Stalemate II.
6 VI. 29/05/20xx
Notas iniciais
Aquilo definitivamente era estranho.
Já passava das quatro da tarde quando resolvi pegar o notebook. Estava entediado e com fome, mas com preguiça demais para levantar do sofá. Resolvi então fazer o que eu fazia de me melhor: organizar os assuntos da máfia. Mello, inteligente e folgado como sempre, deixara a maioria dos serviços burocráticos em minhas mãos, de forma a poder me responsabilizar se algo desse errado. O meu trabalho era chato e sem graça mas, ainda assim, eu não culpava o loiro. Ou talvez o culpasse só um pouco.
Mas isso não quer dizer que Mello não fazia nada. Vocês acham que era simples ser líder da máfia? Havia tantos envolvidos nos esquemas que só de pensar no assunto eu ficava tonto. Supervisionar tantas pessoas, se certificar de que todas fariam um bom trabalho era com certeza muito cansativo. Essa parte delicada, portanto, ficava a cargo dele.
O que eu fazia então? Bom, por exemplo, eu mantinha sob controle nossas economias. Pensam que é fácil cuidar de inúmeras contas em bancos localizados em diversos países? É preciso ter um olho atento. Claro que eu cometia vários erros, mas todo final de mês Mello dava uma checada no meu serviço.
Naquele dia, por exemplo, resolvi observar as transações do último acordo da nossa organização. Abri a página de uma das nossas contas, observando quanto havia guardado lá. Franzi o cenho para os números na tela. Mello havia me dito o valor exato que combinara com Salazar para a compra das armas, mas por algum motivo havia muito menos na conta.
Estranho.
Pesquisei um pouco mais, procurando o que acontecera com o resto do dinheiro. Após algum tempo, descobri que a quantia que faltava fora depositada naquele mesmo dia em um paraíso fiscal, a Suíça, em uma conta no nome de uma pessoa que eu nunca ouvira falar. Tentei descobrir mais alguma coisa mas, além do nome, que obviamente era falso, não havia nenhuma informação.
Para quem não sabe, paraísos fiscais são países onde é extremamente fácil depositar capitais estrangeiros. Na prática, é possível colocar dinheiro ali sem ter de declarar onde o conseguiu. Além disso, quem detém as quantias é protegido por meio do sigilo bancário, fazendo com que esses lugares sejam extremamente benéficos para a máfia, por exemplo, além de corruptos e empresas que pretendem desviar dinheiro.
Deixei meus dedos repousarem no teclado e olhei pela janela, pensando. O céu estava amarelo e levemente embaçado: efeito dos goggles com as lentes sujas que eu usava. Lá fora estava tudo muito silencioso, exceto por um ou outro pássaro desocupado.
Suspirei e deixei minha cabeça pender por cima do braço do sofá. O teto virou o chão e o chão se tornou proteção para a minha cabeça. Não seria legal poder andar no teto? Claro, sem considerar o efeito superagradável da gravidade sobre o seu estômago. As caras das pessoas ficariam ainda mais engraçadas. Seria possível ver a trajetória invertida do sol, observar as escadas grudadas no "teto" e dar um beijo estilo homem aranha no Mello.
Ri comigo mesmo, igual a um retardado, e me acomodei no sofá, apoiando a cabeça no meu braço. Mello poderia ser um filha da puta quando queria, mas o que eu podia fazer se amava aquela coisa loira?
Uma luz se acendeu no corredor e eu sorri automaticamente, deixando o notebook de lado e me levantando. A porta se abriu.
– Tava te esperand... – parei no meio da frase ao olhar para Mello. O contraste era extremamente gritante: a regata, a calça e as botas pretas travavam uma batalha contra a palidez daquela pele. Mello sempre foi claro, mas eu nunca havia visto ele daquele jeito. Parecia um fantasma. Ou melhor, parecia que tinha visto um.
–Mello... – me aproximei e tentei tocá-lo, mas ele se afastou para perto do sofá. Fechei a porta que ele deixara aberta e, pegando um chocolate na geladeira, sentei ao lado dele. – Come um pouco.
