Stalemate II.
13 XIII. 16/06/20XX
Notas iniciais
Não faço a menor ideia de quando fui arrastado para fora daquele banheiro. Só me dei conta de que não estava mais lá por causa do balançar do porta malas do carro onde eu me encontrava. Abri os olhos devagar, tentando me acostumar à escuridão. Ugh, era tão quente lá dentro que eu preferia estar morto. Um dos vários motivos pelos quais eu sinto falta da Inglaterra: esse calor do inferno inexiste.
Eu não conseguia me mover. Agora eram algemas que prendiam meus pulsos. De novo algemas. Acho que peguei trauma delas.
Abri os olhos em um impulso. Mello. Carta. Tiros. Sid. Navio. Eu estava sendo levado embora.
Chacoalhei-me uma vez, chorando com a dor. Puta merda. Eu não tinha saída. Estava cansado, física e psicologicamente. Parei de lutar e deixei que o carro me levasse.
Estava quase dormindo quando ouvi disparos. Contei oito antes de perder a conta. Vinham de todos os lados, cercando-nos, tentando atingir o carro e possivelmente nos eliminar. Arregalei os olhos. Teria Salazar descoberto que Sid não cumpriria suas ordens de me matar? Estaria ele vindo fazer o serviço por conta própria?
Algo pesado, provavelmente outro carro, se chocou contra a lateral do nosso veículo e eu fui arremessado para cima, batendo a cabeça. Gritos, insultos, tiros e o som de carros derrapando. Paramos com um tranco, depois de deslizar vários metros como um bêbado desgovernado.
Depois do que pareceu uma eternidade, o porta malas abriu. Fechei os olhos diante da súbita claridade, esperando o disparo que a qualquer momento tiraria minha vida.
–Troquem o carro antes que a polícia chegue! E eu já disse pra você deixar essa lata velha aí, Lúcio! — mesmo com aquele pano tosco amarrado em minha boca, tentei sorrir ao ouvir aquela voz. — Você está um lixo, querido. Tingir os cabelos com o próprio sangue não faz bem para os fios.
Ele, com a ajuda de Lúcio, ergueram-me de uma vez nos braços. Fui levado até o banco de trás de outro carro, desta vez com delicadeza, e tive as algemas cortadas por um alicate grosso, como aquele usado por policiais para destruir correntes. A mordaça foi levemente tirada da minha boca e usada para limpar o ferimento em minha testa que novamente abrira. Sorri torto para o homem cujo colo me servia agora de travesseiro.
–Oi Caster.
...
18/06
–Agora que você está em condições de falar... Vamos direto ao assunto. Que ideia imbecil foi essa de escrever uma carta para o loiro?
O corte em minha testa fora mais fundo do que eu imaginara a princípio. Isso, somado às minhas dores no corpo e principalmente ao latejar em meu pulso mal curado, deixaram-me meio morto por dois dias e duas noites. Depois disso, Caster sentou-se na ponta da cama onde eu estava — na casa dele — e começou o interrogatório.
–Foi um ato impulsivo e besta.
–Isso eu já sei. Quero saber o que você escreveu na carta.
–É particular.
Ele suspirou e sorriu para mim.
–Lembra o que você me disse, Matt, vários anos atrás, sobre a vida ser como um vídeo game?
Pensei um pouco antes de responder.
–"A vida é só um jogo. E eu sou o melhor jogador que você vai conhecer."
–E que tipo de melhor jogador fica se lamuriando pelos cantos só porque levou um fora do namorado? Sério, às vezes parece que você não conhece o Mello. Você quer a atenção dele? Provoque-o. Faça-o vir até você.
–Por que não me conta o que está acontecendo? — perguntei baixinho, surpreso com a tristeza em minha voz. — Você pode não saber de tudo, mas sabe mais do que eu, Caster, e nem tenta mentir. Eu tô cansado. Não sei se quero ajudar Mello ou mandar ele pra puta que pariu.
–O que aconteceu três dias atrás foi uma puta má sorte. Se...uma certa coisa...não tivesse acontecido, você teria se encontrado com Mello e teria resolvido tudo...ou quase tudo. Talvez o que você precise mesmo seja um tempo longe dele.
–Talvez.
Percebendo meu desânimo, Caster foi até outro cômodo pegar uma mochila e uma água.
