriu. – Pela sua cara, é a segunda opção.
Como eu sou idiota. Acabei de entregar que conheço Mello.
— Isso facilita as coisas. – Cire ajoelhou-se até ficar na minha altura, e puxou bruscamente o pano que cobria minha boca. – A brincadeira é simples, eu pergunto e você responde. Agora… Onde Salazar está?
— Eu não sei-- UGH! – fechei os olhos para conter um grito quando Cire encostou o cigarro aceso em minha coxa exposta.
— Onde Salazar está?
— Eu juro que não sei, ele só aparecia para… – ...pegar as armas, respondi mentalmente. Cire não precisava saber de detalhes.
— Para…?
Fiquei em silêncio.
— Não, pera-- ARGH! – trinquei os dentes quando Cire marcou o mesmo ponto do meu corpo com o cigarro, esfregando até afundar um pouco a pele.
— Onde Salazar está?
Aquele lugar tremia, minha visão embaçando a intervalos irregulares. Efeito do líquido no pano ou do soco na nuca que levei mais cedo. Meu corpo queria descansar, mas a adrenalina liberada pelo medo e pela dor me impedia. Fadado a permanecer lúcido em meio ao sofrimento. Terrivelmente presente.
— É verdade, eu não sei mesmo onde ele está… Sério, eu seria o primeiro a entregar ele pra você.
Cire e Eric trocaram olhares. Ele sumiu escada acima.
— E por que você diz isso?
— Ele querer me matar não é um bom motivo? – Ganhei outra marca de cigarro, dessa vez na barriga, pelo atrevimento, além de um fortíssimo tapa na cara. Com uma mão, ela segurou meu queixo, suas unhas perfurando minha pele.
— Você não sabe o que te espera se não começar a me responder direito. Tenho todo o tempo do mundo pra arrancar as respostas que quero ouvir. Posso te deixar aqui embaixo o tempo que eu quiser, Matt. Ninguém sabe onde você está. Ninguém se importa. Ninguém vai vir te salvar. Ninguém pode te ouvir.
Aqui embaixo…
Não.
Eric voltou carregando com dificuldade uma maleta gigante. Seu conteúdo estava fora do meu campo de visão, mas fez um sorriso largo surgir nos lábios de Cire quando se levantou para checá-lo.
— Está tudo limpo lá em cima? – ela sussurrou para o gêmeo, que assentiu e tirou um objeto metálico da maleta, cujo brilho foi a única coisa que consegui ver.
Lá em cima…
Meu nome é Matt, tenho 25 anos e já superei esse medo de infância.
— Mmmmf! Mmmmf?! – O monte de panos ao canto, que antes descobri se tratar da Dianne, começou a se sacudir e reclamar. Meu coração disparou. Cire já estava irritada comigo, aquele era o pior momento para ela se manifestar.
— Você conhece ela, né? Essa mulher foi te procurar atrás da boate. – Cire perguntou-me com a sobrancelha erguida. Fiz que não com a cabeça. Ela sorriu. – Um refém que mente mal. Essa é nova.
Cire fez um sinal para o irmão, que foi até Dianne a passos largos e a trouxe arrastada pelos cabelos.
— ELA NÃO TEM NADA A VER COM ISSO! SOLTA ELA! – berrei com minhas últimas forças, arrastando-me para frente. Cire chutou minha cabeça, o salto abrindo um corte na minha testa.
— Cala essa boca! – Ela sussurrou com ódio, pegando a nuca de Dianne. A barmaid da Perdition me olhava com os olhos marejados e o rosto contorcido. Ela tinha ouvido a conversa inteira. Sabia que eu era o alvo daqueles dois e que ela somente estivera no lugar errado na hora errada. – Vou deixar isso bem simples pra você, Matt. Ou você me conta o paradeiro de Salazar e quem está negociando com ele, incluindo os detalhes… Ou ela morre.
Ah se Mello estivesse aqui… Ele saberia o que dizer.
Basicamente, eu tinha duas opções.
1º Entregar Mello e todo o esquema.
2º Negar, negar, negar.
A primeira parecia tentadora e com certeza seria menos dolorosa. Mas o coração trouxa não permitia.
A segunda alternativa, porém, levaria a uma onda de tortura. Eu não poderia avisar ninguém sobre meu paradeiro. Não poderia pedir ajuda, não conseguiria sair sozinho. Precisava de um plano e rápido.
Uma ideia, qualquer uma.
Qualquer uma…
Dianne, presa sob a mão de Eric, mal piscava, os belos cabelos coloridos acinzentando-se diante dos meus olhos. Os olhos pretos se apagavam, a pele começava a ser devorada, os ossos já eram visíveis sob a carne podre. Os espasmos finais a muito já haviam cessado, restando apenas uma carcaça do que um dia fora uma bela e atraente mulher.
— Vá em frente. – encarei Cire, que parecia não acreditar no meu atrevimento. Não sei de onde tirei aquela coragem, mas algo me dizia para revidar aquela humilhação.