Ele pegou a barra e passou a mastigar violentamente. Percebi que os nós dos seus dedos (e um pouco acima também) estavam machucados, sinal de que ou estivera brigando com alguém ou socando a parede. Vindo de Mello, as duas opções eram igualmente prováveis.
Coloquei a mão em sua coxa.
– Eu não vou perguntar nada, tudo bem? – falei baixinho, me lembrando de como ele fechara a porta na minha cara no dia anterior. Meu humor estava tão bom, eu não queria brigar com ele. – Mas se quiser me contar, eu vou estar aqui.
Ele ergueu as safiras para mim e sorriu, ainda com o chocolate na boca. Mas não era um sorriso feliz. As pálpebras dele estavam caídas, como se...
Como se estivesse com pena de mim.
Pousando sua mão (que, como sempre, estava muito gelada) sobre a minha, ele a apertou por uma fração de segundo. Talvez tenha sido impressão minha, mas seus dedos, ao fecharem-se sobre minha mão, tremeram levemente.
Levantando-se e pegando uma toalha no quarto, ele se trancou no banheiro.
Recostei-me no sofá, olhando para um ponto qualquer. Mello estava agindo de uma maneira que eu nunca vira antes. Tudo bem que frio ele sempre fora, mas qual o significado daquele olhar? E por que eu não recebi nem um beijo?
Engoli em seco, olhando para o computador. Na pressa, esqueci-me de perguntar para Mello sobre o depósito. Ele o fizera naquele mesmo dia, então, o que quer que estivesse deixando-o tão transtornado, certamente tinha a ver com aquilo.
Eu odiava ver o meu loiro naquele estado. Ele sempre fora uma figura de perseverança, de resistência, de força. Ainda que fraquejasse algumas poucas vezes ao meu lado, Mello sempre colocava novamente uma máscara ao se aproximar dos outros e seguia em frente, destruindo qualquer um em seu caminho que o atrapalhasse.
Naquela hora, porém, ele parecia ter dificuldade de recolocar a máscara. Talvez seus pulsos estivessem tremendo de medo, assim como seu rosto aparentava. Mas o que seria capaz de assustar Mello? O que o deixara tão temeroso e inseguro que ele nem ao menos tivesse coragem de me contar?
Eu não sabia. Não fazia a menor ideia.
Mas descobriria em breve.
...
Quando saiu do banho, o aspecto de Mello era bem melhor. Ele pareceu retomar um pouco da cor que havia perdido. Ergui os olhos na esperança de que ele dissesse alguma coisa, mas ele foi direto para a cozinha. Achei melhor escolher um assunto qualquer, para aliviar o clima.
– Ei, Mello... Você percebeu que o Sid não atende o celular faz uns dois dias? Ele deve estar perdido no meio de uma orgia, haha. – falei descontraído.
Os passos de Mello vindo da cozinha foram altos e fortes, como se pertencessem a um gigante. Um segundo depois e ele estava na minha frente, o rosto vermelho de cólera.
– Matt, presta bem atenção no que eu vou te dizer. Sid está fora. Entendeu? Ele é um traidor filho da puta que não deveria ter nascido e se você encontrar com ele na rua, mate-o com o primeiro objeto que aparecer na sua frente.
–Mas... o que foi que ele fez?
–Não interessa. Ele é um velho parasita, um imbecil que nem sabe qual lado oferece a melhor proposta.
–Como assim melhor proposta? Ofereceram alguma coisa pra ele?
Mello congelou, como quem diz Droga, falei demais.
–Nada... não é nada. – e voltou para a cozinha.
Respirei fundo outra vez, controlando minha vontade de ir atrás dele. Pelo menos havia conseguido mais uma informação. Ao que tudo indicava, naquele momento Sid estava contra nós, pois aceitara uma outra proposta de emprego. Estaria ele então trabalhando para uma espécie de "inimigo"? Mas que inimigo era esse? Seria Salazar? Mas este não estava fazendo acordos conosco? Ou talvez fosse outra pessoa?
Por que sou sempre tão cheio de perguntas sem resposta?
