Stalemate II.

10 X. 11/06/20xx


Notas iniciais
Ficou maior do que eu esperava... Me exaltei kkk

11/06/20xx

Mail Jeevas? Quem é esse? Eu nunca ouvira falar. Ali, entre as paredes daquele motel velho, só havia um homem. E ele se chamava Matt. Eu me chamava Matt.

O que eu fazia? Ou melhor, o que eu fiz assim que saí do esconderijo que dividia com Mello? Fugi. Fugi para o mais distante possível daquela realidade, afastando-me do meu antigo eu. Não haveria mais acordos com as organizações mafiosas de outros países, golpes, torturas ou assassinatos. Não haveria mais horas e horas sem dormir fazendo planejamentos, não haveria mais festas com dezenas de mulheres simplesmente porque não haveria mais Mail Jeevas, uma vez que as únicas duas pessoas que o conheciam – Mello e Watari – ou estavam mortos para Mail, ou estavam realmente mortos.

Portanto, a partir do momento em que saí da presença de Mello, Mail fora trancado em algum lugar dentro de mim, apenas esperando ser libertado.

O que não aconteceria.

Assim, eu – Matt – dirigi impassível pelas ruas, sem saber realmente para onde ir. Não poderia usar o GPS do meu celular uma vez que, em um momento de fúria, eu o atirara pela janela em movimento. As avenidas e esquinas escuras foram minhas guias, trilhando-me por caminhos desconhecidos. Durante todo o tempo meu pulso esquerdo permaneceu repousado sobre minha coxa enquanto minha mão direita assumia o volante. Eu sabia que deveria ir ao hospital para fazer no mínimo um curativo, mas não tinha tanta certeza se conseguiria sair de lá andando. Meu corpo estava quebrado. Tudo o que eu mais queria era um canto para me encostar e dormir.

Depois de dirigir mais pouco por ruas aleatórias, avistei um hospital ao longe e decidi, derrotado, fazer uma parada. Afinal, não conseguiria ir muito longe com todas aquelas dores. Assim, acelerei como um louco, desviando dos outros carros e quase atropelando um casal de velhinhos ao estacionar de qualquer jeito em cima da calçada.

— QUAL O SEU PROBLEMA, GAROTO?

A expressão de horror deles ao ver meu pulso em carne viva foi impagável.

...

Acabei encontrando, horas depois, um motel barato. Paguei de qualquer jeito por um quarto e me joguei na cama mole.

Adormeci instantaneamente.

...

Não sei direito o que contar a vocês sobre esse dia. Eu não fiz nada de interessante além de encarar o teto e ouvir meu estômago roncar. Não conseguia comer nada. Parecia que tudo que eu colocava na boca tinha gosto de papel. É claro que a dor em minha barriga devido ao chute localizado de Mello não melhorava em nada a situação, mas esse não era o motivo de eu não conseguir comer. Eu simplesmente não me sentia disposto a fazê-lo. Comer pra quê? Continuar a viver pra quê? Por que eu tinha que me mexer mesmo? Eu estava bem ali. Estava tudo muito bem.

Ah, lembrei-me de uma coisa. Eu joguei vídeo game nesse dia. Apesar de só conseguir usar um pulso, foi uma boa atividade.

...

Em algum lugar, bem no fundo da minha mente, eu sabia que havia algo errado. Sabia que estava agindo estranho. Sabia que a minha falta de interesse por... Bem, qualquer coisa, não poderia ser normal. Mas naquele dia eu ignorei tudo isso e permaneci na minha cama, apático. Se não fosse o movimento lento do meu peito ou os raros momentos em que eu me levantava para ir ao banheiro ou para pegar um jogo, qualquer um afirmaria que eu estava morto.

E era assim que eu me sentia.

Morto.

12/06/20xx

Quando acordei, no dia seguinte, não levantei da cama. De novo. Minha barriga não parava de doer (de fome e pelo chute), meu ombro estava machucado e meu pulso ainda latejava. Minha garganta estava seca e eu não tinha a menor intenção de molhá-la.

Em um movimento automático, peguei meu vídeo game que eu jogara bruscamente no chão, sentindo dor no corpo inteiro com o ato. Não liguei, porém, o aparelho. Não tinha a menor vontade.

E foi aí que eu realmente me assustei.

Aquilo definitivamente não costumava acontecer. Sempre fui apaixonado pelos meus jogos e poderia passar uma vida jogando sem descansar. Ali, com o objeto pendendo da minha mão direita, entendi o que me impedia de continuar. Era Mello, aquele ser detestável que com algumas ações e palavras fizera ruir anos da minha vida que eu tanto dedicara a ele e à sua causa de dominar Near e a máfia japonesa.

