Stalemate II.

8 VIII. 10/06/20xx


Mello e eu ainda não estávamos nos falando. E pela primeira vez eu estava grato por isso.

Naqueles últimos dias o loiro estava mais agitado que o normal. Saía com frequência de casa, comia quase o dobro de chocolates por dia e se trancava no quarto cedo demais. Isso me deixava louco. Eu queria desesperadamente saber o que estava acontecendo. Porém, meu orgulho falou muito mais alto e eu me controlei, não perguntando nada, não dirigindo uma única palavra a ele. Assim fui capaz de passar aqueles cinco dias de silêncio feliz no meu quarto, jogando tanto vídeo game que meus dedos doíam e minha cabeça girava. Mas estava, finalmente, em paz. Era incrível como aquele curto período de tempo sem Mello me deixara alegre. E isso me assustava um pouco.

Como eu poderia viver sob o mesmo teto com alguém que não me dava sossego? Que não confiava em mim? Que sempre achava que eu só fazia merda? Como aceitar o fato de que Mello escondia as coisas de mim, tratando-me como criança, achando que eu não poderia lidar com o que quer que fosse? Se eu me sentia melhor longe dele, o que ainda fazia ali?

Simples. Amor. Esse sentimento maldito e desgraçado que só me fodeu a vida toda.

– Você adora sentir pena de si mesmo, não é? – falei baixinho, encostando a testa contra o vidro e olhando a chuva lá fora. Ha, vejam só leitores. Matt está dando uma lição de moral em si mesmo.

... Hum... É tão estranho falar de mim mesmo na terceira pessoa. Isso me lembra a Misa. Ah, Misa... Sua morte foi uma tristeza e uma felicidade para a humanidade. Uma mulher tão linda deixar esse mundo é lamentável.

Mas por outro lado, o mundo pós-Misa tem um QI mais alto...

Sorri contra a janela.

– O QUE? – o grito escandaloso de Mello fez meu sorriso desaparecer. Minha paz se fora. – Como assim o Rodner contou pra uma vadia sobre a negociação? Onde ele está? E ela? – comecei a prestar atenção na conversa. Mello franzia o cenho de preocupação. Tirei alguns segundo a para olhá-lo. Ele parecia exausto, como se não dormisse há dias. Olheiras escuras rodeavam seus olhos, uma barba loura rala envolvia seu queixo e seus olhos tremiam um pouco. – Me encontre lá com Lucius e quem mais você conseguir reunir em uma hora. – ele desligou o aparelho e fitou o chão, totalmente imerso em pensamentos. Seus dentes trincaram e seus pulsos se fecharam tanto que o celular quebrou em sua mão. – Ah... Mas que merda! – abaixando-se, pegou o cartão de memória (quebrado) e o chip (milagrosamente intacto) do chão e se levantou. Sua mão sangrava.

– Tem um pano para atadura na caixa do armário. Quer que eu pegue?

Ele ergueu o olhar, como um animal assustado, ao ouvir minha voz. Eu nunca o vira tão distraído. Ou será que ele se surpreendeu por eu ter falado com ele?

– N-não, não precisa... Foi superficial. Vou lavar. – e foi para o banheiro. Eu o segui.

– Então... Vazou alguma informação importante? – me apoiei no batente da porta, os braços cruzados. A água em torno da mão de Mello era vermelha.

– O filha da puta do Rodner está em um bordel, como sempre. O Jean ouviu ele contando pra uma puta sobre as armas... – ele gemeu de dor, massageando a mão machucada e fechando a torneira. – Até eu chegar lá já vai ter muita gente sabendo. Vou ter que fazer uma limpeza.

Traduzindo, ele mataria todo mundo no bordel que teve acesso à informação. Inclusive o Rodner.

– Onde fica?

– Longe. – foi só o que respondeu. – Vamos.

Meus olhos brilharam involuntariamente.

– Eu vou junto?

Mello me olhou como se não entendesse a pergunta.

– Claro que vai. Anda. – e passou por mim.

