Stalemate II.
15 XV. 10/07/20XX
Notas iniciais

— Dimitri… – demorei um pouco até perceber que ela falava comigo.
— Hum?
— O que… O que foi isso?
O quarto de Dianne dançava diante dos meus olhos. Acho que tinha muitos tons de azul e branco, mas eu não apostaria minha vida nisso. Meus olhos e minha garganta ardiam e minhas pernas estavam moles de tanto transar. Tenho certeza de que gritei o nome de Mello pelo menos umas 10 vezes.
Quero evaporar desse quarto e acordar na Wammy’s.
— Me… me diz você. – cruzei os braços sob a cabeça enquanto Dianne ria sem fôlego.
Ela disse alguma coisa sobre ter sido a melhor transa da vida dela. Ou não, eu não sei bem o que ouvi. Cambaleando, peguei minhas roupas e saí da cama.
— Eu… Vou chamar um – ela disse alguma coisa – pra você.
— Nã… Não precisa.
Qual bebida ela me deu no dia anterior? Não faço a menor ideia. Mas era ruim, não fazia minha dor passar. O porquê do meu drama? Bom, tirando o fato de que o nome do Mello estava marcado a fogo na minha língua, no dia anterior, quando Dianne me ligou e eu fui à casa dela, simplesmente não consegui ir até o fim sem beber. Pois é. Minha mente e meu corpo não queriam aquela gostosa. Eu tive que forçar ambos a colaborar.
E por que?
Porque eu não conseguia transar com alguém estando apaixonado por outra pessoa.
Pelo menos não sóbrio.
— O táxi chegou, Dimitri. – ela tentou me ajudar a levantar, mas quase caiu. – Droga, minhas pernas… Vou tentar me vestir e peço para o motorista te carregar até em casa
Casa… casa…
— Ah, eu olhei na sua carteira. Você não conseguia me dizer onde morava e lá tinha um telefone pra contato, que me deu seu endereço. Não tirei nada de lá, pode conferir.
Telefone…de quem? Caster? Ele mesmo deve ter colocado lá.
De alguma forma, eu acabei vestido. E dentro do táxi. E no meu apartamento.
E caído no meu próprio vômito.
14/07
Ter que lidar com o fantasma do Mello me assombrando não é fácil. Eu já não sei mais o que posso fazer para me livrar dele. Mello tem contatos em vários países e recursos de sobra para me encontrar quando quiser, mas ainda assim se mantém afastado e age através de Caster. Ele quer me deixar longe, mas sob vigilância, um rei com olhar de águia em seu peão descuidado.
O que ele pretende com isso? Não sei. Tentar entender nas entrelinhas das ações bizarras de Mello me deixa maluco a muitos anos. Só posso deduzir que ele está em uma posição em que não pode agir livremente, do contrário já teria entrado em contato e resolvido nossa situação. Afinal, eu disse umas boas verdades para ele quando fui em seu último esconderijo e seu histórico leva a crer que ele não deixaria aquilo barato.
Ou talvez… ele só quisesse me fazer sofrer. Deixar o pobre Matt esperando eternamente por uma ligação e uma explicação que nunca viria.
Sádico filho de uma puta.
Para esfriar um pouco a cabeça, decidi sair e caminhar. Já virou um hábito, mas ultimamente não funciona como deveria. As ruas são muito barulhentas – bebês chorando, adultos gritando uns com os outros, orelhões tocando quando eu passo – e eu já tenho vozes o bastante em minha mente. Eu precisava de uma saída, uma válvula de escape, já que o sexo foi totalmente estragado por Mihael Keehl.
Passando por uma loja com um letreiro bem chamativo, resolvi parar. A atendente parecia um pouco abatida, mas tentava sorrir. Ela, que também era dona do local, disse que o movimento estava fraco, então eu podia sentar e escolher com calma entre as opções. Folheei o catálogo, mais de uma vez, enquanto ela me dava informações (que eu não pedi) sobre cada uma. Pelo visto, estava com vontade de conversar. Finalmente, escolhi um item. Ela me fez deitar e pediu para que eu relaxasse.
