Stalemate II.
7 VII. 04/06/20xx
Notas iniciais
Eu não sabia se tinha uma paciência sobre-humana com Mello, ou se eu só era trouxa mesmo. Hoje, sei que é a segunda opção, mas entrarei em detalhes sobre isso depois.
Naquele dia eu decidi pedir desculpas a ele.
Matt... Você é um idiota.– vocês devem estar pensando. Eu era um, de verdade. Ao mesmo tempo em que eu tinha plena consciência de não ter feito absolutamente nada de errado, não conseguia suportar a ideia de estar tão perto dele e ao mesmo tempo tão afastado. Era muito doloroso. Para mim era preferível me humilhar e pedir desculpas, do que continuar vendo ele me evitar.
E foi o que eu fiz.
– Mello. – eu o chamei quando ele passou por mim, vindo do quarto. Ele parou e virou-se lentamente para me olhar, desconfiado. Nós não trocávamos uma palavra há dois dias.
Levantei-me da cadeira em frente à mesa e o encarei.
– Eu quero pedir desculpas por ter te seguido aquele dia. Não deveria ter feito isso. Você pode ir pra onde quiser à hora que quiser, eu não tenho nada a ver...
– Matt. – ele me interrompeu. – Eu não quero mais brigar, ta? Acontece que tem uma coisa muito grande acontecendo, mas eu não posso te contar agora. Você não entenderia.
– E se eu prometer que não faço nada, mesmo sabendo do que se trata? – me aproximei mais um passo.
Ele riu.
– Nós dois sabemos que você não vai cumprir isso. Me escuta. Preciso da sua paciência. O melhor jeito de me ajudar é ficando quietinho aqui e continuando com os serviços costumeiros da máfia. E pra isso acontecer, você não pode sair do esconderijo em hipótese alguma.
– Mas...
– Matt. Você pode fazer isso?
Respirei fundo e mirei as profundezas daqueles olhos azuis. Lembro-me de, naquela hora, ter visto um lampejo de desespero nas safiras, um desejo de sair dali o mais rápido possível e fugir para bem longe. No momento eu tive certeza absoluta de que Mello estava falando a verdade, de que aquele era mesmo o único modo de eu ajudá-lo, de que ele realmente tinha um motivo que explicava todo o seu comportamento.
Hoje sei que tudo não passou de uma miragem.
– Posso, claro que posso. – respondi após um suspiro, derrotado.
Ele se aproximou e pegou minha mão com seus dedos gelados. Entrelacei meus dedos aos dele e sorri, passando meu outro braço pela cintura dele. Mello fez o mesmo.
– Obrigado. – ele falou muito, mas muito baixinho. Quase duvidei do que ouvi.
– Pelo que? – perguntei.
– Por tudo. – respondeu ainda mais baixo, perto do meu ouvido.
Afastei-me apenas para olha-lo nos olhos, mantendo o abraço. Abri a boca para perguntar o porquê daquilo, mas Mello me interrompeu com um beijo.
Assim que aquela língua tocou a minha, cada pelo do meu corpo se arrepiou. Era uma sensação tão familiar, tão única... Tão boa.
Que saudade, Mello. – foi meu primeiro pensamento. Fazia muito tempo que nós não nos beijávamos daquele jeito. Com toda a calma do mundo. Como se a boca à frente de cada um fosse um universo inexplorado, novo e delicado. Como se aquele momento fosse de extrema importância.
Como se fosse o último.
–Hmm... – eu suspirava no meio do beijo, completamente deliciado. A mão de Mello saiu das minhas costas e foi para os meus cabelos, acariciando devagar. Apertei sua cintura junto à minha. Esqueci-me de todo o resto. Eu estava bravo antes? Com o que? Por que? Já não sabia dizer.
Aqueles toques suaves representavam toda a minha consciência.
...
A mão de Mello começava a machucar de verdade o meu ombro, mas não me atrevi a reclamar. Não conseguiria nem se quisesse. Estava muito ocupado usando a boca pra beijar o loiro ofegante embaixo de mim.
–Mmmf... Ah – ele gemia contra os meus lábios quase tão alto quanto a cama rangia sob nós dois. Tentei me afastar um pouco para olhá-lo, mas ele reclamava e puxava minha nuca para perto de novo. Não queria que eu parasse com os beijos.
