Stalemate II.
11 XI. 13/06/20xx
Notas iniciais

–Aaah...ah!
Naquele dia eu prometi a mim mesmo que nunca mais ficaria em um motel barato de beira de estrada com paredes finas. Era impossível, mesmo com a música do jogo no último volume, conseguir me concentrar naquela fase com os gemidos do casal do quarto 32.
Eu não precisava ver o que acontecia para conseguir descrever. A mulher provavelmente estava de quatro para o cara e este batia com força nela. Eu conseguia escutar o barulho das palmadas, o que era um pouco preocupante. Ou ele estava colocando força demais naquilo ou aquelas paredes eram tão podres que cairiam com um chute.
Contra a minha vontade, lembrei-me de como Mello também gostava de me bater daquele jeito. Ele tinha a mão pesada, o filha da puta. Sempre me deixava roxo. Mas eu não reclamava muito, em parte porque gostava e em parte porque eu me vingava logo depois, comendo-o com brutalidade contra uma parede gelada. Ele adorava.
O barulho no quarto ao lado continuava e eu tentei aumentar a música do jogo, que já estava no máximo. Maldita hora em que eu me livrara do meu celular. Um heavy metal naquela hora seria perfeito.
O rangido da cama do casal do quarto 32 ficou mais alto e eu franzi o cenho. Aquilo estava me trazendo lembranças de Mello. Será que eu não conseguia passar um dia sem pensar nele?
–Matt... Não para...
Sentei bruscamente na cama, fazendo uma careta com a dor em meu pulso esquerdo machucado ao aguentar tanto peso. Aquele som definitivamente não viera do quarto ao lado. A voz de Mello, a doce voz que ele fazia enquanto transávamos estava enraizada no meu cérebro, cutucando-me em um momento de fraqueza.
Corri os olhos pelo local, procurando as chaves. Seria insano ficar ali mais um segundo. Eu precisava tomar um ar, precisava espairecer. Não podia permitir que minha mente brincasse comigo.
Calcei as botas de qualquer jeito, correndo para a porta. No caminho peguei a jaqueta, chave e a carteira. Novamente os goggles foram esquecidos. Os degraus de madeira da escada rangiam conforme eu andava, mas nem esse barulho era capaz de abafar os sons que vinham dos quartos daquele muquifo.
Todo mundo resolver transar hoje? – pensei irritado, enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta.
Nas ruas o clima era agradável, melhor do que naquele quarto úmido. A primavera estava acabando e o verão se aproximava, mas uma brisa fria insistia em ficar e fazer cócegas no meu rosto. Era bom. Ajudava-me a me acalmar.
Caminhei por uma rua larga e inclinada, que descia a partir da estrada e acabava próximo a um centro comercial. Logo algumas aglomerações começaram a surgir dos dois lados da rua, obrigando-me a andar mais devagar e desviar dos transeuntes. Algumas pessoas me olhavam curiosas, mas eu já estava acostumado. Se ruivos já não são nem um pouco comuns, imagine um ruivo gato como eu? Com certeza não se vê todos os dias.
Me escuta. Preciso da sua paciência. O melhor jeito de me ajudar é ficando quietinho aqui e continuando com os serviços costumeiros da máfia. E pra isso acontecer, você não pode sair do esconderijo em hipótese alguma.
Lentamente, um sorriso se formou em meus lábios. Era maravilhosa a ideia de que eu estava fazendo exatamente o oposto do que Mello queria que eu fizesse.
O mar de pessoas à minha volta parecia envolver-me como um cobertor, amenizando a angústia que me corroía por dentro. Tantas vozes brigando juntas pelo posto de mais alta ocupavam meus ouvidos e meus pensamentos, impedindo que eu me concentrasse em qualquer outra coisa. Era perfeito.
–Ei, gostoso. Olha pra cá.
Por motivos óbvios, achei que estivessem falando comigo e virei o rosto na direção da voz.
Meu queixo quase caiu. Atrás de várias pessoas que andavam apressadas pela calçada, havia uma mulher assustadoramente linda. Seus cabelos pretos caiam em ondas pelos ombros, balançando juntamente com o vento. A pele escura, os lábios volumosos e os olhos escuros delineados contrastavam com o vestido tomara-que-caia vermelho, que marcava sua cintura e suas coxas, que atraíram meu olhar como luzes em um túnel. Os sapatos de salto, as pulseiras, as luvas finas, as unhas e os brincos argola, cada acessório de seu corpo refletia o escarlate, destacando a dama de vermelho em meio à multidão.
Soltei lentamente o ar que eu não percebi ter segurado e observei-a sorrir mais abertamente e gesticular com a mão em minha direção. Engoli em seco, dividido entre a vontade de lhe virar as costas e a ânsia de atender-lhe o chamado. A dama era visivelmente uma garota de programa, não exatamente pelas roupas que usava, mas pela chave com um bloco que tinha um número grande inscrito – claramente a chave de um motel próximo – que ela carregava em uma das mãos.
Aquilo me perturbou um pouco. Geralmente são os clientes que escolhem o local onde levam as prostitutas. Porque aquela tinha um lugar definido?
Ao perceber que eu não me movia, a dama começou a andar na minha direção. Um choque percorreu toda a extensão das minhas costas e eu me virei, afastando-me a passos rápidos da mulher e me misturando na multidão. O que fora aquele pressentimento estranho que se abatera sobre mim? Eu não sabia dizer. Continuei a avançar, desviando das pessoas que bloqueavam meu caminho, até notar que aquele comportamento era patético. Eu estava com medo de uma garota de programa.
Se controla, Matt.
Respirando fundo, tentei esquecer aquilo e observei meus arredores. Já passava e muito da meia noite, mas aquele bairro continuava infestado de gente. Várias lojas estavam abertas, além de casas de show, bares, boates e restaurantes. À medida que eu avançava pelas ruas, o número de bares e baladas aumentou, assim como o número de vozes. Era muita gente para pouquíssimo espaço.
