Stalemate II.

12 XII. 15/06/20XX


Notas iniciais
Atualização de Stalemate II? Isso ainda existe? Sim, existe. Desculpa a demora, de novo, mas entendam, eu estava com um bloqueio criativo para a narração do Matt. Se já estivesse na narração do Mello, viria de boa um capítulo por dia kkkkkkkk E não, não posso apressar as coisas e ir para a narração dele. Mas eu consegui sair do bloqueio! Hoje por exemplo escrevi mais da metade do capítulo seguinte. Só hoje, de uma vez kkkkkk yaay A fanfic está se encaminhando para a parte que eu mais queria escrever... Hehe O próximo provavelmente vem segunda feira que vem (sério). Comuniquem-me sobre qualquer erro. Boa leitura ^-^ (LEITORES FANTASMAS SE PRONUNCIEM EU PRECISO DE AMOR kkkkkkk zoa preciso não. Sou gótica das trevas.)

Escrever uma carta é difícil. Você começa sendo coerente, articulando bem o assunto e explicando seu ponto de vista, mas termina dando uma volta gigante e não chegando a lugar algum. Mas escrever uma carta para um Mello completamente pirado enquanto se está furioso com ele é ainda mil vezes pior, já que, se quiser ele de volta, eu preciso tomar cuidado com cada palavrinha que coloco no papel.

Por exemplo, como começar? "Prezado Mello..." muito formal pra quem se conhece a quase vinte anos. "Querido Mello..." muito íntimo, o que seria perigoso caso a carta fosse roubada. "Mello..." ainda muito direto, o que revelaria o destinatário e daria indícios muito óbvios sobre o remetente se a carta fosse perdida.

Decidi-me por um simples "M." inicial.

Mas e depois, o que escrever? Eu não pediria desculpas, recusava-me a me rebaixar tanto. Bancar o papel de trouxa tinha um limite e o meu fora alcançado. Não havia feito nada de errado. Era Mello quem deveria se ajoelhar aos meus pés.

Tudo bem, isso é um pouco de exagero. Ele jamais faria isso. A não ser que fosse me chupar, mas isso não vem ao caso.

Minha raiva por ele era tanta que se eu fosse realmente escrever tudo o que sentia, precisaria de no mínimo umas dez folhas. O modo como ele agira, sendo frio, expulsando-me de casa, admitindo ter outra pessoa para depois colocar Caster para me seguir me deixara louco. Queria saber o que se passava na cabeça daquele lunático e para isso precisava confrontá-lo pessoalmente. Ainda assim, algo me dizia para também lhe escrever os meus sentimentos, o que era uma maneira mais civilizada de me expressar do que bater em sua porta e enchê-lo de porrada.

Passei boa parte da madrugada escrevendo e a outra parte tendo pesadelos. Sonhei com tudo o que podia dar errado no dia seguinte, como o apartamento do Mello pegando fogo, eu surpreendê-lo com alguém na cama ou somente um de nós sair de lá com vida.

Era bem patético da minha parte estar tão preocupado com aquele encontro e eu fiz de tudo para me acalmar na manhã seguinte. Nada, exceto um banho demorado, fez algum efeito concreto. Meu sofrimento por antecipação durou até às 14:00, que foi mais ou menos o horário que eu decidi sair.

Nosso esconderijo era longe de onde eu me encontrava e ainda me perdi no meio do caminho. Mello e sua expressão de repulsa — alucinação de um dos meus sonhos— não saíram da minha cabeça durante o trajeto e eu quase fui levado a acreditar que ele estava certo em me tratar daquela maneira.

Foi uma movimentação mais adiante, após luzes se acenderem na escuridão daquela noite, que me tirou desse transe: os mafiosos responsáveis pela segurança do prédio reconheceram o carro e acenaram de dentro do local, pedindo para que eu me aproximasse e passasse pelos reconhecimentos de digital, retina e voz. Dali me fizeram aguardar enquanto telefonavam — muito provavelmente para Mello— antes de me guiarem ao elevador.

Eu já transara com Mello ali dentro também. O pensamento ajudou a aliviar pelo menos um centésimo da minha tensão.

Chegando no andar certo, pensei ter ouvido um barulho estranho atrás da porta de Mello, que logo foi abafado. Apertando a carta em minhas mãos e considerando se ainda dava tempo de queimá-la, bati quatro vezes na porta e aguardei. Nada. Repeti o processo mais duas vezes.

–Mello, eu sei que você está aí, eu já ouvi. Abre essa porta.

