Stalemate II.

14 XIV. 21/06/20XX


Notas iniciais
Eu sei que demorei, mas não posso controlar a falta de inspiração. (Escrevi mais nos últimos cinco dias do que nos últimos meses hehe). Replanejei algumas coisas na narração do Matt, tinha muita informação inútil que eu queria colocar. Agora, vai começar a CONTAGEM REGRESSIVA para o fim... da narração do Matt (hehe). Contando com este, serão OITO capítulos e depois teremos nossa loira tomando as rédeas. Porém, um desses oito capítulos NÃO será narrado nem por Matt, nem por Mello. ~musiquinha de suspense~ Ah, acabei de lembrar. Dia primeiro de janeiro a fanfic completou TRÊS ANOS! (o primeiro capítulo foi postado em outro site antes). Passou tão rápido, eu nem acredito! ~lágrimas~ Sério, ultimamente eu ando recebendo muitos comentários, recomendações e mensagens privadas mostrando como vocês realmente se sentem sobre essa história e eu nem sei como começar a agradecer. Muito obrigada MESMO pelo apoio e por compartilhar os seus sentimentos sobre essa fic, que em vários momentos foi minha válvula de escape. Eu amo vocÊs, de verdade. Os melhores leitores e leitores que alguém pode pedir. ~um minuto de silêncio dramático e abraços gays~ pronto. Como prometido, fiz uma PLAYLIST da fanfic! ~yay~ Playlist : https://www.youtube.com/playlist?list=PLzq67IX-mNdz2WhZrrhqmcjnka_dzbbg_ Playlist + comentários da autora: http://ice-sword.tumblr.com/Stalemateplaylist Ps: Eu tinha esquecido de adicionar o aviso de bissexualidade nessa temporada, mas isso já foi corrigido. Boa leitura!

Eu tinha 12 anos na primeira vez em que Mello colocou uma arma na minha mão.

— Matt, se você não parar de tremer não vai acertar nenhum dos alvos!

Nós estávamos em um galpão abandonado, com uma única porta para a entrada e saída. Mello, logo atrás de mim, tentava corrigir minha posição e meu nervosismo, mas eu não o escutava. A arma em minhas mãos, fixa no alvo em formato de um ser humano, tremia cada vez que meu dedo pousava sobre o gatilho. Era bem patético. Eu tinha consciência de que não machucaria ninguém de verdade com aquele treinamento, mas sabia qual era o objetivo de Mello. Os alvos, dispostos a distâncias diferentes de mim e com marcações na região da cabeça e do coração não deixavam dúvidas.

Ele queria que eu estivesse pronto para matar, se necessário.

— É involuntário, eu já te disse! – baixei a pistola, uma Sig Sauer P226 calibre 9 mm, e me virei para fitar seu rosto frustrado. – Já parou pra pensar se eu quero aprender a atirar? Você não me perguntou nada e já veio me arrastando pra esse lugar!

— Você lembra o que aconteceu dois anos atrás, não lembra? E se, no futuro, a gente precisar saber essas coisas? Você quer que aquilo aconteça de novo? – Mello me encarou e eu sustentei seu olhar. Quando tínhamos dez anos, um vadio qualquer nos abordou e tentou estrangular Mello. Na época, eu fiquei paralisado e Mello precisou se livrar do estranho sozinho. Claro que eu não queria que aquilo se repetisse. – Talvez eu não consiga nos salvar de novo. Não sozinho.

Respirando fundo, lhe dei as costas novamente e ergui a arma, mirando no alvo mais próximo.

— Onde você conseguiu isso?

— Os alvos? Em uma das salas de treinamento da Wammy’s--

— Não. Onde conseguiu a arma?

Eu não era tão ingênuo quanto parecia. Aquela arma era muito boa para ser fácil de conseguir.

— Eu fiz um ou outro favor para uns amigos e eles me deram isso em troca. Feliz?

— Amigos… – não pude conter o riso. Mentiroso deslavado – Tá certo.

Ele ignorou meu sarcasmo.

— Lembra o que eu te falei, essa arma tem um recuo considerável. Atira com cuidado. Depois que conseguir acertar os três alvos em pontos vitais eu te ensino a desmontar ela.

Ignorei as vozes em minha cabeça que diziam o quanto aquilo era uma péssima ideia e disparei contra o alvo. Assustei-me com o recuo da arma e me desequilibrei para trás, quase caindo. A bala não atingiu o ponto.

— Se concentra, Matt! Você não tá machucando ninguém.

Eu não queria machucar ninguém. Pelo menos nessa idade, eu não tinha essa intenção. Mas Mello tinha.

Fiz outra tentativa. A bala acertou em cheio o ombro do alvo.

— Melhorou, mas você tá fechando os olhos antes de apertar o gatilho.

— Posso comer alguma coisa antes de continuar?

Mello me observou por um tempo e, por fim, revirou os olhos.

— Pode. Mas na volta, não vamos para a Wammy's até você acertar todos os alvos. No coração.

Caminhar pelas ruas dos Estados Unidos era um saco em dias normais, mas era ainda pior no solstício de verão.

Não me levem a mal, eu estava feliz por finalmente estar em um país de língua inglesa. Imaginem como a Rússia foi complicada para mim… Mas aquele calor do Sul dos EUA me fazia sentir saudade do clima britânico, aquele friozinho gostoso de 3ºC e o céu nublado. Frequentemente eu tinha saudades de casa, da minha verdadeira casa.

Mas vou ser franco com vocês. Não era exatamente a temperatura que me irritava.

Meu incômodo era graças aos casais irritantes que passeavam de mãos dadas e por conta das pessoas que usavam couro e comiam chocolates à vista de todos e, e, e…

Ugh. Assunto proibido.