Eu precisava de um lugar para descansar. Urgentemente.
Continuei andando, procurando um refúgio. Comecei a me sentir enjoado. Talvez eu devesse voltar para o motel e tentar dormir. Não importava o quanto eu tentasse fugir do mal estar que as minhas recordações com Mello me proporcionavam: elas me acompanhariam aonde quer que eu fosse. Estavam seladas em mim, riscadas à faca nas minhas memórias. Nada as tiraria de lá; nem o tempo, nem outros amores, nem consultas ao psiquiatra. Eu estava fadado a remoer as boas lembranças que compartilhava com Mello, certo de que jamais elas se repetiriam.
Essa era a verdade, apesar do quanto eu me negasse a acreditar. Ele não me queria mais e deixara isso muito claro. E simples assim eu tinha que aceitar e me afastar.
Era incrível como Mello conseguia ser frio. Quando pequeno eu tentava me convencer do contrário, mas às vezes o loiro me assustava. Ele tinha algumas ideias que me davam calafrios, além de métodos sombrios de tortura que eu fazia o possível para apagar da mente.
Toquei automaticamente em meu pulso esquerdo, todo ralado e machucado sob as ataduras. O último presente de Mello. Era tão fácil, depois de tudo aquilo, associá-lo à dor. Ele me machucara física e emocionalmente por tantos anos e eu nada fizera. Nada mudara desde nossos tempos de criança.
Baguncei meu cabelo, com raiva. Por que mesmo estava me lembrando de tudo aquilo? Ah, eu nem sabia mais. Minhas divagações estavam fugindo do meu controle.
Um letreiro gigantesco me tomou a atenção, acompanhado de vozes altas, exclamações e risadas. A alguns metros uma boate enorme se erguia iluminando a rua, praticamente obrigando todos a olharem para ela. Uma música eletrônica ensurdecedora saía de dentro das portas largas, além dos sons de diversas pessoas dançando coladas. Uma fila com umas 30 pessoas estava formada do lado de fora, todas com roupas que fariam um padre ter um ataque cardíaco. A fila era composta majoritariamente por homens, mas umas poucas mulheres também esperavam para entrar no local lotado. Entre os que aguardavam havia casais homossexuais se agarrando sem qualquer pudor, quase arrancando as roupas uns dos outros ali mesmo. Ninguém em volta fazia qualquer tipo de comentário preconceituoso, o que realmente me espantou.
–Perdeu alguma coisa, ruivinho? – um moreno alto, vestido de terno e gravata, colocou a mão no meu ombro, dando-me um sobressalto. Preciso parar de me distrair tanto assim na rua. – Você já 'tá olhando pra Perdition tem um bom tempo. Quer entrar?
Perdition? O que?
Ergui o olhar para o letreiro. A palavra Perdition, em letras negras, estava artisticamente desenhada sobre um fundo colorido enorme, sendo possível enxergar a posição da boate da outra esquina. O segurança pronunciou o nome do lugar com tanto orgulho que foi quase comovente.
Quase.
–Ah acho que não... – olhei desanimado para a fila que parecia não diminuir de tamanho.
Ele riu.
–Alguém com esse seu rostinho maravilhoso não precisa pegar fila. Anda, vem comigo.
O estranho então me segurou pelo ombro e começou a me conduzir até a entrada, o que gerou vários protestos das pessoas que esperavam na fila. O outro segurança os conteve.
–É só ignorá-los, querido. Pode entrar. – o primeiro segurança começou a abrir a enorme porta escura da boate. Franzi o cenho.
–Tá me achando com cara de mulher pra não pagar entrada? – abri minha carteira e tirei uma nota de $50. Ele ergueu uma sobrancelha, sorriu e pegou o dinheiro.
–Claro que não, amor. Divirta-se. – o moreno então me levou/jogou para dentro da boate, fechando a porta às minhas costas.
Não há melhor jeito de explicar o que se passava lá dentro, então aqui vai:
Era uma grande putaria.
Eu já frequentara vários bares e danceterias, mas nada se comparava ao que estava acontecendo ali. Ninguém colocava a mínima ordem naquele salão. Multidões se aglomeravam em torno dos pequenos palcos em forma de círculos com cerca de 21 m² que se espalhavam pelo local. Até onde eu conseguia ver eram cinco de cada lado: no lado direito cinco mulheres seminuas dançavam pole dance, apesar de que eu não tinha certeza se uma delas realmente era uma mulher. O pomo de adão era muito proeminente. Do lado esquerdo cinco homens faziam strip tease, alguns tirando as regatas apertadas e jogando na multidão, outros tirando o cinto praticamente na cara dos espectadores.
Foi mais ou menos aí que eu me liguei o que era a boate. A Perdition não era um lugar comum, mas uma balada que era a favor de todos os clientes, independente de sua opção sexual. Havia atrações para todos os gostos: hétero, gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, travestis e todos que se atravessem a entrar. Concluído esse pensamento, avistei algumas bandeirinhas presas em lugares estratégicos do salão, como embaixo dos pequenos palcos, perto de um bar que eu avistava ao longe, próximo ao DJ, que percebi estar no andar de cima e perto dos clientes, que diziam em letras coloridas:
RESPECT
Sorri com aquilo. Era um lugar legal, apesar de tudo.
De tudo o que? – vocês devem estar se perguntando. Perdoem-me, divaguei outra vez.
Como estava dizendo antes, o lugar estava lotado. Enquanto caminhava, desviando das pessoas que tentavam me esmagar, avistei diversas cenas de sexo explícito no meio da multidão, tanto entre duas pessoas como em grupo. Era bem desagradável ter que olhar para aquele tipo de coisa, que mais parecia um pornô mal feito. Isso sem falar da mistura de cheiros que impregnava o local, que variava de maconha, suor, perfume barato, sexo, cigarro e álcool, além de outros que eu não consegui identificar.