–Eu te segui o tempo todo, sabia. Sei onde é o motel em que você se instalou. Subornei o dono e peguei suas coisas. — disse me estendendo a mochila pesada. — Quando vi o Sid e aqueles monstros na rua do esconderijo do Mello, pensei em intervir, mas eu estava sozinho. Por sorte estava te seguindo de moto. Eles nem me notaram. Pude fazer algumas ligações e trazer todos que eu precisava para te resgatar. Infelizmente aquele bruto não estava no carro que te levava para o porto. Não sei onde ele está agora.
–Tudo bem. Obrigado.
Ele abriu a mochila em meu colo e remexeu lá dentro, tirando os goggles alaranjados que há dias eu não usava.
–Isso não saia da sua cabeça quando você era mais novo. Tenho saudades daquela época.
–Comprei esse aí tem uns dois anos... Mas não posso mais sair usando ele por aí. Não tenho mais idade pra isso.
–Nossa, se com 25 você já fala desse jeito, vai estar de bengalas quando chegar na minha idade.
–Espero morrer bem antes de ficar velho e feio desse jeito.
–Pra sua informação... — ele ergueu uma sobrancelha, divertido, e bateu na minha cabeça com uma almofada. — Eu não sou assim tão velho. E tenho uma pele de pêssego.
–Ressecado, só se for.
Mais espancamentos de almofada e uma sombra de sorriso se formou em meu rosto.
–Ei, você usava umas luvas também, não usava? Que vinham até aqui? — ele indicou o fim do antebraço e início do braço com os dedos.
–De vez em quando, é. Fica ridículo em mim agora.
–Mello ainda usa as dele às vezes.
–É, mas são curtinhas, até o pulso. Bem mais discreto.
–Pelo menos em alguma coisa ele tem que ser discreto.
Agora eu sorria mais abertamente, feliz em poder conversar sobre coisas mais leves.
–Como vocês mudaram nos últimos anos... — ele passou a mão nos meus cabelos e, por instinto, eu me encolhi levemente. — Mello não é mais aquele magricela que com 17 anos saía furioso daquele orfanato e vinha arrebentar a porta da minha casa com o pé. Ele ficou forte, ganhou alguns músculos, perdeu os traços femininos que eu adorava e envelheceu 50 anos em 8... Já você, não é mais aquele bebê chorão cuja toda existência girava em torno do loiro. Você pensa por si mesmo. Age por si mesmo. Tem desejos e ambições diferentes de Mello. Ganhou barba! — ele passou as mãos no meu queixo, o que me fez perceber a coceira que a barba rala me dava. Mello sempre se gabava por ter tido barba antes de mim, mas ele nunca deixava crescer então eu rebati que não contava. O máximo de tempo que ele deixou sem cortar foi quando eu fiquei no hospital da Wammy's, o que não era muito. A lembrança me trouxe um sorriso. — Como vocês cresceram rápido. — Caster virou o rosto para o lado, fingindo que chorava audivelmente.
–Palhaço.
–Também te adoro. — ele olhou para o relógio, que marcava seis da tarde — Ugh, não vamos chegar a tempo se sairmos agora...— e voltou a me olhar e me cobrir com um cobertor. — Dorme, Matt. Amanhã a gente vai sair cedo.
–Vamos pra onde?
–Bom... Não lembro se já mencionei isso, mas estou te seguindo desde que você saiu do esconderijo de Mello, na primeira vez. E aquela boate... Perdition ...Ah, aquilo é um pedaço gigantesco de mal caminho. Vou lá amanhã sem falta, dessa vez sem ser a trabalho. E você vai comigo.
–Mas é longe daqui... São horas de viagem e eu não estou no clima.
–Eu vou dirigindo e você vai tomar quantos remédios pra dor precisar. — ele tirou a mochila da minha mão e obrigou-me a deitar na cama. — Agora deita aí e dorme. Amanhã será inesquecível.
19/06
Quando vi o letreiro gigante, quase tirei Caster do volante e saí voando dali.
–Esse lugar é o céu na terra. — ele já tirava o cinto e saía batendo a porta do carro.
–Eu não sou religioso... Mas duvido que algum céu seja descrito como um aglomerado de pervertidos.
Ele já corria na frente, como uma criança, na direção da fila que se formava do lado de fora. Diferente do sábado em que eu estivera ali, aquela noite estava mais vazia, mas ainda assim lotada. Havia muito mais mulheres do que antes, tanto sozinhas como com namoradas e namorados. A música que preenchia meus ouvidos não possuía letra e quando as pessoas passavam na rua, mesmo que estivessem indo em outro direção, a maioria cedia aos encantos da Perdition e entrava na fila.
–Que dia é hoje? — perguntei ao me colocar do lado de Caster que, apesar dos seus 34 anos, aparentava no máximo 28.