Voltando ao problema do solstício. O início do verão deveria ser uma época de prosperidade e de esperanças para uma estação melhor. Uma promessa de boas colheitas, paz e harmonia. Mas meu interior conturbado não refletia nada disso. Que direito aquelas pessoas tinham de ser felizes enquanto eu me afogava em lembranças ruins?

Que egoístas.

— Precisa de ajuda?

— Ahn?

Só então reparei que estava dentro de um supermercado, de olho em um pacote de Marlboro.

—Ah não… Obrigado.

Com a cabeça baixa, saí do supermercado e voltei a andar. Pensei que sair de casa ajudaria a afastar meus pensamentos de Mello, mas me iludi. Estava fadado a pensar nele.

Batidas de sinos de igreja me tiraram do meu monólogo, um sorriso depravado surgindo em meus lábios antes que eu pudesse contê-los. Eu não deveria lembrar disso. Não agora. Eu tinha transado com outro cara, Joey, e ainda não conseguia engolir tudo que acontecera. A manhã seguinte foi horrível, eu passei o dia todo vomitando. Quem sabe eu merecia. Quem sabe eu deveria me trancar no apartamento, sofrendo sozinho. Se não fossem aqueles sinos, eu voltaria para meu monólogo dramático.

Mas aquele ato terrivelmente errado que cometi com Mello em uma igreja, uns quatro anos atrás....

Ah, esse merece ser contado.

Mello parou diante das belas portas de madeira maciça da igreja, sua silhueta sendo um elemento estranho no meio da madrugada. Sua jaqueta preta de couro, uma que por milagre cobria sua barriga, tinha um brilho particular que fazia par com as safiras, brilho esse que me arrepiava a cada troca de olhares. As calças pretas agarradas no corpo e o sapato social também tinham seu toque de classe, acompanhamentos adequados para os fios longos e dourados.

— Matt, esse momento vai ficar para a história.

Ele usou uma chave escura e gasta e, em um gesto teatral, puxou as duas portas da entrada, revelando um interior espaçoso com uma passagem ao centro que se encerrava no altar. Nos dois lados da passagem, vários bancos indicavam os lugares dos fiéis, que provavelmente estavam em suas casas àquela hora, dormindo tranquilamente, sem desconfiar do que estava prestes a acontecer em sua igreja. Nas paredes, nada além de ventiladores. De um dos lados do altar, havia um altar menorzinho dedicado a pedidos de oração dos devotos e do outro, uma parte reservada para o coral e escadas que levavam aos andares superiores.

—Tem certeza, Mello? Isso é tão…

— Perverso? Doentio? Errado? – o sorriso em seus lábios enquanto ele abria os braços e rodopiava não deixava dúvidas do estado de sua sanidade mental. – Matt, nós já vamos pro inferno de qualquer jeito. O melhor é aproveitar nosso tempo aqui.

—Têm jeitos melhores de aproveitar o tempo que nos resta.

— E é exatamente por isso que viemos aqui. — ele brincou com o crucifixo em seu pescoço e derrubou um dos bancos da igreja com o pé. O barulho não foi tão alto, mas dei uma olhada para os lados. – Matt, eu vigio esse lugar a semanas. Tomei algumas providências, então não tem ninguém aqui. Sério. – como uma cobra, o loiro se aproximou a passos lentos e segurou meu rosto com as duas mãos. Como nossa altura era (e ainda é) praticamente a mesma, não precisei me mover para ser hipnotizado por aqueles traiçoeiros olhos azuis. – Você sabe que eu tenho esse fetiche a muito tempo. Já perdi a conta de quantas vezes te fantasiei aqui comigo.

— Sério? – sem me controlar, acabei sorrindo. Nossa, que mudança de postura.

—Aham… – Mello mordeu o lábio, rindo, consciente de me ter na palma da mão. – Vai, prometo que não quebro nada na igreja. Sei que você não gosta.

—Não custa ter um pouco de respeito com a religião dos outros, Mello.

Ele revirou os olhos.

—Vamos falar do que interessa. – sua mão fria se encaixou na minha. – Vem. Quero me confessar.

Entregue aos desejos de Mello, fui conduzido até o confessionário da igreja. Era de um modelo antigo, daqueles com dois compartimentos: um para a pessoa que for se confessar e outro para o padre. Mello tinha as chaves das duas portas e, assim que ambas foram abertas, mandou que eu entrasse no lado do padre. Lá dentro, acomodei-me em uma cadeira e esperei até que Mello fechasse a porta de seu compartimento. Ficamos separados por uma grade, então não posso confirmar, mas acho que vi Mello fazendo o sinal da cruz.

—Padre… Perdoe-me, pois eu pequei!

—Hum… Caham. Só Deus pode perdoá-lo, se seu coração estiver verdadeiramente arrependido. – repeti as palavras que Mello me fez decorar, mas eu não fazia ideia de quais seriam suas respostas. – Diga-me… Como vai sua fé no Criador e nesta igreja?

—Minha fé já se foi antes que eu soubesse o que essa palavra significa, padre. Meus pecados… Oh, os meus pecados mortais me assombram, atam as minhas mãos. Não posso acreditar nos ensinamentos da igreja. Se aceitar a existência de um inferno… já estarei perdido.

Dramático.

— O primeiro passo para fugir desse destino é a confissão. Fez bem em vir até aqui.

— Ah, disso não tenho dúvidas. A noite será muito… proveitosa.

— Se desejar abrir seu coração… Sou todo ouvidos. – as instruções de Mello terminavam por aqui. Agora, eu teria que improvisar para satisfazê-lo.

— O que eu disser não sairá desse confessionário, certo?

— É claro.

