Stalemate II.
3 III. 20/04/20xx
Notas iniciais

– Droga, isso aqui não é nada confortável.
Quatro homens se moviam, virados de costas uns para os outros. Suas mãos se cruzavam e se tocavam sem querer, devido à falta de espaço. Os braços se sacudiam impacientes na tentativa de livrá-los das argolas de metal que circundavam seus pulsos, ato aparentemente inútil.
– Acha mesmo que um sequestrador iria se importar com o conforto de suas vítimas? Idiota. – entre os homens estava meu querido e amado Mello, cuja língua continuava afiada como sempre. Ele se inclinava para frente enquanto falava, puxando as algemas, mas pela careta que fazia aquilo só o machucava ainda mais.
Os quatro estavam no interior de um aeroporto abandonado, perto da área das esteiras, onde os viajantes pegavam suas bagagens. Toda a região visível ao seu redor estava vazia, exceto pelos quatro: Mello, Thomas, Jean e Rodner.
– Quando ele vai chegar? – Jean perguntou pela quarta vez, suspirando.
– Logo. – Mello respondeu, apoiando a cabeça na estaca metálica que os prendia juntos e olhando para cima, pensativo.
...
– Ai Matt, você pisou no meu pé! – Alguém disse ao meu ouvido, empurrando o ombro contra o meu.
– Cala a boca. – Sussurrei de volta, sentindo outro alguém me empurrar para frente.
Podia ouvir o som da respiração de muitas pessoas ao meu redor, apesar de não conseguir vê-las. A escuridão em volta de mim era total, exceto por três computadores portáteis a minha frente, cujas telas brilhavam e transmitiam imagens de câmeras internas que instalei às pressas. Uma delas mostrava Mello e os outros três, que se encontravam no andar abaixo de nós, o primeiro, algemados e em silêncio. Esse foi o único local onde instalei escutas.
– Olha ele lá. – falou um dos homens ao meu lado, cujo nome eu havia esquecido, apontando para um dos outros dois notebooks. Na tela, um carro vermelho estacionava na antiga pista de pouso, que agora estava velha e gasta. O motorista, com um tranco, desceu do veículo, pegando algo no porta malas e se encaminhando para uma das entradas laterais do aeroporto.
Bem na hora. – pensei, olhando para o terceiro e último monitor. Nele, dois homens de terno desciam de um táxi em frente à entrada principal do aeroporto e olhavam para os lados, analisando o local.
– Só dois? – disse o cara sem nome.
Como que em resposta à sua pergunta, dez minutos depois quatro carros negros enormes e blindados apareceram e estacionaram próximos ao táxi, saindo seis pessoas de cada um. No total, eram vinte e quatro. Contando com os que chegaram antes, de táxi, vinte e seis.
Vinte e seis da facção inimiga para lidar contra vinte e quatro de nós, sendo que quatro dos nossos estavam algemados.
A situação não era muito favorável.
Deixem-me explicar melhor o que estava acontecendo, porque posso sentir que vocês estão confusos. Eu e dezoito membros da máfia japonesa estavamos nos apertando na antiga sala para zeladores de um aeroporto abandonado, em uma missão de resgate. Mello, Thomas, Jean e Rodner foram capturados três horas antes disso e presos em uma estaca de metal, enquanto os sequestradores ligavam para nós exigindo dinheiro.
Em resposta, enviamos um de nossos homens para o local. Este estava naquele momento caminhando na direção de uma das antigas entradas para funcionários com uma mala gigante em sua mão.
Enquanto isso, pela entrada da frente, vinte e seis homens estavam entrando tranquilamente, rindo da situação e prontos para receber o capital exigido. Eles faziam parte de uma organização rival à nossa, muito ricos, que se recusavam a cooperar conosco já fazia uns cinco anos. Uns babacas.
Mas deixando esses caras de lado, vocês devem estar se perguntando o que estávamos fazendo lá, naquela sala de zeladores apertada, sendo que já havia um cara levando a grana. Bem, eu sinto em informar que a máfia não negociava (e ainda não negocia) com criminosos de segunda linha como aqueles.
“Mas então vocês deviam ter trazido mais pessoas. Porque vocês aí dentro são dezenove. Mais o cara que está com a mala, vinte. Contando com Mello e os outros capturados, vinte e quatro. Estão ferrados, certo?”
Errado.