–19. Sexta.
–Ei, hoje é o nosso dia.
Ele franziu o cenho.
–Como assim?
Sorri de lado.
–Você vai ver.
A fila diminuía rapidamente. Conforme as coisas esquentavam lá dentro e as pessoas subiam para os quartos no segundo andar ou saíam para motéis próximos, os seguranças deixavam mais gente entrar. Hoje havia uma coisa um pouco diferente: somente os mais bonitos e mais belas entravam. Os com uma aparência mais... Exótica... Ficavam do lado de fora. Talvez os clientes tivessem reclamado e a boate resolvera adotar esse sistema. Aprovei totalmente.
–Caster. — aproximei-me para falar com ele, subitamente consciente de como estávamos visíveis naquela fila. — Quando Sid me sequestrou, ele me contou algumas coisas.
–Sim, você me contou na vinda pra cá.
–Então... Ele disse que sabia de muita gente que me mataria em nome de Salazar. E a essa altura, todos sabem que você trabalha pro Mello. Não é perigoso a gente ficar à vista assim?
–Um pouco... — ele colocou a mão no bolso e tirou um cigarro e um isqueiro. Vendo que meus olhos acompanhavam os objetos e que eu engoli em seco, ele os guardou. — Vamos tomar cuidado. A minha casa é segura, mas não é bom você ficar lá por muito tempo. Eu recebo visitas com frequência e se Mello descobrir que você está lá, ele vai me matar.
– Por quê?
Ele me olhou incrédulo.
–Ciúmes, é óbvio!
–Sério?
–Bom, não sei. Mas não quero arriscar. Acho melhor você ir trocando de um hotel para o outro, como estava fazendo antes... Oba, nossa vez!
Chegamos ao início da fila. Os seguranças não eram os mesmo, mas ambos me olharam e me deixaram entrar assim que paguei a entrada (mais barata em relação ao sábado). Caster veio logo em seguida, sorrindo e com um papel na mão.
–Peguei o telefone do mais alto, haha!
–Você não perde tempo.
Passamos pelo corredor minúsculo que dava acesso à pista de dança principal e entramos no mar de pessoas. Como eu disse antes, não estava tão insuportavelmente cheia como no sábado, sendo possível caminhar entre as pessoas em vez de ser brutalmente empurrado por elas.
Novamente, eram dez pequenos palcos para dançarinos, cinco de cada lado, dessa vez cinco lindas mulheres do lado esquerdo e cinco dos homens mais gostosos que eu já havia visto do lado direito. Os dez eram colírios para os olhos. Três dos palcos das mulheres eram para pole dance e elas dançavam com habilidade, subindo e descendo como se fosse a coisa mais fácil do mundo. Uma delas, loira de olhos mel, percebeu que eu a olhava e sorriu, rebolando mais lentamente. Era hipnótico. Caster me puxou para o outro lado, onde os homens dançavam, e eu me vi encarando praticamente o elenco de Magic Mike. Um dos dançarinos tinha uma cadeira sobre o palco e olhava ao redor procurando um ajudante. Quando seus olhos pararam em mim e seu indicador apontou para meu rosto, eu gelei. Puta que pariu.
–O ruivo. — ele tinha um voz grossa que, vergonhosamente admito, me deu tesão.
Eu estava pronto para recusar e fugir o mais rápido dali, mas mãos desconhecidas me empurraram e logo era tarde demais. Eu estava sentado na cadeira, um holofote em meu rosto e pelo menos sessenta pessoas me observando enquanto o dançarino, um homem negro de cabelos enrolados escuros e curtos e olhos de um castanho claro, ficava em pé à minha frente com os braços cruzados e me encarando. Se ele queria me deixar intimidado, funcionou perfeitamente.
Vejam, quando eu era mais novo, sempre fui muito introvertido. Eu não gostava de sair de casa ou de ter que falar com as pessoas, preferindo mil vezes ficar no quarto com meu lindo vídeo game. Quem me ensinou a ser mais participativo, ironicamente, foi Mello, a pessoa que menos sabe conviver com os outros. Ele me explicou sobre como tirar informações dos outros, como simular uma amizade, ensinou-me a quantidade de informações que uma conversa em grupo pode gerar, mas absolutamente nenhuma de suas simulações me preparou para aquele momento.