— Padre… Eu nunca reconheci deus. Já prestei adorações a imagens e esculturas, esperando despertar sua ira. Em inúmeras ocasiões, já utilizei o santo nome dele em vão. Não honrei a memória de meus pais e me tornei alguém de quem eles sentiriam vergonha. Já menti, roubei e matei por quase nada. E já cobicei muito as coisas alheias. Mas sabe qual o único mandamento que eu nunca violei?

— Qual?

— Eu nunca cometi adultério.

Ah cara… Mesmo em uma situação de completo deboche à religião, Mello conseguia me deixar envergonhado.

— E… Por que não esse?

— Ora… – ele se aproximou da grade e sussurrou: – Porque eu tenho um homem maravilhoso me esperando na cama todas as noites.

Eu retiro o que disse. Mello é uma cobra. Ele sabia exatamente o que dizer para me fazer perder a cabeça e acabar de vez com aquele joguinho.

Abri minha porta, encontrando seus sapatos jogados no chão, assim como toda a sua roupa. Hum. Tratei de escancarar a porta de seu compartimento e acabei por encontrá-lo de joelhos em um banco comprido, que ficava alguns centímetros acima do chão. Suas costas nuas estavam viradas para mim e ele me olhava sobre o ombro, as safiras fazendo par com sua voz inocente.

— Olá, padre. Você veio me purificar?

Um homem assim deveria ser preso.

Puxando seus braços, eu o obriguei a levantar e apoiar as mãos na parede interna do confessionário. Entrei com ele e fechei boa parte da porta, deixando pelo menos uma fresta por causa da minha claustrofobia.

— Não. Vim te fazer cometer outro pecado.

Mello soltou uma exclamação quando segurei seu queixo com uma mão e abracei sua cintura com a outra, me esfregando nele. Dois podem jogar esse jogo, Mello. Ele deitou a cabeça no meu ombro, suspirando baixinho, o calor súbito esquentando seu pescoço e rosto. Agarrando meus cabelos e ainda se apoiando na parede, o loiro permitiu que eu chupasse e mordesse seu pescoço no ritmo em que movíamos nossos quadris, com muita pressão e pouca velocidade. A cada toque da minha língua em sua pele ele se contorcia, aumentando o tamanho da minha dolorida ereção. Minha testa e nuca já começavam a suar, a presença das roupas se revelando um enorme incômodo. Porém, Mello me proibiu de tirá-las.

—E-eu…preciso rezar…alguma coisa?

— Sim. – encostei minha boca em seu ouvido, lambendo-o. – Reza pra conseguir andar amanhã.

Ele estremeceu, fechando os olhos e apoiando a testa na parede. Ah, aquilo era uma promessa que eu faria questão de cumprir.

Com o maior prazer.

Alisei suas costas com as mãos, arrepiando nós dois. Mello não parecia muito disposto a aturar preliminares, mas eu não estava a fim de fazer o que ele queria. Pelo menos ainda não. Com movimento firmes, fiz uma massagem lenta em seus ombros, fazendo-o rir. Ah, então ele aprovava minha insolência? Bom saber.

—Eu fiz mal em tirar minhas vestes? – Mello se virou e puxou minha camisa pela gola. Aquele tom formal era engraçado, mas também me excitava um pouco, por ser tão diferente do que eu estava acostumado a ouvir da boca do loiro.

— Fez muito, muito mal. – apertei com força aquela bunda gostosa, apoiando minha testa na dele e encarando-o com desaprovação. – Sua penitência será muito mais dura do que pode imaginar.

Ele riu, suas unhas arranhando meu pescoço e seus olhos fixos em meus lábios.

— Tem certeza, padre? Mesmo se eu prometer que não faço de novo? – ele mordeu os lábios, se encolhendo cada vez mais contra a parede.

— Agora é tarde demais. – lambi meus lábios lentamente, olhando em seus olhos. Por último, acrescentei em seu ouvido: – Para corrigir isso, você vai precisar de horas e horas de punição.

Suas pupilas dilatadas e sua pele arrepiada diziam que eu acertara em cheio nas palavras.

Mello estendeu a mão e eu lhe passei o tubo de lubrificante. Depois de colocar bastante nos dedos, ele me devolveu e virou de costas, brincando com a própria entrada enquanto sorria para mim.

Como eu disse, uma cobra.

Sem pestanejar, abri minha carteira e peguei duas camisinhas, colocando uma em mim e interrompendo a brincadeira de Mello para também cobri-lo. Falem o que quiser, mas eu me sentia meio mal em sujar um confessionário de esperma.

Não que algum dia aquele lugar estaria realmente limpo. Não depois do que fizemos ali.

— Quando você teve essa ideia, hm? – beijei devagar as costas suadas de Mello, subindo por seu ombro até o pescoço. Ele olhava para frente, suspirando baixinho. – Vir até essa igreja, no meio da madrugada, pra transar até desmaiar em um confessionário. Ah, Mello.– abri com cuidado o zíper da minha calça, esperando que ele ouvisse o barulho. Desci minha cueca apenas o suficiente. Apesar de gostar de um pouco da minha ousadia, tenho certeza que ele ficaria bravo se eu o desobedecesse e tirasse minhas roupas. – Se fechar com um padre em um lugar tão escuro, tão apertado, pra satisfazer um desejo tão sujo? – Ele estremecia a cada palavra que eu dizia, arqueando as costas e empinando o quadril, à espera.. – Se seguir em frente, ninguém vai poder te absolver desse pecado. Nem padres, nem deuses ou deusas de qualquer religião. Mihael Keehl nunca mais vai ser limpo. – Seus dedos voltaram a tocá-lo por trás, minhas palavras o excitando. – Mas você gosta disso, não é? Do desejo cru, do sexo doentio e depravado que você tanto imaginou quando estava sozinho, no escuro. O que mais te atrai nisso tudo, Mello? A tentação de não ter pra onde fugir? O perigo de sermos descobertos? Ou simplesmente porque é proibido?