A aparente vantagem numéricas deles era irrelevante, porque enquanto nós estávamos com apenas uma porção mínima dos nossos membros, eles estavam, muito provavelmente, com quase o bando todo ali. Além disso, como integrantes de uma organização muito mais poderosa e influente, nossas armas eram de última geração, assim como nossos equipamentos.
Coitados. Não sabem no que se meteram. – era o meu pensamento.
– Ora, ora, ora... O que temos aqui. – os criminosos, que finalmente entraram no local, sorriram ao ver que seus quatro prisioneiros continuavam lá. Seu líder, um homem de barba rala e cabelos excepcionalmente claros, quase brancos, foi o único cujo sorriso se desfez ao entrar no recinto. – Onde está o garoto? – ele perguntou para um de seus comparsas. – ONDE ESTÁ A PORRA DO GAROTO QUE EU DEIXEI VIGIANDO ELES AQUI?
– Não sabemos, senhor. – um deles respondeu, consultando seu celular. – Há uma hora ele não nos contata.
– Ah, mais um fruto de sua incompetência, Luke. – Mello finalmente falou, seus olhos safira se erguendo em chamas. Um sorriso maligno (e até um pouco sexy, apesar de assustador) dominava aquele rosto fino. – O garoto não parava de tremer enquanto apontava sua arma para nós. Sabe, ele foi ao banheiro já faz um tempo e nunca mais voltou. Vai ver foi dar um voltinha de patinete.
Na verdade, foi quase isso que aconteceu. Quando eu e os outros dezoito nos encaminhamos para o aeroporto, colocamos nossas motos em lugares estratégicos e viemos andando por alguns poucos quilômetros, nos certificando de que ninguém estava nos seguindo. Ao chegar, fomos para a entrada Sul, a oposta em relação a Mello, e entramos aos pares e trios, visando chamar a menor atenção possível. Eu, o cara que eu esqueci o nome e Lúcio, entramos primeiro, checando o local. No meio do caminho um menino jovem, 19 anos no máximo, saía de um banheiro. Estava pálido e parecia doente. Nós nos escondemos e, quando ele passou, o cercamos e colocamos em seu rosto um pano úmido com clorofórmio. Pensamos em matá-lo, mas isso faria muito barulho. Se houvesse outro alguém de vigia, estaríamos ferrados e nossa posição seria delatada. Assim, nós o amarramos e o colocamos em um armário.
Ele vai morrer de qualquer jeito mesmo, seja pela quantidade de clorofórmio inalado seja pela falta de oxigênio, então não me preocupei muito com isso.
– Se estivesse em sua posição, eu não me insultaria, Mello. – Luke respirou fundo e, ao virar novamente o rosto para seu prisioneiro, voltou a sorrir.
– Estou apavorado. – Mello brincou. – Meus insultos, pelo visto, não valem de nada, já que você continua a cometer as mesmas burradas. – meia dúzia de mãos armadas se ergueu para Mello, mas este nem piscou e muito menos alterou sua expressão de escárnio. – Só alguém sem cérebro seria capaz colocar um único homem para vigiar quatro prisioneiros. Mas talvez você o tenha feito para ver se eu conseguiria me soltar... Porém, você foi capaz de recusar uma proposta bilionária por seis vezes! Então, você continua sendo um imbecil.
– Prefiro ficar na miséria a fazer negócio com vocês. – o cara tentava sorrir, mas estava claro que tinha ódio de Mello. Não sei o que a máfia fez para ele no passado, mas com certeza foi algo grave.
– E ainda assim cobra resgate por nós. O que houve, está falindo?
– CALA ESSA BOCA! – Luke, que corria furioso na direção de Mello, provavelmente pronto para lhe dar um tabefe, parou a meio caminho e olhou para a entrada de funcionários, de onde vinha um barulho. Todos agora, exceto ele, erguiam as armas e apontavam para o local. Meus ombros se tencionaram.
– É agora. – sussurrei para os que estavam ao meu redor e, enquanto as atenções estavam voltadas para aquele lado, um a um, lenta e vagarosamente, começamos a sair de nosso esconderijo.
Esse é o motivo pelo qual nos escondemos ali, em um lugar tão apertado. Mello me ensinou muitas coisas durante esses anos de falcatruas e uma delas foi a de não subestimar o inimigo. Com isso em mente, achei melhor chegarmos ao local uma hora antes do combinado e nos escondermos, saindo no momento adequado. Pensei que eles revistariam o aeroporto inteiro e ali seria um lugar onde, talvez, não olhariam ou, se olhassem, poderíamos facilmente render quem quer que ali estivesse. Mas, pelo visto, os caras eram burros demais a ponto de não checarem os andares superiores.