Deve ter sido tão fácil pra você me usar, não é, Mello? Eu era o cachorrinho perfeito. Obedecia a todas as suas ordens, satisfazia todos os seus caprichos e apoiava-o em todas as suas decisões, seja militar ou emocionalmente. Independente da roubada em que se metesse lá estava eu, feliz e pronto para ajudá-lo a corrigir o problema, para levá-lo aonde você quisesse, fazer o que me fosse mandado. E você simplesmente adorava, não é? Ter um trouxa imbecil correndo atrás de você. Ajudando você. Ficando ao seu lado em todas as batalhas da vida.

E sempre fora assim, desde a Wammy's. Tudo começara com o desejo obsessivo de vencer Near, ultrapassar a outra criança e ganhar reconhecimento pelas suas habilidades. Uma simples briga de criança que, na sua cabeça, era algo com suma importância. Eu nunca entendi porque você sempre deu tanta moral para Near. E daí que ele tirava notas maiores? Isso não queria dizer que você fosse burro. E daí que o outro seria escolhido como sucessor de L? A vida do detetive nunca fora fácil. Ele sempre fora alvo de ações criminosas e sempre me parecera um trabalho muito solitário.

Mas mesmo assim esse era o seu sonho e eu respeitava isso. Melhor, eu o respeitava por isso. Era incrível como você se esforçava mais do que todos os outros, corria atrás dos seus objetivos com mais garra que qualquer um naquele lugar. E eu percebi isso muito cedo, até mesmo antes do Near chegar ao orfanato. A sua dedicação nas aulas, nos esportes e até nas brincadeiras era superior à de todas as outras crianças. Você, desde muito antes de ser meu alvo de desejo, foi meu alvo de admiração, Mello. Eu, uma criança ingênua e impressionável, via em você uma espécie de herói, alguém que poderia conseguir qualquer coisa que quisesse. Eu queria estar constantemente sobre sua proteção. Queria poder estar ao seu lado.

Eu até mesmo queria ser você, Mello.

Foi um verdadeiro choque de realidade quando eu percebi que você não era o bom moço que eu imaginava. Você nunca foi, na verdade. Mas o momento da revelação é sempre o pior.

...

—Matt, se você ficar pegando na minha mão o tempo todo, vão achar que nós somos um casal.

—Mas Mello, ta escuro demais aqui, eu não quero me perder... – eu engoli em seco, arrumando os goggles em cima dos meus cabelos com a mão livre. Olhava o tempo todo para os lados, tentando ver alguém, mas as luzes da rua eram muito fracas. Muitas estavam, inclusive, quebradas. – Vamos voltar para a Wammy's, por favor. Se Watari ou Roger descobrirem que a gente saiu...

—Você pode ir se quiser. Eu preciso pegar meu chocolate na casa do Roger. – Mello respondeu, desvencilhando-se da minha mão pela milésima vez.

—A gente não pode vir pegar daqui algumas horas, quando estiver um pouco mais claro?

—Não porque até lá o Roger vai acordar.

—Eu compro outro chocolate pra você.

—Esse não é o problema, Matt. É uma questão de princípios.

—Eu sempre achei que ele dormia na Wammy's.

—Não, ele odeia o barulho das crianças chorando de madrugada. Por isso deixa todo o trabalho para os outros funcionários.

—Por que ele escondeu seu chocolate? – perguntei, pegando novamente com a mãozinha levemente suada (devido ao nervosismo) na mão de Mello.

—Porque eu disse que só um velho retardado colecionaria insetos. Aí ele pegou meu chocolate, revistou meu quarto atrás das minhas reservas e impediu o pessoal da cozinha de me dar mais. Claro que eles ainda me dão, mas eu não podia deixar isso barato. Também vou tirar dele alguma coisa que ele ama.

—Agora entendi porque você estava tão bravo ontem à noite.

—Fiquei planejando tudo nas últimas horas, enquanto você fazia a prova de Engenharia Naval. – um sorriso assustador brilhou no rosto dele. – Foi bom você ter vindo comigo. Vai ser mais legal assim.

—O que você pensa em faz... – um barulho atrás de nós interrompeu o que eu ia dizer, provocando-me um susto tamanho que corri para perto de Mello, praticamente me jogando em cima dele ao colocá-lo entre mim e o barulho. O loiro apenas virou para o local de onde o barulho se originou e ficou atento, à procura de outros ruídos. Não ouviu nada.

—Anda Matt. Vem logo, faltam três quadras. – disse puxando a minha mão.

—Por que mesmo a gente não pegou um táxi ou foi lá durante o dia?-perguntei trêmulo, morrendo de medo e de frio. Queria voltar pra casa.