— T-t-tudo... Tudo isso...

— Oh, a sua situação é pior do que eu pensava.

— O que quer dizer? – a mão de Mello começou a se mover com mais intensidade, seu pescoço se virando para me encarar.

— Quero dizer… – segurei suas mãos quando ele ameaçou se tocar pela frente e as coloquei na parede. — Que preciso começar imediatamente.

Ele riu baixinho no início, mas logo parou quando comecei a penetrá-lo. Centímetro por centímetro, entrei em um Mello ofegante e impaciente. Ele logo levou os quadris ao meu encontro, terminando os centímetros que faltavam. Suspiros idênticos saíram de nossos lábios, que se encontraram pela primeira vez naquela noite em um beijo molhado e apressado.

Não quero perder tempo com brincadeiras, Matt. – ele me advertira antes de sairmos. – Quero foder bem gostoso e com força. Fo-der.

Como você é romântico, meu amor.

— De todos os seus fetiches, Mello... – sussurrei ao seu ouvido, arrepiando sua nuca. – Esse acaba de virar meu favorito.

— Ah é?... E as nossas...sessões de spanking¹?

Demorei um pouco para responder.

— Tá, meu segundo favorito.

Ele riu.

— Na próxima… Você vai usar batina. Ou túnica.

— Até que não é má ideia. – segurei em seu quadril, procurando uma posição melhor. – Mas por enquanto… Se concentra aqui.

Comecei com estocadas mais lentas, mas Mello logo reclamou. Ele queria mais força, mais brutalidade, mais violência. Nem preciso dizer que acatei seus pedidos na hora, saindo de seu corpo com pressa e voltando com um gemido gostoso ao pé do ouvido. Ele arqueava as costas, arranhando a parte interna do confessionário e gemendo como um gatinho, repetindo meu nome várias e várias vezes.

— Mello… – seus movimentos formavam um espelho com os meus, nossos quadris sempre em sentidos contrários. Sua temperatura alta à minha frente e o ventinho frio nas minhas costas me deixavam louco, um choque térmico delicioso e inesperado. Uma de minhas mãos se agarrava em sua cintura, obrigando-o a fazer o que eu queria, marcando a pele clara de vermelho e mais tarde de roxo. Logo os gemidos de Mello aumentaram de volume, quase acabando com meu autocontrole. Aquele corpo, aquela voz, aqueles movimentos… Tudo em Mello tinha textura, som e gosto de um delicioso pecado.

— Ah… M-matt… – sua bochecha, encostada no fundo do confessionário, queimava de tesão e também um pouco de vergonha, mas isso não impedia que suas costas se arqueassem em êxtase. – P-pode… machu… mais…

Pode me machucar mais.

Dizer algo assim… Mello não tinha noção do perigo.

Ou talvez tivesse. E fosse exatamente o que ele procurava.

— Vira. – agora de frente, peguei Mello pelas coxas e abri bem suas pernas. Seu rosto, vermelho de calor, vergonha e tesão, ficou ainda mais escarlate ao perceber em que situação se encontrava: dentro de um confessionário, as pernas escancaradas, sendo agarrado por um homem que ele chamava de padre. Ainda assim, naquela expressão não havia um único traço de arrependimento. – Era isso que você queria?

Mello fez que sim com a cabeça e tentou sorrir, mas uma forte e deliciosa estocada não permitiu. Seu urro de prazer me deixou surdo para todo o resto e dali em diante não medi mais minha força, movendo meus quadris como bem entendesse. A ousadia de Mello, o lugar fechado, o cheiro de sexo, os sons que saíam de nossas gargantas, tudo era tão gostoso que eu nem sei como descrever.

— M-mello… Mello… – eu não falava de propósito, só para provocá-lo. Meu descontrole era real, meus gemidos, minhas pernas trêmulas, cada estocada me afetando tanto quanto o afetava. O loiro, deliciado com meus gritos chamando por ele, agora gemia como uma verdadeira vadia, fazendo um estrago e tanto nas minhas costas com as unhas. Suas pernas, cruzadas na minha bunda, puxavam meus quadris para mais perto, uma tentativa desesperada de conseguir logo o alívio merecido.

— MA-- AH-- MAaaa… – Mello tentava dizer meu nome, um rastro de saliva escorrendo pelo canto de sua boca. Suas mãos foram até meus cabelos e deram um puxão, me fazendo rosnar de um jeito que eu nem sabia que podia. Como resultado, senti um aperto brusco em torno do meu membro, brusco e delicioso. Repeti o som animalesco e Mello respondeu do mesmo jeito, suas pernas tremendo tanto quanto as minhas.

— S-se… Se segura. – falei com a voz fraca. Mal Mello se apoiou em meus ombros, iniciei as últimas e mais brutas estocadas, um ritmo tão rápido que me deixou um pouco tonto. Não dei tempo de Mello sentir minha falta em momento algum, já me movimentando para frente e tocando o paraíso na Terra.

O loiro tentou morder meu pescoço para reprimir seu gemido vergonhoso quando atingiu o orgasmo, mas não funcionou. Seus dentes escaparam e ele gritou de prazer, um som tão delicioso que não resisti em gemer com ele. O aperto agressivo em meu membro se repetiu e depois disso não durei quase nada. De algum jeito, consegui deslizar as costas de Mello até o chão antes de gozar, seu nome escapando da minha boca como um grito de guerra.

Não fizemos nada por um tempo, só nos apoiando um no outro e esperando passar.

Vários minutos depois, nós ainda fizemos mais uma vez, mas com Mello sentado em mim. Meus braços e minhas pernas já não conseguiam fazer mais nada, então deixei os movimentos por conta dele. Enquanto ele cavalgava, houve um momento em que olhou para fora do confessionário, um pouco perdido.