Pensando melhor, se houvesse alguma armadilha ou alguém vigiando a entrada Sul ou os outros andares do aeroporto antes do encontro, através de câmeras ou pessoalmente, o plano teria ido por água abaixo.
E é por isso que era sempre o Mello quem bolava os planos e não eu.
– Não atirem! – ouvi a voz estridente de Trevor lá embaixo assim que deixei a pequena sala com os outros membros do grupo. – Eu estou com o dinheiro!
Ao meu redor todos se agrupavam em volta das muretas, que eram feitas na parte superior de vidro e na inferior de concreto. Todos nos abaixamos e apontamos as armas para o andar de baixo, nos posicionando o mais para trás que era possível. Se algum deles olhasse para cima, veria apenas porta corpos inofensivos, visto que estávamos escondidos atrás das metades feitas de concreto. Mal sabiam eles que canos de metralhadoras estavam espalhados pelo perímetro acima de suas cabeças.
Eu adoro esse trabalho.
– Você ladra demais, Mello, mas no final acaba fazendo o que te mandam. – Luke riu, os músculos de seu queixo envolto na barba rala tremendo com o esforço. – Vem aqui garoto! Põe a mala no chão.
Trevor se aproximou, tremendo, e colocou a mala deitada nos pés de Luke, cuja sombra gigante encobriu a expressão do outro. Trevor, ainda sob a mira das armas, se afastou alguns passos e engoliu em seco, o suor escorrendo por seu rosto redondo.
– Você. – Luke fez um movimento de cabeça para um dos aliados. Devido ao meu ângulo de visão limitado, não consegui ver seu rosto e não me atrevi a chegar mais perto da mureta. – Solte a loira. Ela vai contar o dinheiro para mim, nota por nota. – ele dirigiu um sorriso para Mello, verdadeiro desta vez, seus dentes amarelos revirando o meu estômago.
– Ei Matt... – um dos mafiosos se afastou de seu posto e sussurrou ao meu lado. – Todos se posicionaram. Só estamos aguardando o seu sinal.
– Diga para eles se prepararem. – respondi em um tom de voz ainda mais baixo, puxando uma espécie de gancho e prendendo-o com toda a delicadeza possível no corrimão dourado que envolvia a mureta. – Mande o Lúcio passar a mochila. Vai ser a qualquer momento.
– Ok. – e se afastou para passar a mensagem.
Lá embaixo, o subordinado de Luke libertava o meu loirinho, enquanto os outros riam da expressão de nojo que ele fazia.
– Não gostou do meu tratamento especial? É uma pena. Achei que seria ideal para você, Mello.
Finalmente livre, o loiro massageou os pulsos e ameaçou se levantar, quando recebeu um chute na parte de trás dos joelhos que o fez cair ajoelhado aos pés de Luke. Foram ouvidas sonoras gargalhadas.
Apertei a arma em minhas mãos com mais força, a raiva subindo à cabeça. Por sorte, Mello sempre me ensinara a manter o dedo fora do gatilho em momentos de tensão. “Deixe-o na lateral da arma”, ele dizia, “de modo que, quando você escorregá-lo para baixo, ele aperte o gatilho”.
– Pss, Matt! – o cara sem nome à minha esquerda jogou uma mochila preta e larga para mim, a qual eu peguei com uma mão e tirei um escudo oval, fino e preto, de meio metro, com um furinho minúsculo na parte de cima e o prendi ao meu cinto em uma fivela instalada especialmente para isso. Silenciosamente, passei a mochila retangular para o homem à minha direita e voltei a olhar para baixo.
– Desgraçado... – Mello rosnou audivelmente, olhando para quem o chutara. O homem estava de costas para mim, de modo que não pude ver se estava rindo ou não, mas percebi que retrocedeu um passo.
– Nada disso, loira. Você vai contar o dinheiro para mim em voz alta e de joelhos, onde é o seu lugar. – Luke ergueu a própria pistola, uma Beretta M9, uma das minhas favoritas por sinal (não que isso importe agora), que ainda estava em seu cinto e, abaixando-se, passou-a pelo rosto de Mello, brincando com sua bochecha.