Primeiro o dançarino começou a andar em volta da cadeira, contornando o palco circular. Sempre me olhando. No meio do caminho, quando estava fora do meu campo de visão, ele depositou as mãos sobre meus ombros, massageando ao ritmo da música. Uma de suas mãos desceu, deslizando pelo meu torso, enquanto a outra se ajeitou na parte interna da minha coxa, abrindo minhas pernas para todo mundo ver. Como era de se esperar, a "plateia", que parecia ter aumentado de tamanho apesar de muitas pessoas estarem dançando próximas aos outros palcos, fez um escândalo, fazendo pedidos como: "tira a calça dele" ou "fode ele". Eu não sabia se me sentia com vergonha ou com tesão, então me limitei a rir e olhar de lado para o dançarino, que apoiava o queixo em meu ombro.
–Eu estou a trabalho agora... — ele falou no meu ouvido enquanto suas mãos brincavam com o zíper e o botão da minha calça jeans preta. Eu esperava que ele passasse a mão por dentro da minha regata vermelha escura (que Caster me forçou a usar), mas ele não o fez. — Mas se quiser mais tarde... — ele tirou uma caneta fina de dentro da bermudinha colada e anotou um número de celular na palma da minha mão direita.
–Claro. — respondi, fazendo um sorriso maior aparecer no rosto dele.
Ele deu a volta, ficando de frente para mim e de costas para as pessoas. Sua mão passeava pelos cabelos escuros enquanto ele dançava, tanto para mim quanto para as pessoas que estavam atrás. Eu nunca vi alguém com tanto controle do próprio quadril. O cara se movia com tanta sensualidade que até outros dançarinos viravam a cabeça para olhar.
As pessoas começaram a jogar dinheiro no palco. Não era dinheiro de verdade, apenas umas notas falsas que, muito provavelmente, os frequentadores compravam com dinheiro real em algum lugar na entrada. O dançarino pegou algumas notas no chão e, depois de sair da frente do público, jogou-as em cima da minha cabeça. Pegou então minha mão esquerda e, com cuidado e de forma que todos pudessem ver, beijou as bandagens que circulavam em meu pulso.
Ele então ajoelhou-se na minha frente, separou meus joelhos e ergueu minhas pernas, colocando-as em seus ombros. Novamente, a audiência se agitou e aumentou a quantidade de dinheiro no palco. Ele massageou minhas coxas, segurou meu quadril grudado em seu rosto e, com uma força que me assustou, ficou de pé.
Tenho quase certeza de que gritei. O dançarino era muito alto, ainda mais alto do que eu, então em um reflexo eu segurei a parte de trás da cabeça dele, deixando seu rosto colado ao... Bem, vocês sabem onde.
–Também quero! — em meio à música e às vozes, o pedido de uma mulher se destacou e ele com cuidado me colocou no chão e deu um tapa na minha bunda para que eu saísse do palco. Tinha muita gente querendo a atenção dele.
–Seu filho da puta sortudo. — já no meio da multidão, enquanto eu estava parado para me recuperar do choque, Caster surgiu ao meu lado, empurrando-me na direção do bar. — Como eu queria ser usado daquele jeito.
–Eu nunca me senti tão passivo na minha vida. Foi horrível. — ele me obrigou a sentar nos bancos ao redor do bar e acenou para a barmaid, que estava de costas.
–Ah cala a boca que eu sei que você é flex. Oi amor. — ele acrescentou quando a barmaid, Dianne, aproximou-se.
Eu a conhecera quando fora à Perdition pela primeira vez. Cada faixa de seu cabelo era pintada de uma cor diferente, deixando-a com uma aura alegre apesar dos olhos extremamente escuros. Desta vez ela usava uma regata preta de alças finas que por um momento me deixou sem fôlego.
–Olá! — ela cumprimentou Caster com um sorriso antes de se virar para mim. — Ei, você é o cara da outra vez. Como está seu pulso?
–Melhorando. — mostrei as bandagens recém-trocadas e ela assentiu.
–Eu te vi lá no palco. Adam é maravilhoso né. — ela comentou com um sorriso de lado, como quem diz algo com duplo sentido. — Acabei de me lembrar de que não sei seu nome. O meu, como deve ter ouvido, é Dianne.
–Meu nome é Dimitri. — falei depois de pensar um pouco. Pude sentir a expressão desacreditada de Caster, mas não me atrevi a olhá-lo.
Vejam, de acordo com Sid, além de Salazar, havia pelo menos uma centena de pessoas à minha procura. Apesar de que eu me recusava a pintar cabelo para criar um disfarce melhor, se alguma das pessoas, claramente uma menos cuidadosa, aparecesse ali perguntando sobre um Matt, essa seria despistada. Claro que se fornecessem características físicas minhas eu estava ferrado, mas eu não queria me esconder. Não queria fugir daquele desgraçado.