Assim que aquele negócio tocou minha pele, eu gritei.
— Cara, se você quer a tatuagem, tem que aguentar a dor.
— Eu sei… Só me dá um segundo.
Ela revirou os olhos e sorriu.
— Não quer começar com um desenho menor? Pra ir se acostumando?
— Não. Eu consigo.
Quase acrescentei eu gosto das grandes, mas achei melhor não.
— Você que sabe. – A tatuadora amarrou os cabelos negros em um coque com franja e pegou um pacote de cigarros no bolso. – Quer?
— Não, obrigado. Parei.
— Parou… Peraí, você quer dizer de fumar?
— É.
— Qual sua idade?
— 25.
Ela deu uma gargalhada gostosa. Confesso que fiquei constrangido.
— Deixa disso, ninguém para de fumar com 25 anos. Pega aí.
Engoli em seco.
— Eu… ah…
— Um não vai te matar.
— S-sério, não precisa. Ah… Se a senhora--
— Senhora?
— Ah… Se você não se importar, será que podemos conversar um pouco? Sabe… Tô precisando relaxar.
Ela chegou mais perto do meu rosto, avaliando meus olhos. Bem lentamente, um sorriso lindo e verdadeiro se abriu nos lábios vermelhos. Era contagiante, como se ela tivesse encontrado um tesouro que há muito procurava.
— Posso contar um segredo?
— Pode…
— Ontem de manhã, recebi os resultados de um exame. Eu estou muito doente. Não se preocupe, não é transmissível... Tenho 38 anos, sem filhos, sem família. Podia ser parte de um filme de drama, né? Eu fiquei arrasada, passei a tarde chorando e pensando no que deixei de fazer, dos lugares que deixei de ir. Foi quando eu percebi. – ela fez uma pausa e pegou duas latinhas de cerveja de uma pequena geladeira nos fundos. Sentei e peguei uma. – Eu ainda estou viva! Ainda posso visitar esses lugares, conhecer pessoas, viver do jeito certo. Vou deixar esse estúdio, juntar tudo o que eu tenho e viajar sem olhar para trás. De que adianta viver fazendo o que a gente não gosta? Isso é sobreviver. A vida, do jeito que é, oferece muito mais possibilidades, mais conquistas.
A tatuadora olhava para frente, sonhadora, e eu acompanhei seu olhar até um retrato na parede. Um homem, naquele mesmo estúdio de tatuagem, ao lado de uma menina de cabelos pretos, ambos sorrindo. Na foto, com caneta rosa, alguém escreveu Papai e eu.
— Desculpa por falar tanto. Como eu disse antes, não tenho filhos, nem crianças conhecidas pra deixar essas mensagens de gente velha. – os olhos dela encontraram os meus e havia um par de sombras de lágrimas que casava perfeitamente com seu sorriso. – Vá atrás do que te faz feliz. Seja um amor, um lugar ou mesmo um cigarro, lute por aquilo que te faz bem aqui e agora. Tudo isso pode acabar em um instante e não te trazer nada além de arrependimentos. Não deixe ninguém te convencer do que é certo ou errado. Essa escolha é só sua.
Demorei muito até responder a tatuadora. A força e a verdade em cada palavra dita eram como bombas, um choque de realidade em um homem sem rumo. Eu finalmente fui capaz de aceitar o óbvio, de entender que não adiantava mais resistir contra a corrente. Era muito mais forte, muito mais poderosa do que eu. A guerra, a disputa, só existia na minha própria cabeça.
Antes do início, eu já havia perdido.
Lutar contra Mello? Contra um sentimento enraizado por anos? Tentar esquecê-lo com outros e me sentir mal em dizer o nome dele?
Que burrice, Matt.
Eu deveria agradecer por ter encontrado e vivido com ele por tanto tempo. Passamos por muitas dificuldades e sim, o momento não podia ser pior, mas eu queria com todas as forças ir atrás dele.
Celebrar a vida ao lado dele.
Mas ainda me restava um pouco de dignidade.