Meus movimentos se tornaram menos bruscos por causa disso. Por um lado era muito bom, nosso prazer durou mais tempo, mas aquilo me deixou intrigado. Tirando a mão que apertava com força meu ombro, Mello estava carinhoso demais. O que ele queria dizer com aqueles beijos? Queria reforçar o que dissera antes, queria me agradecer por tudo?
E mais uma vez eu acreditei na sinceridade de Mello. Havia verdade naqueles beijos (ou assim eu pensava). Havia amor, havia carinho ali. Ele me queria. Precisava de mim.
Hoje eu vejo, mas na época nem me passou pela cabeça que Mello poderia ser um excelente ator.
Como fui ingênuo.
05/06
Acordei devagar, abrindo os olhos contra a luz do sol que tentava me cegar. Olhei para baixo, para o loiro que agarrava a minha cintura e sorri. Quando dormia ao meu lado, Mello ficava tão quietinho. Acho que ele se sentia seguro, confortável, então simplesmente capotava. Era muito fofo. E muito diferente daquele Mello todo alerta com o qual eu convivia todos os dias.
Olhando aquela carinha tranquila, resolvi me levantar. Mello ficaria feliz se acordasse e visse que eu comprara um presente pra ele, certo? Já estava mais do que na hora de nos acertarmos.
Ainda fiquei algum tempo olhando para ele, amando os traços daquele rosto e tirando alguns fios de cabelo que caiam sobre seus olhos antes de me levantar. Coloquei cuidadosamente um travesseiro no meu lugar, deixando que Mello o abraçasse. Ele fez manha no início, como se fosse acordar, mas acabou ficando quietinho. Mordi o lábio e peguei meu celular que estava na sala. Não resisti em tirar uma foto daquela cena.
Rindo comigo mesmo, tratei de me vestir e ir para a porta. Com a mão na maçaneta, parei. Algumas palavras de Mello vieram-me à mente.
Preciso da sua paciência. O melhor jeito de me ajudar é ficando quietinho aqui e continuando com os serviços costumeiros da máfia. E pra isso acontecer, você não pode sair do esconderijo em hipótese alguma.
Respirei fundo. Eu só ia até o fim da rua comprar o chocolate favorito dele. Era pertinho. Não havia mal algum nisso, certo?
Abri a porta.
...
Depois de passar por nosso sistema de segurança, tratei de ir direto para a loja de doces no fim da rua. Apesar de o dia estar quente, o vento batia forte no meu rosto. Acelerei o passo. Não queria demorar: seria muito ruim se Mello acordasse enquanto eu estava fora.
Comprei várias barras do chocolate (os vendedores ficaram até assustados), mas, conhecendo aquele chocólatra, eu tinha certeza de que não iram durar nem uma semana.
Já na porta da loja, pronto para sair, notei algo estranho. Pelo canto do olho, uma forma pareceu se mover de trás de um muro, olhando na minha direção. Não me atrevi a olhar. Aprendi isso com Mello: quando se percebe que está sendo seguido, o importante é não demonstrar esse fato ao seu perseguidor. Se este descobre que sua presa o notou, vai se tornar duas vezes mais cauteloso. E isso, claro, é muito ruim quando se está tentando descobrir a identidade de quem o segue.
Portanto, tratei logo de disfarçar meu constrangimento. Cocei o olho rapidamente, como se esse fosse o motivo pelo qual eu havia parado e continuei meu caminho. Virei a esquina na loja de doces, indo pela rua adjacente a ela. Não poderia voltar direto para o esconderijo. Se eu estivesse realmente sendo seguido, isso denunciaria nossa localização.
Isso se já não a soubessem... – pensei um pouco amargurado.
Continuei a andar por aquela rua, fingindo olhar distraidamente para as casas e para as pessoas. Quando uma mulher passava por mim eu lhe dava meu melhor sorriso e acompanhava seu trajeto com o olhar por alguns metros atrás de mim. Nunca falhava: todas davam risadinhas. Quando virava a cabeça para olhá-las eu não estava dando em cima de nenhuma delas; na verdade estava procurando, pelo canto do olho, meu perseguidor. Era bem eficaz, consegui perceber várias coisas. Minha "sombra", aparentemente, era um homem, por causa dos ombros bem largos. Ele começava a se esconder menos, para parecer que estava caminhando como uma pessoa normal, então acabei notando alguns detalhes. Ele tinha um nariz torto em formato de gancho e sobrancelhas bem espessas. Apesar de seu porte de armário, seus passos eram extremamente leves. Mesmo quando não havia quase ninguém em algum trecho da rua, eu não conseguia ouvi-lo. Usava uma camisa social preta e um tênis azul escuro. Uma roupa simples, que não chamaria a atenção. Mas o mais marcante de tudo eram as mãos: grandes e fortes, consegui percebê-las várias vezes enquanto virava a cabeça para "olhar as gostosas". Em um certo momento olhei discretamente para a minha mão. Perto da daquele cara, a minha poderia pertencer a uma criança.