02/06/20XX
Um barulho na porta fez com que eu abrisse os olhos.
Eu não estava dormindo, mas também não estava totalmente desperto. Era um meio termo incômodo, mas a minha preguiça de acordar era muito grande, assim como minha predisposição a não dormir.
Um relâmpago iluminou o meu quarto, seguido por um forte trovão. Logo depois ouvi outro barulho, provavelmente da porta sendo fechada. Eu estava de costas para ela, não tinha como saber.
Colocando meus pensamentos em ordem, resolvi sentar na cama. Somente Mello poderia ter aberto a porta do meu quarto, mas por que ele resolvera fazê-lo às -consultei o relógio- 04:17 da manhã?
Só havia um motivo. O loiro queria saber se eu estava realmente dormindo.
Ergui-me de um salto e encostei o ouvido à porta. Barulho de chave. Mordi o lábio. Onde Mello estaria indo àquela hora?
Eu precisava saber.
Coloquei uma jaqueta por cima do pijama e voltei para a porta. Não ouvia mais nada. Esperei por mais um minuto para ter certeza e girei a maçaneta. Dei uma olhada rápida pelos cômodos e, não vendo ninguém, calcei correndo as botas e peguei meu molho de chaves.
Já nas escadas, parei para tentar ouvir algo. Passos muito afastados ecoaram por poucos segundos, desaparecendo logo em seguida. Ou pertenciam a uma mulher raivosa de salto, ou eram de Mello.
Desci correndo, praticamente me jogando nos degraus. Não havia tempo para esperar pelo elevador. Cheguei a tempo de ver um carro preto sair da garagem em alta velocidade. Com toda certeza era o meu loiro quem o dirigia.
Se naquele momento eu não estivesse de cabeça quente, estressado, em pânico, nervoso e com o cabelo bagunçado, teria pensado melhor antes de pegar o primeiro carro que vi na frente: um Civic amarelo.
Nós tínhamos muitos carros à disposição naquela garagem. E eu fiz a burrice de pegar um extremamente chamativo.
De qualquer forma, entrei no carro batendo a porta e me atrapalhei na hora de colocar a chave certa. Mello acertaria de primeira, aquele nerd maldito, mas eu levei três tentativas. Quando finalmente consegui sair da garagem, depois de passar rapidamente pelo reconhecimento de digitais que eu mesmo havia instalado, pisei fundo no acelerador e dirigi pela madrugada chuvosa.
Eu não fazia a menor ideia de onde Mello poderia estar, mas como nosso esconderijo ficava um pouco afastado da cidade, quase sempre nós pegávamos uma avenida principal e depois nos deslocávamos para outros lugares. Achei melhor começar por ela.
E estava certo. Não havia quase nenhum carro na avenida àquela hora, de forma que não tive muita dificuldade em reconhecer o Camry preto.
Aonde você vai, Mello? – foi meu primeiro pensamento ao avistar o carro.
Meu corpo tremeu e eu fechei a janela. Apesar da jaqueta que eu rapidamente vestira, a noite estava congelante. Mesmo sendo primavera, o vento e a chuva eram muito fortes.
O semáforo à minha frente fechou. Naquele momento havia somente o meu carro e o de Mello à vista, este último bem à frente. Desacelerei, esperando que o sinal abrisse quando eu me aproximasse. Era perigoso ficar parado perto do loiro, ele com certeza reconheceria ou o carro ou o meu rosto (já que o vidro não era tão escuro), ou, ainda, os dois. Porém, creio que esse foi exatamente o meu erro. O fato de ter diminuído a velocidade implicava que eu queria manter uma certa distância do carro à minha frente. Portanto, não queria ser percebido pelo motorista dele. Seguindo essa lógica, tenho quase certeza de que foi naquele momento em que Mello me percebeu.
Quando o sinal abriu, o loiro acelerou, pegando-me totalmente de surpresa. Em segundos ele me deixara para trás, virando bruscamente à direita em uma rua escura. Frustrado, eu o segui.