Corri até o quarto. Eu não sabia o que havia acontecido com ele, mas não perderia a chance de ter um pouco de ação. Um sorriso queria se firmar no meu rosto, mas fiz questão de me controlar. Finalmente eu poderia sair e voltar aos assuntos da máfia! Voltar a atirar em pessoas!

Mas o principal motivo do meu sorriso era Mello. Será que finalmente ele me contaria o que estava acontecendo? Eu poderia saber o que o estava deixando tão preocupado nos últimos dias?

Quando cheguei na sala, de casaco e coturno, Mello me esperava à porta. Ele não parava de consultar o relógio.

– Cadê a sua chave? Eu perdi a minha.

– Por aqui... – abri a gaveta e encontrei minha cópia da chave. Nela havia um chaveirinho do Mário pendurado.

Voltando à porta, aproximei a chave da fechadura. Olhando para o Mário, parei por um momento, pensando nas palavras de Mello.

Cadê a sua chave? Eu perdi a minha.

Mello havia saído naquele mesmo dia. Como poderia ter perdido a chave?

Um barulho de tranca e uma superfície gelada metálica. Algemas.

Mello prendera meu pulso à maçaneta interna da porta.

– Mello... – comecei, minha voz baixa e perigosa.

– Me desculpe, Matt. – ele tirou a própria chave do bolso e abriu uma fresta da porta, o suficiente para conseguir passar. As algemas tilintaram. – Mas eu não quero que você venha.

E saiu.

...

1 minuto.

2 minutos.

5 minutos.

10 minutos.

20 minutos.

Por todo esse tempo eu fiquei parado, olhando para meu pulso com a maior cara de otário. Ao contrário de antes, naquele momento não havia nem uma sombra de sorriso em meu rosto.

Mello me enganara. Ele havia dado a entender que me levaria junto e depois me prendera daquela maneira. Deu-me esperança e depois tirou. De propósito.

Puxei o pulso. Como era de se esperar, Mello não escolhera algemas ao acaso. Aquela se prendera perfeitamente tanto à maçaneta circular quanto ao meu pulso. Não poderia me soltar de forma alguma.

Nos 2 primeiros minutos tive a inocência de acreditar que aquilo era uma brincadeira de mal gosto. Após os 20 me peguei imaginando o pescoço de Mello entre as minhas mãos.

Soquei a porta com força, como se ela fosse a culpada de toda a minha frustração. O ar escapou dos meus pulmões em um berro de ódio que eu nunca dera, um sentimento de fúria reprimido há muito tempo.

1 hora.

Finalmente, depois de muito gritar, socar a porta e a parede, xingar Mello de todos os nomes possíveis que me vieram à mente e puxar meu pulso até machucar, escorreguei pela porta e me sentei no chão gelado. Apoiei meu pulso preso sobre minha testa, pensando.

10 anos. Durante esse tempo eu amei Mello como ninguém nunca o amou e nem nunca vai amar. Desde meus 15 anos eu sabia que o amava. E ele me amara também. Ou, pelo menos, fingira que sim.

Fechei os olhos, perdido em lembranças. Eu fizera tanto por ele. Na Wammy's eu sempre o fazia parar de chorar quando tinha pesadelos. Eu cuidava de seus machucados. Eu me colocava ao seu lado em todas as brigas.

E quando ele quis ir embora do orfanato, o que eu fiz? O que um homem desesperado faria: implorei para ir com ele. E, desde então, o segui para todo lado: Alemanha, França, Austrália, China, Japão e depois EUA. Até me juntei à máfia por causa dele. Perdi uma boa parte da minha infância por ele. Fiz tudo o que ele queria.

E é ESSE o agradecimento que eu recebo. – pensei ao olhar, infeliz, para as algemas.

Ingênuo! Você é iludido, Matt. Mello nunca vai escolher nenhum de nós. Ele não se importa com você, um mero cachorro que usa quando tem vontade; ou comigo, uma reles pedra no seu sapato. Admita... Lá no fundo... você não faz ideia dos sentimentos verdadeiros dele.

Abri os olhos e pisquei, um pouco do tonto. De onde aquilo viera? Aquelas palavras me encheram a mente como uma luz forte que eu não pudesse ignorar. Quem havia dito aquilo?