— Obrigado. – eu segurei as mãos da mulher, que se surpreendeu. – A senhora--
— Senhora? – ela levantou uma sobrancelha, do mesmo jeito que Mello fazia quando ouvia algo que não tinha gostado.
— Você. – nós dois rimos. – Você não faz ideia de como eu precisava ouvir isso. Ir atrás do que me faz feliz… Um amor, um lugar… um cigarro… Acho que preciso de um pouco de cada.
Mello, Wammy’s, meu Djarum Black de menta…
— Só que é mais fácil falar do que fazer. – completei com um sorriso triste.
— Bom, não posso te ajudar com os dois primeiros. Maaaaas… – ela sorriu com mais entusiasmo, aliviada de poder desabafar. Estendeu novamente o pacote de cigarros na minha direção e agora também um isqueiro.
Respirando fundo e sorrindo comigo mesmo, peguei um.
— Sabe… Acho que agora vou tatuar os dois braços.
— É assim que se fala!
— Ã….Você não vai me zoar se… se eu… sabe…
— É claro que não, meu anjo. Já vi muito marmanjo chorando.
Com um último sorriso encorajador, ela se afastou para jogar fora sua cerveja. Mal encostei na minha. Levei o cigarro aos lábios e brinquei com o isqueiro em minhas mãos. Com o coração disparado, abri a tampa e girei o eixo, revelando a chama. Não conseguia parar de sorrir. Encostei o fogo na ponta e, finalmente, acendi o cigarro.
20/07
— E aí, Sem Nome? Gostou de passar uns dias na casa do Caster?
A cadelinha não me respondeu, só saiu correndo e cheirando e latindo e sujando tudo. Caster comprou uma ração lá especial e me fez dar para ela. E além de ter que tirar um tempo para brincar com a dita cuja e aguentar os latidos noturnos, fui intimado pelo moreno do gel a fumar na varanda quando ela estivesse presente.
De verdade, encheu muito o saco.
Por algum motivo, eu não conseguia me livrar dela. Não parecia… certo. Mas ao mesmo tempo, a última coisa de que eu precisava era me apegar a alguém. E Caster não a queria porque, nas palavras dele, sua vida noturna não permitia.
— Sem Nome… Você acha que eu sou um bundão? Por… sabe, não tentar ouvir o lado do Mello da história? Eu devia pelo menos dar uma chance dele se explicar, não acha?
Ela me olhava com aqueles olhos escuros, a língua pra fora.
— Eu sei que já fui tentar falar com ele e ele me expulsou… Mas tinha alguém lá dentro. E se ele foi ameaçado?
Sem Nome saiu correndo em perseguição de uma formiga.
— Tá, nada justifica as reações dele… Já entendi. – escolhi um console e um jogo qualquer e me atirei na cama. Mello, Mello, Mello, Mello, Mello, Mello, MELLO! Eu posso pensar em outras coisas, sabe? Consigo esquecer a criatura loira e me focar em outras atividades.
Ao meu lado, a música tema dos jogos da série Contra anunciou que alguém estava me ligando.
— Alô?
— ...
— Alô???
— …
Não fazia exatamente silêncio na linha. Franzi o cenho, tentando identificar o som. Parecia… uma embalagem sendo aberta.
— Quem é?
— … Matt.
Com o coração na garganta, desliguei a chamada e me afastei até a ponta da cama. Enterrei o rosto nas mãos, os olhos girando nas órbitas. Aquela voz. Não podia ser. Podia? Não podia. Ou podia?
Mello, por que me ligar agora?
De novo, o celular tocou. Agarrei o aparelho e atendi, logo me arrependendo de não olhar o visor.
— Dimitri, meu macho favorito! A Di me passou o seu número e eu tava aqui pensando se--
— NÃO ME LIGA!
O aparelho se espatifou na parede quando eu puxei um travesseiro para colocar no rosto e gritar a plenos pulmões. Por que o Joey tinha que me ligar logo depois que eu ouvi a voz de Mello? Eu não devia ter dormido com ele, não devia… Mello, meu Mello, meu querido Mello. Como ele parecia ao telefone? Quanto mais eu tentava pensar, mais esquecia. Ele parecia infeliz? Preocupado?