Tentei evitar os que estavam mais alterados, mas era muito mais fácil falar do que fazer. Eu era empurrado conforme a massa se movimentava, o que tornava difícil escolher meu próprio caminho através do oceano de braços e pernas. Queria chegar logo ao bar para poder me embebedar de uma vez e esquecer meus problemas.
–Opa! Desculpa. – um cara sorriu quando virei a cabeça ao sentir uma apertada forte na bunda. Fechei a cara para ele antes de continuar o meu caminho. Babaca.
Tempo depois consegui me afastar dos pequenos palcos e cheguei à parte mais afastada, que era basicamente dividida em três. À esquerda estava a pista de dança, que estava completamente lotada de seres se esfregando uns nos outros. Ao fundo dessa havia um palco principal com diversos instrumentos, mas ninguém os tocava, graças ao DJ. À minha direita havia o bar, no qual algumas poucas pessoas se sentavam para beber educadamente e reclamar da vida para o bartender. Garrafas das mais variadas formas e cores decoravam a região atrás do balcão, que refletia os rostos dos clientes de tão limpo. Pelo menos alguma coisa daquele lugar era limpa. E por último, logo a minha frente, seguia um longo corredor, o qual terminava, como fui rapidamente conferir, em duas escadas que seguiam em direções opostas para o andar de cima. Eu não era nenhum especialista, mas poderia deduzir que no segundo andar havia diversos quartos para os clientes se divertirem. Além disso, como observei na entrada, no andar superior ficava o DJ.
Arrastei-me para o bar, feliz por poder me acomodar em uma região menos concentrada. Larguei-me em um dos bancos e pedi uma Nevada, só para começar. O barman me ignorou, mas uma barmaid me trouxe a bebida.
–Aqui está. – ela suspirou baixinho ao olhar para mim. Abri um sorriso. – Eu nunca te vi por aqui, ruivinho. – ela comentou, se inclinando sobre o balcão. Não pude evitar que meu olhar recaísse sobre seu decote.
–Ah... É minha primeira vez.
Ela sorriu de lado, como uma safada. Eu ri mais abertamente.
–Não nesse sentido.
–Imaginei que não. – Ela arrumou uma mecha do cabelo multicolorido e focou os olhos negros em mim. – O que aconteceu com seu pulso?
Baixei o olhar para meu braço esquerdo. A dor que me envolvia era absurda, mas naquele dia eu estava fazendo o possível e o impossível para ignorá-la.
–Entrei em uma briga.
–Hm. – pelo visto ela percebeu que eu não queria falar sobre aquilo e se apressou em mudar de assunto. – O que tá achando da Perdition até agora?
–Meio lotado. Mas eu gostei da ideia geral daqui. – tomei um gole da bebida, que desceu queimando. Meus olhos se encheram de lágrimas e eu tossi um pouco, apressando-me em falar para disfarçar. – Nunca tinha visto um lugar assim.
–Essa é a boate de futuro, eu sempre digo. – Os olhos dela brilharam de excitação. – Um lugar que apoia a todos, independente de sua opção sexual? É fantástico. Aqui nós priorizamos o respeito a todos os tipos de amor, sabe. Qualquer um que pareça preconceituoso é chutado em um segundo e proibido de voltar. – Ela suspirou, pensativa. – É uma pena que não é sempre que fica lotado assim. Eu gosto desse cenário.
Olhei para trás, observando o cenário que ela tanto admirava. Luzes piscando, pessoas dançando, uma fumaça espessa dificultando minha visão. Não era exatamente a visão do paraíso, mas não era de todo ruim.
–Então aconteceu de hoje ter muita gente? – tomei mais um gole, escondendo meu rosto para que ela não visse minha careta. Aquilo estava mais forte do que eu costumava beber.
–Ah, não é bem isso. Veja, cada dia da semana é dedicado para um certo grupo da comunidade LGBT. Por exemplo: o domingo é para os gays, segunda é para as lésbicas e assim por diante. Não que só esses grupos possam entrar em seu respectivo dia, não é isso. Só que as atrações de cada dia são voltadas para o grupo correspondente. – ela riu, mexendo novamente nos cabelos. – Ah, eu estou usando palavras complicadas. Acontece quando eu fico bêbada. Melhor você ler ali no aviso do que eu explicar. – ela apontou para um grande cartaz na parede que eu me irritei por não ter percebido antes. Dizia o seguinte:
Perdition
.Domingo – Gays
.Segunda – Lésbicas
.Terça – Transexuais
.Quarta – Travestis
.Quinta – Transgêneros
.Sexta – Bissexuais
.Sábado – RESPECT
–O que tem no sábado? – perguntei, observando que a barmaid usava uma regata branca com os mesmo dizeres RESPECT em letras coloridas estampadas que as bandeirinhas espalhadas pelo local.
–Hoje é sábado. É o dia em que todos, mesmo as minorias que não estão escritas aí, são representados. Por isso fica tão cheio.
–DIANNE! – o barman que tinha me deixado no vácuo chamou a mulher, que olhou feio para ele. – Para de namorar e vai atender os clientes!
Ela revirou os olhos e me lançou um sorriso triste.
–Desculpa, tenho que ir... Ah! – ela se aproximou e sussurrou baixinho, falando rápido. De novo meus olhos caíram em seus seios, que pareciam querer fugir da blusa apertada. – Como você é novo por aqui, vou te avisar. Tem um povo meio perigoso andando pelo quarteirão, procurando por algumas presas. As pessoas estão sumindo sem deixar rastros e seus corpos são encontrados dias depois, completamente vazios.
–Vazios?