Depois de pensar um pouco, lembrei-me. Near. Fora ele quem tentara, com aqueles argumentos, me convencer de que Mello nunca se importara comigo.

Talvez isso seja um choque, Matt, mas Mello nunca te deu a mínima. E nunca dará.

Suspirei, fechando novamente os olhos.

Ah Near... Se você pudesse me ver agora, eu lhe daria razão, seu albino maldito. — os cantos da minha boca se ergueram antes de novamente despencar.

O rival de Mello estivera certo o tempo todo. O loiro não me amava. Nunca amou.

E ainda não ama.– pensei amargurado, trincando os dentes.

Os acontecimentos dos dias anteriores provavam isso. Nós não parávamos de brigar. Ele não me queria mais por perto. E o motivo, claro, era mais do que óbvio.

Encostei a cabeça na porta e mergulhei nas lembranças.

...

Passos no corredor.

Eu não fazia ideia de quanto tempo havia se passado, mas a sala estava escura, indicando que já era noite. Quando a chave girou, a porta se abriu e a cabeça loira entrou, não me movi. Mello se esgueirou para dentro e virou a chave, deixando-a no trinco. Logo depois examinou meu pulso.

– Matt, seu pulso ta em carne viva! Droga... – desesperado, fuçou nos bolsos de sua jaqueta e da calça, encontrando uma pequena chave prateada. Abriu rapidamente as algemas. – Levanta.

Continuei sentado.

– Matt? Você tá acordado? – ele se abaixou para me olhar. Minhas esmeraldas fitavam o vazio. – Matt?! MATT? – ele continuou esperando e, vendo que eu não reagia, suspirou. – Não faz essa cara idiota. Eu não tive escolha. Você entende, né? ... Ah, que seja. Você vai vir por bem ou por mal. – e se abaixou, passando um dos meus braços por sobre os seus ombros

Quando Mello percebeu o sorriso de canto em meus lábios, já era tarde. Eu já havia me afastado de seu corpo e lhe dado um soco tão forte na mandíbula que ele caíra com toda a força no chão, com sangue escorrendo pelos lábios abertos.

– Mas é claro, Mihael. Eu também não tive escolha. Você entende isso, não é? – minha voz era dura e impiedosa, como lanças afiadas e pontiagudas.

– Ugh... – ele gemeu de dor, apoiando o peso em um dos braços para se levantar. Eu agarrei a gola de sua jaqueta e o joguei na parede, arrastando-o para cima até que seus pés deixassem o chão. Com o movimento brusco, ele cuspiu mais sangue e um pouco veio no meu rosto.

– Você não faz a menor ideia do quanto eu quero matá-lo. Todos esses anos na máfia me ensinaram tantas coisas, Mello, mas sabe qual foi a melhor delas? – as safiras, carregadas de dor, se tornaram gélidas de ódio, mas Mello não disse nada. – A arte da tortura. Quanto tempo será que você aguenta sendo chicoteado? Quantas horas você consegue se manter acordado com um veneno circulando pelas suas veias? Com uma vela pingando no seu rosto? Com um carro esmagando-o lentamente? Minha curiosidade em descobrir é quase tão grande quando a vontade de vê-lo sem vida.

Por alguns instantes Mello ficou estático, babando sangue, com o rosto avermelhado de raiva e os olhos arregalados. Acho que não esperava que eu dissesse tudo aquilo. Nem eu esperava. Não sei o que aconteceu. As palavras simplesmente jorraram da minha boca, carregadas de um ódio que eu não fazia ideia que possuía.

Por fim, o loiro riu. O sorriso em seu rosto fez minhas mãos tremerem.

– Como se você tivesse coragem, seu bosta.

Dois segundos mais tarde eu o arremessei contra a estante e ele caiu, semiconsciente.

Eu ofegava, enlouquecido. O que estava acontecendo? Por que minhas mãos tremiam? Por que eu sentia tanto calor? Por que um desejo louco de matar me subia à cabeça? Por que minhas pernas iam na direção dele?

Por que a imagem de Mello morto me alegrava?

