Stalemate II.

4 IV. 19/05/20xx


Notas iniciais
Eu lamento DE NOVO pela demora. Mas vocês sabem que eu não faço isso porque quero, né? Por mim eu escrevia todo dia, passava a vida toda escrevendo. Mas não dá, infelizmente. Pra variar, eu travei no lemon kkkkkkkkk é tão típico aiai. Não queria estabelecer uma data, mas vou tentar (eu disse TENTAR) postar pelo menos um capítulo por mês. Mas fim de ano é complicado... ~le esperando as férias~ kk Só uma coisa, não pensem por um só segundo que eu vou abandonar essa fic. O enredo inteiro (que está muito foda, eu tenho que admitir) está fixo na minha cabeça e eu quero muuuuuito poder escrever tudo. (Ah eu estou com sono então provavelmente têm erros. Me avisem se acharem algum) Bom, acho que é isso... Cara como eu amo essa fic, sério kkk Mas enfim, boa leitura ^^ // (Um agradecimento especial aqui para a Beatriz di Angelo, que recomendou recentemente as duas temporadas e eu fiquei tipo OMG THIS kkkkkkkkkk Mas quero agradecer às outras recomendações maravilhosas também ^-^ e aos comentários, claro, ainda que eu não tenha tido tempo de responder, eu leio todos kkk E agradeço até a vocês, leitores fantasmas ^^ Apesar de que eu tenho vontade de matar alguns de vocês...)


19/05/20xx

O teto é uma invenção maravilhosa. Ele impede que a chuva caia no seu rosto, que o vento leve embora seus papéis, que um passarinho pouse na sua cabeça e que o vizinho metido espie você. Além disso, é graças ao teto que você pode ligar a luz à noite, pois sem ele não haveria onde colocar uma lâmpada no alto de um cômodo.

Quadrado, retangular, trapezoide: não importa o seu formato, o teto é realmente uma invenção maravilhosa. E eu provavelmente falaria outras coisas legais sobre o teto, mas já estava cansado de ficar olhando para ele.

Ah, outra coisa boa. Ele não se importa de ser longamente observado quando você está com tédio.

Mas chega de falar disso. O importante é que, naquele momento, eu estava muito entediado e precisa fazer alguma coisa imediatamente.

Lentamente, eu me levantei do sofá e parei de encarar o belo teto para olhar ao meu redor. Os móveis, as paredes, os objetos, todos estavam na mais perfeita ordem. Não havia nada fora do lugar: nem uma roupa no chão, nem uma caneta fora do porta-canetas, nem uma cueca jogada por aí (e olha que isso era raro) e nem um único vídeo game ou chocolate sobre a mesa ou a cômoda.

Téééédio.

Vocês devem estar se perguntando por que eu não levantei a minha bunda gorda e fui pegar um jogo qualquer para me distrair. Bem, o problema é que eu não podia. Havia um mês que Mello me colocara de castigo por eu ter lhe desobedecido, o que significava SEM vídeo games. O maldito teve a capacidade de colocar todos os meus consoles em um pequeno armário (que é tão baixinho que parece um frigobar) com cadeado à chave. E pra finalizar, o loiro mau se recusava a dar pra mim desde então. E desta vez eu não estou falando da chave.

Não sei por que eu ainda não tinha me matado. Talvez porque eu fosse covarde demais pra isso. Na verdade, na minha opinião, o suicídio em si é um ato de covardia. Tirar a própria vida é a demonstração de alguém que assume ser incapaz de lidar com os próprios problemas.

Mas eu não estou a fim de discutir esses assuntos complexos. O Mello é quem gosta. Falem com ele depois.

–MAAAAAATT! – falando no diabo...

– QUE É? – deu pra perceber que eu estava bravo com ele? Espero que sim.

Um minuto depois o loiro apareceu, vindo da cozinha. Naqueles últimos dois dias nós não tivemos nada de muito empolgante nos assuntos da máfia, então ele aproveitou esse meio tempo de folga para se cuidar. Cortou (ou melhor, eu cortei) os cabelos, que estavam um pouco compridos demais e tortos; tirou a barba rala (adoooro quando ele fica com a bochecha lisa de bebê!); passou creme no rosto (haha gay); comprou umas jaquetas novas (pretas, pra variar) e cortou as unhas. O que não mudou em nada foram seus olhos maldosos e seus lábios cheinhos, estes que sempre sorriam ao me ver entediado, assim como naquela hora.

– Você já organizou o armário da cozinha?

– Já.

– Lavou as roupas?

– Já.

– Guardou as minhas calças?

– Arrumei por cor. Pretas à direita e ainda-mais-pretas à esquerda.

– Colocou os DVDs no lugar?

– Em ordem alfabética.

– Muito bem. – sabe quando você parabeniza o seu cachorro por ele fazer xixi no lugar certo? Foi exatamente do mesmo jeito que ele falou comigo. – Eu tenho uma recompensa pra você.

Percebi que ele mexia no bolso de trás das calças. Tive um mau pressentimento.

– E o que seria? – tentei parecer desinteressado, mas não deu muito certo. Se eu não estivesse tão desconfiado, meu rabinho teria balançado. (Não que eu tivesse um, mas... Vocês entenderam a ideia.).

Mello apenas sorriu e, ainda escondendo algo em suas costas, se sentou no meu colo, seus joelhos tocando as laterais do meu quadril.

Não sei o que esse loiro está planejando, mas já ‘tô gostando!

Ainda rindo, ele empurrou o meu peito para que minhas costas ficassem retas no encosto do sofá. Minhas mãos foram para suas coxas, mas ele me deu um tapa com a mão livre e eu as afastei.