Uma tensão incomum parecia fluir por baixo da porta daquele apartamento, mas muito provavelmente era só minha imaginação.

Passaram-se muitos segundos e quando eu ja ia voltar a esmurrar a porta, ele respondeu.

–O que você quer?

Um arrepio ridículo me percorreu e pela vigésima vez naquele dia eu me senti um idiota. Escrever uma carta com os meus sentimentos para o líder da máfia japonesa? Sério? Quantos anos eu tinha, nove?

–Conversar. — tentei fingir que aquela voz não me afetara, que não acelerara meus batimentos nem me fizera engolir em seco de ansiedade.

Ele não respondeu, mas eu ouvi alguns passos se aproximando da porta. Franzi o cenho. Eu convivia com Mello demais, conhecia-o bem demais. Aqueles passos eram pesados e tinham um ritmo diferente. Não eram dele, eu tinha certeza.

–Quem tá aí? — me arrependi assim que fiz a pergunta. Se o que Mello dissera dias antes fosse verdade, se ele realmente estivesse se encontrando com outras pessoas, não era da minha conta quem estava ali.

Apertei a carta com ainda mais força, prestes a rasgá-la em pedaços. Que idiotice. Como eu fora impulsivo. Não deveria ter ido até lá. Meu plano original era simplesmente arrombar a porta do apartamento e obrigar Mello a me ouvir, intimá-lo a responder prontamente todas as minhas perguntas: "Com quem você está travando uma guerra?" "Por que está me deixando de lado?" "O que eu deixei de fazer para não te merecer mais?", mas não fiz nada disso. Eu nunca fui explosivo, raivoso. Era Mello quem tinha o pavio curto, era ele cuja paciência parecia não existir. Eu sempre fui o civilizado. Naquele momento lamentava minha falta de ódio.

Mais passos do lado de dentro, mas agora eram de Mello. O som era fraco e distante, o que me fez dar vários passos para trás. Alguém estava próximo à porta, do lado de dentro. E não era o loiro.

–Some.

O timbre da voz de Mello era alto, mas frio e eu não pude evitar tremer um pouco. Aquilo estava errado. Eu tinha dirigido até ali na esperança de que pudéssemos conversar, de que ele pudesse me explicar qual era o problema, de que me permitisse ajudar. Durante o banho até imaginara um reencontro idiota, mas feliz, em que ele me pediria perdão e eu pensaria com sinceridade em aceitar.

Mas a realidade me deu uma voadora na cara.

–Eu já disse, só quero conversar. Não vou fazer um interrogatório, nem brigar com você. — minha paciência aparentemente infinita felizmente estava colaborando. Caso contrário eu já teria arrombado aquela porta e também o loiro lá dentro.— Você me deve isso, Mello. Agora abre.

Ele não disse nada e minhas mãos começaram a tremer. Mello não tinha direito de fazer aquilo comigo. Não depois de tudo o que passamos, não depois de todos os anos em que estivemos juntos.

Aquilo não fazia o menor sentido! Eu não conseguia — e acreditem, tentei pra caralho — justificar o comportamento atípico e insuportável dele. Cheguei a cogitar que ele estivesse drogado, apesar de não aparentar nenhum dos sintomas mais comuns, mas Mello nunca fora esse tipo de pessoa. Ele preferia manter a mente limpa para poder pensar com clareza e oferecer drogas, bebidas e quaisquer narcóticos para enfraquecer seus oponentes. Assim, eu ficava sem opções para explicar as atitudes aleatórias dele.

–Não me provoca, Mello. — minha voz agora estava mais grave e perigosa, um calor vindo não sei de onde se apoderando do meu rosto. Aquela porta estava me atrapalhando. Era só aquele maldito pedaço de madeira que me separava do meu objetivo. Queria que aquilo sumisse.

Mais uma vez, fui ignorado.

–Sabe Mello, eu nunca te achei grande coisa mesmo. Lá no orfanato eu tinha certeza de que você jamais ultrapassaria o Near. Ele sempre foi melhor do que você, mais calmo, mais realista, mais inteligente. Ele sim tinha o que era preciso para ocupar o trono de L e fazer dessa droga de mundo um lugar melhor. Não é atoa que agora ele está lá entre as maiores mentes policias do mundo, acabando com pessoas como você uma a uma. E o que o grande Mello fez durante esse tempo todo? Nada além de roubar, matar e se aproveitar dos outros. Você perdeu totalmente aquele objetivo de antes. Agora não passa de um criminoso como qualquer outro.