–Exatamente. – diante do meu olhar confuso ela revirou os olhos. – Tráfico de órgãos, ruivinho. Fica esperto, tá? Está ficando meio frequente.
Imediatamente, quase como se a barmaid houvesse ordenado, uma visão recente surgiu em frente aos meus olhos. Engoli em seco e procurei afastar meus pensamentos com outro gole da Nevada. Deixaria para pensar sobre aquilo com calma depois.
–DIANNE! – ela pulou assustada ao ser novamente repreendida. Fechando a cara e dando-me as costas rapidamente, a barmaid se aproximou de outro cliente.
Observei ela se afastar, os cabelos longos coloridos balançando enquanto se movia. Parecia ter uns 20 anos, talvez um pouco mais e pelo visto gostava de trabalhar ali. Nossa conversa fora muito simples para que eu pudesse deduzir algo a mais sobre ela, mas aquelas poucas palavras me deixaram feliz. Além disso, a bebida também parecia estar me fazendo bem.
Tomei mais alguns goles e senti meu corpo esquentar. Quente. Muito quente. Comecei a suar e logo arranquei a jaqueta, sentindo olhares sobre mim com o ato. Tentei ignorar. Mello sempre dizia que eu era um fraco para bebida e que me deixava levar com facilidade. Queria provar que ele estava errado.
Abaixei os olhos para meu colo. Mello. De novo eu estava pensando nele.
Levantei-me de súbito, sacudindo a cabeça. Aquilo estava errado. Eu tinha ido àquele lugar para me divertir, para esquecer meus problemas e passar a madrugada toda bebendo e dançando. A primeira parte eu já havia feito, ainda que houvesse me distraído um pouco e pensado sem querer no loiro. Faltava realizar a segunda parte.
Pegando minha jaqueta, minha bebida pela metade e deixando algum dinheiro sobre o balcão, caminhei para a esquerda, onde estava a pista de dança. As caixas de som se concentravam ali, de forma que eu não conseguia ouvir mais nada além da música e dos gritos das pessoas que tentavam conversar umas com as outras. Tenho quase certeza de que estava tocando Beyonce, mas eram tantos sons misturados que eu não conseguia ter certeza. Estava com dor de cabeça. A multidão me puxou para dentro e logo me vi cercado de ainda mais pessoas do que na área dos pequenos palcos na entrada, se é que isso era possível. Homens e mulheres, baixos e altas, altos e baixas, dezenas de corpos e rostos diferentes, com piercings, tatuagens, roupas de couro, vestidos, adornos, anéis, gargantilhas, gravatas, ternos, brincos, alargadores, cachecóis, blazers, cintos coloridos, chapéus, pashminas, pulseiras, purpurina, sombra, gloss, tudo saltava em direção aos meus olhos, que tentavam gravar cada uma das imagens e no fim não guardavam nada. Era muita informação para ser processada, muitas pessoas diferentes para que eu pudesse lembrar de alguma em particular.
Finalmente eu parei de ser empurrado e percebi estar espremido entre duas mulheres, que sorriram e começaram a dançar para mim.
Opa. – um sorriso se formou em meus lábios.
A que estava na minha frente colou as costas no meu peito e segurou minha nuca, olhando-me pelo canto do olho e rebolando contra mim. Ela tinha uma bunda gigante, sem brincadeira. Tudo bem que eu usava calças largas, mas se ela continuasse se esfregando daquele jeito ia poder sentir a minha ereção sem dificuldade.
Mãos delicadas invadiram minhas costas por baixo da camisa e eu olhei para trás com dificuldade (devido à mão na minha nuca). A mulher atrás de mim aproximou o rosto do meu ouvido, falando com uma entonação que eu consegui entender, apesar do barulho.
–O que aconteceu com as suas costas?
Pareceu que a temperatura despencou uns 15 graus. Novamente aquele nome maldito voltou aos meus lábios. Fora ele quem, depois de tantas e tantas noites, deixara marcas finas e permanentes nas minhas costas, uma vez que, apesar de ter unhas curtas, Mello colocava força na hora de me arranhar. Ele queria realmente me machucar, me fazer sentir dor. Marcar-me como propriedade dele. E eu odeio admitir que ele conseguira.
Desvencilhei-me irritado das duas mulheres, caminhando para o outro lado da pista. No processo quase deixei cair a bebida e minha jaqueta. Fui parado no caminho por um adolescente bem bonito, mas que não parecia ter mais de 16 anos. Assim como a mulher, ele falou no meu ouvido, mas diferente dela o garoto agarrou a gola da minha camisa com brutalidade.
–Tira toda essa roupa, veste só a jaqueta e vem me foder gostoso naquele palco. –atrás dele estava o palco principal com os instrumentos que ninguém estava tocando. Eu o afastei com o cenho franzido, desviando do garoto e continuando a andar. Ele puxou minha blusa e eu me virei, irritado.
–Eu sou uns dez anos mais velho que você.
–Eu gosto de caras mais velhos. – ele sorriu e se pendurou no meu pescoço. – Você não vai se arrepender, eu prometo. Vai, só uma rapidinha.
Minha paciência se esgotou em um instante e eu o empurrei com mais força que o necessário. Ele bateu com força em um casal de lésbicas que nos xingou de todos os nomes possíveis antes de se afastar.
Eu não conseguia entender aquele tipo de criança, sério. Com a idade daquele garoto eu estava apaixonado por Mello sem nem saber direito como contar a ele e procurando todas as oportunidades para permanecer ao seu lado. Eu passava boa parte do meu tempo no quarto jogando vídeo game e assistindo pornô. Jamais poderia chegar para um desconhecido em uma boate e dizer aquelas coisas. Nem que eu estivesse muito, mas muito bêbado.
Então por que aquele menor de idade tinha tanta pressa assim em dormir com alguém mais velho? Eu não sabia. Desespero talvez? Não, ele era bonito demais para isso.