– Nada disso. – seu sorriso safado se alargou e seus olhos se estreitaram. Ele afastou os cabelos do rosto com um movimento de sua cabeça e se inclinou para me dar um beijo. Sua cintura se ajeitava em meu colo enquanto nossos lábios se tocavam (mentira, ele estava se esfregando no Mattzinho), sua língua brincando com a minha. Não posso, é óbvio, me lembrar de todos os nossos beijos, mas acho que esse foi um dos mais gostosos que já trocamos. Ele tinha um gosto tão forte de chocolate que me anestesiava e seus dentes puxavam meu lábio até sangrar. Coisa fofa. (Ignorem o meu masoquismo, por favor).

Mas como nem tudo são flores, o fato é que (apesar de eu não ter percebido na hora, pra variar), aquele beijo mais intenso de Mello só servia para me distrair: mal nossos lábios se tocaram e suas mãos procuraram as minhas, puxando essas para trás e prendendo-as juntas com uma fita grossa que eu não pude ver. Não ousei cortar o beijo enquanto o loiro fazia isso: em parte porque não queria que ele me batesse e em parte porque já estava acostumado. Ele vivia me amarrando, o pervertido.

– Bom menino. – foi Mello quem separou nossas bocas, um ar de triunfo em seu rosto. Sua mão foi à minha cabeça e me deu tapinhas de aprovação. – Melhor tirar isso... – meus goggles, que estavam pendurados no meu pescoço, foram arrancados de qualquer jeito e jogados no chão.

Acho que eu não contei pra vocês, mas os meus primeiros goggles (não esses, claro) foram dados pelo próprio loiro, no meu primeiro dia na Wammy’s House. Ele também me deu meu primeiro vídeo game... Cara, eu me lembro como se fossem ontem...

Não, não, pera. Agora é hora de narrar o sexo. Foco Matt, foco.

Mas voltando... Ah sim, Mello jogava meus goggles no chão.

– Meus bebês! – falei chocado. Mello fez um bico e colocou as mãos no meu rosto, puxando para perto do seu.

– Pensei que eu fosse o seu bebê. – ele mordeu outra vez meu lábio inferior e lambeu o pouco sangue que saía dali.

COMBO DE FOFURA!

– Mas claro que você é! Meu bebê lindo e gostoso. – me inclinei para roubar um selinho daquele ser maquiavélico.

Maquiavélico é uma palavra tão engraçada. Sabiam que vem do nome “Maquiavel”, que foi um renascentista italiano? Ele nasceu no século XV e escreveu...

Nossa. Quase consigo ver vocês revirando os olhos de tédio.

DESCULPA POR QUERER ENSINAR UM POUCO DE CULTURA!

Affe... E depois o Mello diz que eu que sou disperso... Mas hum... Onde eu estava? Ah é! Chamando o loiro de bebê gostoso!

Ao ouvir isso, Mello me deu mais um de seus sorrisos assustadores e colocou a mão no outro bolso traseiro, mas desta vez me mostrou o que era. Em sua mão havia uma coleira preta com vários furinhos e uma bela e ornamentada fivela prateada.

Estava começando a ficar com medo daqueles bolsos mágicos do Mello. Vai saber se ele não tinha um chicote lá dentro?

Isso até que seria bom...

Foco, Matt.

– Agora fica quietinho... – ainda com seu sorriso de maníaco do parque, ele afivelou a coleira um pouco abaixo do meu pomo de adão e se afastou, sem sair do meu colo, para apreciar o efeito.

– Já terminou? Ou vai colocar um vibrador no meu rabo?

– Eu pensei nisso, mas não tinha nenhum do tamanho que eu queria... — o mais assustador é que ele parecia realmente desapontado. – Mas não tem problema. Eu prefiro que você me coma... – acrescentou com os lábios gordinhos encostados na minha orelha.

– Acho que vou ter que fazer esse sacrifício. – abaixei a cabeça para beijar seu pescoço e senti sua mão em meu cabelo.

– Não pense que eu te liberei do castigo. – ele tentava controlar os suspiros enquanto falava, mas sua pele estava arrepiada. – Isso é só hoje, porque eu ‘tô com tesão. Entendeu?

– Perfeitamente. – sussurrei, lambendo atrás da orelha do loiro, que estremeceu. A mão que estava em meus cabelos se enroscou em alguns fios e os puxou para trás, me obrigando a deitar a cabeça. Não pude evitar um gemido.

– Você gosta disso, não é? – ele se ajeitou sobre as minhas pernas, praticamente colando seu ventre ao meu. Dois de seus dedos da outra mão se colocaram entre meu pescoço e a coleira, puxando-a. – Quando eu te machuco, quando puxo o seu cabelo... – ao falar, a pressão no meu couro cabeludo aumentou, mas não a ponto de arrancar os fios. Talvez só alguns. – E se eu te mandar ficar de quatro pra te bater? Você fica?

– Fico. – falei baixinho.

– Não ouvi. – ele puxou a pele visível do meu pescoço com os lábios e beijou o meu queixo.

– Eu fico, Mello. Fico de quatro pra você. – falei mais alto e ele riu contra a minha bochecha, sua risada sádica ecoando em minha mente.

– E se eu pedir pra você se ajoelhar e me chupar? Sem usar as mãos, claro. Você faz isso, Matt?

– Chupo agora, se quiser. – respondi usando o mesmo tom sensual que ele usou. Mello sorriu e finalmente soltou os meus cabelos e a coleira, olhando-me satisfeito.

– Continue obediente assim e talvez... – ele baixou o tom de voz. – Você ganhe sobremesa mais tarde.

O fogo dessa criatura está começando a me assustar. De verdade.

Sem tirar os olhos dos meus, Mello desceu suas mãos pelo meu tórax (que mão fria!) e puxou minha blusa para cima, até a altura do peito.

Nossa, que abdômen sarado é esse? Ah esperem, é o meu. Haha... não teve graça.