—Porque nenhuma pessoa decente vai aceitar levar duas crianças de 10 anos para lugar nenhum às 5 da manhã. E porque eu quero ir agora. Se não quiser, pode ir embora. – disse bravo, provavelmente porque eu não calava a boca.

—Mello... Eu to com medo. Vamos pra casa.

—Ainda não.

Mordi o lábio, agarrando nervoso a mão de Mello. Não sabia o que estava acontecendo, mas eu me sentia mal. Tinha a sensação de alguma coisa ruim estava prestes a acontecer. Tentei com firmeza ignorar aquele sentimento e continuar a andar.

Não deveria ter feito isso.

Alguns metros à frente havia um pequeno beco, com uma lixeira azul grande e um homem jogado no chão ao lado. Ele gemia coisas aleatórias, uma garrafa de whisky pendendo na mão. Suas roupas estavam rasgadas e seus bolsos revirados. Talvez tivesse sido roubado, mas, pela sua aparência desleixada, não deveria ter muitas coisas de valor. Havia também uma cordinha fina em seu pescoço com uma cruz de madeira como pingente, com detalhes em dourado, mas não consegui ler o que estava escrito. O homem não usava calçados e seus pés estavam sujos e machucados, com feridas abertas e sangrentas. Eu não sabia dizer se eram feridas antigas ou novas, mas certamente foram abertas (ou reabertas) naquele dia. Teria ele fugido dos assaltantes e pisado em pedras? Ou seria um mendigo e se ferira com vidro? Eu não sabia. Minhas capacidades dedutivas paravam aí.

Quando passamos pelo beco, fiz o possível para desviar do homem e fingir que não o notara, mas este agarrara meu calcanhar com sua mão peluda e grossa me impedindo de andar.

O grito que saiu da minha garganta nem parecia ser meu, tão alta e fina que minha voz soou. Imediatamente comecei a puxar meu pé, mas aquele aperto era muito forte. Eu não tinha chance.

—Me deem todo o seu dinheiro. – sua voz era rouca e grossa, além de ser a coisa mais assustadora que eu já tinha ouvido até então.

Antes que eu pudesse responder um vulto surgiu atrás do homem, movendo-se com velocidade e precisão. A pedra na mão de Mello desceu brutamente na cabeça do estranho, que caiu para o lado, atirado na calçada. O loiro então mexeu em suas calças e arrancou um objeto brilhante de lá.

Foi a primeira vez na minha vida que eu vi uma arma, mas não foi a mais assustadora. Era uma Taurus PT840 – claro que, na época, eu não sabia disso–, preta com a parte superior prateada. Meus olhos se arregalaram ao vislumbrar o objeto. Mello tinha visto que o homem estava armado. Eu não.

—Meu deus, esse cara 'tá fedendo. – Mello falava despreocupado, como se não tivesse acabado de nocautear um homem adulto. – Vamos embora logo, antes que alguém chegue depois do seu grito.

Tenho certeza de que corei um pouco. Não era minha culpa. Eu estava assustado.

Mello já ia contornando o corpo quando seu calcanhar foi brutalmente puxado, fazendo-o cair de cara no chão. O homem não tinha sido nocauteado, afinal.

O loiro virou no chão, chutando a cara do bêbado com o outro pé. O estranho grunhiu com raiva, arrastando Mello pelo chão até conseguir alcançar seu pescoço, o qual envolveu com os dedos grossos. Eu não sabia o que fazer. Não conseguia obrigar minhas pernas a pararem de tremer e ir em direção a Mello. Tudo o que eu fazia era olhar, em choque, meu amigo ser estrangulado até a morte.

Mello se debateu por alguns minutos, desesperado, os olhos girando nas órbitas. Esperneou, rosnou, chutou. Isso só irritou o estranho, que se ajoelhou e apertou o pescoço fino de Mello com mais força, decidido a matá-lo.

O que definitivamente teria acontecido se não fosse o disparo. Talvez fora proposital ou um reflexo, mas o fato é que o dedo de Mello sobre o gatilho salvou sua vida. A bala se alojou em algum lugar do cérebro do bêbado, que afrouxou o aperto e tombou para o lado, já sem vida. Mello tossiu, cuspiu, golfou enlouquecido. Seu peito subia e descia na tentativa de impedir que a vida o deixasse.

Engraçado, não é? Como que, para proteger a própria vida, ele teve que destruir a de outro. Bom, não que o homem não tivesse feito um bom trabalho destruindo a própria vida.