Eu não entendia.
Virei o restante da bebida de uma só vez. Ardeu tanto que eu achei que fosse morrer. Fechei os olhos e grunhi alto, mas ninguém me ouviu por conta da música. Fui até uma bancada e deixei a taça lá, voltando para a multidão.
Um homem com cerca de 30 anos chegou perto de mim, um sorriso nos lábios finos. Ugh, ele era muito estranho. Não que fosse feio, mas... Sem chance de rolar alguma coisa. Fiz que não com a cabeça e ele revirou os olhos, se afastando. Eu até sentiria pena dele se não estivesse bêbado. Ou talvez não.
–Ei! – um cara segurou no meu braço e eu me virei, deparando-me com um loiro alto de olhos azuis sorrindo para mim. Meu coração deu um salto com a memória óbvia que surgiu na minha cabeça. – Quer ficar comigo?
Nossa. Que cara direto.
–Aah... – eu não sabia por que minha língua resolvera travar. Ok, mentira, eu sabia sim. De novo, o problema era Mello. Eu simplesmente não conseguia fazer o que ele tinha feito comigo, não conseguia traí-lo assim. Não era do meu feitio jogar fora o coração das pessoas como se elas não significassem nada. Ainda mais falando do loiro, que era o único que realmente significava algo para mim. Eu não queria magoá-lo, não queria trocá-lo. Apesar de todas as coisas horríveis que ele tinha feito e dito, eu ainda não conseguia me livrar do amor que sentia por ele. Era forte demais, poderoso demais. Consumia-me por inteiro. E eu não resistia. Eu continuava querendo-o. Queria seu abraço, seus beijos, seu carinho, seu calor. Queria Mello.
Meu antigo Mello.
–Não. Desculpa, eu... – não consegui terminar a frase. Apenas saí correndo dali, direto para a porta dos fundos da boate. Eu me sentia pior do que quando entrara no lugar, o coração apertado no peito. Não era justo. Eu tinha ido até lá para me divertir, para rir. Era estranho, eu simplesmente não conseguia relaxar. A imagem recorrente de Mello não permitia. Mesmo a quilômetros de distância ele queria me enlouquecer.
Voltei ao motel aos tropeços, me jogando na cama e encarando o teto. Minha cabeça doía. Nada fazia sentido. Eu me sentia mal, enjoado. Claustrofóbico. Como se minha cabeça fosse pequena demais para conter todos os meus pensamentos conflituosos.
14/06/20xx
–Argh, você me dá repulsa seu cachorro imundo.
A penumbra que me rodeava impedia que eu o visse, mas a voz de Mello seria reconhecida por mim independente da luminosidade do ambiente. Pelo som eu era capaz de dizer que ele estava bem a minha frente e, concluído esse pensamento, o local se clareou um pouco e o rosto e corpo de Mello surgiram diante de mim. Não havia mais nada a nossa volta, ou, pelo menos, nada que eu pudesse ver.
–Mello, o que foi... – comecei a me aproximar.
–Não me toca, seu nojento! Ugh, que inferno. Odeio quando você vem se esfregar em mim.
Franzi o cenho, sem entender nada.
–O que aconteceu? Por que todo esse mau humor?
–Ah, não sei. – ele riu com sarcasmo. – Talvez porque um cão podre fica me sujando com os toques dele. Sério Matt, o que te faz pensar que você tem permissão de chegar perto de alguém como eu?
–Do que você tá falando?
–Eu sou Mihael Keehl, líder da máfia japonesa e uma das melhores mentes que esse mundo já viu. Sou eu quem lidera as grandes operações por trás da ação dos yakuza¹, sou eu quem já matou diversos inimigos com um simples estralar de dedos, sou eu quem conquistou a confiança de diversas das pessoas mais poderosas do mundo para obter o que eu quero.
–Onde você quer chegar com isso, Mello? – eu não entendia o que estava acontecendo, mas por algum motivo meu coração estava disparado. Eu estava nervoso e com medo de algo que nem sabia dizer o que era.
–Além de ser um traste você também é burro? – ele sorriu e de repente Mello pareceu ficar muito mais alto (ou talvez eu estivesse encolhendo?) e logo sua estatura superava a minha em mais de cinco vezes. Seu corpo fazia sombra sobre o meu, escurecendo o espaço à minha volta. – Você é um inútil, Matt. Eu não preciso de você perto de mim. Eu não te quero perto de mim. Desapareça.
Ele estralou os dedos.
Eu sentei na cama, ofegante e suado. Não podia acreditar no que tinha acabado de acontecer. Maldito loiro, maldito sonho idiota.
Afastei as cobertas com raiva, cansado de tudo aquilo. Tirei a camisa molhada e joguei no chão. Ali, sentado sozinho no escuro, aquele sonho ridículo não me deixara triste ou chateado. Só servira para aumentar a minha raiva por Mello. Queria mais era que aquele filha da puta engolisse tudo que tinha me dito e fosse à merda. Eu não ligava.
Eu não queria ligar.
Algo pareceu subir na minha garganta e eu me segurei nas cobertas da cama, atrapalhado. Levantei com muita rapidez e andei aos tropeços até o banheiro. Praticamente caí de cara na privada. Ver meu jantar sair pela minha boca não foi bonito. Eu não sabia o que era pior, a dor em meu estômago ou na minha cabeça. Não tinha um espelho ao meu alcance, mas tenho certeza que meu rosto estava todo vermelho. Meu crânio iria explodir. Aquela sensação de fracasso combinava com meu jeito patético.
Ah, eu me sentia um bosta.
E eu era mesmo. Sempre fui.
Trouxa, imbecil. Ruivo de merda.
Um novo impulso trouxe mais conteúdo do meu estômago para minha boca e eu me inclinei para vomitar mais. Mello sempre jogara na minha cara o quanto eu era fraco para bebida. Até naquilo o filha da puta tinha razão.