— U-uma… igreja… estamos… em… uma igreja… – seu interior se apertava violentamente, aceitando a ideia de que estava vivenciando uma de suas mais secretas fantasias. Um gemido constrangedor saiu da minha garganta, me obrigando a agarrar suas coxas e fazê-lo prestar atenção em mim.

— Mello… bate.

— Q-que?

— Me bate! — fechei os olhos, o cenho franzido. – BATE NA MINHA CARA!

Ele não demorou nada, sua mão pesada fazendo barulho no meu rosto. Meu interior se contorceu. Aquela humilhação, a transa bruta, o lugar totalmente errado

Ah, aquela noite ficou mesmo para a história. Entrou até na minha lista das nossas transas mais brutas, mas não pegou o primeiro lugar.

E essa… é a minha única e mais forte lembrança sobre a igreja.

— Ei, olha por onde anda! – meu ombro doía e uma garota gritava comigo.

— Desculpa, eu tava…distraído.

Enfiei as mãos no bolso, puxando alguns dólares. Dava pra comer alguma coisa ou ir ao fliperama que eu achei perto de um cinema. Mas não dava para fazer os dois. Talvez eu devesse sacar algum dinheiro… Mas se eu fizesse isso, Mello saberia onde eu estava.

Mas, andando com Caster, eu não estou sempre ao alcance do olhar de Mello? Então de que vale minha distância? E por que eu não forçava o cara do gel a me contar tudo que sabia?

Talvez meu subconsciente não quisesse saber.

Os barulhos da rua começavam a me dar dor de cabeça. Uma mulher com carrinho de bebê, um cara de terno gritando ao telefone, uma criança segurando a mão do pai e berrando porque queria um brinquedo, um orelhão que começou a tocar quando passei, uma cigana gritando no meu ouvido, um velhinho...

Pera, uma cigana?

— Olhe para mim! – sem ter o que fazer, encarei aqueles olhos muito claros da cigana de cabelos pretos bastos e mão forte. – Limpe suas mãos enquanto ainda pode.

— O quê?

— Um crime contra uma vida é imperdoável... Mas oh, você não vai me ouvir. O dourado abriu uma trilha para o caminho do mal e você foi direto por ela, sem olhar para os lados.

— Moça, eu não tô entendendo nada, por favor solta o meu braço--

— Garoto, as suas mãos! Suas mãos você sujará com o sangue daquele que há muito lhe fere.

Nesse momento, uma mulher surgiu e agarrou o braço da cigana, que foi obrigada a liberar o aperto. A mulher pediu desculpas pela atitude da irmã e foi embora, arrastando-a consigo. A marca vermelha na forma de uma mão ainda doía, mas eu não prestava atenção. Eu não tinha motivos para ficar bravo com a cigana. Ela não foi grossa comigo. Fiquei intrigado, uma vez que ela não me pedira dinheiro. Nem mencionara o assunto, então, pelo visto, só queria mesmo me alertar. E isso sim fez minhas mãos tremerem.

Porque eu só conhecia uma pessoa que há muito me feria.

25/06

Fliperama quase sempre acalma os meus nervos. Atirar em zumbis, jogar basquete, boliche, pular de plataformas. Eu só não me arriscava na dança. Quando mais novo, talvez. Principalmente porque eu arrastava Mello comigo. Algumas raras vezes ele dançava, outras só ria dos meus passos errados.

Já estava escuro quando voltei para o apartamento, depois de passar no supermercado. Ultimamente estou assim, pulando de um apartamento para outro, comendo, jogando, dormindo. Esperando alguma coisa acontecer. Só não sei bem o quê.

Na porta, uma espécie de caixa pequena cheia de furos me esperava. Reconheci como um daqueles transportes para cachorro em avião. Abaixei lentamente, tentando ver o que estava lá dentro.

Ah não.

Olhei em volta, procurando o desgraçado que deixou uma cadela na minha porta, mas não tinha quase ninguém naquela rua. Arrastando-me, trouxe a caixa para dentro e a abri, esperando que a cachorra saísse aos pulos, mas não foi o que aconteceu. Bem peluda e toda branquinha, ela colocou o focinho para fora e cheirou a borda da caixa. Depois, lentamente, colocou uma patinha para fora. A outra. A barriga. E por fim as duas de trás. Sentei em uma cadeira e observei enquanto ela cheirava o chão e vinha até a sacola em minha mão, com hambúrguer congelado.

Será que eu podia dar hambúrguer pra ela? Bom, eu dei. Ela adorou.

Improvisei um pote com água e, depois de beber até se engasgar, ela se enrolou em uma blusa que eu tinha jogado no chão e dormiu. Até que era bonitinha. Quando pequeno eu não tive animais e na Wammy's era proibido. É, tirando a choradeira que ela fez durante a noite, a urina e as fezes espalhadas pela casa e os latidos escandalosos que ela fazia quando eu tomava whisky, até que era bonitinha.

Mas me encheu o saco na primeira semana, então eu tirei dinheiro e a coloquei eu um daqueles hotéis para cachorro.

Por algum motivo, não quis colocá-la em um canil. Não que eu tivesse me apegado a ela, tão pequena e desprotegida. Foi uma escolha totalmente minha, completamente racional.

Quem acreditou, levante a mão.

...

03/07

Atualmente

Pois é, agora vocês sabem como eu cheguei até aqui. Os dias vão passando, meu contato com Caster fica cada vez mais raro, a quantidade de bebida no meu corpo fica cada vez maior e eu vou vivendo bem assim.

Mas nada disso importa hoje, porque é sexta feira. Ou seja, meu dia na Perdition, meu novo favorito lugar na Terra.