"Eu te admirava sabia? Muito mais do que ser inteligente ou ter reconhecimento, eu te admirava como pessoa. Você defendia os mais fracos e ajudava os que eram injustiçados, fazia valer o nome de gênio. Mais do que meu amigo, você era um modelo pra mim, seu bosta. Eu queria ser você. Queria ter a sua força de vontade, o seu senso de justiça, o seu poder de persuasão. Mas sempre me contentei em ser a sua sombra e nada mais. E eu fui feliz assim.

“Mas você mudou. Eu não faço ideia de quando e até hoje não sei bem o quanto, mas o Mello que eu conhecia não era cruel. Não assassinava por diversão. Não assistia um inocente ser machucado com um sorriso no rosto. Tem tanta coisa que você fez nesses anos que eu tentei tão fortemente esquecer, mas as evidências não param de surgir nas minhas memórias. Você torturava os prisioneiros na frente dos outros da máfia só para mostrar o que podia fazer se eles te desobedecessem. Você se tornou um covarde."

Naquele ponto eu parei para tomar fôlego. As palavras saiam desenfreadas e eu sequer pensava em contê-las. Eu precisava me abrir antes que morresse engasgado.

–Ah que se foda isso também. Você não ta nem aí pra o que eu digo. — em um gesto de raiva amassei a carta que eu perdera o sono para escrever e joguei no chão. — Acabou. Some da minha vida e não se atreva a mandar um amador me seguir de novo.

Voltei para o elevador — fazendo questão de pisar na carta no processo— e saí sem olhar para trás, desviando dos seguranças de Mello que me olhavam confusos.

Entrei no carro e dirigi por algumas ruas aleatórias, durante quase meia hora, tentando não pensar em nada. Depois desse tempo retornei à rua do esconderijo, ou seja, onde Mello estava, e mantive-me abrigado da luz da rua sob a sombra de um prédio mais afastado.

Vejam, eu tinha me dado ao trabalho de percorrer todos aqueles km do motel onde estava até o esconderijo só para ter uma chance de conversar com Mello. Eu me negava a simplesmente ir embora, só porque ele me mandou fazê-lo. Preferia dar espaço para os dois fazerem o que quisessem fazer — assunto sobre o qual eu pensaria depois e que tentei ao máximo não imaginar—e esperar o maldito desconhecido ir embora para poder falar em paz com Mello.

Se o estranho tivesse passado a noite lá, eu não sei o que teria feito. Na verdade eu nem soube quando ele saiu, pois, vinte minutos depois que estacionei na sombra, três carros saíram em alta velocidade do prédio. As janelas traseiras de todos estavam fechadas e, apesar de serem todos idênticos por fora, eu sabia que somente um deles era blindado. Mello me fizera memorizar, entre outras coisas, os carros que nós utilizávamos e lembro-me de no início ter achado muito estranho que só um daqueles trigêmeos— como ele os chamava— fosse blindado, mas não o questionei na época.

Mello estava no gêmeo blindado, eu podia sentir. Ele estava fugindo, vergonhosamente, de algo que eu nem sabia o que era. Virei a chave na ignição, pronto para segui-lo, quando dois estouros seguidos tremeram meu carro e o fizeram pender para a direita.

Meus pneus haviam sido destruídos.

Abaixei-me no banco e discretamente, mas com um rápido movimento, agarrei a Colt que sempre guardava em meu porta luvas e esperei. Meu pulso esquerdo reclamou de ter que fazer esforço, obrigando-me a trocar a mão que segurava a arma. Não parecia haver ninguém do lado de fora, tão silenciosa aquele pedaço da rua ficou após os tiros. Quem quer que tivesse me parado ou tinha ido embora ou esperava que eu fizesse o primeiro movimento. E eu não poderia ficar dentro daquele carro para o resto da vida.

Abri a porta e, mantendo-me abaixado, joguei-me para fora. Olhei ao redor, mas estava escuro demais para consegui ver alguma coisa. O lado esquerdo do carro, onde eu apoiava minhas costas, estava intacto, mas ao olhar por baixo do mesmo vi o pneu dianteiro e traseiro direitos totalmente vazios. O projétil era sem dúvida potente. Eu só podia imaginar o que poderia fazer com o meu crânio.