Arrependido?
Nem me preocupei em pegar o telefone destruído. Era inútil. Mesmo que estivesse intacto e eu olhasse o registro de chamadas, encontraria uma mensagem de Número Desconhecido. Mello sempre era prevenido. Queria poder entrar em contato com os outros quando bem entendesse, mas limitava o contato dos outros consigo.
Em toda a sua vida, eu fui o único a ter verdadeiramente um contato com ele.
E agora, até isso já não era mais possível.
Gritei outra vez.
Sem Nome correu para o quarto e pulou na cama, agitada. Tirei o travesseiro do rosto e ela lambeu meu nariz e se encostou em mim para dormir. Baixei os olhos para as tatuagens em forma de chamas que cobriam meus braços dos pulsos aos cotovelos, lembrando do dia em que as fiz.
Naquela vez, assim como hoje, as gotas em minha boca eram salgadas.
22/07
Suas mãos você sujará com o sangue daquele que há muito lhe fere.
Deitado em um banco de praça, lembrei sem querer dessas palavras, ditas por uma cigana dias atrás. Na hora, eu não me importei muito, mas agora, uma tragada após a outra, pergunto-me pela quinquagésima vez se eu seria realmente capaz de matar Mello.
Não.
Essa era a resposta definitiva.
Mas talvez ela não quis dizer matar. Talvez…
Torturar?
— Jovem, poderia me dar um minuto da sua atenção, por favor?
Abri os olhos, a luz do sol me cegando por um instante. Pensei que um guarda me pediria para liberar o banco, embora o tom fosse gentil demais. Ainda assim, me surpreendi quando descobri se tratar de um padre, que segurava uma bíblia.
— Ah… Acho que sim. – sentei-me e ele se acomodou ao meu lado.
— Se incomoda em apagar o cigarro?
— Na verdade me incomodo sim.
— Bom… Eu estou em uma missão de minha igreja, recrutando pessoas como você, desamparadas e sem propósito, para nosso novo Grupo de Jovens. É uma paróquia pequena, recém-construída, então toda ajuda será bem vinda.
Por que todo mundo insiste em me chamar de jovem se eu tenho 25 anos? Minha cara é de criança?
Acho que vou deixar a barba crescer.
— Peraí, deixa eu ver se entendi. – olhei para o céu, rindo. Falei lentamente, apreciando a fumaça sair aos poucos da minha boca. – Você quer chamar um fumante desconhecido, de histórico duvidoso, usando roupas fora de moda para a sua nova igreja?
— Todos somos pecadores e filhos de Deus. Você, assim como qualquer outro aqui, merece uma segunda chance.
— E quem disse que eu desperdicei a primeira?
— Você disse. Histórico duvidoso.
Hum… Para um padre, até que ele era bem malandro.
— Meu jovem, uma das coisas mais tristes nessa vida é um irmão desemparado e sem propósito--
— Será que pode parar de dizer isso?
— Depende. Você pode apagar o cigarro?
Olhei para o padre com raiva, mas, ao perceber que ele se divertia com a situação, contentei-me em bufar. Então era essa a abordagem que ele tinha com os jovens? Nos irritar até que aceitássemos seu convite?
Ugh. Agora eu me chamei de jovem.
— O que eu quero dizer é que Deus é uma estrada para os perdidos, uma visão para os cegos, uma mão para os caídos. Em algum momento da vida, nós paramos para acreditar em uma força superior e, internamente, desejamos que ela nos guie, que ilumine o túnel. Todos temos momentos de fraqueza, meu jovem. Mas sempre podemos buscar forças em nossos irmãos para largar vícios, fazer amizades e encontrar um propósito para nossa existência
Limitei-me a olhar para ele.
— Com todo o respeito, padre, agradeço pelo seu tempo, mas essa é a minha resposta. – Dei uma tragada mais profunda, bem concentrada.
E soprei na cara do padre.
— Que Deus te abençoe. – disse depois de muito tossir e se levantar.