Foi meio deprimente.
Continuei a andar por alguns metros, um pouco cabisbaixo, tentando ouvir passos atrás de mim. Um barulho baixo chegou à minha orelha, seguido de outro mais alto e de uma buzina estridente. Levantei lentamente a cabeça a tempo de ver uma picape acelerando na minha direção.
Minha reação foi automática: joguei-me dentro de uma loja à minha direita no exato instante em que a picape invadia a calçada em que antes eu estava, provocando gritos, palavrões e xingamentos dos pedestres. Um som ensurdecedor logo em seguida e berros desesperados indicaram que o carro desgovernado atropelara alguém.
Como era de se esperar, em segundos uma multidão se reunira no lado de fora da loja, todos querendo saber o que acontecera.
– Jovem, você está bem? – uma das funcionárias da loja, uma senhora de aspecto bondoso, estendeu a mão para mim.
– Estou... – olhei para os lados, um pouco desnorteado. Meu perseguidor não estava ali. Talvez tivesse sido pego pela picape. Se esse fosse o caso, eu não tinha tempo a perder. – Não, na verdade não estou... Preciso de um casaco com capuz.
– O que? – a mulher me olhou com a expressão confusa.
– Um casaco. Com capuz. Preto. A senhora vende isso aqui? – perguntei irritado. Estava com pressa.
Ela acenou e me trouxe alguns para experimentar. Peguei qualquer um, vesti, paguei e saí da loja.
Chegando em casa respirei fundo e tirei os sapatos. Guardei os chocolates de Mello na cozinha e joguei o casaco no fundo do armário.
...
Mello acordou minutos depois. Achei que eu estava livre, que ele não descobriria o que aconteceu, mas me enganei. O loiro foi direto colocar uma roupa e achou o casaco. Não consegui formular uma desculpa a tempo e contei toda a verdade.
Ok, podem dizer. Eu fui um idiota.
– Você tem alguma doença mental? – foi o que ele me disse depois de ouvir tudo. – Achou mesmo que um casaco assim ajudaria a te esconder do cara? Com essa sua cabeleira ruiva que dá pra ver da esquina?
– Era o que dava pra fazer...
– E o mais importante... EU NÃO TE DISSE PRA FICAR ESCONDIDO AQUI? VOCÊ É SURDO?
– Eu não quero ficar o tempo todo aqui! E não vou ficar! – fiquei frente a frente com Mello, olhando-o com tamanha intensidade que ele recuou um pouco. – Você não é meu dono. Não me diz o que fazer, nem quando fazer.
– Já terminou o discurso de adolescente revoltado? Só nessa sua brincadeira, você quase sofreu um acidente! Você tem 25 anos, Matt. Haja como tal.
– Eu não acho que alguém que suma no meio da madrugada sem querer dizer pra onde foi tenha qualquer moral pra se fazer de adulto. – fiz o maior esforço possível para não piscar. – Você não faz sempre o que quer, como um idiota birrento? Então. Somos dois.
Ele suspirou.
– Quando você vai aprender que nós não estamos mais na Wammy’s? Que não somos mais crianças?
– Quando você parar de me tratar como uma. – Andei os dois passos que nos separavam e agarrei seu braço. Ele se assustou, mas manteve o olhar assassino. – Se não quer me dizer qual é a droga do problema, ótimo. Eu não ligo. – na verdade eu ligava sim. – Mas você não tem o direito de falar comigo nesse tom. Entendeu? Eu já tô cansado de ser tratado como alguém inferior, alguém sem qualquer vontade própria que só serve pra te obedecer. Eu já disse que não sou sua puta, Mello. Me deixa em paz.
Viramos as costas um para o outro e nos afastamos.
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