Arrastei-me com cuidado pelo chão, tentando ver alguma coisa naquele breu. O asfalto machucava minha barriga, deixando alguns arranhões junto ao hematoma que Mello me dera dias antes. Mais alguns centímetros e eu estava quase na parte traseira do carro, ainda abaixado. Com aquela escuridão, talvez minha melhor saída fosse correr. Como os tiros em meus pneus foram certeiros, ele provavelmente possuía visão noturna. O jeito era tentar obrigá-lo a errar. Eu correria em ziguezague e torceria para despistá-lo.

Com meu pulmão de ex fumante — mais ou menos ex, já tive algumas recaídas — e meu corpo sedentário eu duvidava que aquilo fosse dar certo. Mas era isso ou esperar ser morto.

Ajoelhei-me no chão e, escolhendo uma direção ao acaso, preparei-me para correr. Nunca cheguei a fazê-lo.

Eu o ouvi antes de senti-lo. Um passo apressado, um saco sobre minha cabeça e um corpo sentado nas minhas costas, segurando minhas mãos. Alguém riu.

–Eu sabia que você era idiota, ruivinho, mas não sabia que chegava a tanto.

...

Eu fui carregado, jogado em um carro, socado no estômago, andaram comigo em círculos para tirar meu senso de direção, carregado de novo e obrigado a andar por sei lá mais quantos metros. Quando finalmente me fizeram sentar em algo que parecia um banquinho, eu já havia esperneado, gritado e apanhado tanto que um dos meus sequestradores perdeu a paciência e arrancou o saco da minha cabeça. Respirei fundo o ar frio daquele banheiro, não para me controlar diante da visão de Sid parado na minha frente — aquilo não me surpreendia— mas para tentar ignorar a dor em meu pulso esquerdo que fora amarrado junto ao direito nas minhas costas.

–Ei, Matt. Você sabe qual é a diferença entre o seu cabelo e um farol?— ele me perguntou, olhando-me fixamente com um sorriso de lado naquele rosto cansado e bêbado. Percebi que ele tinha uma nova cicatriz, fina e clara no queixo. De resto, seu semblante sarcástico, o cabelo castanho, o olhar debochado e a barba ridícula por fazer continuavam iguais.

– Qual?

– O farol chama menos atenção no escuro.

Um homem alto e largo, típico brutamontes, de braços cruzados atrás de Sid começou a rir por entre os dentes tortos, fazendo barulhos de porco.

– Seus olhos é que são ótimos. — comentei com sarcasmo, referindo-me aos óculos de visão noturna que Mello lhe dera há alguns anos. Ele desconversou.

–Me trás uma cadeira. — ele mandou sem olhar para o armário, que logo lhe trouxe uma e voltou para a porta. — Tá fazendo o que aí, imbecil? Vai embora, porra. — ele assentiu como quem entende e saiu, batendo a porta do banheiro.

–Excelente subordinado.

Sid tirou algum tempo para me olhar de cima a baixo, balançando a cabeça e suspirando cansado. Arrastou a cadeira até que ficasse de frente para ela e sentou-se com as costas do móvel encostadas em seu peito. Ele parecia agitado, como quem está perdido em um conflito interior.

–Eu não tenho nada contra você, Matt, de verdade. Por mim você não estaria aqui, mas na Groenlândia cercado de mulheres e curtindo um sol. — tive que me segurar para não rir depois dessa. O cara não completou nem o jardim de infância, deem um desconto.— Mas não sou eu quem faz as regras, é quem tem as armas e a grana.

–Não me enrola, eu não tenho tempo pra isso. O que você quer, dinheiro?

Ele riu.

–Eu tenho dinheiro. O que eu quero é vingança.

–De mim?

–Não, seu idiota. De Mello.

–Por quê? O que ele fez agora?

–Agora? Não fez nada. Nem ontem, nem no dia interior, nem antes, nem nunca! Aquele viado com roupa de vadia nunca fez nada pra me ajudar.—o músculos de Sid ficaram contraídos, as veias saltaram, a face inteira tornando-me vermelha de raiva. — Sabe quantas vezes eu pedi a ele que fizesse esse pequeno favor para um amigo de longa data? Eu até... — ele engoliu em seco.— implorei para aquele desgraçado fazer algumas ligações e...

Sid me olhou de lado, parecendo ciente de que havia falado de mais. Com mais um lamento cansado ele apoiou a testa no topo das costas da cadeira e fechou os olhos.

–Eu não tive opção. Precisava desertar. Isso é mais importante do que a estabilidade que Mello me dava.

–Isso o que?

–Não te interessa.