Enquanto Mello se recuperava, minhas pernas voltaram a funcionar e eu caí de joelhos no chão logo em frente ao morto. Este parecia olhar diretamente para mim, seus olhos lembrando um grande peixe estragado. O ferimento no lado de sua cabeça continuava a jorrar sangue, mas seus olhos, a meu ver, eram muito piores. Estavam fixos, esbugalhados, vidrados em mim. Meu reflexo naqueles globos estava em pânico. Eu havia testemunhado pela primeira vez um assassinato.

—M-m-ello... E-ele... Ele... – eu balbuciava como um bebê aprendendo a falar, sem, contudo, conseguir concluir a frase.

Mello, que finalmente conseguira recuperar o fôlego e normalizar a respiração, engatinhou até onde nós – eu e o corpo– estávamos. Sua mão foi até o pescoço do bêbado, apenas para constatar o óbvio.

—Sem pulsação. – a voz de Mello saiu fraca. Ele engoliu em seco.

—M-Mello... – meu corpo começou involuntariamente a tremer e meus olhos se encheram de lágrimas. Olhei desamparado para o borrão que era Mello, falando silenciosamente o que se passava em minha mente. M-mello, você matou ele. Você matou esse cara! E agora, o que a gente faz?

As safiras me respondiam: Eu não sei... não sei, não sei, não sei!

O loiro sentou no chão, a cabeça entre as mãos. Parecia desesperado. Eu me aproximei dele, tentando ver alguma parte de seu rosto, sem sucesso. Apertei seu braço. Ele ergueu o rosto, me vendo chorar dolorosamente.

—A gente pode ir pra casa agora? ... P-por favor?

Acho que foi o fato de eu estar chorando e implorando para ir embora que tirou Mello do transe. Ele se recompôs, assentiu com a cabeça e se levantou, esticando a mão para que eu também me erguesse.

—Alguém pode aparecer, por causa do barulho. Você consegue correr, Matt? – ele continuou a segurar a minha mão, mesmo depois que eu já estava de pé. – Vamos lá, você já é homem. Não pode chorar.

Enquanto corríamos, eu limpava meus olhos na manga da blusa, tentando me acalmar. Não deu certo. O único motivo para minhas pernas se moverem era porque Mello me forçava a andar, do contrário eu estaria jogado em canto, encolhido e soluçando audivelmente.

Na verdade isso foi exatamente o que fiz quando chegamos em nosso quarto e Mello trancou a porta.

—Matt! Shhh! Para com isso, se alguém te ouvir... – mas eu mal o escutava. Chorar estava me dando o alívio que eu precisava depois daquela madrugada. Afinal, alguém perdera a vida na minha frente. A imagem daqueles olhos sem brilho estava gravada na minha memória, juntamente de todo aquele sangue que pintava a calçada de vermelho-escuro. Ver alguém morrer assim já é extremamente chocante. Para uma criança de dez anos então é perturbador. Mello não podia pedir que eu parasse de chorar. Mesmo que tentasse, eu não conseguiria.

Exasperado, o loiro apagou as luzes, me puxou pelo braço e me guiou até sua cama, fazendo-me deitar em seu peito. Seus braços me envolveram em um abraço desajeitado.

—Vai ficar tudo bem, tá? Não tem por que você ficar triste. Aquele homem era mau. Ele tentou me matar e eu me defendi. Foi só isso.

Com aquelas palavras eu comecei gradualmente a relaxar. Mello tinha razão. Aquele bêbado ameaçara sua vida e o loiro simplesmente a defendera. Ele reagira de acordo com seu instinto de sobrevivência, se livrando da ameaça. E eu não oferecera nenhuma assistência a ele. Fiz o que qualquer covarde faria. Nada.

—Desculpa, Mello... – falei entre soluços, agarrando a camiseta preta de Mello já molhada pelas minhas lágrimas. – Eu devia ter ajudado, eu queria fazer alguma coisa, mas...

—Eu sei, eu sei... – ele acariciava meus cabelos, o que me fazia fechar involuntariamente os olhos. – Você ficou assustado e não reagiu. Tudo bem, não tem nada de errado nisso.

Eu sabia que não era isso o que ele pensava de verdade. Sabia que me achava um idiota ridículo por não ter feito nada. Sabia que tinha raiva de mim por não ter ido a seu socorro.

—Nós temos que avisar a polícia. – falei decido, sentando em meus calcanhares e limpando meu rosto. Mello também se sentou.

—Você é louco? – Mello sussurrou com urgência, arregalando os olhos. – De jeito nenhum. Você não vai contar nada do que aconteceu a ninguém, entendeu? Vai guardar esse segredo comigo.

— Mas...