– Eu posso te morder, Matt? – ele perguntou, se abaixando até um dos meus mamilos. – ... aqui? – acrescentou, já mordiscando e lambendo o direito. Contive um suspiro. – Nada disso. – ele segurou o meu queixo com uma das mãos, olhando fundo dentro dos meus olhos. Eu conseguia ver o reflexo verde naquela perdição de azul. – Quero ouvir qualquer barulho de aprovação que você tiver pra dizer. Se ficar segurando, eu te deixo amarrado assim até sexta. – detalhe, aquele dia era uma segunda feira. – E você não ganha sobremesa.

– Desculpa o Matt malvado... – falei com um bico nos lábios (que o loiro mordeu, claro).

– Se você não fosse tão bonito... – Mello alisou minha bochecha e eu ronronei. É. – Ou tão gostoso... – acrescentou, me secando de cima a baixo e sorrindo com seus próprios pensamentos.

É hoje!

Seus lábios voltaram aos meus, os quais ele capturou com vontade e pressa, já forçando sua língua em minha boca. Rebolava com força e sem pudor algum sobre meu colo, colocando pressão no meu quadril e fazendo o sofá chacoalhar. Minhas pernas se abriram automaticamente e ele entendeu o recado, roçando aquela bunda (gostoooosa) sobre a minha ereção recém-formada.

Sem me dar conta, comecei a puxar meus pulsos presos para os lados, tentando me desvencilhar e tocar aquele loiro fogoso, mas isso fez as fitas ficarem mais apertadas. Com um sobressalto, lembrei-me de que Mello sabia fazer vários tipos de nós e que se eu continuasse a puxar provavelmente interromperia minha circulação nos pulsos.

– Ah, Matt... – ele passou os braços em volta do meu pescoço, enroscando as mãos nos meus cabelos e nas minhas costas, me fazendo estremecer. Um pouco de saliva escorria de nossas bocas enquanto ele falava. – Eu quero você.

Sabem quando todo o seu corpo se arrepia quando você ouve algo muito agradável? Tipo aquela sua música favorita, ou aquele solo de guitarra fantástico? Foi assim que eu me senti quando Mello disse aquilo, só que de forma bem mais intensa.

– Tira a roupa. – falei rouco contra sua boca. – Agora.

Ele me olhou com a expressão nublada e abriu com tanta pressa o colete que usava que eu mal vi o zíper descer. Parece que eu não sou o único que está excitado!

– Se você tivesse feito o que eu mandei, Matt, eu não precisaria te punir. – Mello jogou a peça de roupa por cima da cabeça e agora abria os cordões cruzados de sua calça de couro. Eu olhava para os músculos que ele desenvolvera ao longo dos anos no abdômen e nos braços, desesperado para tocá-lo nem que fosse por um segundo. – A gente já transa tão pouco por causa dos assuntos das máfia e você ainda faz isso... – Esse loiro adora um drama. – Não é justo...

– Mas é sempre você que vai pra longe! – falei na defensiva. – Na maioria das vezes eu que fico sozinho aqui, sem ninguém. – Tá, eu também sou dramático.

– E você sente a minha falta? – ele finalmente terminou de abrir os cordões, mas não tirou a calça. Eu via um pedacinho de sua cueca preta.

– Claro que eu sinto. – diminuí meu tom de voz. Pra parecer mais sensual, entendem? – É tão chato me masturbar sozinho.

– Mas que problema horrível! – aqueles dedos frios foram na direção do meu cinto. – Talvez eu devesse te ajudar com isso... – acrescentou já abrindo minha fivela. Mordi o lábio de expectativa. A velocidade irritantemente lenta com que Mello abria aquele cinto me deixava puto e excitado ao mesmo tempo.

Pensam que um mês sem Mello é mole?

Esse loiro é um vício. Depois de provar uma vez, eu sempre quero mais.

– Matt... Eu também senti saudades. – e o veado meteu os dedos dentro da minha boxer. Fiz uma careta e ouvi um riso. Pô, a mão dele tá gelada! – Esquenta ela pra mim?

No início aquela mão fria foi um incômodo, mas, conforme minha ereção aumentava, eu não queria que ele parasse de jeito nenhum. Aquela sensação familiar me fez esquecer do frio e eu fechei os olhos, apreciando os dedos experientes de Mello que se moviam devagar, absurda e irritantemente devagar, me torturando, testando a minha resistência. E eu me mexia desconfortável no sofá, aguentando as brincadeiras e as risadas de Mello ao me ver naquele estado.

Segundos assim e eu já estava vergonhosamente duro, com direito a gemidos baixos e suspiros saindo dos meus lábios. Eu simplesmente precisava que aquela mão se movesse mais rápido.

Ao abrir os olhos para pedir que Mello fizesse exatamente isso, vi que ele me observava com aquele mesmo sorriso satisfeito que eu já vira tantas e tantas vezes.

– C-chega de brincar, Mello... – falei de uma vez, do jeito que a bicha queria. – Vai mais rápido.

– Ah, mas eu não consigo desse jeito. Minhas mãos estão secas demais... – ele colocou a mão livre na frente da minha boca. – Chupa.

Mal eu abri meus lábios, o loiro enfiou três dedos lá dentro. Comecei a chupar como ele mandou, mas sua outra mão agora descia até as minhas bolas.

Preciso fazer uma confissão aqui. Eu sou... é... como dizem?

Sensível nessa área.

E claro, a loira sabia perfeitamente disso.

– Meeemmn! – isso foi a minha tentativa de dizer “Mello!” com aqueles dedos fodendo a minha boca. (Porque era exatamente isso que ele estava fazendo! Empurrando fundo e depois puxando, sem me dar dois segundos de folga!).

– Continua fazendo o que eu mandei. – ele olhava do pau duro para a minha boca semiaberta. – Isso é só um agradinho.