–Que lindo.
–O nome?
–Também. — ela sorriu para mim e, depois de perguntar o nome de Caster, que se apresentou como Ethan, e olhar para os lados, se inclinou para falar com nós dois. — Eu e uns amigos vamos organizar uns joguinhos em um dos quartos lá em cima. Vocês querem participar?
–Claro! — Caster respondeu antes que eu pudesse pensar na pergunta. Sem saída, assenti com a cabeça. Ela sorriu.
–O meu turno acaba em 20 minutos. Vocês podem ir na frente se quiserem.
–Nós vamos esperar. — falei antes que Caster abrisse a boca.
–Ah! Nosso dia. Agora entendi. — segui o olhar dele até o gigantesco cartaz na parede, em que cada dia da semana era dedicado a um grupo da comunidade LGBT.
Perdition
.Domingo – Gays
.Segunda – Lésbicas
.Terça – Transexuais
.Quarta – Travestis
.Quinta – Transgêneros
.Sexta – Bissexuais
.Sábado – RESPECT
–Não tem nada melhor do que ser bi, né? — ela abriu um sorriso ainda maior. Um cliente a chamou e ela foi atender.
–Por que você concordou? — falei ríspido para o moreno ao meu lado, que tirava um pote pequeno de gel do bolso da calça e arrumava o topete.
–Matt... Ou melhor, Dimitri...Você tem que relaxar um pouco, cara. Ela tá afim de você.
Baixei os olhos para meu colo. De que adianta? Não é ela quem eu quero.
Os 20 minutos passaram voando e logo Dianne vinha até nós com uma garrafa dourada de tequila em uma das mãos e garrafinha menor com um líquido azul que eu não conhecia.
–Cuidado pra não se perder!
Ela foi à frente, guiando-nos por todos aqueles corpos. Dezenas de pessoas caminhavam do bar para a pista de dança secundária — a que possuía um palco, ainda inutilizado, no fundo — e vice-versa. A música agora era outra, mais agitada, mais rápida, com intervalos de ritmo mais curtos. Uma fumaça vinda do teto começou a descer lentamente, alcançando cada cantinho do ambiente. Não tinha cheiro algum, apenas um leve tom rosa. Poderia ser apenas algum efeito especial, mas se assim fosse, a fumaça não deveria vir do chão? Por via das dúvidas, prendi a respiração e cobri o nariz e a boca. Depois eu pensaria naquilo.
Chegamos às escadas que levavam ao andar de cima e subimos. Agora eu podia ver a roupa completa de Dianne: a blusa preta de alças finas, um micro short branco e uma bota preta plataforma de cano curto, além de uma tornozeleira dourada na perna direita. Caster também a olhava, mordendo o lábio.
No andar de cima, depois de acenar para o DJ, Dianne andou até a metade do corredor e bateu duas vezes em uma porta antes de abrir.
–Todo mundo vestido aí dentro? Eu trouxe mais dois.
Ela entrou primeiro e eu fui logo atrás. O quarto era grande, com uma cama de casal, um sofá comprido, um frigobar que batia na minha cintura, um tapete branco macio perto da porta e uma pequena cômoda com três gavetas. Só imagino o que havia lá dentro. As quatro pessoas no cômodo se viraram para nos olhar. Duas estavam na cama, uma no chão e a outra no sofá.
–O ruivo é meu, já avisei. — uma oriental de cabelos negros longos e lisos me dirigiu um sorriso. Ela usava óculos com a armação azul e brincos brancos. Ambos pareciam muito caros. Suas roupas também diziam que ela pertencia a uma classe social elevada e suas unhas pretas meticulosamente bem cuidadas demonstravam que ela não trabalhava.
–Essa ridícula é a Alicia. — Dianne explicou. Logo ela apontava para os outros. — Hugo. — um homem de cabelo castanho com uma barba rala, olhos escuros, alto e musculoso, feições mais quadradas. Ele estava no sofá, lendo um livro de economia. Desviou os olhos do objeto para nos dar oi.— Celeste. — uma loira maravilhosa, de olhos muito claros. Os cabelos tinham um corte moderno, bem curto e as roupas, apesar de não serem de marca, se ajustavam muito bem a ela. Se eu tivesse que chutar, diria que era estilista. Ela dividia a cama com o segundo homem da sala, que Dianne apresentou por último. — E Joey.