— Matt, entenda. Se a polícia souber disso vão querer fazer perguntas, pedir depoimentos, investigar sobre nossas vidas. Se eu quero superar L, não posso permitir que saibam tanto assim sobre mim. Temos que ser discretos. Você não quer que a polícia se meta na nossa vida, quer?

—Não... – respondi baixinho

—Ótimo. Então fica quieto.

—Vamos avisar o Watari pelo menos...

O loiro rosnou irritado e agarrou a gola da minha camisa, falando com rapidez e um pouco de desprezo.

—Escuta. O Watari trabalha muito com o L, não tem mais tempo para o que acontece aqui na Wammy's. Nós estamos crescendo, Matt. Já não podemos mais ficar chorando por causa de tudo que acontece. Eu atirei sim naquele cara e se fosse necessário atiraria de novo. Ele era um bêbado vagabundo que servia pra nada vivo. Ninguém vai notar a morte dele. E aliás, alguém imprestável assim merece morrer mesmo. – ele me soltou, afastando-se até a cabeceira da cama, onde recostou a cabeça ainda olhando para mim. – Não posso deixar você me entregar, Matt. Eu preciso ficar longe de encrencas. Ou, pelo menos, preciso evitar que descubram sobre elas. E além disso, se contar pra alguém o que aconteceu, você vai ser taxado como cúmplice de um assassino. Tem certeza de que é isso que você quer?

Eu me arrepiei com aquelas palavras. Não exatamente pelo que elas diziam, mas pelo modo como soaram ao saírem da boca de Mello.

Ele estava me ameaçando. Era essa a mensagem que estava implícita ali: "Se eu afundar, você vai comigo.”.

—Eu...não vou contar. – meus olhos ardiam devido ao longo período de choro, mas fiz um esforço para mantê-los abertos e olhar para Mello.

Ele suspirou aliviado.

—Ótimo. Agora me ajuda a encontrar um lugar para esconder isso. – sua mão foi entre a barriga e a calça e dali ele tirou a PT840. Afastei-me assustado. – Para com isso, Matt. É só uma arma, tá? Só isso. Nada demais. – ele parecia falar mais consigo mesmo do que comigo.

Mello tentava esconder, mas ele mesmo estava assustado com aquilo. Sua mão tremia levemente sob a arma enquanto ele olhava ao redor, procurando um bom local para esconder o objeto. Eu o ajudei: liguei as luzes, vasculhei alguns cantos, abri alguns armários e remexi em algumas tralhas. Finalmente encontrei um casaco grosso de frio que eu não usava há meses e o joguei para Mello. Ele retirou as balas e enrolou tanto a munição quanto a arma na roupa, recolocando esta na gaveta.

—Amanhã eu me livro dessa coisa. Mas esse segredo você vai ter que guardar pro resto da vida. Entendeu, Matt?

—Entendi. – falei baixinho, desviando o olhar.

—Promete que não vai contar pra ninguém.

—Eu prometo.

—Não ouvi.

—Eu prometo, Mello!

—Que barulho é esse aí dentro? – um dos funcionários do orfanato bateu duas vezes do lado de fora. Nós ficamos em silêncio. – Matt?! Mello?! Está tudo bem?

—Tudo bem! O Matt só teve um pesadelo!-olhei feio para o loiro.

—Verdade, Matt?!

—Verdade!-respondi, contrariado.

—Então vão dormir!

Logo os passos se afastaram e Mello apagou novamente a luz para dormir. Depois de ponderar por um momento, liguei um abajur tamanho bebê ao lado da minha cama.

—Sério mesmo? – Mello debochou, referindo-se ao meu antigo medo do escuro.

—É isso ou eu vou dormir todo atirado em cima de você. Qual você prefere?

—Tá ótimo assim. – e se virou para o outro lado, longe de mim e da minha sombra que se projetava na parede ao lado da minha cama.

Aconcheguei-me sob as cobertas e observei os vultos que enfeitavam a parede. Mello não poderia ter sido mais claro com aquela conversa. Ele realmente parecia acreditar que o homem merecera aquele destino e portanto não sentia remorso algum do que havia feito. Sem sombra de dúvida ele o faria novamente.

Naquele dia a minha adoração por Mello começou a vacilar. Meu coração e meu cérebro infantil não conseguiam processar direito aquilo. Eu sabia que o loiro não tivera outra opção, que precisava se salvar a qualquer custo. Mas parecia tão errado tirar a vida de alguém e manter isso escondido, como se não tivesse importância. Apesar de sua aparência e condição, alguém talvez pudesse amar aquele bêbado. E se ele tivesse família ou amigos que se importassem com ele? A polícia poderia descobrir, se fosse avisada. E nós explicaríamos que não tivemos escolha. Seria difícil, mas tudo daria certo no final. E nossa consciência estaria limpa. Eu achava que isso era o que realmente importava. Mas para Mello não era assim. Ele não dava a mínima para aquele homem. E queria que eu também não desse.