Maldito sádico. Acha que pode fazer o que bem entende?

... Bem, teoricamente ele pode. Mas ai desse loiro quando eu sair daqui.

– aamn... ahmmH! – meus olhos se fecharam e outra vez eu me permiti aproveitar aquela massagem deliciosa do loiro que, se fosse um pouco mais rápida, com certeza me faria gozar. Agora ele brincava somente na minha área sensível, sem tocar no meu membro e, ainda assim, me deixando louco. Aquela mão, agora completamente molhada, se movendo na minha boca, me deixava tão excitado que meu quadril tremia. Todo o meu corpo fugia ao meu controle e uma grande parte de mim quis se entregar, deixar ele vencer e simplesmente implorar pro loiro ir mais rápido.

Porém (sempre tem um porém!) uma parte ínfima de mim fez meus pulsos voltarem a se mexer e meus braços a sacudir. Desta vez eu puxei com vontade as minhas mãos, fechei meus dedos para conseguir libertá-los, sacudindo os meus ombros no processo. E, como eu suspeitava, cada vez mais as fitas foram se tornando apertadas até que a dor me fez morder acidentalmente os dedos de Mello.

Ele os tirou na hora e eu arquejei.

– M-mello, meu pulso! – implorei, abrindo os olhos.

– Que decepção, Matt. Eu achei que você fosse se comportar. – sua mão também deixou de me estimular lá em baixo e agora eu pulsava em dois lugares: de dor nos pulsos, e de agonia no Mattzinho.

– Tá doendo mesmo, porra!

– Eu sei. – ele se inclinou rapidamente para olhar nas minhas costas. – Os seus pulsos estão ficando roxos.

Eu o encarei, suplicante. Vocês devem estar incrédulos com essa atitude do loiro, mas ele faz isso com tanta frequência que eu já me acostumei a ser mal tratado. E é por isso que eu o como com tanta força depois. Pura vingança. Ah e claro, porque é super gostoso também.

– Por favor, Mello. – ele não reagiu. Eu respirei fundo, para me livrar da raiva, e usei a voz mais dengosa que consegui reunir: – Me solta bebê, eu te imploro. Prometo que vou ser bonzinho.

Com a minha circulação sendo rapidamente interrompida, eu comecei a ficar tonto. Não sei se vocês já experimentaram apertar o dedo da mão de leve, um pouco abaixo da ponta? Já perceberam como fica vermelho na parte em que o sangue fica preso? Então, era isso que estava acontecendo nos meus pulsos, mas de uma maneira muito mais forte.

– Se tentar se soltar de novo, eu dobro o seu castigo. – vendo que eu começava a passar mal, ele afrouxou as amarras. Senti um formigamento nas mãos quando o sangue voltou a circular e respirei fundo, aliviado. Mello ainda mexia nas fitas. – Vou arrumar esse nó. Ele não vai soltar, não importa o quanto você se mexa, mas também não vai te apertar mais.

Sorri de canto. Ele não consegue ser totalmente malvado comigo. Porque essa loira me a-m-a!

– Pronto. Agora vamos logo ao que interessa... – ele sorriu, estreitando os olhos e segurando pelo centro a blusa listrada que eu usava. – Depois eu te compro uma nova, tá?

Franzi as sobrancelhas, sem entender a princípio. O loiro então puxou as mãos com toda a força para os lados, rasgando minha blusa sem cerimônia e arrancando os pedaços maiores que ficaram pendurados nos meus braços.

Ô, eu gostava daquela camisa.

– Matt... – se é que era possível, Mello parecia ainda mais excitado ao fazer isso. Sua boca semi aberta já estava ofegante e seu rosto ficara vermelho de calor. Ele passava as unhas curtas pelos meus braços, pelo meu peito e abdômen, apertando os músculos e suspirando em aprovação.

Podem falar. Eu arraso corações.

Sem desviar os olhos dos meus, Mello deixou o meu colo e tirou o resto da roupa às pressas, a chama de luxúria em suas safiras queimando ainda mais intensamente quando meu olhar o devorou dos pés à cabeça. Fazia tanto tempo que eu não o via assim...

Logo em seguida, sem pedir permissão (pra variar), ele puxou minha calça e a roupa de baixo até o início da minha coxa, sem tirá-las, apenas dando um certo espaço para ele sentar.

Talvez seja interessante abrir um parêntese para falar disso. Até hoje eu nunca entendi essa tara do Mello. No começo ele não era assim, mas depois que começou a se sentir mais confortável comigo, Mello sempre me pede pra ficar com as calças quando a gente transa.

E sim, eu estou compartilhando os fetiches do meu bebê com vocês. Sintam-se especiais.

– Mello... – eu pensei em perguntar para ele o porquê dessa obsessão em me ver de calças, mas mudei de ideia e parei no meio da frase. Vai que ele ficava bravo e perdia o tesão né.

– Hum? – ele voltou a se sentar no meu colo, as mãos se enroscando no meu cabelo enquanto seu rosto, alguns centímetros acima do meu, se contraía em uma expressão pervertida.

– Vem logo. – suspirei contra seu pescoço, mordiscando e lambendo próximo à clavícula (outra região sensível do meu Mello). Suspirando, Mello finalmente concedeu meu desejo: ele se ergueu sobre os joelhos, posicionando-se e, enquanto segurava no Mattzinho, começou lentamente a descer.

– Ah! – um arquejo escapou dos meus lábios conforme o prazer se espalhava por mim. Mello estava tão quente que eu não me atrevo a tentar descrever a sensação de estar dentro dele.

Quero gritar. Esse calor vai me consumir, eu vou enlouquecer. – era o que eu pensava.

– M-matt... – eu podia ver que Mello, de olhos fechados, lutava contra a dor. Tentando estimulá-lo da melhor forma possível (já que a porra das minhas mãos não podiam fazer nada), beijei sua bochecha febril e sussurrei ao seu ouvido exatamente o que se passava na minha cabeça.