Vocês já tiveram aquela vontade de simplesmente cavar um buraco e se jogar lá embaixo? Naquele momento era isso o que eu mais queria. No fundo escuro de um buraco nada poderia me atingir. Eu não precisaria ter medo, raiva ou nojo por vomitar tão vergonhosamente. Não teria de passar por toda aquela humilhação. Poderia simplesmente ser eu mesmo. O fraco, ridículo, patético e incompetente Mail Jeevas.
Ah, é verdade. Eu tinha esquecido. Ele já não existia mais. Sem Mihael não havia Mail. Só Matt. Só mais um (ex?) mafioso qualquer no meio da multidão.
A única coisa boa era a parede daquele banheiro frio. A sensação gelada em minha cabeça, ao encostar na parede ao lado do vaso, era refrescante. Aliviava a dor física.
– Hehe. Hehehe. He. – Uma risada seca saiu do fundo da minha garganta, motivada sabe-se lá pelo que. Era bom admitir que eu não tinha utilidade. Dava uma calma ao meu espírito que eu não sabia explicar. Isso tirava um peso gigantesco dos meus ombros. Significava que não havia mais responsabilidades, deveres ou afazeres. Eu estava livre, dono na minha própria vida, escritor de meu próprio destino. Ninguém a obedecer, ninguém para seguir, ninguém para dar satisfação. Era libertador. A vida era minha.
E eu podia tirá-la quando bem entendesse.
Um arrepio me sacudiu por completo e não foi por causa do frio. Suicídio. Eu realmente fora capaz de cogitar suicídio por causa daquele traidor.
– UGH! – uma ânsia de vômito forte me fez novamente inclinar a cabeça dentro da privada. Eu não estava em condições de pensar coisas complicadas. Na verdade eu não estava em condições de pensar coisa alguma. Estava tudo girando. De alguma forma eu sabia que tinha dormido demais (mais de um dia) e lembrava-me vagamente de um letreiro colorido, mas as outras memórias da noite na Perdition (ou seja, da noite anterior) só viriam mais tarde.
Naquela madrugada eu fiz o impensável. Talvez fosse a dor, o enjoo, a mágoa, o desespero ou tudo isso, mas eu me apoiei na parede, juntei as mãos e rezei. Implorei para que a dor passasse, que a tortura me deixasse e para que minhas memórias de Mello se esvaíssem.
Não prometi nada em troca. Talvez foi por causa disso que meus pedidos não foram atendidos.
...
Tirei o dia para me recuperar de tudo e saí novamente à noite, sem nenhum destino. A Perdition não me parecia um bom lugar para relaxar e curar uma ressaca, então procurei caminhar pelas ruas mais calmas e deixar que a falta de sons me guiasse.
Entrei em algumas lojas, folheei algumas revistas e jornais, comi alguns salgadinhos e joguei-me no banco de uma praça. A noite estava abafada, mas ainda assim era melhor do que o motel. Os casais naqueles quartos me lembravam de que apenas dez dias antes, eu estava me divertindo daquele jeito com Mello.
Eu ainda não conseguia acreditar em como o loiro fingia bem, em como ele me enganara tão facilmente. Revoltava-me, mas ao mesmo tempo me impressionava.
Não sei exatamente em qual momento percebi, mas quando me dei conta de que havia me perdido, entrei em pânico. Além de estar em território estrangeiro, eu tinha muito dinheiro na carteira e as ruas não estavam exatamente vazias. Algumas vielas e becos sem saída estavam espalhados ao longo do percurso, várias pessoas transitando pelo caminho apressadas. Qualquer uma poderia anunciar um assalto. Por estar ainda dolorido e desorientado, eu trouxera uma de minhas armas escondida em meu quadril, mas meus reflexos estavam lentos. Meu pulso esquerdo estava inutilizado e meu estômago doía. Talvez fosse capaz de repelir um inimigo à distância, mas teria menos chances contra algum próximo.
Por causa disso, dei meia volta concentrei-me nos movimentos das pessoas em um raio de seis metros a partir de mim. Um casal à direita passou de braços dados, um adolescente de capuz desviou de mim e desapareceu em uma esquina, uma velhinha fechou os olhos para mim e continuou seu caminho. Independente do que passasse, eu permanecia olhando para frente. Não podia aparentar estar atento. Se alguém tentasse me surpreender, eu precisava parecer uma presa fácil. Ao mesmo tempo, procurei as ruas pelas quais eu passara. Era difícil: cada vez que movimentava minha cabeça ou fazia um movimento brusco meu corpo inteiro reclamava. Eu estava um caco.
Um formigamento na minha nuca me alertou de súbito da presença de um inimigo. Eu não sabia como aquilo funcionava, mas às vezes, quando algo estava errado, meu corpo dava pequenos sinais de desconforto. Mello dizia que eu era extrassensível para alterações no comportamento das pessoas e treinou-me para perceber pequenas sensações. Mesmo sem estar parado, por exemplo, eu conseguia ouvir os batimentos do meu coração, a respiração lenta de alguém. Olhando para uma direção completamente diferente eu sabia dizer quando alguém estava me encarando e desviava a cabeça exatamente para quem me observava. A pessoa sempre se assustava. Eu sabia dizer, com ainda mais velocidade que o loiro, quando alguém estava mentindo ou escondendo algo. As intenções dos outros, conforme fui crescendo, se tornaram tão claras que eu precisava me segurar para não dizer o que vinha à minha mente.
Não que eu fosse perfeito, claro. Sou humano, erro constantemente. Inclusive, fui incapaz de perceber a atuação de Mello. Eu realmente crera nas palavras e nos gestos gentis daquele desgraçado.