Foi a partir daquele dia que eu comecei a ver o mundo com outros olhos, a enxergá-lo como ele realmente era: frio, cruel e sem paciência com os fracos.

Assim como Mello.

...

Depois daquele dia eu mudei completamente. Meus ideais de certo e errado começaram a se alterar e, apesar de não aprovar os métodos de Mello, eu não interferia em seus planos. Internamente, eu sabia que ele fazia o que era certo. Ou melhor, o que achava ser certo. E que eu também fui, desde muito pequeno, influenciado a achar que estava certo.

Ainda assim, independente do motivo interior de Mello, eu não conseguia aceitar aquelas palavras que ele violentamente atirara contra mim duas noites antes. Na hora eu não soube como reagir, mas, depois de muito dormir e jejuar, elas passaram a me atingir com muita força.

Há séculos eu saio com outras pessoas, mas você sempre foi muito tapado pra perceber. Eu me encontrei com homens e mulheres bem debaixo do seu nariz, mas claro que o romântico Mail não poderia imaginar uma coisa dessas. Você sempre foi tão cego para essas coisas, sabe? Diz que me conhece mais do que qualquer outro, mas não consegue nem perceber algo óbvio como uma traição.

Nunca. Jamais. Em hipótese alguma eu seria capaz de acreditar naquilo. Provavelmente eu estava apenas me iludindo, mas não importava: Mello não seria capaz de me trair. Eu precisava acreditar nisso.

Sempre foi assim, né? Desde que nos tornamos amigos. Eu precisava fingir que tinha sentimentos. Precisava fingir que você era alguém importante na minha vida. Precisava dizer que sentia sua falta quando passávamos muito tempo separados.

Ainda que a segunda parte fosse verdade -o que eu duvidava- a primeira certamente não o era. Mello nunca precisara fingir que tinha sentimentos. Ele sempre fora um homem emotivo, mas não no sentido romântico da coisa. Para ele tudo era oito ou oitenta: ou ele queria ou não, era ódio ou amor. Mello era intenso, explosivo, destrutivo. Quando queria demonstrar que estava feliz com a minha presença, era exatamente isso que fazia, através de sorrisos e abraços. E quando queria me deixar para baixo ele simplesmente me esmagava. Suas palavras me deixavam constantemente em frangalhos. Mello não parava para pensar antes de falar. Quando queria me magoar, era exatamente o que fazia, sem me poupar ou amenizar a mensagem de forma alguma. Era curto e grosso, indo direto ao ponto.

Assim como no dia em que eu saíra de casa. O objetivo dele era claramente me fazer ir embora. E ele conseguira.

Devia ter visto a sua cara. Você estava tão feliz, tão realizado, tão excitado. Me tocava como se eu fosse a pessoa mais especial, mais importante da sua vida. Mas, ao mesmo tempo, queria me seduzir. Queria que eu pensasse só em você, que eu tivesse necessidade de estar com você. Que eu te amasse. E foi aí que você falhou.

Subitamente eu me sentei na cama, a mão sobre a boca. Um mal estar agudo se abateu sobre meu corpo e eu corri para o banheiro, certo de que iria vomitar. Apesar disso não ter acontecido, a sensação ruim ainda se fazia presente e portanto não deixei o cômodo. Levantei a cabeça e por um momento não reconheci o homem que me encarava. Uma barba bem rala surgia sob seu queixo, o que, juntamente com os cabelos excessivamente bagunçados e os bolsões negros sob os olhos, indicava uma total falta de cuidado com a própria aparência.

Dois dias. Somente dois dias sem Mello e eu já conseguira me tornar outra pessoa.

Deixei o banheiro correndo e catei um casaco da minha mochila. Meus dedos bateram em um objeto familiar e eu puxei os goggles alaranjados, observando com desprezo. Eu não poderia mais usá-los. A lembrança de Mello associada a eles era muito forte. Deixei-os de lado e fui para a porta. Desci as escadas correndo, praticamente me jogando nos andares inferiores. Ao chegar ao térreo me lembrei com frustração de que não havia pegado nenhum dinheiro. Subi voando, pulando de dois em dois degraus, agarrei a carteira e voltei para a rua.

Eu merecia um almoço decente. Nada de comidinha de algum bar de esquina ou lanche congelado. Queria um banquete dos deuses. Minha barriga roncou só com o pensamento.