– Ah Mello, isso é tão bom... – um ofego me escapou e eu não tentei sequer contê-lo. – Eu senti a sua falta, meu loiro. – senti Mello se apertar em torno de mim e ouvi um suspiro doloroso deixar seus lábios.

– Para... – ele suplicou próximo ao meu ouvido com a voz falha. Seus ombros tremeram de leve mas suas mãos, já nos meus ombros, eram firmes e me apertavam para se segurar.

Seu quadril lentamente voltou a abaixar, com cuidado e algum esforço. Eu mordi meu lábio inferior. A sensação era simplesmente incrível. Meu corpo inteiro parecia saber que era Mello quem estava ali. Meu ventre queimava de calor, minha mente obscurecia, eu perdia o controle da minha voz. Sentia minhas mãos, meu rosto, as articulações do meu braço e joelho começaram a suar: tudo reflexo do que o loiro provocava em mim.

– Ah... – finalmente Mello havia se encaixado por completo em meu colo e abandonado a expressão de sofrimento do rosto. Ele abriu os olhos e me encarou por alguns poucos segundos antes de novamente fechá-los, mas foi suficiente para que eu lesse sua face.

Sem qualquer sombra de dúvida, ele estava sentindo o mesmo que eu.

– Ngh... AAH! – Mello moveu subitamente os quadris para frente, os braços circundando meu pescoço e agarrando meus cabelos. Apoiei meu queixo em seu ombro e ele fez o mesmo no meu. Novamente seu quadril se mexeu, agora para trás, e seus movimentos começaram a ganhar certo ritmo. Tanto Mello quanto eu nos excitamos quase que imediatamente.

– Mello... Mello... Mello... – meu lábios encostaram na orelha do loiro, gemendo seu nome inúmeras vezes.

Há tempos percebi que Mello enlouquece quando me ouve gemer. Nada lhe dá mais prazer do que ouvir minha voz enquanto transamos. Quase qualquer coisa que eu digo o faz delirar. Seu nome é só um exemplo. Se digo que ele é gostoso, que me deixa louco ou que o amo, ele fica tão apertado que sinto que o Mattzinho vai explodir. Se ofego de prazer ele arranha minhas costas e pede para que eu vá mais rápido. Em alguns dias até, dependendo do humor do loiro, ele começa a gozar só por ser chamado de puta. É uma delícia.

Aliás, eu tenho uma pequena teoria sobre isso. Para quem não sabe, o meu loiro tem um complexo extremo e mal resolvido de inferioridade. Portanto, ele costuma pensar que não vai conseguir realizar nada grandioso na vida, que vai sempre ficar em segundo lugar. Ainda que não manifeste isso em voz alta, eu sei que ele é assim. Sei que tem medo de se deparar com um enigma tão misterioso que nunca consiga resolver. Em sua cabeça, ele é incompetente, inútil e precisa se esforçar mais do que qualquer um pra conseguir o que quer.

E é por isso que quando Mello percebe que estou excitado por causa dele, que chamo seu nome, que o quero mais do que qualquer outro, ele simplesmente enlouquece. Eu o coloco em primeiro lugar e é essa posição inédita que faz Mello também me querer com tanta vontade. Ele gosta de ser valorizado, de ser a pessoa mais importante na vida de alguém. E é aí que eu entro.

– AWN MATT! – ele se apoiou outra vez no meu ombro e, olhando para o maravilhoso teto, começou a cavalgar de verdade, retirando-se quase que por inteiro e voltando a sentar aquela bunda gostosa e redondinha no meu colo. Não consegui esperar que ele fizesse o trabalho sozinho (já que a cena era excitante demais para eu me controlar) e ergui meus quadris em uma estocada, encontrando-o no meio do caminho da descida. Mello estava tão duro quanto eu (talvez só um pouquinho menos) e eu pensei em masturba-lo quando senti minha mão ser impedida pelas fitas que me amarravam.

É extremamente frustrante. Quero tocá-lo, agarrá-lo, fazê-lo gozar tanto que vai desmaiar de exaustão. Mas estas malditas cordas me impedem. – era o que eu queria gritar.

– E-eu posso te fazer se sentir ainda melhor, Mello... – falei com dificuldade, alto o suficiente para que ele me ouvisse apesar dos próprios gemidos. – Mmh... é só você... me soltar.

– Nnngh,,, N-não... – ele me olhava de soslaio, seu rosto alguns centímetros acima do meu enquanto cavalgava. Os fios loiros ocultavam parcialmente uma de suas bochechas mas a outra, vermelha como fogo, era visível.

Por favor, não se iludam. Mello não estava com vergonha. Esta foi perdida há muito tempo, enquanto nós ainda frequentávamos a Wammy’s House, depois de algumas noites juntos. Desde então ele já não reprime ou tenta esconder o que sente por mim. Naquele momento, na realidade, seu rosto vermelho era reflexo do calor do momento, de nada além do puro prazer sexual que dominava seu corpo ao entrar em contato com o meu.

De qualquer forma, não pude olhar por muito tempo, já que Mello voltou a se sentar bruscamente e apoiar o queixo no meu ombro, erguendo os quadris de leve em movimentos bem menos intensos.

– Por favor bebê... – disse em meio a um suspiro. Capturei o pescoço alheio com os lábios, chupando e lambendo do jeito que ele gostava, até fica arroxeado. Seus braços foram então para as minhas costas, as quais ele arranhou sem piedade. Um gemido mais audível e delicioso deixou a minha boca.

Quero que ele me machuque mais. Quero que me faça sangrar e sentir tanta dor que o prazer me faça esquecer de quem eu sou. Quero me perder no mundo, perder a noção do que me rodeia. Quero que o corpo de Mello seja a única existência na minha realidade. – era o que eu pensava.