Para alguém que detestava sair de casa quando mais novo, admito que a boate está fazendo muito bem. Desde que transei com Joey eu só vim aqui uma vez e felizmente não o encontrei. Transar com um cara completamente estranho não é algo que estou acostumado a fazer, preciso de um tempo para me acostumar. E aprender a não beber qualquer merda que me oferecem. Sério, eu fiquei chapado demais. Nem lembro se usei camisinha.

Não façam isso, crianças. Eu sou um mau exemplo.

Na entrada, tive que mostrar meu documento. Recentemente, pelo que li em uma notícia, muitos menores de idade consumiram drogas dentro da boate, o que começou a gerar polêmica sobre o lugar. Para resolver isso, os seguranças agora obrigam que o documento seja mostrado. Segundo a própria Dianne, isso é só até a poeira baixar. Impedir os menores faz a Perdition perder dinheiro.

Como sempre, o som da pista de dança primária podia ser ouvido do lado de fora. Empurrei com o ombro aquele mar de gente, que tentava a todo custo ver os dançarinos nas dez plataformas. Sexta feira na Perdition só não é pior que sábado, nem sei como pode caber tantas pessoas no mesmo lugar. Muitos paravam para me olhar, tanto homens quanto mulheres. Meu ego inflava cada vez mais.

Mas acabou quando eu olhei para a última plataforma, à esquerda, e vi Adam. Aquele dançarino alto, negro, gostoso, que me colocou em uma cadeira e me passou o seu telefone.

Não se se já comentei isso, mas essa é a maior vantagem e a pior desvantagem em ser ruivo. Todos podem me ver.

E ele me viu.

Vai lá Matt, seu bosta. Gente, não é bem assim. O cara quer me comer.

Aqueles olhos me fitaram e um sorriso surgiu nos lábios grossos. Ele começou a dançar me encarando e sério, eu não resisti. Não tive escolha. Mail Jeevas tomou a atitude mais corajosa e máscula de toda a sua vida.

Saiu correndo.

Não fiquem decepcionados. Mesmo que eu fosse atrás dele, não daria em nada. Eu broxo quando fico com medo.

— Opa, desculpe. – uma mulher esbarrou em mim, sorrindo em desculpas. O mais estranho não era ela pedir perdão em um lugar onde todo mundo se esbarrava o tempo todo, mas o olhar que me dirigiu em seguida. Os cabelos pretos ondulados até os ombros, os olhos delineados, a pele escura, a boca convidativa, o tomara que caia vermelho, os acessórios em escarlate. Com una exclamação, eu a reconheci.

A Dama de Vermelho. A mulher misteriosa que eu vira na rua, muitos dias antes.

— Você…

Ela sorriu.

— Algum problema?

Problema? Que problema? Tá tudo ótimo, a vida é ótima, você tá ótima.

— Ahn…

— Um homem de poucas palavras? – ela arrancou uma risada de mim. – Você se sentiria melhor se a gente fosse para um lugar mais… reservado?

Ponderei um pouco sobre aquilo. Absolutamente tudo naquela mulher acionava PERIGO na minha cabeça. Desde o olhar intenso, o vestido colado, as coxas marcadas, os seios, os…Ah... Esqueci o que eu ia dizer.

Fechei os olhos por um instante. Pelo menos uma vez eu ouviria a voz da razão.

— A-acho… Acho melhor ficar pra outra hora.

— Ah… – ela não escondeu seu descontentamento. Eu estava louco, dispensando uma mulher daquelas. – Bom, tudo bem então. A gente se vê. – e foi embora com uma piscadela e um sorriso.

Certeza que eu vou me arrepender disso. Ah, Matt… Seu bundão.

No bar, uma visão acabou por me alegrar um pouco. Dianne terminava de atender um cliente e saía para seu intervalo de uma hora. Os cabelos coloridos dela chamavam ainda mais atenção que os meus, mesmo de longe. Hoje ela usava um lindo vestido preto, daqueles que deixam as costas de fora. Empurrei mais alguns seres pulantes e finalmente a alcancei. Ela me viu primeiro e logo ficou vermelha como um tomate.

Desde o dia em que dormi com Joey, eu não a encontrei mais. Naquele dia, ela...bom, bebeu além da conta, assim como todos nós. E disse as duas mágicas palavras que fazem qualquer homem que se interessa por mulheres ter um mini ataque cardíaco.

Me fode.

— D-Dimitri...O-oi...Eu queria mesmo… ah...conversar com você.

— Oi… Então, se for sobre o que você disse, olha, tá tudo bem…

— Não, eu… Eu tava bêbada, sabe? Não diria isso pra alguém que eu mal conheço...Quer dizer, não que eu desconfie de você...Ah, eu não sei explicar, diz que você entendeu.

O lado envergonhado dela me fez rir.

— Tá tudo bem, sério, você não fez nada de errado. É legal ouvir de vez em quando.

— De vez em quando? Mentiroso, devem te dizer isso o tempo todo.

— Meu ego agradece.

Ela riu baixinho, os olhos pretos com um brilho misterioso que de início eu não soube identificar.

— Entã…

— E aí, Di, já conseguiu um? Ei, espera… eu conheço você! É aquele cara tímido da outra vez! – as amigas de Dianne, Alicia e Celeste, surgiram do nada e sorriram para mim. As duas também eram muito bonitas, não pude evitar sorrir de volta.

— Tudo bem? – Sou muito bom em começar uma conversa hein, podem dizer.

—Que saudade, Dimitri… Você não tem aparecido por aqui. – Alicia, a oriental de óculos, jogou os braços sobre meus ombros. – A Di está procurando uma boa transa há meses, sabia? O namorado dela não dá conta do recado, sabe. Acho que você é o felizardo!

— Vai se foder, Alícia. – Dianne rangeu os dentes para a amiga.