Comecei a andar, procurando um bom restaurante. Cada vez que passava por uma vitrine de loja eu desviava o olhar, recusando-me a encarar o homem que me olhava de volta no espelho. As ruas estavam com pouca movimentação, mas pude notar que as poucas pessoas que caminhavam pareciam estranhamente alterar suas rotas quando me viam. Minha expressão deveria estar pior do que eu imaginava. E o pior de tudo era que eu me sentia nu por não estar usando os goggles, o que aumentava minha irritação e, portanto, piorava minha cara.

Finalmente encontrei um bom lugar e não demorei a fazer o pedido. Um homem de chapéu passou por mim e sentou de costas para onde eu me encontrava, instalando-se em uma mesa distante. Sua atenção voltou-se imediatamente para seu celular.

Como sempre, meus pensamentos começaram a divagar e eu mergulhei em lembranças.

...

—Você vai rir sempre que eu colocar a mão na sua coxa?-Mello perguntou com uma sobrancelha arqueada e um sorriso divertido no rosto

—Claro que vou, seu ousado. – respondi me fazendo de ofendido.

Mello e eu estávamos escondidos em um ponto bem distante da entrada da Wammy's, perto das árvores mais altas que ladeavam os muros do instituto. O dia estava frio, com um vento cortante que impedia as crianças mais novas de sair, apesar de não estar nevando. Os jardins estavam praticamente vazios, exceto por nós dois, que nos sentávamos entre duas macieiras bem próximas e conversávamos entre risos idiotas.

—Ah cala a boca, você gosta. – ele apertava a parte superior da minha coxa, deslizando os dedos ao longo dos músculos no local. Um sorriso se abriu em meu rosto e logo a outra mão de Mello me puxou pela nuca para um de seus inúmeros beijos de tirar o fôlego.

Assim que seus lábios me alcançaram ele puxou meu lábio inferior com os dentes, em uma carícia que eu gostava bastante. Logo em seguida ele o capturou com a boca, chupando bem devagar, apertando minha nuca no processo. Meu coração disparou com aquilo e os pelinhos do meu pescoço e braços se eriçaram. Os dentes de Mello deslizavam pelo meu lábio e em resposta pequenos suspiros involuntários deixavam minha garganta. Comecei a corresponder, prendendo partes dos lábios do loiro entre os meus antes de soltá-los e capturar novamente outras pequenas partes. Era um beijo apaixonado e tímido, do tipo que se começa a dar antes que as coisas fiquem muito selvagens. O típico beijo que pervertidos como nós gostávamos de dar o tempo todo.

Foi a vez de Mello suspirar baixinho quando a ponta da minha língua deslizou por seu lábio cheinho, brincando com a região. Logo nossas línguas se tocaram, deslizando uma sobre a outra bem lentamente, fechando um beijo mais intenso. Segurei com uma das mãos no queixo de Mello, trazendo-o, se é que era possível, ainda mais para perto. Ele tomou o movimento como um desafio, iniciando uma pequena batalha pelo controle do beijo. Só havia, como sempre, uma regra.

Quem gemesse primeiro, perdia.

Fui mais rápido no início: tomei seus lábios entre os meus em um movimento brusco, sobrepondo sua língua com a minha. Minha mão passou a acariciar sua bochecha enquanto nossos lábios se moviam, carícia que geralmente o deixava corado. Não abri os olhos para conferir. Mello sorriu com minha atitude e, em troca, puxou de leve a pontinha da minha língua com os lábios, obrigando-me a sufocar um suspiro.

A mão do loiro deslizou então para os meus cabelos, puxando-os em meio ao beijo. Não pude me conter depois disso, gemendo baixinho em sua boca.

—Ganhei. – ele sussurrou, rindo.

—Não valeu, você roubou. – fiz-me de bravo, o que não funcionou direito, graças ao meu sorriso.

—E pretendo continuar roubando. – falou tão baixinho que eu mal o ouvi, mas não tive tempo de responder, sendo novamente calado por aqueles lábios macios.

...

—Senhor?...Senhor? Senhor?! – Alguém me chamava com vigor, olhando-me com preocupação. Demorei a sair do transe e reconhecer o garçom do restaurante em que eu estava.

—O que que é? – perguntei irritado. Não que o homem estivesse me irritando, mas o motivo pelo qual eu me distraíra irritava-me.

Por que eu tinha me lembrado daquilo? O início do meu relacionamento com Mello fora maravilhoso, mas ninguém quer lembrar-se de bons momentos com a pessoa com quem acaba de brigar.

—O senhor gostaria de pedir algo para beber? – o homem fechou a cara, provavelmente por causa da minha grosseria. Tentei relaxar.