– N-não poss... Aaah aah aaah! – aumentei a força nas coxas, empurrando com violência contra aquele corpo frágil, minha paciência se esgotando. Puxava meus braços loucamente para os lados enquanto forçava meu falo mais para dentro de Mello, que gemia sem parar ao meu ouvido. – A-ASSIM, MATT! AAH... T-T-Tã...Aaaa...B-bo...

Meus pulsos doíam toda vez que eu os puxava, mas de alguma forma isso me deixava mais e mais excitado. Ao mesmo tempo em que eu queria me ver livre, os movimentos, a voz de Mello, o suor, o barulho dos corpos e a dor me consumiam tão intensamente que eu não queria parar nem para ser desamarrado.

– AWN! – um gemido particularmente alto e fofo de Mello me fez abaixar a cabeça para seu membro e atestar aquilo que eu já sabia. Ele ia gozar.

Decidindo-me por fim, escolhi obriga-lo a me soltar de qualquer jeito. E, tão subitamente quanto haviam começado, meus movimentos cessaram, e o corpo magro à minha frente estremeceu. Os olhos de seu dono, Mello, se abriram após poucos segundos e eram mais raivosos que a lava fervente de um vulcão em erupção. Eles me diziam o seguinte: Quem mandou você parar, idiota?

– S-se eu...te soltar... – Mello dizia muito lentamente, em um sussurro baixo e forçado, como se as palavras lhe doessem ao sair. Dava para notar que suas forças começavam a abandoná-lo: ele queria, não, precisava que eu o satisfizesse naquele momento. – V-voc...

– Cala a boca...e vai...logo... – O Mattzinho chegava a doer de tanto tempo que aquilo estava demorando.

Dando-se por vencido (o que, convenhamos, é um puto de um milagre), Mello se inclinou para frente e, entre alguns ofegos, mexeu nas cordas em meus pulsos e me libertou.

Minha primeira ação, claro, foi segurar aquele gostoso pelas coxas macias e deitá-lo sem qualquer delicadeza no sofá, inclinando meu corpo sobre o dele e simplesmente metendo com toda a força e velocidade com as quais meu quadril conseguia se mover.

Mello agarrou a beirada e o topo das costas do sofá com as mãos, tentando não voar para trás e bater a cabeça no braço do móvel. Seus olhos já estavam fechados e suas pernas dobradas ao máximo contra seu peito, que subia e descia desesperadamente em uma tentativa inútil de respirar. Os gritos que saiam de sua garganta não chegavam direito aos meus ouvidos, já que eu estava plena e completamente perdido. O calor me deixava desorientado e nada além do impulso de amante enlouquecido cruzava meus pensamentos. Eu queria mais, mais e mais. Queria deixar minha marca em Mello, queria escrever meu nome nele, queria deixar claro que ele pertencia somente a mim!

– MATT! – ele berrou tão alto que senti o fundo dos meus ouvidos doerem. Pelo estrago que suas unhas haviam feito nas minhas costas (pois a dor era maior que o normal) e suas mãos em meus cabelos, pelo visto fazia algum tempo que ele estava tentando chamar a minha atenção. – M-m...M-me perdoa... – fios de saliva escorriam de seus lábios e eu os limpava com a língua, sugando o lábio inferior de Mello em seguida. – P-perdo...uh,ah,ah...para...

Vocês devem estar achando estranho que Mello estivesse me pedindo perdão. Na verdade é tudo muito simples: ele achava que eu estava sendo violento porque queria me vingar pelo modo como ele havia me tratado alguns minutos antes. E ele estava certo, como sempre. Só que esse não era o único motivo pelo qual eu estava pegando tão pesado com ele.

Como vocês bem sabem (ou, se não sabem, agora eu estou contando) o chocólatra é obcecado por desafios, enigmas e problemas de um modo geral. Se eu simplesmente aceitasse as suas ordens como um bom cachorro, ele logo iria perder o interesse e com certeza já teria me trocado por outro. Portanto, justamente quando me oponho a essa ideia de submissão cega a ele (quando transamos, por exemplo, ele perde o “cargo” de parte dominante), Mello pode sentir que ainda há um obstáculo a ser ultrapassado, uma barreira em seu caminho. Em sua cabeça, ele só terá me vencido quando conseguir me submeter totalmente às suas vontades, desejos e ordens, o que ele ainda não conseguiu fazer por completo.

Mas não pensem que eu estou falando só de sexo. Para aqueles poucos que conhecem Mello como eu isso vai parecer muito óbvio, porém é necessário que seja dito. Esse loiro é um labirinto de emoções atreladas umas às outras, que, se não forem bem controladas, podem causar consequências catastróficas. Assim, esse misto de sentimentos que vaga pela cabeça já extremamente confusa dele precisa ser administrado, e é aí que eu entro (outra vez). Eu sou o pilar da sanidade de Mello, sou eu quem o mantém focado no que ele deve fazer, sou eu quem o impede de enlouquecer com os próprios pensamentos. Sem mim, apesar de toda a sua força, ele se perderia dentro de si mesmo. Talvez demorasse alguns anos, ou talvez não chegasse a tanto, mas é certo que aconteceria um dia.

E é assim que eu o prendo a mim, travando uma contínua batalha que Mello nunca terá a menor chance de vencer.

– Não... – sussurrei em seu ouvido, minha voz rouca raspando minha garganta enquanto me movia. – Você... Aaahn... Você adora quando é forte assim. – tirando uma das minhas mãos de sua coxa, usei-a para tocar seu membro, que estava um pouco molhado e duro como uma rocha. Eu até riria, se não estivesse na mesma situação. – Viu?

– Ghn... – ele disse alguma coisa que eu não consegui entender e fechou os olhos com força, agarrando-se às minhas costas. Havia algo quente nelas e suspeitei que fosse sangue. – R-rápido...