Filho de uma puta! Só eu posso tocar aquela bochecha.
– Por que não poupa o nosso tempo e me mata logo? – Cala a boca, Mello. – Ou você é fraco demais pra isso? – CALA ESSA BOCA, PORRA!
– Ah, mas qual seria a diversão nisso? Não obrigado. Vamos fazer do meu jeito. – levantando-se outra vez, ele apontou para a mala com o cano da arma. – Abra e comece a contar.
Rosnando, Mello virou a mala para si, de modo que ocultou seu conteúdo para mim, e abriu os dois fechos, erguendo a parte de cima. Ouviu-se uma exclamação geral e muitos homens retrocederam alguns passos, os olhos arregalados. Um momento de choque e incredulidade passou pelo rosto de todos, mas nenhuma expressão era mais intensa do que a de Luke, que ficara lívido.
– L-LI...? – a arma de Luke caiu. O sangue subia rapidamente ao seu rosto, a cólera o possuindo. – O QUE SIGNIFICA ISSO?
– AGORA! – eu me ergui de um salto, a arma longa firme em minha mão esquerda. Usando a direita para me apoiar no corrimão da mureta, dei um impulso e saltei para o andar de baixo.
...
Acho que já passou da hora de eu explicar o porquê de nós termos bolado todo aquele esquema para confrontar os caras. Em parte, claro, foi para recuperar nossa dignidade, uma vez que ninguém que se recusa a fazer negócio com a máfia e tira sarro do nosso líder sai impune. Entretanto, esses não são os únicos motivos.
Para falar a verdade, o fato de Mello e os outros terem sido pegos faz parte da armação que culminou com aquela situação.
Vou lhes contar o que aconteceu. O momento que vai ser narrado agora ocorreu três dias antes dessa cena no aeroporto, quando Mello e eu, como sempre, estávamos nos pegando na cozinha.
...
– Aah Matt... – Meu querido loiro, sentado em um largo balcão no centro da cozinha, suspirava ao sentir minha mão brincar sobre seu membro ainda coberto, mas já acordado. Eu sentia os pelos do meu corpo se arrepiarem com aquela voz tão conhecida e tão doce aos meus ouvidos. Ele, tão necessitado daqueles toques, puxava o zíper do próprio colete para baixo, despindo-se com visível rapidez. – Vai logo...
Rindo, eu beijava sua bochecha (aquela coisinha fofa!), seus lábios macios, seu queixo delicado, trilhando na direção daquele pescoço livre de marcas.
– Para de enrolar, cacete. – ele resmungava entre suspiros, cansado das minhas brincadeiras. Entre o pescoço e a clavícula era onde ele mais gostava, onde eu concentrava meus beijos mais profundos, sem parar é claro com os movimentos de tortura entre suas pernas, ainda que ele reclamasse. Dando-se por vencido, ele puxou meus cabelos para sussurrar em meu ouvido. – Maaaaatt... – ele usou aquela voz dengosa que eu adorava. Mordi o lábio. – Por favor... Mais embaixo.
Essa loira gostosa, tsc.
Suspirando com minha própria fraqueza, desci às pressas por seu peito e sua barriga, tendo de me ajoelhar para fazê-lo, e alcancei o local desejado. Ali, praticamente puxei o pequeno (mais ou menos pequeno; menor do que o meu, claro) Mello para fora, encaixando-o, como inúmeras vezes antes, entre os meus lábios.
Imediatamente o loiro reagiu. Tremendo, ofegando, tendo espasmos e até gemendo sôfrego de prazer. Cá entre nós, às vezes eu pensava que ele gostava mais disso do que de transar comigo. Sério. Eram tão reais as expressões que ele fazia que mais de uma vez pensei que o loiro estivesse morrendo.
– M...Mmn... M-matt... eu... – seu pescoço, que antes estivera deitado para trás, inclinava-se agora para frente, para que pudesse me encarar.
Ah, esse Mello. Ele sabe o quanto me deixa excitado quando faz isso.
– Ma.... – ele parou no meio de um gemido, seu olhar se afastando de mim e se focando em algo ao meu lado, no chão. Seus olhos claros perderam um pouco da perdição em que ele parecia estar. Sua mão foi parar em meus cabelos, puxando-os para trás. – M-Matt para. P-para. PARA!
Primeiro eu achei que ele estivesse me testando, ou que aquilo fosse alguma brincadeira. Mas quando parecia que o meu couro cabeludo estava prestes a ser arrancado, cheguei à conclusão de que ele queria MESMO que eu parasse.