— O que foi? Preocupada com a concorrência?

— Imbecil. – Dianne pediu uma bebida do bar e foi conversar com Celeste.

Elas estão brigando por mim ou é impressão?

— Então, sumido… Por que não veio mais me ver?

— Ah… Trabalho! É, ando meio ocupado.

— Hum… É um desperdício um rosto tão bonito ter que trabalhar. – Agora ela exagerou. Eu não sou tão bonito assim, existe um limite. – E hoje, vai ter que trabalhar… ou pode se divertir um pouco comigo?

— Ô mocreia! – uma quinta voz, muito familiar, também surgiu do nada e tirou os braços de Alicia de mim. Joey, com seu ar infantil e as roupas de adolescente, passou o braço na minha cintura, atraindo a atenção de Celeste e Dianne. – Tira as patas do meu macho que eu não te dei essa liberdade?

— Vocês transaram uma vez, ele não é seu macho! – Alicia rebateu.

— Sua recalcada, só porque ele não quis nada contigo! Aceita que dói menos, querida.

— Cala essa boca!

Meus olhos encontraram os de Dianne e ela entendeu meu pedido silencioso: Por favor me tira daqui!

Discretamente, enquanto os dois batiam boca e Celeste ia ao bar pegar alguma coisa, nós escapulimos para a pista de dança secundária, aquela com o palco ao fundo que, novamente, estava desativado. Diferente da pista de dança primária, ali a quantidade menor de corpos permitia que nos movimentássemos com mais facilidade. Dianne pediu permissão antes de colocar os braços em meus ombros e nós dois rimos, dançando um pouco mais devagar do que a música pedia.

— Um cara rejeitou a Alícia hoje. Disse que só se aproximou dela pra poder ficar comigo. Por isso ela tá tão… insuportável.

— Isso explica muita coisa. Você tem muita paciência com ela

— A gente se conhece a muito tempo, me acostumei. – o sorriso sincero de Dianne me pegou desprevenido. Ela aguentava alguém com uma personalidade bem desagradável há anos.

Que familiar.

— Seu sorriso é lindo. – ela parou de dançar. – Ah não… Pera… Não só o sorriso, ahn, você também é linda, sabe.

Por um segundo ela não falou nada. Depois, desatou a rir.

— Que foi?

— Cara, alguém já te disse que você é fofo?

— Já, muitas vezes.

Nós dois rimos, as mãos dela pressionando minha nuca. Perdi-me naqueles olhos escuros, nos contornos de seu rosto, sua boca vermelha, seu pescoço… Eu estava tentando não falar, mas não dá mais. Os seios dela. Certeza que já falei deles antes, mas eu queria tanto me perder neles que chegava a doer. Tão perfeitos, querendo sair daquele vestido.

Ela tomou a iniciativa, segurando meu rosto e ficando na ponta dos pés. Huuum, gloss de morango. Minhas mãos seguraram as laterais de sua cintura, apertando. Ela suspirou nos meus lábios e agarrou meu cabelo, aquele corpo macio de mulher despertando cada centímetro meu. A música agora estava mais alta, mais rápida, frenética. As pessoas dançavam, enlouquecidas, tentando conversar umas com as outras aos gritos. O ritmo acelerado ameaçava me fazer perder o juízo.

O beijo não parava um só instante, agora mais úmido e sedento. Dianne puxou meus cabelos com um pouco mais de força e aí foi minha vez de suspirar, descendo uma de minhas mãos para sua coxa e subindo a outra para seu pescoço. Ela agarrou minha camisa preta como se quisesse tirá-la, mas se conteve. Estávamos no meio de uma multidão, então talvez começar a tirar as roupas um do outro deixasse ela desconfortável.

— Vem cá. – falei sem fôlego e a levei para as escadas e depois para o andar superior. Não entrei em nenhum dos quartos, não queria forçar demais. Coloquei-a contra uma parede, brincando com seus cabelos coloridos enquanto a encarava. – Pode tirar.

A frase ambígua a fez sorrir e logo eu não usava mais camiseta.

Recomeçamos o beijo, meu corpo um pouco suado se grudando ao dela. Dianne passou as mãos macias por minhas costas e sufocou uma exclamação. Por favor, não diga nada. Por favor, por favor. Ela pareceu ouvir meus pensamentos e não comentou sobre minhas marcas de arranhões e antigas queimaduras, frutos de meu relacionamento com… vocês sabem quem.

Segurei uma de suas coxas por baixo, erguendo sua perna na minha cintura. Ela se apoiou na parede e cortou o beijo, erguendo o queixo de forma sugestiva. Lambi os lábios e, depois de dirigir a ela meu olhar mais sádico, beijei profundamente seu pescoço, chupando com intensidade. Ela gemeu no meu ouvido, se contorcendo em meus braços. Apertei mais sua nuca e ela arranhou minhas costas, mais entregue do que nunca.

Pressionei minha coxa no meio de suas pernas abertas e por um momento ela ficou estática. Parei um pouco, me perguntando se tinha ido longe demais, mas tudo que ela fez foi estremecer.

E se insinuar contra a minha coxa.

— Ah… – ela mordeu o lábio quando meus beijos chegaram à base de seu pescoço, sem parar de descer.

E descer.

E descer.

— Então… Di e Dimi? Licença? Oie? – Celeste nos interrompeu, um sorriso sem graça e um temor nos olhos. Eu e Dianne nos afastamos, ela ajeitando as roupas e eu colocando de volta minha camisa. Saaaaco.— Eu não queria interromper, acreditem, mas a Alicia contou pro Jack que o Dimitri apareceu aqui e bom… Ele tá vindo aí.

— Agora é certeza, eu mato ela. Meu namorado. – Dianne acrescentou, percebendo que eu não entendia nada. – Ele mora perto daqui… Ela deve ter contado como você é e ele vai estar furioso… Não dá mais, vou terminar com ele.