Obedeci imediatamente, procurando acertar um ponto específico enquanto me movia. Mas, àquela altura do campeonato, não importava o que eu fazia: parecia que em toda estocada em atingia a próstata de Mello. A voz doce deste em meus ouvidos indicava que ele havia perdido completamente o controle, que já não conseguia pensar em mais nada. Eu teoricamente poderia fazer qualquer coisa com ele.

Teoricamente, claro, já que o meu nível de razão era tão baixo quando o dele.

– Aah... Mmh...aAH... – eu me permiti gemer mais alto e procurei desesperadamente a boca de Mello, beijando-o com pressa e necessidade. Seus lábios estavam molhados e tinham gosto de chocolate branco. Eram muito, mas muito doces.

– MATT...

– Nnhg... D-desculpa... – sussurrei próximo a sua boca e, segurando outra vez em suas coxas, me ajoelhei no sofá, observando-o de cima. Os olhos caídos de Mello me encararam por um breve segundo, sem entender. Seu corpo suado e trêmulo e seu rosto estavam lindos daquele ângulo. Eu então retomei pela última vez os movimentos, usando muito mais força do que o necessário.

Mello gritou e eu podia ver que estava com dor mas, ainda assim, ele gozou em segundos: suas mãos agarraram o sofá e ele não se conteve, deixando tudo transparecer. Eu apreciei aquela imagem com olhos luxuriosos. As costas arqueadas de Mello. Seu corpo contorcido de prazer. Os lábios vermelhos e molhados semiabertos. Suas belas safiras escondidas atrás das pálpebras duramente fechadas.

E, obviamente, observei meu entrar e sair de Mello, meu delicioso Mello.

Já perdi as contas de quantas vezes divaguei sobre como sou o homem mais sortudo do mundo por ter Mello na minha vida. Ele é perfeito. Claro, tem os seus defeitos como qualquer ser humano, mas faz da minha vida uma experiência única, sem arrependimentos. E quanto mais tempo passamos juntos, mais eu percebo que o amo, amo, e amo ainda mais. – era o que eu pensava.

Com um suspiro gritante antes guardado no âmago da minha alma, alcancei o ápice junto ao corpo exausto do meu amigo e acabei por me perder em seus braços.

...

22/05/20xx (Três dias depois)

–MATT!

Abri lentamente meus olhos, amaldiçoando quem estava me chamando, embora eu soubesse quem era. Lembrava vagamente de ter pegado uma encomenda de Mello lá na puta que pariu às 4 da madrugada e depois capotado na cama. Ainda estava cansado.

O dito cujo estava de costas para mim, pegando alguma coisa no armário e jogando em uma mala gigante. Não sei como não acordei antes com o barulho que ele estava fazendo.

– QUE É? – nossa educação um com o outro é impressionante.

– Lembra quando aqueles caras do Luke invadiram nosso antigo esconderijo? A facilidade com que passaram pelas câmeras de segurança?

– Ahaaaaam... – respondi sem perceber. Sério mesmo que ele queria falar sobre isso àquela hora da madrugada?

Ergui meu corpo de leve e olhei para o relógio. 15:56. Eita.

– Não havia erro algum na nossa rede de segurança interna. Pelo que Tristan e Paul descobriram, os responsáveis pelo desligamento das câmeras foram os seguranças. Eles receberam um belo cachê para desligar as luzes do térreo e dos corredores e fecharem as persianas do andar ao nível da rua para impedir a entrada do sol. Assim, puderam passar pela escuridão até as escadas, por onde subiram sem serem pegos pelas câmeras... Mas as duas câmeras na frente do prédio foram realmente desativadas. Pelo visto, dessa vez, foi obra do zelador. Parece que ele era um dos irmãos do subordinado de Luke.

– Ah... Legal... – foi o máximo que consegui responder. Meus olhos ardiam de sono.

– E além de tudo, os dois encontraram corpos de quatro condôminos nas lixeiras no térreo... – Mello pegou algo no armário e jogou na super mala, fazendo um som de metal. Provavelmente eram armas. – Não temos mais nada que fazer no Japão. Por isso nós vamos para os Estados Unidos.

Ah claro, vamos ali na padaria eu só tenho que...

Pera... O que?

– Aaahn? Como assim Estados Unidos? – sentei lentamente na cama, esfregando os olhos. – Você não vai tentar descobrir como invadiram nosso antigo esconderijo?

– Acabei de dizer que... – ele respirou fundo, finalmente virando pra mim. Aaaah então era isso que ele estava explicando agora? – Presta atenção que eu só vou explicar uma vez, de um jeito que até você vai entender. Eu cheguei a interrogar os comparsas de Luke que nós capturamos, mas a maioria não sabia de nada. Exceto, claro, os que invadiram e o único vivo era um tal de Kevin. Ele me contou tudo. Na verdade, eles não conseguiram desligar todas as câmeras. Os nossos seguranças apagaram as luzes dos corredores e das escadas enquanto eles estavam subindo e depois quando saíram. A luz dos apartamentos é ligada a um gerador, lembra? Esse até foi um dos motivos pelos quais nós fomos pra lá. Portanto, nós que estávamos dormindo e não tínhamos nenhuma luz ligada, não percebemos que a luz apagou por um segundo e o gerador logo foi ligado. Talvez algumas pessoas perceberam mas não acharam e fosse nada grave e ficaram nos apartamentos... Mas enfim, foi por isso que as câmeras não registraram nada e por isso o alarme não fez barulho. Eu olhei nas gravações das câmeras dos corredores daquele dia e é exatamente o que acontece: por alguns segundos a imagem toda escurece, depois volta e depois escurece de novo, quando eles estão indo embora. Entendeu por enquanto?

– Sabe, eu não sou tão idiota quanto pareço.