Esse era moreno e tinha um ar mais infantil. Talvez fosse o sorriso ou as roupas de adolescente. A fina camada de delineador ao redor de seus olhos azuis era curiosa, mas longe de ser exagerada. Fora isso, não parecia estar usando maquiagem. Ainda assim, a figura chamou-me a atenção. Qual seria a profissão dele?
Respirei fundo e saudei todos na sala. Caster tinha razão. Eu precisava relaxar. Aquela maldita mania que eu pegara de Mello, que consistia em tentar decifrar tudo ao redor com um olhar era de deixar qualquer um maluco.
–Vamos começar com o que? — Hugo, o musculoso provável estudante de economia, perguntou assim que eu e Caster fomos apresentados e terminamos de ter uma conversa rápida com todos.
–O clássico. — Dianne respondeu enquanto todos se acomodavam no chão em um círculo. — Verdade ou desafio.
–Sério mesmo?
–Aham. Quem for pego na mentira ou recusar o desafio, vira um. — ela encheu um pequeno copinho com uma dose da tequila dourada e colocou no centro da roda. A asiática, Alicia, e a loira, Celeste, olharam para mim, para o copo e depois trocaram olhares, como se tivessem pensado na mesma coisa. — Na próxima a gente começa com uma orgia, fica triste não. — ela pegou a garrafa menorzinha e colocou algumas gotas do líquido azul desconhecido, que se misturou à bebida. Registrei aquilo mentalmente. —Já que você parece tão ansioso em não jogar, você começa. Verdade ou desafio?
Ele revirou os olhos.
–Verdade.
–Di, posso perguntar essa? — Joey, o moreno de olhos claros que parecia o mais jovem do grupo, aproximou-se de Hugo. — É verdade que, apesar de se dizer suuuper hétero, você já comeu o Adam?
–Que? Claro que não!
–Mentira! — Celeste se intrometeu, rindo como os outros. — Ele me contou que você foi a pior transa dele.
–Só na cabeça daquela bicha louca eu foderia ele.
–Ele também comentou algo assim comigo, Hugo. — Dianne falava de uma forma que eu não sabia dizer se era realmente verdade. — A maioria vence. Pode virar.
Hugo tomou, contrariado. Parecia que tinha bebido água.
–Sua vez então Joey. — Hugo perguntou com uma sobrancelha erguida.
–Desafio.
–Beija a Alicia.
O moreno de olhos claros fez uma expressão de nojo, como se tivessem pedido que ele bebesse água sanitária.
–Encostar a minha boca maravilhosa em uma baranga? Não, obrigado. — ele tornou a encher o copo e colocar algumas gotas do líquido. Por que não colocavam o pequeno líquido logo na garrafa grande? Talvez isso diluísse o efeito... Qualquer que esse fosse.
Alicia o chutou na cintura com o salto do sapato preto. Ele riu e varreu o quarto com os olhos.
–Que tal você... Dimitri? — engoli em seco. Precisava tomar cuidado.
–Verdade.
–Assim não vale. — Celeste interrompeu. — Se ele mentir, não vamos ter como provar.
–Se ele mentir, eu conto. — Caster deu um sorriso a ela, que mordeu o lábio e assentiu.
–Não se preocupem. Nós vamos saber se ele não falar a verdade... — Joey lambeu lentamente o lábio superior, olhando-me de tal maneira que eu não pude deixar de encará-lo de volta. — Dimitri, você é realmente ruivo?
–Claro.
–Não acredito. — ele sorriu. — Prova.
Olhei para o lado, rindo constrangido. Eu não conhecia aquelas pessoas. Não fazia a menor ideia do que estava fazendo ali. Parte de mim, a que correspondia ao Matt mais novo, queria sumir daquele quarto e se trancar em casa com salgadinhos, vídeo games e um bom pornô.
A outra queria abrir o zíper na cara de Joey.
–É verdade.
–Não sei... — Caster me olhou de lado. — Não posso provar essa.
–Falando nisso, de onde vocês se conhecem? —Alicia perguntou interessada.
–Somos amigos. — respondi sem pensar.
–Só?
–Só. Ele é muito velho pra mim.
–Grosso. — Caster fez uma careta e encheu o copo, passando-o para mim. — É a regra. Não temos como provar, então você bebe.
–A regra é se eu não mentir.
–E nós temos como provar sim... — Joey lambeu os lábios, sem tentar esconder o sorriso depravado que dirigia a mim.
Ponderei a ideia por um segundo e peguei o copo. Caster não colocara o líquido azul nele e, antes que alguém se lembrasse desse fato, virei a bebida na boca.
Era doce, muito doce. Tinha gosto de caramelo. Ainda assim, senti uma ardência intensa no esôfago.