Voltei a me largar no banco, agora fazendo a fumaça sair da minha boca em círculos. Eu respeito caras como ele, que se arriscam a chamar estranhos para perto e buscam enxergar o melhor de cada pessoa, mas a igreja não foi feita para caras como eu. Eu acredito em uma força maior, mas não no deus que eles pregam, não no pai do cara com cabelos ondulados, túnica, pregado em uma cruz. Minha ideologia é mais como… uma força vital, sabem? Aura, alma, chamem do que quiserem. Nem sei se existe uma religião assim, mas é nisso que acredito.
Nossa. Se o padre tivesse conversado com Mello… Só imagino como o loiro teria reagido.
Para aqueles que não sabem, Mello é ateu. E não do bom tipo, que simplesmente não acredita em deus mas respeita a opinião dos outros. Do tipo que vai te chamar de crédulo idiota e gritar para os quatro ventos que é ateu. É uma das inúmeras partes complicadas da personalidade dele. Ele só usa um crucifixo no pescoço porque pertencia ao seu irmão e também como forma de deboche. Quando éramos mais novos, Mello era terrível com assuntos religiosos, mas com o tempo seu preconceito diminuiu ou ele aprendeu a guardar suas opiniões grosseiras para si.
Mas enfim, eu não gosto de me envolver demais em assuntos polêmicos. Sou mais tranquilo. Se quiserem uma boa discussão ideológica e filosófica, conversem com vocês sabem quem.
25/07
— Foi mal, Joey. Não queria gritar com você no telefone aquele dia.
— Sem estresse, Dimi querido. Eu gosto de ser maltratado.
Mais um sábado na Perdition, cheia de luzes, vozes, bebidas e drogas. Caster (ou Mello, já não sei mais) me recomendou não ir à boate por um tempo, mas como já havia se passado quase três semanas, achei que era seguro. Encontrei Joey por acaso no bar e felizmente Dianne faltou ao trabalho para estudar para os exames da faculdade. Joey estava dando uma força ao gerente, substituindo ela.
Acho que é seguro dizer que minha sorte, para variar um pouco, está mudando!
— Então Jo--
Parei de falar quando vi a cara de nojo que Joey fazia para um casal – um homem e uma mulher – que se beijavam a alguns metros de nós.
— Sério?
— Ugh, desculpa. Não consigo nem olhar pra uma mulher, não sei o que alguém pode ver nelas.
— Você nunca nem pensou em dormir com uma? Só pra saber como é?
Ele parou de limpar um copo e me encarou sério.
— Querido, eu nasci de cesárea… que é pra não passar nem perto.
Quase me engasguei com meu Blue Shark enquanto Joey gargalhava.
— Mas e você e a Dianne hein… Não precisa me contar os detalhes sórdidos, ela já me obrigou a ouvir tudo. Foi uma tortura.
Sorri de lado, a bebida me ajudando com o desconforto de ter uma relação sexual exposta assim. Nunca contei de minhas noites com Mello para ninguém, então era uma sensação meio estranha.
Continuamos a conversar por algum tempo, até que um garoto sentou ao meu lado, as mãos fechadas enquanto ele tentava parar de tremer.
— Oi…
— Oi. – respondi, espiando de lado. Um segundo depois e me virei para olhá-lo com mais atenção. – Quantos anos você tem?
—18. – respondeu rápido demais.
— Aham… – Joey se intrometeu, me servindo mais bebida. – E eu não sou uma vadia.
— Eu… Queria saber se… – o garoto tentava me conversar comigo, mas a cada dois segundos baixava os olhos. – Se você e eu… Se você queria--
— Peraí. – Joey se inclinou sobre o balcão e cheirou o garoto, que se afastou.
— Que isso?
— Iiih, foge que é roubada Dimitri. Tem cheiro de virgem.
— Como é que é?!! – o garoto levantou, batendo as mãos no balcão.
— Senta aí. – pedi e não sei como, mas ele obedeceu. Nossa, agora me senti poderoso. – Você é bonito, certeza que tem muitas opções. Por que quer perder a virgindade com um desconhecido?