– Continuando... – ele me ignorou. – Os malvados encontraram quatro bonzinhos que moravam no prédio durante o tempo que passaram nos corredores e na entrada e mataram todos eles, colocando-os nas lixeiras lá no térreo. Eu só imagino o barulho que fizeram, colocando as pessoas lá dentro... Deve ter sido pouco antes de nós acharmos a bomba. Porque pensa só: acho que dá pra estimar que pelo menos uma das pessoas mortas tinha família. E se essa família não chamou a polícia, é porque o sumiço não fazia tanto tempo assim... Ah, outra coisa. As duas câmeras da parte da frente do prédio foram desativadas manualmente, pelo zelador. Essas eram as únicas que não faziam barulho, lembra? Se soassem algum alarme quando vissem alguém desconhecido, elas apitariam toda vez que um estranho passasse na frente do prédio... E, por último, parece que eles esperaram o porteiro ir ao banheiro para entrar sem serem vistos e o mataram na volta. O cara era o único realmente fiel... Mas enfim, o resto que Kevin nos contou era verdade.

– Mas por que ele não contou tudo isso logo de cara? Nós apontamos armas para a cara dele. Duvido que estava protegendo os seguranças traidores.

– Na verdade ele não disse nada porque não sabia dizer onde estavam os seguranças. Como você sabe, eles sumiram completamente. Kevin tinha medo que nós não acreditássemos na história dele e o matássemos, já que ele não tinha prova alguma.

– Mas vocês mataram de qualquer jeito, né?

– Claro. Você devia ter visto a cara dele.

Ri baixinho.

– O que aconteceu com a bomba?

– Ah parece que quando a polícia chegou, o prédio foi evacuado. Rodner ligou anonimamente, dizendo que havia colocado uma bomba lá mas que se arrependera e não sabia desativá-la. Enfim, inventou uma história. Uns especialistas foram lá junto com a polícia e conseguiram impedir a explosão, infelizmente. – Eu já disse que Mello é um sádico? – A polícia agora procura a Sra. Takada, dona do apartamento, e a pessoa que fez a ligação. Claro, não vão encontrar nenhum dos dois.

– E o que vamos fazer nos EUA?

– Negociar uma artilharia pesada com um especialista no assunto. O cara fabrica desde pistolas até aviões de guerra. – Mello voltou a arrumar a mala, colocando algumas toneladas de chocolate ali.

– E ele faz isso de boa? No meio dos EUA?

– Na verdade é mais para o Sul. A sede da Warder...

– Da o que?

– Da empresa dele. Warder. Significa “Sentinela”.

– Eu sei o que significa. Talvez você não se lembre, Mello querido, mas nós dois somos ingleses.

– Foda-se. O que importa é que a sede da empresa dele fica no subterrâneo do deserto do Texas e é pra lá que nós estamos indo.

– Ah mas eu queria ir pra New York! Sabia que tem uma boate gay lá que...

– Matt.

– Hm?

– Cala a boca.

Affe eu odeio quando Mello corta o meu barato.

Resmungando, eu me levantei da cama e comecei a me arrumar. Espero que essa viagem seja interessante.

...

Atualmente

Se eu não tivesse feito aquela viagem... Se eu tivesse me recusado a ir, se tivesse dito que queria ficar no Japão e que Mello deveria escolher entre mim e os EUA, nada disso teria acontecido. Mello teria ido ou talvez tivesse ficado, mas é certo que eu não estaria nessa cidade, não estaria mofando sozinho nesse quarto escuro, não estaria bebendo cerveja com a minha cadela, não estaria fumando enquanto espero dar duas horas da manhã para sair de casa.

É irônico, não? Justamente o Texas, um estado marcado por contrastes, assim como eu e você Mello, ser o lugar escolhido pelo destino para aqueles acontecimentos. O Norte e Leste certamente me representariam: rios, florestas, uma paisagem mais bucólica. Já o Sul e o Oeste falariam por você, apresentando áreas de clima árido e desertos.

Aliás, eu me pergunto como você teria reagido, Mello, caso eu tivesse dito não. Você ficaria no Japão a meu pedido? Ou me abandonaria, assim como eu fiz com você? Ou destruiria meu coração, como já fez tantas e tantas vezes?

Não sei. Não quero saber, não quero pensar, não quero sentir. Tenho medo da resposta, medo do que posso descobrir, do que meu coração pode fazer se eu permitir que ele ame outra vez.

Levanto-me da minha cama estreita e vou até a sala, que está caindo aos pedaços. Minha cadela me segue durante o caminho, balançando o rabinho enquanto anda. Talvez eu devesse lhe dar um nome. Mas não quero. A partir do momento em que lhe der um nome, vou afirmar sua existência, seu papel na minha vida. E não quero fazê-lo. Recuso-me a me apegar a outro ser vivo além de mim mesmo. Se ela morresse hoje, nesse exato momento, não faria diferença alguma para mim.

Pego minha jaqueta sobre a cadeira e me encaminho para a porta, pronto para...

Ah mas eu não deveria interromper a sua leitura do meu passado, leitor. Por favor, continue. Ainda há muito que contar. Claro que eu não vou culpa-lo se parar de ler agora. Até aconselho a fazê-lo. A partir dessa viagem até os dias atuais não há nada além de uma sucessão de decepções na minha vida, que me trouxeram até esse momento miserável. Se você gosta do Mail alegre, piadista e bem humorado, sugiro que saia daqui. Essa pessoa já não existe mais.

Mas, se insiste em ficar, não pode culpar ninguém além de si mesmo pelo que vai descobrir. De qualquer forma, não vamos apressar as coisas. Como dizia Machado de Assis, “Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar”.

Notas finais
(Se algo não ficou claro, perguntem! ^-^ até o próximo, no qual a treta começa ~yay~)