Não me culpem por não perceber de imediato. Para alguém acostumado com os fetiches de Mello, eu sabia bem o quanto ele gostava de ser agressivo. Com frequência eu acordava no dia seguinte a uma boa transa cheio de hematomas e marcas rochas espalhadas pelo corpo. E quase todas às vezes as minhas costas sangravam de tão forte que ele arranhava.
Eu até pediria para ele parar, mas é tão gostoso, awwn....
É, talvez eu devesse procurar um médico. O meu nível de masoquismo já passou do limite.
Mas voltando ao que interessa. A verdade é que o Mello NUNCA me pediu para parar de chupá-lo antes. Nem uma vez. Nunquinha. E é por isso que eu estranhei e muito.
– Você tá morrendo, Mello? – perguntei quando o vi fechar os botões da calça e recolocar o colete. – É um ataque cardíaco? KIRA VOLTOU?
Ele nem se dignou a me responder. Chato. Ainda encarando algo no chão, desceu da bancada e se ajoelhou no piso frio, de costas para mim. Tentei ver sobre seu ombro, mas só consegui descobrir o que havia chamado sua atenção quando ele se virou, prendendo o objeto entre seus dedos.
Era um fiozinho de cabelo.
– Você interrompeu... o meu jantar... por causa de um fio de cabelo? – sabem quando uma pessoa fala pausadamente, sem acreditar no que acabou de acontecer?
– Primeiro, para de falar de mim como se eu fosse um pedaço de carne. – você é minha comida, não dá no mesmo? – E segundo... Matt, que cor é esse fio? – Ahn? – Que cor, Matt?
Alguém me explica POR QUE ESTAMOS TENDO ESTA CONVERSA QUANDO PODERÍAMOS ESTAR TREPANDO?
– Mello, meu bebê querido... Você andou batendo a cabeça?
– RESPONDE, CARALHO!
– É PRETO! – perdi a paciência. Eu quero te comer, caramba, não discutir sobre a porra da cor de um fio de cabelo que estava na porra do chão! – E DAÍ?
– E daí... – Mello respirava fundo, como se estivesse explicando algo óbvio para uma criança de cinco anos. – Que eu faço questão de pagar o Trevor pra limpar essa casa de manhã e depois ainda confiro o trabalho dele.
– ... Aham... – Entendi nada. O loiro deu um tapa na própria testa com a mão livre.
– Depois que ele limpou hoje, isso não estava aqui.
– Vai ver ele deixou cair, Mello.
– Ele é loiro! – o chocólatra gritou impaciente.
– E O QUE ISSO IMPORTA?
– Matt, nós fomos dormir era por volta das seis horas da manhã. O Trevor chegou às nove. Ele me ligou dizendo que estava na porta, eu te acordei e nós fomos almoçar e ajuda-lo a terminar de limpar a casa. Depois, por volta das duas da tarde, ele saiu e nós voltamos a deitar e trancamos a porta do quarto. Ficamos o dia todo lá e agora, às... – ele consultou o relógio na parede. – sete horas da noite, tem um fio preto na cozinha. O que isso significa?
– Ahn.... – eu odiava quando Mello tenta me fazer pensar. Na boa, COMO ele esperava que eu me concentrasse naquilo sendo que havia uma imagem gigante dele de quatro em cima da bancada na minha cabeça? – Significa... ééé...
– ALGUÉM ENTROU AQUI SEM QUE A GENTE SOUBESSE, IDIOTA! – Aaaaaaah ta. Isso. Claro, eu entendi desde o princípio. – Agora anda logo e me ajuda a procurar alguma coisa suspeita.
– Mas, Mello... – o loiro correu para o quarto, voltando logo depois com um objeto muito esquisito. Era, segundo ele, uma arma de espionagem de última geração, cilíndrica, que emitia pequenas ondas de radiação por uma das pontas, a única que era aberta. Era similar a uma lanterna mais grossa em seu formato, mas possuía vários botões ao redor, além de ser, é claro, muito mais perigoso. Pelo que Mello me disse, funcionava pela ativação de radioatividade em pequena potência, de modo a permitir que se observasse através de superfícies opacas. Apesar de ser aparentemente inofensivo, não deveria ser usado com frequência, claro.
