Stalemate II.

9 IX. 10/06/20xx parte II


Notas iniciais
Eu vou dizer isso pela última vez. Não tirem conclusões precipitadas sobre NENHUM aspecto dessa fanfic.

–Eu tenho outro homem.

Por algum tempo nenhum de nós disse nada. Aquelas últimas palavras de Mello pairaram dolorosas no ar, batendo contra meu corpo e minha cabeça, sem conseguir me atingir. Parecia que eu havia acabado de acordar de um sonho. Ou que havia adormecido naquele instante. A sensação de confusão era a mesma.

Eu possuía plena consciência do que havia acabado de ouvir. Eu já esperava aquelas palavras.

Só não esperava que elas não produzissem nenhuma reação em mim.

Mesmo assim, perguntei:

– O que?

– Você ouviu. – ele respondeu, os lábios tremendo um pouco, provavelmente de raiva. Mas ainda sorria. – Há séculos eu saio com outras pessoas, mas você sempre foi muito tapado pra perceber. Eu me encontrei com homens e mulheres bem debaixo do seu nariz, mas claro que o romântico Mail não poderia imaginar uma coisa dessas. Você sempre foi tão cego para essas coisas, sabe? Diz que me conhece mais do que qualquer outro, mas não consegue nem perceber algo óbvio como uma traição. – ele riu baixinho, mas, pelo modo como depois cuspiu uma boa quantidade de sangue, parecia um riso forçado. – Não que eu esteja reclamando, claro. Por você ser tão descuidado eu finalmente pude ter a melhor transa da minha vida.

Eu não conseguia entender. Do que Mello estava falando? De quem ele estava falando? Qual língua aquela boca falava? Minha cabeça não sabia. Mais tarde aquelas palavras seriam traduzidas e seus sentidos finalmente me atingiriam, mas naquele momento meus pensamentos estavam vazios. Cada som que deixava aqueles lábios era armazenado em algum lugar do meu cérebro para ser analisado mais tarde.

– Ele é melhor do que você jamais será, sabia? O cara com quem eu to saindo agora. – Mello empurrou bruscamente minha mão frouxa de seu pescoço. Não lembro de quando havia diminuído aquele aperto. – É mais forte, mais alto, mais bonito... Maior. – ele desviou o olhar para o chão. – É um excelente passatempo. Ele sabe separar as coisas. Sabe como não se envolver emocionalmente comigo. Sabe que nunca iremos além de uma coisa...física. Nossa relação é bem simples: dar e receber. Literalmente falando. Com ele eu não tenho a dor de cabeça que tenho com você. Não preciso fingir que existe alguma coisa mágica e especial, quando não há nada. Mas com você, Matt, sou obrigado a fazer todas essas coisas cansativas. – Mello se apoiou na parede e, devagar, se ergueu. Ele ainda não me encarava. Ria, olhava para cima, para o chão. Talvez alguma parte do seu ser tinha vergonha das verdades que ele jogava na minha cara. – Sempre foi assim, né? Desde que nos tornamos amigos. Eu precisava fingir que tinha sentimentos. Precisava fingir que você era alguém importante na minha vida. Precisava dizer que sentia sua falta quando passávamos muito tempo separados. Você não tem a menor ideia de como foi difícil ignorar as orelhinhas peludas, o rabo, o focinho e a coleira que eu via quando olhava pra você. Ou melhor, que eu vejo quando olho pra você. – finalmente, as safiras se dirigiram a mim, avaliando-me de cima a baixo e nunca parando por muito tempo no mesmo lugar. – Às vezes eu até o ouço latir, sabia? É engraçado. Tenho que controlar o riso. Um cachorrinho inútil como você teve a oportunidade de ficar com alguém como eu, mas não foi o suficiente. Você queria mais. Queria que eu te amasse tanto quanto você me ama, que você significasse tanto pra mim quanto eu significo pra você, mas não é assim que funciona, Matt. E alguém inteligente como você deveria saber. – ele finalmente havia conseguido se apoiar na parede e caminhou a passos vacilantes em minha direção. Por reflexo, meus braços se levantaram para ampará-lo, mas eu fiz força para abaixá-los. Não iria ajudá-lo. Na verdade, eu desejava que ele caísse. – Eu cedi aos seus sinais óbvios na época da Wammy's porque você parecia desesperado. Seu olhar de apaixonado me deu tanta dó que eu permiti que você me tocasse como quisesse. Até tomei a iniciativa. Obviamente você se lembra de como eu o beijei naquela enfermaria. Você ficou louco. Seus desejos finalmente estavam se tornando realidade. Eu podia sentir o quanto você me queria, o quanto ansiava por qualquer demonstração de carinho que eu pudesse oferecer. E, semanas depois disso, claro, você queria me comer. E eu permiti. – ele riu, ou melhor, tentou rir, mas sua mandíbula torta (provavelmente pelo soco que eu infligira mais cedo) e seus lábios, principalmente o inferior, molhados de sangue, davam a ele uma expressão nauseante. – Devia ter visto a sua cara. Você estava tão feliz, tão realizado, tão excitado. Me tocava como se eu fosse a pessoa mais especial, mais importante da sua vida. Mas, ao mesmo tempo, queria me seduzir. Queria que eu pensasse só em você, que eu tivesse necessidade de estar com você. Que eu te amasse. – seu olhar recaiu em meu peito. – E foi aí que você falhou.