De qualquer forma, não fui capaz de ignorar aquela sensação de estar sendo seguido e continuei a andar. De fato, segundos depois, escutei passos. Eram pesados, provavelmente passos masculinos. Andavam normalmente, em um ritmo constante. Ele não estava com pressa, então não queria me ultrapassar. Tampouco parecia sentir cansaço. A possibilidade de que estivesse a me perseguir era alta.
Virei à direita, em uma viela escura. A única luz da rua sem saída provinha de uma lâmpada distante na entrada de uma casinha, o que deixava vários pontos de escuridão ao longo do trajeto. Escondi-me em um deles, as costas na parede e o capuz sobre minha cabeça. Peguei a arma, um tanto desajeitado, com a mão direita. Mantive-me o mais imóvel possível e aguardei meu perseguidor.
Não precisei esperar muito. Primeiro vi seu chapéu, negro e sem enfeites, que permitia a ele esconder os olhos. Depois o sobretudo, também escuro, sob o qual poderia esconder até um fuzil. Por último avistei suas botas, negras e baixas, caminhando com cautela.
De início já pude perceber que ele não era muito inteligente. Quando se perde uma presa, principalmente em um local escuro, é muito provável que ela o tenha descoberto e queira fugir ou confrontá-lo. Nessas situações é importante ter o dobro de atenção. Meu perseguidor, contudo, entrou na viela sem pensar duas vezes, virando a cabeça para registrar tudo e andando com mais velocidade para me procurar (o que aumentou ainda mais o som de seus passos).
Eu já disse que detesto amadores?
–Levante as mãos. – ordenei quando ele já estava mais próximo à luz da lâmpada, ou seja, longe da entrada do beco. Ele parou no lugar, de costas para mim e com as mãos nos bolsos. – Um movimento errado e você morre.
Um de seus pés tremeu, como se quisesse se virar na minha direção e me atacar. Mudou de ideia no último momento e, com muita cautela, ergueu um braço.
– O outro. Agora. – coloquei-me entre o estranho e a entrada do beco, perfeitamente consciente de que minhas costas estavam vulneráveis. Se ele não estivesse sozinho, eu estaria ferrado.
Ele obedeceu, sua sombra se projetando nas paredes do beco, muito maior do que o original. Caminhei sem fazer barulho, tentando detectar a presença de outras pessoas. Minha arma em meu punho direito estava firme, mas eu sabia que, se tivesse de entrar em uma luta, seria muito prejudicado pelo estado do meu punho esquerdo. Se quisesse ter chance de vitória, precisaria ser rápido e preciso. Ou seja, conseguir depressa as informações de que necessitava (o porquê dele estar me seguindo, para começar) e me livrar de todas as evidências, evitando um combate direto. Basicamente: interrogá-lo e atirar nele.
– Quem te mandou aqui?
Ele riu da minha pergunta, sem dizer nada. Eu não esperava que respondesse.
– Última pergunta. – esperei um pouco, dando uma pausa para que ele assimilasse o que isso significava. – Qual o seu objetivo em me seguir?
De início parecia que ele não iria responder, mas logo uma voz familiar chegou aos meus ouvidos:
– Sabia que eu adoro quando você é malvado assim, ruivinho?
Demorei alguns momentos para reconhecê-lo.
– Caster?! O que você está fazendo aqui seu puto? – Caster, desde sempre, fora um contribuinte dos trambiques que eu e Mello arrumávamos na época da Wammy´s: ele fornecia o material necessário (como armas, munição e esconderijos improvisados) em troca de informações valiosas que usava como moeda de troca. Posteriormente, ao saber que Mello reivindicara o posto de líder da máfia japonesa, ofereceu seus serviços de maneira permanente. Era uma excelente pessoa para se manter ao lado, principalmente quando o assunto era espionagem.
– Posso virar primeiro? Não sou muito fã de conversar com uma arma apontada para as minhas costas.
– Ainda não. – mantive meu revólver erguido. – Como vou saber se estamos do mesmo lado? Primeiro diga por que está me seguindo e depois posso pensar em te deixar ir.
A gargalhada que se seguiu da boca dele foi tão contagiante que os cantos da minha quase se levantaram.
Quase.
– Como se você não soubesse quem me enviou.
– Me dê um nome.
– Conhece um narcisista arrogante, autoritário e com um gosto peculiar para a violência? Alguém que dá tudo para ver um pouco de sangue? Que não tem escrúpulos para afastar os que se metem em seu caminho? – ele virou a cabeça para trás, de modo a conseguir me encarar. Seus olhos brilharam na escuridão. – Qual a única pessoa disposta a me pagar um extra para te perseguir?
Tenho quase certeza de que meus olhos se arregalaram com aquela revelação. Se não fosse o capuz, Caster seria completamente capaz de ver minha expressão desesperada.
Mello tinha mandado alguém me seguir. Ele sabia onde eu estava. Desde o dia em que nos separamos, ele seguira meus passos. Em momento algum eu estive livre de verdade.
...
– Ok, me explica de novo que eu não entendi. Por que Mello te colocou pra me seguir?
Aquele boteco de esquina estava lotado. Eu o tinha procurado às pressas com Caster, um lugar pequeno e barulhento, para diminuir as chances de sermos ouvidos. O pequeno bar tinha um balcão para os pedidos, com alguns bancos em volta, e umas poucas mesas para sentar ao ar livre. Escolhemos as mesas ao ar livre, simplesmente porque o barulho lá fora era maior.
– O negócio é o seguinte, Matt... – ele começou, se servindo de uma bebida escura que eu não soube identificar. – Mello enlouqueceu de vez. Ele não está sabendo administrar as coisas como antes. Só desde o dia que você saiu até hoje, ele mandou matar 34 dos nossos.
– 34 dos nossos? – Franzi o cenho, totalmente perdido. Por que Mello estaria assassinando aliados? – Mas por quê?