– VOCÊ NÃO VAI DESMAIAR AGORA! – peguei Mello no colo e o coloquei no sofá, sem gentileza alguma. A adrenalina me fez ignorar seu peso. Ele abriu levemente os olhos e tossiu. Segurei na gola de sua jaqueta, gritando. – ACORDA!

– Eu to acordado. – ele respondeu com a voz fraca, apoiando-se no sofá e tentando sentar. Parecia tonto, mas ainda assim fazia o possível para mantem o olhar sanguinário. – Se você quer tanto me torturar lentamente como diz, Matt, está fazendo errado. Vou morrer rápido desse jeito.

– Não tem graça nenhuma te encher de porrada se você não resistir.

– Resistir?... Você diz... assim?

Mello se moveu tão rápido que meus olhos mal conseguiram acompanhar. Dando um impulso no sofá com uma mão e pegando uma faca presa à cintura com a outra, ele cortou minha camiseta e abriu um corte em meu peito na horizontal, caindo sobre mim em seguida. Gemi de dor enquanto caía e tentei segurar seu braço, mas ele foi mais rápido: segurou meu pulso machucado e o torceu para trás, produzindo um estalo. Com toda a certeza os vizinhos ouviram meu grito.

Eu vou morrer? Aqui? Agora? Desse jeito? – pensamentos idiotas cruzaram minha mente naquele momento. Eu não poderia permitir que aquilo acontecesse.

Mal minhas costas encontraram o chão e eu prendi as pernas de Mello com as minhas, impedindo que ele saísse dali. Virei para o lado e joguei o máximo de peso que conseguia sobre seu corpo, imobilizando-o abaixo de mim. Com a mão boa, a direita, apertei a mão de Mello que segurava a faca, batendo-a contra o chão até que ele a soltasse.

– Agora você vai me ouvir. – com a mão esquerda, peguei minha arma presa ao cinto e apontei para Mello. – Já chega disso. Chega dessas brincadeiras. Chega desses enigmas, dessas frases misteriosas que não significam nada. Você conseguiu destruir cada pedacinho da minha paciência. Eu cansei. Não aguento mais nem olhar pra essa sua cara sem ficar estressado. Essa casa só me dá raiva, Mello. Eu não sinto prazer nenhum em ficar aqui, tudo por sua causa. Você fez da minha vida um inferno e eu não vou mais tolerar isso. – aproximei nossos rostos, as esmeraldas quase grudando nas safiras. – Agora seja bonzinho e comece a falar.

Encostei minha Colt no rosto de Mello. Ao fazê-lo, meu pulso esquerdo, que estava latejando desde que Mello o dobrou, começou a doer ainda mais. Tentei disfarçar a careta de dor, mas o loiro percebeu.

E sorriu.

– Eu aposto 20 dólares que em dois minutos você não vai mais aguentar segurar isso. – Trinquei os dentes e empurrei a Colt contra a bochecha dele. – Não adianta fazer essa cara, Matt. Você não me assusta.

Com a mão livre, Mello tentou empurrar meu ombro, mas eu não saí do lugar. Continuei a fazer pressão sobre sua mão que antes segurava a faca, torcendo lentamente seu pulso para trás. Ele começou a se debater e socar meu rosto. Bati com a parte de baixo da Colt no lado da cabeça dele, que pendeu para o lado. Uma marca vermelha se formou e pouco depois já estava roxa. Mello tossiu um pouco mais de sangue e ficou em silêncio, provavelmente ainda mais tonto. Seu braço livre caiu ao lado do corpo. Mais um pouco e eu o faria desmaiar.

– Posso ficar aqui a noite toda, Mello. Você que sabe. – ameacei quando os olhos dele começaram a se fechar. Mello estava fingindo, como sempre. Eu sabia que ele ainda aguentava mais.

– Acredite em mim... você não quer saber. – falou devagar e bem baixo, como se as palavras lhe doessem.

– Acreditar em você? Me peça algo mais possível, Mello. – ri com sarcasmo. – Vamos começar por partes. Por que você anda tão preocupado esses dias? O que está te incomodando?

Ele levou alguns segundos para responder.

– Tem uma coisa ruim acontecendo.

– Obrigado, Sr. Óbvio. Mas o que é essa coisa ruim?