(Ainda hoje, eu não faço a menor ideia do que todos aqueles botões podem fazer, já que Mello nunca me deixou mexer. “Você vai quebrar com a sua delicadeza de elefante”, ele dizia. Uma vadia loira mesmo.)
– Mello e se o cabelo entrou pela janela? Você tá sendo paranoico. – tentei argumentar enquanto o doido encostava o objeto na superfície dos armários da cozinha e observava pela outra ponta que funcionava como uma espécie de olho mágico.
– Estou, é? – ele me encarou com um olhar maníaco enquanto corria para a sala. Eu o segui, achando-o cada vez mais maluco.
Mello continuou a examinar os armários e, quando eu imaginei que ele finalmente ia se dar por vencido, o loiro riu e se virou para mim outra vez. Estava sentado de lado no tapete e examinava a porta de um armário baixo.
– Vem aqui. – ele sussurrou gritando. Ou gritou um sussurro. Ah, vocês entenderam.
Eu me aproximei, relutante de que a loucura dele fosse contagiosa. Ajoelhando-me, espiei pela ponta do objeto.
Puta que pariu. Tem uma bomba ali dentro.
– CARALHO MELLO, TEM UMA...
– Eu sei, seu escandaloso. Já vi. A gente ainda tem duas horas pra sair. – ele falou calmamente, como se não houvesse um objeto mortal pronto para estourar os nossos miolos a alguns centímetros de distância. – Você consegue ler o que está escrito no cantinho de baixo? Perto de um fio verde?
Olhei outra vez pelo buraco, continuando a achar que Mello estava pirado. Agora entretanto, depois de me acalmar (parcialmente), percebi que ele estava certo: havia duas letras miúdas gravadas ali.
– C... CL...CI?
– C.J. – Mello esclareceu. – Uma grande empresa de brinquedos.
– E por que o emblema de uma empresa de brinquedos está estampado em uma bomba?
– É exatamente o que eu quero saber... – Mello parecia preocupado. Erguendo-se, ele rumou para o quarto e eu o segui. Como havíamos passado o dia todo ali, não havia perigo de abrir as portas e as gavetas bruscamente e colocar as roupas e afins (chocolates, vídeo games, armas, chocolates, chicletes, vídeo games, dinheiro, fotos do Mello pelado, chocolates e vídeo games) em uma mala improvisada.
– Mello e se a gente desativar a bomba? Não é mais fácil do que ter que sair daqui?
– E você quer correr o risco? – ele respondeu sem me olhar, arrumando uma mala de mão com passaportes, dinheiro e coisas de que ele precisaria pegar com facilidade. Ou seja, chocolates. – Matt, bombas são muito instáveis. Quem me garante que aquela não é um dispositivo complexo, que explode quando tentam desativá-la? Além disso, se conseguiram entrar aqui uma vez, quer dizer que podem fazê-lo de novo.
– E por que não nos mataram logo? Seria fácil, nós estávamos cansados!
– Acho que não queriam comprar briga com a máfia. – ele fechou a mala, pegando outra menor para colocar os chocolates que faltaram. – Ao matar a queima-roupa o líder da máfia japonesa, seria mais fácil deixar evidências. Quase como pedir para ser morto. Quem quer que seja, preferiu não arriscar.
Não consegui evitar um suspiro de admiração. Por causa de um mísero fio de cabelo no chão, Mello salvara as nossas vidas.
– Mas o cara que fez isso foi um pouco descuidado. – comentei pegando minha mochila e abrindo outro armário para guardar uma torre de vídeo games. – Deixar a marca da empresa sem querer...
– Não acho que foi sem querer. – Mello me interrompeu sombriamente. – Acho que queria que eu descobrisse. Estava me testando.
– Quem? O dono da empresa?
– Não. O dono é um imbecil. Ganhou a empresa de graça do pai porque é o irmão mais velho. Quem realmente controla o lugar é Luke. Acho que você se lembra dele.
Eu me lembrava. Cabelo claro e curto, barba sempre por fazer, sorriso assustador... O cara era basicamente a mistura de um pedófilo com cafetão.
– E o que esse cara quer com você?
– Me provocar. Quem controlava a máfia antes...
– Aquele que você matou?
– É. – Mello me fuzilou por tê-lo interrompido. – Ele fez alguma coisa para o Luke no passado. Esse jura vingança contra a máfia japonesa desde então.
– Ele produziu uma bomba especialmente para te matar?