— Finalmente! – Celeste comemorou. – Mas até lá, é melhor o boymagia ruivo sumir de novo.

— Dimitri… Ah…Como eu digo isso…

— Tudo bem, relaxa. Não se preocupa, eu volto outro dia.

O que eu realmente queria dizer: Eu tô muito perto agora, não faz isso comigo.

— Posso… posso pegar seu número? – não consegui dizer não para aquele rostinho lindo e passei o número de um celular provisório.

— Droga, Di. – Celeste apontava para o andar de baixo. – Ele já chegou. Vai vir direto pra cá.

— Dimitri, foge pelos fundos. É sério! – acrescentou para minha cara de “sério?” e já foi me empurrando. – Última porta do lado esquerdo, aqui está a chave. Abre a porta do que seria um banheiro, tem uma escada de emergência.

Dei uma olhada no tal namorado antes de correr para a porta. O cara era enorme, sem condição de vitória para o pobre Matt. Fiquei pensando, se um cara como ele não conseguia dar conta de Dianne… que chance eu tinha?

Nunca reparei como o lado de trás da Perdition era escuro. Enquanto a entrada brilhava de luzes, vozes e juventude, a rua de trás no meio da madrugada parecia ter saído de um filme de terror. Sombria e quase silenciosa, a ruazinha vazia cheirava mal.

Um cheiro… de putrefação?

Meu estômago deu voltas. De onde vinha aquilo? Quanto mais eu andava, mais intenso ficava o fedor. Quando identifiquei que vinha de uma lixeira, fiquei na dúvida sobre o que fazer. Claro que os fluidos tirados da Perdition seriam nojentos, mas aquilo era demais. Aproximei-me com cuidado, procurando alguém pela rua.

Minha curiosidade foi responsável pela minha sessão de vômito horas depois.

Dentro da lixeira, pedaços que um dia pertenceram a um ser humano se encontravam jogados de qualquer jeito, como se fizessem parte do lixo. Uma perna e um braço, o que antes era um tronco todo revirado por dentro. A cabeça, sem os olhos, a boca aberta com vários dentes faltando.

Mello teria ficado para investigar a possível identidade do morto e descobrir quais órgãos faltavam.

Eu tomei a atitude mais corajosa e máscula de toda a minha vida.

Saí correndo.

E depois liguei para a polícia.

07/07

— Caster… O que aconteceu com você?

Quando cheguei no local em que ele combinou para conversarmos, Caster limpava seus óculos de sol. Seu olho esquerdo agora não passava de uma massa inchada de roxo e preto. Ele se apressou a cobri-lo de novo.

— Briga com ex-namorado.

— Eu nem sabia que você tinha namorado! – pedi duas cervejas e guardei o celular no bolso.

— E quem disse que foi com o meu?

Não entendi o que Caster quis dizer com aquilo, mas resolvi não perguntar. Ele estava mais irritado que o normal e não era da minha conta, certo? Fiquei na minha.

— Nossa, acabei de lembrar. Nem tive chance de perguntar se você gostou do puto. Gostou?

— Que?

— O puto. Da Perdition. — ao ver que eu não entendia nada, ele insistiu. – Cabelo preto, cara de criança, delineador, roupas bregas.

— Pera, o Joey é um prostituto?

Ele gargalhou tão alto que algumas pessoas viraram a cabeça para olhar.

— É claro que é! Quando fui no banheiro com ele, paguei um programa pra você. Depois de um boquete pra mim, claro. Mas e aí, como foi?

Agora que eu pensava no assunto, lembro-me vagamente de algumas coisas que ele disse quando entramos no quarto vermelho. Coisas como “Há quanto tempo eu não tenho um cliente assim...”,Quem manda aqui é você. É só dizer... Que eu obedeço.” e “Eu posso fazer o que você quiser. Posso ser quem você quiser”

Fiquei com vergonha de dizer que não lembrava muita coisa.

— Foi ótimo. Valeu mesmo.

— Que isso. – ele virou a garrafa de cerveja e tomou bons goles. Definitivamente Caster estava diferente. Menos elegante, menos divertido. Mais curto e grosso.

Também, depois de levar um soco no olho… Até eu.

— Matt, eu preciso falar sobre coisa séria agora. Sabe...aquele corpo?

— Hum? Que?

— Acorda pra vida, Matt! Aquele corpo que você encontrou na lixeira uns dias atrás, lá na Perdition?

— O que tem ele? – inclinei-me na cadeira, mais atento. Aquilo saiu em muitos jornais e uma investigação foi aberta para apurar o caso.

— Aquele cara era um dos nossos. Mark. Foi recentemente convocado por Mello, foi promovido. Sei exatamente por que Mello mandou ele por lá, mas o cara foi descuidado… Bom… – ele deu um sorriso fraco. – Na verdade nós dois sabemos.

Não disse nada sobre aquilo. Mello continuava me espionando. Eu não podia acreditar.

—Traficantes de órgãos… Era só o que me faltava. Não sei quem são os responsáveis, mas vou descobrir. – Caster me olhou sério. – Fica um tempo sem ir na Perdition, algumas semanas pelo menos. Não vale a pena se arriscar.

Fiquei na dúvida sobre como responder. Mais do que medo de ser atacado e morto, eu queria entender de verdade de quem vinha aquele conselho.

De Caster, que se preocupava de verdade com a minha segurança...

Ou de Mello, que queria me deixar sozinho?

Notas finais
¹Erotic Spanking, termo usado para designar punições físicas, principalmente palmadas. (Qualquer coisa, dá uma pesquisada no Google, seus pervertidos e suas pervertidas ). Só pra constar... O próximo capítulo já está pronto.