–Isso é um desperdício de tequila. — Caster comentou com um muxoxo. — Cadê a laranja, a canela? Virar desse jeito é totalmente errado.
–Essa é graça. — Dianne sorriu e virou-se para mim. — Escolhe alguém.
Diferente de Joey e Hugo, eu parecia ser o único a ser afetado pela bebida. Era como se uma mini bomba atômica houvesse acabado de pousar em meu estômago.
–Ethan. — esse era o nome que Caster escolhera na hora de se apresentar para todos. Por sorte eu conseguira pronunciá-lo com firmeza.
–Desafio.
–Eu te desafio... a fazer um strip-tease para ela. — e apontei com a cabeça para Celeste, que sorriu.
Hum... Se vocês me permitem, leitores, eu vou poupá-los da maior parte do jogo. Não tem sentido narrar os beijos, boquetes e toda a putaria que se seguiu. Se o fizesse, eu estaria apenas perdendo o meu tempo e o de vocês. Porque não é isso que vocês querem saber. Não é isso que, apesar de não querer, eu preciso narrar.
Depois de um tempo, Hugo e Celeste estavam trancados no banheiro, ela gritando coisas incompreensíveis. Dianne ora fitava meus olhos e sorria, ora babava nos seios de Alicia. Ambas pareciam um pouco alteradas. Joey e Caster tinham ido ao banheiro masculino no corredor da boate, deixando-me sozinho com as duas mulheres.
Meu nome foi escolhido pela quarta vez. Eu já tinha esgotado minha cota de Verdade, então não tive escolha a não ser pedir Desafio. Fiquei apreensivo. Eu tomara três vezes a bebida. Se tivesse que repetir o feito mais uma, talvez vomitaria ali mesmo. Nas duas últimas vezes, fui persuadido a tomar a dose de tequila com as gotinhas azuis desconhecidas. Ainda hoje não sei por que concordei em fazê-lo. Com certeza não estava raciocinando direito.
–Desafio.
Dianne sorriu e engatinhou até onde eu estava. Segurando em meu rosto com as duas mãos, ela sussurrou em meu ouvido tão baixinho que quase não tive certeza de ter escutado direito.
–Me fode.
Meu corpo se arrepiou e eu congelei como um virgem assustado. Fazia uns 10 anos que eu não transava com uma mulher. Eu mal me lembrava de como era. Talvez Caster estivesse certo. Talvez eu precisasse mudar um pouco as coisas. Relaxar.
Ela passou os lábios pela minha bochecha e eu me encolhi um pouco. Ela ia me beijar. Por que aquilo estava me incomodando tanto? Dianne era uma gata, super gente boa e me queria. Então o que estava me impedindo?
–Ei, ei, ei! Pode ir parando aí colorida. — antes que ela conseguisse me agarrar, Joey e Caster entraram no quarto, o mais novo me puxando para trás pelos ombros. — Esse aqui eu quero pra mim.
–Deixa de ser chato. — Alicia reclamou, os olhos quase se fechando. — A Di merece mais ele do que você.
–E para merecer você...— Caster se aproximou da oriental, sentando-se ao lado dela. — O que um homem tem que fazer?
Não me lembro bem do que ela respondeu, nem de quando os dois saíram do quarto, deixando eu, Dianne e Joey sozinhos ouvindo os sons que vinham do banheiro. Joey abriu a última gaveta da cômoda e tirou dois copos minúsculos, do mesmo tamanho daquele que estava no centro da roda. Encheu todos com a Ouro¹ e adicionou duas gotas da garrafinha azul em cada copinho. Senti um arrepio na espinha e um desconforto nas laterais do pescoço. Eu não deveria tomar aquilo.
–Um brinde. — ele ergueu o copinho e Dianne fez o mesmo. — Ao Dimitri e toda a sua... Ruivosidade.
Ela riu e virou o copo de uma vez, balançando a cabeça em seguida. Parecia um pouco tonta, mas ainda assim mais lúcida do que eu.
Joey, assim como eu, não tomou.
–Eu chamei o seu namorado, Di. — ele anunciou antes de se levantar. — Melhor deixarmos eles a sós, Dimitri.
Demorei a perceber que ele estava falando comigo.
–Claro... — quase caí ao chegar à porta, mas o moreno de olhos claros me segurou. Quando chegamos ao corredor, não me surpreendi ao ouvir a música tocar ainda mais alta. Deviam ser três ou quatro da manhã, mas os frequentadores da Perdition não pareciam se importar.