– Você não entenderia.

Respirei fundo, apertando ainda mais o pulso de Mello. Ele reclamou de dor.

– Se você me tratar como uma criança burra só mais uma vez Mello, eu juro que...

– O que eu quis dizer... – ele me interrompeu. – ...é que você não entenderia meu ponto de vista, Matt. Vai dizer que eu estou fazendo tudo errado.

– Eu não diria isso se você não fizesse tudo errado.

Ele revirou os olhos.

– Ah que seja. Não vou me explicar pra você. – de alguma forma Mello havia conseguido desenlaçar suas pernas das minhas e logo me atingiu com um chute violento na barriga. Com a dor extrema, derrubei a Colt e deitei-me no chão frio, de lado, tentando respirar. O impacto me fizera ter vontade de vomitar. Fiquei parado por vários segundos, tentando me estabilizar. Mello fazia o mesmo.

Aproveitei aquele tempo para examinar meu pulso ferido. Droga, pensei. Se eu não fosse canhoto, não teria grandes problemas, mas eu era uma negação com a mão direita. O máximo que conseguia fazer era atirar, mais nada. Com aquele machucado minha mão esquerda ficaria debilitada por um bom tempo. Pelo menos os dedos pareciam estar inteiros; apesar da dor, eu conseguia movê-los.

– Sabe qual o seu problema, Matt? – Mello havia se sentado com as costas apoiadas na parede mais distante de mim, seu rosto vermelho e suado característicos de quem está passando mal. – Você nunca consegue analisar as coisas como um todo. Você se distrai com cada detalhezinho insosso e deixa sempre escapar o que conecta uma situação à outra.

– E você sabe qual o seu problema, Mello? Surdez. Eu já disse que chega dessas frases misteriosas sem significado algum.

– Não é por que você não vê significado que não exista nenhum.

– Cala a boca, Mello. Só... cala essa boca.

Nós ficamos assim durante um minuto e meio mais ou menos. Eu tentando desesperadamente não vomitar e Mello provavelmente tentando se manter acordado. Ergui minha blusa listrada para olhar meu abdômen. Uma grande marca roxa ocupava todo o espaço central e parecia que não iria sumir tão cedo.

– Matt. – o loiro fez um objeto deslizar do outro lado da sala até mim. Tive de me esticar para conseguir pegar, pois ele não conseguira reunir forças para empurrar direito. Era a minha Colt. – Você não queria me matar? Vai em frente.

Esse idiota... ele sabe que não tenho coragem de verdade. – pensei com raiva, desistindo de pegar a Colt e deixando-a abandonada no chão.

– Se eu fizer isso, você leva o segredo com você para o túmulo. E eu vou ter me irritado por tanto tempo pra nada. – levantei-me com extrema dificuldade e, mancando, me aproximei de Mello. Fazia tanto tempo que eu não o olhava daquela forma: de cima. Ele sempre gostara de me olhar daquele jeito, só para se sentir superior. E eu, mesmo observando-o daquele ângulo, não me sentia nem um pouco melhor. – Vamos colocar as cartas na mesa, Mello. Eu já sei o que está acontecendo. Só quero que você admita. Sei que já entendeu isso.

– Não sei do que você está falando.

Minha mão boa (a direita) voou até aquele pescoço fino, comprimindo-o com uma pressão bem pequena. Mello tentou tirá-la com as próprias mãos, mas não lhe restavam forças. Parecia que tínhamos acabado de transar: ele estava cansado, vermelho e ofegante. A única diferença era que estava vestido e bem mais dolorido.

– Fala.

Ele baixou os olhos pelo que pareceu uma eternidade. No começo, pensei que tivesse desmaiado, mas percebi que ainda se mexia. A cascata de mechas douradas ocultava o rosto magro, que ondulava levemente conforme ele respirava. Meus pensamentos se perderam naquela imagem e por um tempo eu me recordei da primeira vez em que coloquei os olhos naqueles fios claros.

Depois de algum tempo, finalmente, eu avistei aqueles globos azuis, bem arregalados, completados por um sorriso sem qualquer traço de sanidade.

– Eu tenho outro homem.