Por que você fica me afastando, Mello? Conversa comigo. Explica o que está havendo. Me deixa te ajudar. Não foge. – era o que eu queria gritar pelo vidro do carro. Eu não entendia o que estava acontecendo. Como sempre, o loiro estava mantendo tudo sobre seus próprios ombros e me deixando de lado. Eu não podia aceitar aquilo. Não permitiria que a pessoa que eu amasse sofresse sozinha.
Desde que ele não esteja me traindo... – pensei.
De repente minha velocidade diminuiu. Por que? Ah, eu havia diminuído a pressão no acelerador. Assustara-me com aquele pensamento. Mello, me traindo?
Não. De maneira alguma. Não era possível.
Várias imagens dos últimos dias cruzaram a minha mente em poucos segundos: Mello desviando os olhos dos meus, fechando a porta na minha cara, se afastando quando eu o tocava, saindo sozinho sem mim, me ignorando quando eu o perguntava qualquer coisa. Machucando-me um pouquinho de cada vez. Tratando-me como...
Sacudi a cabeça. Respirei fundo. Aquela não era a hora de julgar o comportamento de Mello. Era a hora de correr atrás dele com o meu Civic amarelo-ovo.
Por um momento tive certeza de que ele me despistara, mas depois de virar várias ruas e seguir algumas marcas de pneus eu o vi parado a duas quadras de distância. A rua estava completamente deserta e havia um único poste de luz aceso poucos metros à frente do carro. A princípio duvidei que fosse o carro de Mello e já ia passar reto, quando percebi que era exatamente esse o objetivo do loiro. Eu não conseguia ver as placas por causa da chuva forte e naturalmente assumiria que Mello ainda estava correndo de mim.
É um bom plano, Mello. Mas eu conheço seus truques. – sorri de lado.
Parei alguns metros atrás do loiro, esperando. Se eu acelerasse, ele fugiria. Se eu saísse do carro, ele fugiria. Então esperei. Queria deixar bem claro que não iria a lugar algum sem ele.
Foi então que vi alguma movimentação dentro do carro. Franzi o cenho. O vidro era bem escuro, mas dava para ver que tinha alguém lá dentro. Alguém se balançando. Ou seria o carro que balançava?
O para-brisa do meu Civic passava rápido, mas não era suficiente para clarear minha visão em meio àquela tempestade. Definitivamente havia alguém lá dentro, mas eu só via formas escuras. Silhuetas. Uma bem grande e outra bem magricela. Duas pessoas.
Queimando de ódio, acelerei até ficar ao lado do carro. Se eu estivesse na Inglaterra, onde o volante do carro fica do lado direito, eu estaria bem próximo à janela do Camry. Nunca entendi e nunca vou entender essa ideia de colocar o volante do lado esquerdo.
Abri a janela, sentindo a chuva e o vento castigarem o meu rosto.
–EI! – gritei para que me ouvissem apesar da chuva, batendo com força no vidro traseiro do carro preto. Tive de me inclinar para fazê-lo. Depois de muita movimentação no banco de trás, o vidro do carro desceu.
Um homem gordo e feio de barba mal feita me encarava.
–QUAL O SEU PROBLEMA, CARA?
Atrás dele, que antes estava deitada no banco de trás, apareceu uma mulher nua, provavelmente oriental, com os cabelos bem pretos e longos e o rosto com muita maquiagem. De início ela se assustou ao me ver, mas depois me dirigiu um sorriso. O homem não viu.
–Ah, m-me desculpa. Me enganei de carro. Desculpa. – gaguejei um pouco, afinal o cara era um armário. Dei ré enquanto o via arregalar os olhos para mim e fechar o vidro.
Apesar disso, resolvi olhar a placa do carro. Por curiosidade. A chuva estava forte, mas consegui ler ao colocar a cara inteira pra fora da janela. E qual não foi a minha surpresa quando reconheci a placa.
Aquele era o carro de Mello. Sem a menor dúvida.
Voltei a encostar meu carro no outro e bati no vidro. Abri o porta luvas discretamente. O homem dessa vez abriu a porta e desceu furioso, portando uma faca e me ameaçando. Notei, com bastante nojo, que a braguilha dele estava aberta. Agradeci mentalmente por não conseguir ver nada ali dentro.