Entramos em um silêncio desconfortável e aproveitei a chance para tentar libertar meus pulsos. Lágrimas me vieram aos olhos com a dor que o ferimento, mesmo sob as bandagens, causou-me. Comecei a tomar consciência das dores em outras partes do corpo e senti-me sonolento.

De repente Sid se pronunciou.

–As ordens de Salazar são para matá-lo.

–Mello?! —perguntei, o coração disparando.

–Não. — ele ergueu a cabeça. — Você.

As palavras não escaparam dos meus lábios entreabertos e eu me senti zonzo. Não pensei em nada inteligente para dizer além de:

–Quê?

–Foi a primeira coisa que eu perguntei também. Desde que me juntei a ele, tudo que me pedira foram informações sobre vocês dois. Quando me deu esse serviço, eu não entendi nada. E ele também não me explicou. Só me ligou dizendo algo como "Eu quero o amigo de Mello morto" e desligou. — Sid riu. — Ele e Mello são muito parecidos nesse ponto de não darem satisfação a seus subordinados.

–Foi hoje que ele te deu essa ordem?

–Não. Mas hoje me ligou de novo e pediu pra eu te achar por aqui. Não sei como ele sabia onde você estava. — completou ao ver minha expressão confusa. — Salazar é tão inteligente quanto Mello. Talvez mais.

– Olha Sid... Eu não tô nem aí para esse tal de Salazar, pro Mello, pro seu problema ou pra qualquer outra coisa. Tô cansado, quero ir pra minha casa dormir e amanhã pegar um vôo pra longe daqui.

–Eu não faria isso se fosse você. O cara não ta de brincadeira, Matt. Por algum motivo ele te quer morto. Se tentar pegar um avião, ele vai te achar.

–Por que você não me mata logo, pra poupar o trabalho ao senhor chato?

–Porque, como eu disse antes, não tenho nada contra você. — ele se levanto, esticou os braços e foi para a porta. — Vou te colocar na carga de algum navio amanhã ou depois. É a sua chance de se esconder e fugir da loucura desses dois insanos que são o Mello e o Salazar.

–Só me diz uma coisa, Sid. — ele parou com a mão na maçaneta, de costas para mim. — O que Salazar tem contra o Mello?

Ele demorou para responder.

–Não faço ideia.

E saiu.

...

Estiquei o pescoço para trás, exausto de tanto tentar arrebentar aquelas cordas. Às vezes eu me esquecia de que Sid também recebera treinamento de Mello. É claro que ele sabia fazer um nó decente.

Olhei para o teto do banheiro. Eu me sentia derrotado. Um idiota. Realmente fora capaz de pensar que Mello abriria a porta e pediria perdão, dizendo que me amava? Ingênuo, ridículo, romântico imbecil.

Se não estivesse tão cansado, dolorido e emocionalmente esgotado, eu teria dado um berro.

Vai lá, inútil. Você vai ter tempo para auto piedade depois que sair daqui.

Respirei fundo e olhei em volta, como a vadia loira me ensinara vários anos antes a fazer.

Respire.

Se acalme.

Procure algo que possa virar uma arma.

Respire.

Ser discreto é vital.

Logo uma ideia começou a se formar em minha mente. Primeiro de tudo, eu precisava livrar meus braços. A dor em meu pulso ferido era tão insuportável que eu jurava que desmaiaria a qualquer momento. As cordas não romperiam com força bruta, então eu precisaria removê-las sendo esperto. Talvez cortá-las. Em cima da pia, havia um pequeno espelho redondo. Aquilo me deu uma ideia idiota, que anulava a possibilidade de ser discreto, mas era a única ideia que eu tinha.

Levantei cambaleando, a cadeira amarrada em meus braços. Doía muito, mas continuei a andar meio torto até a pia e olhei-me no espelho. Eu estava horrível. Ou pelo menos tão horrível quanto um ruivo gato pode ficar.

Fechei os olhos e, em uma única pancada estrondosa, bati a testa no espelho. Ouvi o barulho dos cacos caindo no chão e dentro da pia, além de sentir uma ardência na testa. Tinha obviamente me cortado, o sangue escorrendo sobre meu rosto.

Deitei de lado no chão, tentando ver por trás do sangue onde os pedaços de vidro estavam. Com minha bochecha quase colada no chão, tateei com os dedos em busca das pequenas lâminas, me cortando diversas vezes. Por fim consegui pegar um pedaço entre os dedos ensanguentados, vira-lo sobre a palma da minha mão e raspa-lo nas cordas. A cadeira ainda estava amarrada a mim dificultando meus movimentos. A tortura era tamanha que quase deixei o pedaço de vidro escapar, mas segurei no último instante.