Pensei que iríamos descer as escadas e voltar para o bar ou para uma das pistas de dança, mas Joey me guiou pela mão até uma das portas mais afastadas das escadas. Abriu-a ser hesitar e entrou antes de mim. Não me lembro bem do quarto, só me recordo de uma cor.
Vermelho.
As paredes, a cama, os móveis, tudo era escandalosamente vermelho. Acho que a cama tinha um lençol de seda escarlate e recordo-me de que aquele era definitivamente maior do que o outro quarto, mas não tenho qualquer outra lembrança do cômodo em si.
–Confortável, né?
Tenho quase certeza de que assenti com a cabeça. Ouvi uma risada e baixa e senti uma mão macia me levando até a cama e fazendo-me sentar.
–Dimitri... você é bom em guardar segredos?
Olhei para a porta fechada enquanto Joey a trancava. Bem no fundo de minha mente, uma luzinha vermelha se acendeu. O quarto não possuía janelas e um total desconhecido trancara minha única rota de fuga. Minha visão estava estranha, um tanto desfocada. Era um sinal ruim atrás do outro. Eu precisava escapar dali.
–Joey, abre a porta. — apoiei-me na cama, tentando me levantar, mas o moreno segurou em meu ombro para que eu sentasse.
–Ei, calma. — falou rindo. — Tá tudo bem, só queria conversar um pouco sozinho com você. — os olhos claros passeavam pelo meu rosto e desciam pelo corpo enquanto ele falava.— Desde que você entrou naquele quarto eu fiquei pensando em como e no que fazer se conseguíssemos ficar sozinhos. Do que você gosta, Dimitri? — ele apoiou as duas mãos nas minhas coxas e lambeu os lábios bem vermelhos, olhando diretamente para os meus. — Eu posso fazer o que você quiser. Posso ser quem você quiser.
As mãos dele foram subindo e rapidamente abriram o zíper da minha calça preta, deixando minha boxer da mesma cor à mostra. Eu não me movi. A sensação era única, mas assustadoramente estranha. Era como se, apesar de sentir tudo à minha volta, como o toque de Joey, aquele corpo não fosse meu. O meu eu verdadeiro estava suspenso no ar, ligado por cabos, assistindo uma gigantesca TV que me mostrava o que meus falsos olhos viam enquanto os fios conduziam a sensação até mim. Era quase igual, mas não era a mesma coisa. Porque eu não estava no controle daqueles movimentos. Não era eu quem fora seduzido pelas palavras de Joey. Era Dimitri.
–Há quanto tempo eu não tenho um cliente assim... — Joey falou baixinho enquanto tirava a blusa com rapidez. Quando se dirigiu a mim, já estava sem a peça e arrancava o sapato de um pé com o outro.— Quem manda aqui é você. É só dizer... Que eu obedeço.
Quais foram as palavras de Caster mesmo, no dia anterior?
Que tipo de melhor jogador fica se lamuriando pelos cantos só porque levou um fora do namorado? Sério, às vezes parece que você não conhece o Mello. Você quer a atenção dele? Provoque-o. Faça-o vir até você.
Eu amava Mello. Por mais que tentasse sentir ódio daquele ser desprezível, eu não podia negar que boa parte de mim não se livraria tão fácil daquele sentimento bom que eu nutrira por ele por tantos e tantos anos. Mas aquela parte fora machucada pelo próprio loiro, amassada como a carta que eu deixara em sua porta antes dele partir para sei lá onde como um covarde. Aquele pedaço do Matt, ou do falecido Mail, tinha sido desativada por tempo indeterminado. A bebida estava ajudando nesse processo. E ainda que eu tenha esquecido o arranjo físico daquele quarto, eu não me esqueci da palavra que impulsionou o acontecimento que se sucedeu entre aquelas paredes. Palavra essa proferida por minha própria boca, quatro dias antes.
Acabou.
Ela fora dita alto o suficiente para que Mello escutasse, disso eu não tinha dúvidas. Meu relacionamento com ele, qualquer que fosse, estava oficialmente terminado. Não havia nada que me prendesse a ele. Não havia compromisso e portanto não havia infidelidade da minha parte. Ao contrário dele, eu me levava isso em conta.
Eu me orgulhava de não tê-lo traído.
Mesmo depois de levar um chifre, eu continuava sendo um completo trouxa.
Mas isso não importava mais. Eu estava livre para fazer o que bem entendesse, sem prestar satisfação alguma a ninguém. Principalmente a ele.
Minha última lembrança clara daquele quarto é de sentir um peso em meu colo, mãos em meus ombros e uma língua entre meus lábios.
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