Perdoe-me, Dianne. Acabei de ver seu futuro.
— Você vai se arrepender, Matt. – ela chutou com toda a força a parte de trás dos joelhos de Dianne e encostou o cano da arma em sua têmpora. A barmaid começou a se debater, sendo completamente ignorada. – Vai viver pensando que poderia ter evitado a morte dela. Que poderia ter poupado a si mesmo de horas e horas intermináveis de dor. Que poderia ter saído vivo daqui com ela.
Meu grito saiu tarde demais. O gatilho foi apertado rapidamente por Cire, destruindo a cabeça de Dianne, que caiu para frente com um baque. Simples assim: sem enfeites, sem queda dramática, sem reviravolta.
Afastei-me até a parede, tentando não tocá-la.
— Aprecie a sua obra de arte, Matt. Vai ter tempo de sobra.
Com um último olhar de repulsa, Cire virou-se e subiu as escadas. O irmão foi logo atrás, apagando as luzes antes de sair. Fui deixado no porão com ratos, baratas, aranhas, algo que já foi uma linda mulher e o pior de tudo: minha consciência.
Encolhi-me ainda mais em minha existência patética, dobrando os joelhos enquanto a noite fria me abraçava. Os olhos fechados não impediam os ouvidos atentos, fazendo meu corpo tremer a cada som desconhecido. Os bandidos estavam lá em cima, os perigosos estavam aqui embaixo. Eu não podia sair e não podia ali ficar. Meus dentes batiam de frio e minha barriga contorcia-se de fome. Minha boca seca deixou escapar, em um murmúrio fraco e sombrio, os nomes dos meus pais.
Meu nome é Matt e eu tenho 7 anos.
…
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Não sei quantas horas fiquei preso naquela situação, mas foi o suficiente para virar meu estômago de fome. Minha barriga doía, meu corpo obedecia mal e porcamente aos meus comandos, minha cabeça pressionada com o peso de mil elefantes. Mais do que trazer à tona traumas da minha infância, aquele lugar imundo sugava minha saúde, tanto física como mental. O corpo de Dianne não estava mais ali, mas cada vez que tentava dormir eu a via: os olhos negros e vazios, a lateral da cabeça pintada de vermelho, as pernas tortas. Aquele não era o momento para deixar sua morte me abater, mas com certeza a ficha cairia mais tarde. Não havia como negar que o que aconteceu com ela… Foi minha culpa.
Em vários momentos, meus olhos se fecharam e meus ouvidos me acordaram, os sons de ratos substituídos aos poucos pelo canto dos pássaros, naquele momento soando como uma marcha fúnebre. Se eu pudesse me mover, jogaria pedras em todos eles. Que tipo de criatura terrível ousa cantar enquanto um ser humano é brutalmente agredido, preso contra sua vontade e forçado a assistir à morte de uma amiga?
Pássaros são cruéis.
Tempos depois, fui novamente acordado por um som. Dessa vez foi um grito em meu ouvido e um puxão de cabelo de Cire. Fiquei surdo por alguns momentos, tentando ler seus lábios.
— … ou você pode se comportar e fazer o que eu mando e quem sabe receber um pouco de comida. – Ignorei o olhar de nojo que ela me dirigia e o martelar constante em minha cabeça.
— ...banheiro… por favor... – sussurrei com os lábios secos e o olhar mais submisso que conseguia demonstrar.
Ela cruzou os braços e olhou para Eric, uma estátua atrás da irmã. Enquanto ele pegava uma chave do bolso e abria as correntes nos meus pulsos e tornozelos, ela me apontava uma arma.
— Você sabe o que acontece se tentar fugir.
Mal percebi quando o homem me levantou e tentou fazer com que eu andasse. Caí de cara no chão, meus braços tremendo quando tentei me erguer. Cire ria e despejava ofensas. Eric irritou-se com minhas tentativas inúteis e me carregou como um saco de batatas até um banheiro escondido e extremamente sujo.
Nenhuma ideia coerente de fuga se formou em minha mente e nem me esforcei para pensar em algo. Como meus músculos não respondiam, eu não poderia fugir por conta própria. Como ninguém sabia que eu estava ali, não teria auxílio externo.
Definitivamente, era o fim.
— Era só o que me faltava. – Eric manteve meus braços para trás o tempo todo, então naturalmente não pude mirar direito. Mal consegui ver a sujeira que deixei ali, tão perdidos que meus olhos estavam.
Aliás, se for assim que os idosos e inválidos se sentem, sem controle sobre o próprio corpo, prefiro manter minha filosofia e morrer jovem.
Ao que tudo indicava, aqueles gêmeos atenderiam a esse desejo.
— Ah, que nojo. – Cire mal esperou que eu terminasse e puxou meu braço para fora do banheiro, chutando com força o centro das minhas costas. Caí ralando os joelhos e as mãos, o mundo sacudindo ao meu redor. Em reflexo, comecei a me arrastar para longe dos dois, em direção à parede com correntes. – Olha só, Eric, parece uma minhoca. Se bem que um verme teria mais dignidade.