–SAI DO CARRO! – ele gritou, colocando a faca perto da minha bochecha. Água bateu no meu rosto. Eu não sabia se era chuva ou a baba dele. Limpei o rosto molhado com a manga da jaqueta.
Em um segundo o cano da minha Colt, que eu sempre mantinha no porta luvas, encostou em sua testa.
– Volta pro seu. Agora.
Ele olhou para a minha arma, o medo transparecendo em seu rosto. Depois olhou para mim. E engoliu em seco.
– Calma, cara. Não vamos nos precipitar.
Sorri internamente. Como alguém ficava poderoso com um brinquedinho daqueles na mão.
– Você vai abrir a porta de trás do seu carro, vai descer o vidro, vai sentar quietinho do lado da sua vadia e responder duas perguntas que eu vou fazer, entendeu? Se fizer qualquer gracinha, eu atiro nas quatro rodas desse carro, mato você e coloco a sua puta no meu porta malas. – falei com bastante calma, como Mello me ensinara a fazer para tirar informações das pessoas. Os passos eram simples: Mostrar que você está no comando (mostrando uma arma, por exemplo); Manter-se calmo; Deixar a pessoa o mais desconfortável possível e Extrair a informação. Isso funcionava com a maioria. Quando havia algum outro motivo (emocional, por exemplo) para que a pessoa não dissesse nada, então outros itens mais elaborados eram acrescentados à lista.
Ele me obedeceu. Já dentro do carro, olhava para as costas do banco da frente. A prostituta me olhava com uma mescla de medo e tesão. Assustador.
– Onde e quando conseguiu esse carro? – eu me ajoelhara no banco do passageiro para mirar claramente a arma para a cabeça do gordo.
– Um moleque loiro trocou ele comigo faz alguns minutos.
– O que exatamente ele te disse?
– Disse que eu podia ficar com esse carro desde que o mantivesse parado aqui. Eu estranhei, até que ele disse que estava sendo seguido. Disse também que eu não tinha com o que me preocupar. A minha gostosa gostou da ideia, então eu não pude dizer não. – ele sorriu para a mulher, que lhe retribuiu com o sorriso mais falso que eu já havia visto. – Era você quem estava atrás dele?
– Era. – respondi, tirando a arma do rosto dele e voltando para o lado do motorista. – A propósito, eu e ele transamos muito nesse banco de trás.
Não fiquei por perto para ver a cara que o homem fez.
...
De volta ao esconderijo, me joguei no sofá. Não queria pensar, não queria sentir, não queria saber de nada.
Dormi.
...
Já de manhã, acordei meio zonzo. E com dor nas costas. Pessoas altas não deveriam dormir no sofá. Alguém colocara um cobertor em cima de mim, mas eu sentia um pouco de frio nos pés.
Fui como um robô até o banheiro. Demorei vários minutos até lembrar o que acontecera na madrugada. Respirei fundo com os olhos fechados e depois olhei para o espelho.
Ele é o mesmo Mello que você conhece há quase 20 anos. Vocês vão conversar como dois adultos e resolver esse problema. Não se precipite. Não pense em nada. Não fique se torturando com o que você ainda não sabe. – o reflexo parecia me dizer.
Não lhe dei ouvidos.
Já fora do banheiro, procurei aquela coisa loira e a achei na cozinha, pegando alguns chocolates para o café. Ele me deu um 'bom dia' muito suspeito, que eu fiz questão de não responder. Fechei a porta, mantendo nós dois lá dentro, e encostei as costas nela, cruzando os braços e olhando para Mello.
– Sem joguinhos, Mello. Me diz logo porque você saiu de madrugada sem me avisar e onde você foi.
– Não.
Ele respondeu tão rápido que eu me surpreendi um pouco.
– Como assim "não"?
– Não vou te dizer onde eu estava. E aliás, que ideia imbecil foi essa de me seguir? Achou mesmo que conseguiria?
Eu não acreditei no que estava ouvindo.