Naquele dia eu descobri o que significava a expressão "sem reação". Meu rosto não se movia. Eu não sentia nada, não dizia nada, não pensava em absolutamente nada. O que estava acontecendo comigo? Por que eu não reagia? Será que eu já havia gasto toda a minha raiva? Já a havia descontado quando troquei socos e chutes com Mello? Meu estado de incredulidade nem me permitia que eu batesse nele outra vez. Estava estático. Se os móveis atrás de mim começassem subitamente a pegar fogo, eu nem me daria conta.

– A melhor parte em estar com você era que eu me sentia bem. Me sentia poderoso, me sentia superior. Você nunca impediu que eu o pisasse, sempre se sujeitou à minha vontade. E sabe por quê? – ele me olhou de relance, esperando que eu respondesse. Alguma força que naquele momento me era desconhecida fez com que eu negasse com a cabeça. – Porque é assim que os relacionamentos sérios funcionam. Sempre. Quem participa de um não percebe, mas quem está de fora nota claramente. Uma das pessoas sempre tem a última palavra, sempre decide sobre tudo. Essa pessoa possui poder sobre a outra, pode até, com um pouco de habilidade, manipulá-la se quiser. Mesmo que a outra parte não perceba, essa pessoa controla toda a vida no casal, ditando quando eles estarão felizes, quando passarão por momentos de crise, quando vão almoçar. E isso vale para homens e mulheres. Quantas vezes nós não vemos mulheres usando e abusando dos companheiros, obrigando-os a fazer tudo que elas querem e quando querem? Fazendo deles empregados que só existem para que elas se satisfaçam? E quantas vezes homens não são vistos sendo autoritários e desrespeitosos com as namoradas e esposas e mesmo assim elas não se afastam deles? Por que você acha que tudo isso acontece, Matt? Porque uma das partes permite ser usada. Não há um lado dominante se o outro não permitir ser dominado. E não importa o quanto as pessoas digam que estão em um relacionamento feliz: de alguma forma um está sempre subjugando o outro. Seja pelo uso da força, seja emocionalmente ou mesmo financeiramente. Alguém sempre sai perdendo, ainda que não esteja consciente disso. – Mello respirou fundo antes de continuar. – E, no nosso caso, já está mais do que na hora de você acordar, de perceber que já chega. Foi divertido enquanto durou, mas eu cansei de brincar com você. – ele concentrou seu olhar em uma das minhas esmeraldas. – Todo brinquedo um dia fica gasto e precisa ser substituído.

Eu ainda me mantive por algum tempo ali, a inércia atuando forte sobre meu corpo. Depois de sustentar o olhar de Mello e de me certificar de que ele não diria mais nada, encaminhei-me para o quarto. Na verdade, minhas pernas foram por vontade própria. Também sem o meu comando se moveram os meus braços, abrindo os armários, pegando minha maior mala e colocando todos os meus pertences rapidamente ali dentro. Eu não tinha muita coisa mas, enquanto trabalhava, meu pulso esquerdo berrava de dor. O resto do meu corpo o ignorou e continuou com os movimentos. Coloquei dois objetos no bolso da calça. Curiosamente, minhas mãos não pegaram as fotos de Mello pelado que eu guardava. Para onde eu iria não precisaria delas.

De volta à sala depois de alguns minutos, eu peguei minha chave com o chaveiro do Mário do bolso direito do casaco (eu a guardara novamente após ter meus pulsos presos pelo loiro) e parei à porta. Mello havia se arrastado até a janela e me olhava fixamente, a expressão impassível. Uma das mãos jazia no bolso e o cotovelo do outro braço apoiava-se no peitoril da janela. Sangue escorria de um lado da boca. Quando eu saísse, muito provavelmente, ou ele desmaiaria pela perda de sangue ou cuspiria ainda mais da substância viscosa e vermelha.

Eu não esperava que ele dissesse mais nada. Acho que ele estava esperando que eu dissesse algo. Em vez disso, levei uma mão ao bolso da calça e tirei dois objetos de lá.

Um óculos de piscina para crianças.

Um vídeo game quebrado.

Por um momento os olhos do loiro se arregalaram. Ele reconhecera os primeiros objetos que eu recebera na Wammy's House, na minha primeira semana no orfanato para super dotados. Objetos que ele, Mihael Keehl, havia me dado. Eu os guardara por quase vinte anos, levando-os para todos os esconderijos para os quais nós nos mudávamos, me recusando a jogá-los fora.

Naquele momento, porém, sem pensar duas vezes, eu os joguei aos pés de Mello. Este observou ambos baterem em seus sapatos antes de olhar novamente para mim. Outra vez, seu olhar dizia que ele esperava que eu dissesse algo.

Não dei esse luxo a ele.

Virando ruidosamente a chave na fechadura, deixei Mello para trás.

Notas finais
(número de reviews caiu... ;-;)