— E-eu não sou virgem!
Joey apontou para ele enquanto mexia a boca, sem falar nada: V-I-R-J-Ã-O.
— Ser virgem não é motivo de orgulho, nem de vergonha. Só quer dizer que você não teve nenhuma relação sexual. – Virei o resto do meu copo, que Joey logo completou. Uma tosse pesada tirou toda a minha pose de adulto experiente e compreensivo.
—I-isso… Argh! – ele afundou o rosto nas mãos e falou baixinho: – Melhor dormir com alguém que sabe o que está fazendo.
—Nisso, eu tenho que concordar com ele. – Joey comentou antes de ir atender outro cliente.
— Um conselho. É melhor dormir com alguém que você goste, pelo menos na primeira vez. Sério, a minha foi com uma namorada que… bom, eu tava a fim de outra pessoa na época. E foi bem traumático, pra nós dois. E não era a primeira vez dela.
— Foda-se o seu conselho. – e se levantou, bem quando Joey voltava.
— Nossa, você não tem nenhum tato com adolescentes.
— E você tem?
— Claro que não. Ei. – ele olhava por cima do meu ombro. – Tem alguém te secando.
A visão daquele longo vestido vermelho me arrepiou dos pés a cabeça. A Dama de Vermelho parecia ainda mais bonita do que antes, agora com um vestido mais curto e esvoaçante. Depois de perceber que eu a observava – babava seria um termo mais adequado – a mulher misteriosa iniciou uma lenta caminhada. Com uma luva vermelha de rendas, ela acenou com o indicador, pedindo que eu a seguisse.
— Ai cara. – deixei escapar, acompanhando o trajeto que ela fazia até a base da escada que levava aos quartos no andar superior.
— Você não vai?
— Não sei… Quer dizer, eu quero ir, mas… não sei.
— Não acha ela atraente?
— Tá brincando?
— Então… tá esperando o quê?
— Ela é meio… assustadora.
— Que? Como assim?
— Ela tem tanta… Presença. – a Dama de Vermelho já alcançara o andar de cima e me olhava com um sorriso lindo nos lábios perfeitos.
— Se for atrás dela, melhor não pensar muito. Você tem concorrência.
De fato, algumas pessoas na pista de dança e mesmo ali no bar olhavam para cima por tempo demais.
— Tá… Tá, eu vou.
Levantei-me com o coração na mão, subindo as escadas, claro, de dois em dois degraus. A bebida me deu a coragem necessária para segui-la até a última porta do lado esquerdo, na qual ela colocou uma chave e abriu. A saída de emergência. Parei por um instante, mas segui em frente, o sangue correndo para o lado oposto à minha cabeça quando a encontrei na rua de trás da Perdition.
A Dama de Vermelho, no meio da rua escura e abandonada, parecia uma deusa. Tão cheia de força, de atitude e de presença, era como um ímã, ou melhor, uma sereia, atraindo meus olhos e minhas pernas que, como uma marionete, desceram as escadas e se colocaram diante dela.
— É um pouco perigoso, uma mulher linda como você andar sozinha por aqui. Posso te acompanhar até sua casa ou outro lugar, se preferir.
Ela riu, cobrindo a boca com a mão em um gesto delicado.
— Eu agradeço, mas não vou para minha casa hoje. E nem você.
Os sons às minhas costas explicaram tudo que eu precisava saber. Dois homens caminhavam pesado até onde nós estávamos, iluminados por uma luz distante. Suas sombras gigantescas no asfalto cobriram meu corpo muito mais rápido do que eu pensava ser possível, meu punhos trêmulos se fechando automaticamente.
Uma risada da sereia, dor e a escuridão em meus olhos já não era só da rua.
Conhecidas por sua beleza encantadora, as sereias são criaturas magníficas. Algumas cantam, outras tocam harpa, mas todas possuem um único objetivo: atrair o marinheiro. As donzelas, em toda a sua graça e elegância, seduzem os fracos e os arrastam até as profundezas, onde revelam sua verdadeira forma. E os devoram.
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