Senti Eric se aproximando e colocando minha cueca no lugar, suas mãos machucando meu corpo.
— Agora que já se aliviou… Que tal colaborar um pouco? – Cire fez um sinal para o irmão, que trouxe uma pequena caixa enferrujada. A mulher abriu um sorriso antes de se abaixar até a minha altura e sussurrar uma ameaça: – Ou talvez você prefira comer antes?
A caixinha, que ficou presa de um lado por dobradiças quando Cire abriu, tirou meu fôlego. Ali dentro, cinco baratas contorciam-se e tentavam subir as paredes da caixa. Antes que alguma conseguisse, Cire fechou a tampa, seu rosto satisfeito pela reação que arrancara de mim.
— Com quem Salazar está negociando?
Fiquei em silêncio por um bom tempo, alternando o olhar entre a caixa e Cire. Brutalmente, ela pegou um dos insetos e prendeu entre os dedos.
— Eric. – O irmão surgiu do nada e segurou meu rosto, puxando meu maxilar para baixo com uma mão e o topo da cabeça para trás com a outra. Meus olhos arregalados refletiam-se nos de Cire.
Eles eram muito fortes e eu estava carente de água e comida. Enquanto Eric me prendia, ela forçava a barata entre meus lábios apertados, o inseto se contorcendo sobre a minha pele. Meus protestos abafados duraram pouco tempo. Quando os dedos de Cire estavam dentro da minha boca, o grito e a ânsia fundiram-se em um som grotesco digno de quem se afoga com o próprio sangue.
— ENGOLE!
A mão grande de Eric impedia que a barata saísse e os braços que me rondavam impediam meus movimentos. As lágrimas se misturavam aos meus soluços, resultado imediato das patas que batiam na minha língua e bochecha.
Meu nome é Matt, tenho 25 anos e já superei esse medo de infância.
— FAZ ELE ENGOLIR!
— TÔ TENTANDO!
Saliva escorria pelos cantos apertados da minha boca. Cire e Eric gritavam um com o outro e cuspiam no meu rosto, suas vozes amplificadas estourando meus tímpanos. Meus braços e pernas começaram a tremer, cercados pelo aperto firme dos gêmeos, cuja combinação provocava os músculos da minha garganta. Dizer que eu estava com ânsia de vômito era pouco. Minha boca não era grande o suficiente para cuspir todo o meu sofrimento.
Você não poderia ter feito nada para evitar o que aconteceu, Matt. Você era uma criança, não tinha chance contra os assaltantes.
Quando eu for grande vou ter chance, Mello?
Quando for adulto você vai matar dez deles com um movimento!
O único lado bom de tudo aquilo é que Mello não estava lá para ver seu ex ser dominado fisicamente por duas pessoas.
— Você sabe como fazer essa dor acabar, Matt! – A voz de Cire tirou-me das minhas lembranças e me trouxe uma clareza absurda.
Aqueles olhos raivosos não se dirigiam a mim. Cire e Eric não tinham nada contra a minha pessoa, mas sim contra Salazar. O que quer que aquele homem fez contra eles, toda a dor que ele causou, naqueles momentos era descontada em mim. Para livrar os gêmeos daquele rancor, eu precisava dar as informações que eles queriam. Entregar Mello, entregar a máfia, entregar toda a minha antiga vida… Tanto a minha dor quando a deles desapareceria, ninguém mais precisaria sofrer.
Entregar Mello.
Eu só precisava entregar Mello.
— Para de chorar, verme. Não é tão ruim assim.
A massa escura lentamente desceu pela minha faringe, seguindo para a laringe, esôfago e estômago. Cada vez que ela encontrava as paredes desses canais, tremores involuntários percorriam meu corpo até as extremidades. O inseto chegou ao meu estômago ao mesmo tempo em que Cire e Eric se levantavam, observando-me de cima. A náusea, as contrações e os tremores involuntários continuariam por longos minutos.
— Sorria, Matt! – Um flash rápido cruzou minha visão embaçada. – Ok, pode postar essa aqui. Não esquece de escrever “Uma amiga de longa data sente saudades, Salazar”, ou ele não vai saber que é uma provocação da mãe.
— Você acha mesmo que ele ainda lembra dela?
— É o que nós vamos saber. Não se esquece de divulgar para as pessoas certas.
— Isso aqui vai acabar na internet, querendo ou não.
— Melhor assim, aumenta as chances de chegar em quem queremos. Relaxa, não tem como identificar esse lugar só pela foto. Agora anda!
Passos afastando-se.
— Ei, verme. – Eu temia a tontura que poderia voltar caso abrisse os olhos. A voz de Cire era baixa e próxima, como alguém que lentamente se aproxima para um beijo. – Não dorme ainda. Você não terminou de comer.
Meu nome é Matt, tenho 25 anos e já superei esse medo de infância.
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