– E você acha que eu sei? – Caster entornou metade do copo, rindo e sacudindo a cabeça com força. – Aquele lá sempre faz o que quer, sem dar satisfação pra ninguém.
– Tá e o que eu tenho a ver com isso?
– Já vou chegar nisso. – ele acrescentou várias colheres de açúcar na bebida, mexendo rápido enquanto falava. – Enfim, desde que firmou aquela parceria comercial com o tal de Salazar, ele anda estranho.
Eu quase suspirei aliviado. Era tão bom saber que mais alguém notara a súbita mudança no comportamento de Mello após a negociação de todo aquele armamento com a empresa Warder, chefiada por Salazar. Ele havia ficado, por algum motivo, distante e preocupado, deixando transparecer que mais coisas do que revelava estavam acontecendo.
– Como você deve saber, Sid desertou. Na verdade o desgraçado revelou várias de nossas informações mais valiosas para Salazar, incluindo algumas sobre você e Mello. Por causa disso, o loiro queria se assegurar de que você estaria em segurança e me mandou te vigiar.
Esperei para ver se ele continuaria, mas como não disse nada, indaguei:
– Então você quer dizer que depois daquele escândalo todo, daquele briga imensa... Disso... – quase esfreguei meu pulso envolto em bandagens na cara de Caster – Ele quer saber se eu estou bem?
– Olha, eu não sei o que Mello te disse... Mas um relacionamento longo como o de vocês não se rompe da noite pro dia.
Ponderei por alguns momentos sobre aquelas palavras. Eu conhecia Mello desde meus sete anos. Levando em consideração que eu já estava com vinte e cinco, eram quase vinte anos de amizade. E mesmo pensando só no período em que ficamos efetivamente juntos, portanto, a partir dos meus dezessete anos, são quase dez anos de relacionamento.
Talvez Mello realmente não me quisesse mais. Talvez ele estivesse cansado de mim ou arrumara alguém melhor. Mas ele simplesmente não podia me odiar de uma hora para a outra. Ele ainda tinha que nutrir algum sentimento por mim.
Mello me amava, de certa forma.
Eu precisava acreditar nisso.
– O que ele te mandou fazer, exatamente?
– “Não perca o Matt de vista. Siga-o e mantenha-me informado sobre todos os lugares que ele frequentar, incluindo o tipo de pessoa que for vista com ele.” – Caster disse como quem repete um texto decorado.
– E o que mais? – perguntei erguendo uma sobrancelha.
– É tudo o que eu tenho a dizer.
Ficamos em silêncio por um tempo, analisando um ao outro. Caster poderia até ser uns dez anos mais velho do que eu, mas eu sempre fui mais sério do que ele. Naquele momento, porém, seus olhos denunciavam a seriedade de suas palavras. Eu não arrancaria mais nenhuma informação dele, pelo menos não enquanto ele estivesse sóbrio. E depois de ter chegado àquele ponto, Caster certamente não encheria a cara.
Eu teria de esperar por uma outra oportunidade.
– Tudo bem, então, Mello está sendo um idiota. Como sempre. Mas você foi meio descuidado, Caster. Pude percebê-lo com a maior facilidade. – comentei, lembrando-me de quando fui ao restaurante e um homem suspeito de chapéu me chamou a atenção.
– Apesar de também ter sido treinado por Mello, eu não sou tão bom em espionagem como você. – disse rindo, colocando apenas metade da bebida em seu copo. O meu ainda estava vazio.
– Mesmo assim, foi bom que tudo isso aconteceu. Depois da minha briga com Mello, nem pensei em entrar em contato com você. – Puxei a cadeira mais para frente, olhando-o nos olhos. – Já nos conhecemos a muito tempo, Caster. Preciso de um favor.
– Pra você Matt, qualquer coisa. – disse dando uma piscadinha, que eu respondi com uma risada.
– Quero que vigie Mello sempre que puder. Ouça com quem ele conversa e o que conversa, onde e quando. Mas não deixe que ele perceba. Se for muito arriscado vigiá-lo em algum momento, não o faça. E continue a me perseguir, para que ele acredite que está tudo normal. Quando eu precisar, vou fazer contato com você.
– Está pedindo que eu traia Mello?
– Muito pelo contrário. Estou pedindo que ajude os dois. Que você seja um agente duplo.
– Como vai saber de qual lado está a minha verdadeira lealdade?
– Caster, isso não é uma guerra.
– Para Mello, é sim.
Suspirei cansado. Aqueles enigmas e tramoias me deixavam exausto. Como esperado, eu não conseguia me livrar do fantasma sólido que era a lembrança de Mello. Ainda desejava fazer parte de seu círculo de contatos. Desejava voltar a ser o centro deles.
Enquanto isso não acontecia, precisaria de informações. A começar, a localização de Mello. Para meu espanto, quando perguntei a Caster, ele me informou que Mello continuava no mesmo esconderijo do qual eu saí.
– Eu também não entendi porque ele não se mudou. – deu de ombros enquanto guardava a garrafa que comprara. – Vai saber o que se passa na cabeça daquele louco.
Encostei-me nas costas da cadeira. As variações de comportamento de Mello sempre foram incógnitas difíceis de decifrar. Antes de tirar qualquer conclusão, eu costumava reunir evidências, observando-o e confrontando-o com perguntas e ações que ele não esperava. Sua reação sempre me dava a dica que eu precisava, ajudando-me a entender pelo menos parcialmente o rumo daqueles pensamentos nebulosos.
Mello era um código que eu gostava de tentar decifrar. Apesar de, ultimamente, eu acreditar ter atingido o nível impossível.
– Entre em contato com Mello ainda hoje. Diga a ele para se preparar. Diga que eu me recuso a sair de lá amanhã sem ter uma conversa de homem para homem. Diga a ele que Mail Jeevas está voltando.
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