Livre das cordas e portanto da cadeira, que permaneceu deitada de lado no chão, levantei trôpego e apoiei-me na pia. Lavei os pulsos destruídos, a testa e os dedos, torcendo para que o cheiro de sangue — ou o barulho do vidro quebrando— não atraísse Sid e seus ajudantes.

Eu não tinha ideia do que fazer em seguida. O cômodo frio não tinha outras saídas além da porta, que certamente estava sendo vigiada. Sid queria me dar uma chance de ficar longe da loucura de Mello e Salazar, não é? Eu tinha de ser esperto. Precisava fazê-lo acreditar que concordara com aquilo e que procuraria eu mesmo outro lugar para viver. Sair brigando seria uma ideia estúpida, afinal eu não conhecia o local onde estava e encontrava-me ferido, então aquela alternativa era bem mais adequada.

Bati duas vezes na porta.

–Você aí fora.

Ele não respondeu.

–Posso ver seus pés por baixo da porta.

Ainda me ignorou. Aquele foi o dia em que todos do outro lado de uma porta resolveram que eu não existia.

–Preciso falar com Sid.

–Eu passo a mensagem. — a voz do brutamontes de antes estava mais séria do que eu esperava.

–É muita coisa.

–Eu.passo.a. mensagem. — falou entre pausas, irritado com meu comportamento.

–Tá bom.Diga a ele... — busquei algo inteligente para dizer. Sid queria me afastar. Não era o que eu queria, mas precisava convencê-lo o suficiente para me libertar. Atuação nunca fora uma de minhas qualidades. — Diga que ele tem razão. Eu não aguento mais o Mello. Ele é chato, agressivo, tem uma personalidade terrível, quer sempre que façam as vontades dele na hora que quer e é insuportável conviver com ele. Eu já consegui sair de lá, deveria ter me afastado de vez, mas... Bom, ele sabe como é. Sid foi o primeiro pra quem eu contei que...

–Que era uma bicha louca?— a voz lá fora completou e eu ouvi risadas. Havia pelo menos quatro pessoas do lado de fora. Sid não me subestimara.

–Que eu também gostava de homens, seu idiota. E para a sua informação, eu sou bissexual. — as pessoas continuaram a rir. Tentei ignorar. — Eu preciso conversar com ele, será que vocês não entendem? É um assunto só entre nós dois.

–Ah, muito pelo contrário, Matt. — Sid. Ele estava lá fora também, entre as quatro pessoas que riam. Senti-me um tapado por não ter considerado isso. — Essa relação agora é muito maior que vocês dois. Mas eu tenho que tirar o chapéu para Mello, por ter conseguido mantê-los juntos por tantos anos, considerando como ele administra a hierarquia da máfia japonesa.

–Do que você tá falando? Ele sempre foi um bom administrador.

–Hum... Será mesmo? Eu conheço um ou outro que não concordam com isso. Ou não concordavam. Que o diabo os tenha. — Novamente, risadas.

–Você vai me deixar sair daqui ou não, seu bosta?

–Nossa, a máscara de "vamos conversar civilizadamente" caiu fácil assim? Mello teria mantido a farsa por mais tempo.

–Foda-se o Mello.

–Finalmente algo que você disse que pareceu verdadeiro. — Ouvi alguns passos. Pelo que tudo indicava ele se aproximava da porta trancada. — Você deveria ser mais grato. — Sua voz agora era baixa e rápida, como se não quisesse que os outros ouvissem.— Eu tenho uma lista de mais de cem nomes que adorariam levar sua cabeça em uma bandeja para Salazar. Então cala a boca até amanhã, entra naquela droga de navio e vai para o mais longe que você puder. O Mello não vale a sua vida.

E acrescentou, já se afastando:

–Boa viagem, Cabeça de Farol!

Bati com os dois punhos fechados na porta, gritando.

–EU TE ODEIO, SID!

Nenhuma resposta. Nenhum som, nenhuma manifestação de vida além do meu ranger de dentes. Encostei as costas na porta e deslizei até sentar no chão. Minha visão estava turva e meu corpo dolorido. Quem eu pensava que estava enganando. Nem que o caminho lá fora estivesse vazio, não teria conseguido sair. Estava fraco. Meu poder de regeneração sempre fora baixo. Eu estava um bagaço.

E iria ser forçado a ir embora. Para longe da minha família, meu amigo, meu... Ex-amante.

Longe da minha vida.