– POR QUE VOCÊ NÃO ME DIZ NADA?
– Porque da última vez que eu te disse, você fez exatamente o contrário do que eu mandei. – ele falava de um jeito irritantemente calmo, que não combinava nada com ele. – Sequestrou a filha do Luke. Fez metade do seu grupo morrer. Não me obedeceu.
Coloquei a mão na testa, fechando os olhos e respirando fundo para não surtar. Tudo para Mello tinha a ver com obediência, obediência e obediência. Ele só falava disso. Só queria isso de mim, o tempo todo.
– Eu não sou sua puta pra te obedecer, Mello. E eu não preciso tomar parte desse...plano, ou sei lá em qual merda você se envolveu. Mas eu quero no mínimo saber o que é.
– Se você souber vai querer interferir. E eu não posso deixar isso acontecer. – ele terminou de pegar os chocolates (e um pouco de suco de uva) e parou à minha frente. – Sai daí.
– Não.
Ele respirou fundo mas, ao contrário de mim, isso não era suficiente para acalmá-lo.
– Matt, sai da minha frente agora.
– Não até você me dizer o que está acontecendo.
Ele deixou tudo o que estava em sua mão na bancada e se aproximou de mim, os olhos azuis e cruéis parecendo fritar a minha alma. Nós tínhamos a mesma altura, de modo que a pontinha do nariz dele quase encostava na minha.
– Não tenho medo de você, Mello. – era mentira, às vezes eu tinha um puta medo das atitudes dele. Mas não naquele momento. – Ficar perto assim só me faz querer te dar um beijo.
– Eu vou deixar uma coisa bem clara pra você, Matt. Nada do que está acontecendo é da sua conta. Absolutamente nada. Mesmo que eu te diga algo você vai ser um completo inútil. Se tentar me ajudar, só vai atrapalhar. Quero fazer um trabalho bem feito e, portanto, vou agir sozinho. E você vai sair do meu caminho, me deixar fazer o que eu preciso fazer e vai ficar bem quietinho no seu canto. Me entendeu?
Quando abri a boca para dar uma resposta malcriada, Mello me segurou pela gola da camisa e me puxou para o lado, tirando-me na marra do caminho. Bati o cotovelo com bastante força na geladeira e fiz uma careta, mas não disse nada. Mello saiu da cozinha, pegou a chave na sala e saiu de casa.
Esperei para ver se ele voltava. Não voltou. Nem pensei em segui-lo, não tinha a menor vontade. Em vez disso, joguei-me no sofá com o braço sobre os olhos.
Em alguns momentos Mello era insuportável. Conviver com ele era o inferno, trocar algumas palavras com ele me deixava furioso em segundos. Como uma pessoa conseguia ser tão filha da puta com tão pouco esforço?
Minha cabeça doía. Eu estava com raiva, mas, diferente do loiro com TPM, demonstrava de um modo menos destrutivo. Ficava apático, sem vida, sem ânimo. Mello me esgotava. Se antes eu queria ajudá-lo, naquele momento perdi totalmente a vontade. Ele não queria ajuda com o "super caso misterioso"? Ótimo. Desde que não viesse pedir colo se tudo desse errado, estava tudo bem.
Não... Na verdade não estava. Eu precisava saber, queria desesperadamente saber. Mas isso podia esperar. Eu ainda estava furioso com Mello pelo modo como ele agira de madrugada. E ele havia acabado de me deixar furioso de novo. Eu precisava me acalmar. Precisava espairecer. Precisava pensar.
A dúvida crescia dentro de mim. Talvez ele estivesse mesmo me traindo. Era o mais provável, afinal, ele não parava de se afastar de mim. Será que era com um homem? Ou uma mulher? Há quanto tempo isso acontecia? Ele amava essa pessoa? Ele ainda me amava?
Por que mesmo eu ainda morava com ele?
Minha cabeça começou a doer. Bastava daqueles pensamentos. Levantei-me do sofá e fui à cozinha pegar algo para comer, rindo de cansaço no caminho e sussurrando:
– Muito obrigado pela conversa de adultos, Mello.
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