—Não, obrigado... Estou bem.

Ele logo saiu e eu me voltei para a comida em meu prato. Em outros tempos com certeza ficaria envergonhado por comer tão depressa, mas naquele momento minha barriga não dava a mínima para os bons modos. Devorei tudo em questão de segundos, me engasgando seriamente em alguns momentos. Alguns clientes me olharam com desgosto, exceto o homem que mexia tranquilamente no celular.

—Tá olhando o que? – rosnei para um casal que não parava de cochichar e lançar olhares para o meu lado. Eu não estava com a menor paciência para ser cortês, muito menos com casais.

—Esse é um restaurante respeitado, não coma desse jeito. E não seja grosseiro com a minha mulher. – o marido, que era todo enrugado e usava costeletas (quem usa costeletas hoje em dia?), fechou a cara para mim.

—Eu como do jeito que eu quiser. – respondi já me levantando para sair. Sorte dele que eu já havia pagado a conta e terminado de comer, senão arrebentava aquela cara feia dele.

...

Já estando perto do motel, senti um arrepio bem no meio das costas, como um pequeno choque localizado. Não havia ninguém próximo o suficiente para ter provocado aquilo, então presumi que fosse um pressentimento. Olhei rapidamente em volta, mas não havia ninguém suspeito, exceto uma senhora tricotando em um banco.

Cerrei o olhar para ela, que nem me notou e continuou com o que fazia. Talvez tivesse sido impressão minha. Ainda assim, continuei a observar a velha até entrar no motel.

No apartamento, sentei na cama com a cabeça entre as mãos. A imagem de Mello não parava de surgir diante dos meus olhos, como um fantasma que não quer deixar sua casa. Cenas de nós dois quando crianças, quando adolescentes ou mesmo depois de adultos se repetiam em minha mente, atormentando-me com bons e maus momentos que passamos juntos. Eu era até mesmo capaz de ouvir as diversas entonações da voz dele em cada uma daquelas situações, lembrava-me até das palavras exatas de algumas. Era o inferno dentro da minha própria cabeça. Meu cérebro me obrigando a lembrar o que eu queria esquecer.

Como em reflexo, peguei minha arma dentro da mochila e posicionei-me no centro do quarto, olhando ao redor a procura do problema. Acontece que o problema eram minhas próprias lembranças, minha memória do chocólatra desgraçado. Eu era o problema. E obviamente não poderia atirar em mim mesmo.

Um movimento na janela atraiu minha atenção para lá. Pombas brigavam no telhado vizinho por um pedaço de pão, batendo as asas para tentar espantar umas às outras. Eram cinco no total, com penas que variavam de cinza a um preto fuligem.

Encostei a barriga no peitoril da janela, erguendo a arma, por razões óbvias, com a mão direita.

Um disparo. Dois, três, quatro, cinco.

Quatro pombas mortas. Uma conseguira desviar do tiro e agora voava para bem longe, batendo desesperadamente as asas. Se eu estivesse com o pulso esquerdo intacto ou pelo menos melhor, nenhuma teria escapado.

De repente a porta às minhas costas foi brutalmente arrombada, o gerente do motel entrando enlouquecido.

—O QUE FOI ISSO?

Ah merda.

—Eu não atirei em ninguém, se é isso que quer saber. – não adiantava me fazer de bobo, uma vez que a arma estava bem visível em minha mão.

Ele olhou sobre o meu ombro e, provavelmente enxergando as pombas mortas, arregalou os olhos.

—NÃO É PERMITIDO UTILIZAR ARMAS DE FOGO AQUI DENTRO!-bem, teoricamente eu não tinha usado ali dentro, mas... – SAIA! OU EU VOU CHAMAR A POLÍCIA!

Continuei a encarar o sujeito por mais alguns segundos antes de jogar de qualquer jeito as minhas coisas dentro da mochila e sair porta afora. Algumas pessoas me olhavam pelos corredores e na rua alguns curiosos, provavelmente atraídos pelo barulho dos tiros, também me olhavam. Não saí correndo, pois assim pareceria que eu estava fugindo e certamente uma multidão me cercaria. Enquanto eu andava, ouvi o gerente do motel falando com as pessoas.

—Aquele retardado desocupado jogou algumas pedras no telhado aqui do lado e acabou acertando umas pombas. Fez um barulho pesado, né?

Revirei os olhos. Eu jamais acreditaria que um barulho daqueles seria uma pedra batendo em telhas. Ainda assim não disse nada, simplesmente peguei meu carro e continuei meu caminho para bem longe dali. Longe do motel, dos tiros, das pombas mortas, dos curiosos.

E, principalmente, para longe de Mello.