– Eu ficaria honrado, mas duvido que seja o caso. Luke sempre foi metido com o mercado negro... Deve ter pagado a mais para que colocassem a marca da empresa. – fechando a mala que arrumava com um ruído, Mello se aprumou. – Vamos, Matt.
Rumamos para a sala, pegando coisas de última hora, e nos dirigimos para a porta com nossas malas. Não a trancamos, não era necessário. Descendo as escadas, Mello ligou para um de nossos comparsas e pediu para que avisasse aos demais, muitos dos quais moravam no prédio, sobre a bomba. Havia ainda pessoas inocentes em alguns poucos apartamentos, que nada sabiam sobre a máfia estar ali: por isso, Mello pediu para que alguém ligasse para a polícia e, anonimamente, denunciasse que ouviu um apartamento sendo invadido no quinto andar. Se os policiais chegassem a tempo, ótimo, veriam a porta aberta e nossos armários revirados. Se achassem a bomba, esvaziariam o prédio e os inocentes seriam salvos. Caso contrário, se a polícia não aparecesse ou se não revistasse o apartamento corretamente...
BUUUUUUUM!
Haha...
De qualquer forma, não era problema nosso.
Alcançando o térreo, Mello e eu olhamos automaticamente para a portaria. As cortinas estavam fechadas, mas o porteiro fazia isso às vezes, para tirar um cochilo (motivo pelo qual Mello quase o matara uma vez) ou para observar sem ser visto. Para nos certificarmos, Mello se aproximou e bateu na porta de vidro. Não ouvindo resposta, ele tentou forçar a porta: estava trancada.
Resmungando, o loiro meteu a mão no bolso da calça e vasculhou até encontrar um molho com umas cinquenta chaves. Na boa, eu não sei como ele conseguia diferenciar umas das outras, mas o loiro pegou uma das menores e a colocou na fechadura, girando-a e abrindo a porta.
Meu estômago se revirou e eu dei dois passos para trás, me afastando dali. Ainda assim, a imagem e o cheiro não me saíam da cabeça: o porteiro fora morto a facadas, muitas na região do peito e algumas no rosto. Estava desfigurado, a boca torta, o nariz quebrado (talvez ele tentara lutar com o assassino?) e um dos olhos estava inteiramente branco, virado para trás. Sangue cobria cada centímetro do chão e, quando Mello abriu a porta, este vazou para fora e sujou nossos sapatos.
– Que pena... – Mello suspirou, comovido. – Essas são minhas botas favoritas.
Nota dez pela compaixão, loiro.
– Vamos, Matt. – Alguém já reparou em como ele fala isso com frequência? – Não quero estar aqui quando a polícia chegar.
Voltando para as escadas (porque elevador é para gordos), nós descemos até a garagem e limpamos os nossos sapatos da melhor maneira possível, dando algumas voltas para deixar nossas pegadas sujas de sangue indistinguíveis. Depois subimos em um dos carros mais velozes e Mello, novamente encontrando de primeira a chave certa naquele molho, nos levou para fora dali.
– Eu quero que você preste atenção, Matt. – ele me disse, olhando para o retrovisor enquanto dirigia. – Nós precisamos descobrir como fizeram para entrar lá. Eu já tenho um plano... – Essa é a minha loira! – Mas a minha vida vai estar em perigo dessa vez... – WHAT? – Então tenta não fazer besteira, só pra variar.
– Mas pra que colocar a sua vida em perigo, Mello? A gente pode escolher outro pra ir no seu lugar e correr o risco.
– Não, Matt. Ele me desafiou. – Mello se inclinou mais sobre o volante, olhando-me de lado. – Agora é pessoal.
...
E foi então que Mello me contou o seu plano: Ele, Jean, Thomas e Rodner sairiam sozinhos e aparentemente com ressaca de um bar que fica ao lado da principal sede da empresa C.J., onde ele sabia que Luke estaria saindo de uma reunião. Este, ao vê-los, voltaria para a empresa e ligaria para seus “colegas de trabalho”, que sequestrariam Mello e os outros. Bastava então esperar o telefonema de Luke, no qual ele pediria um resgate
Mello é assustador. Ele sabia o que Luke ia fazer antes de ele pensar em fazer.
A minha parte era a mais difícil: eu deveria convencer Trevor a levar o dinheiro (vocês não imaginam o quanto esse cara é medroso), pois Luke não suspeitaria de um gorducho bundão. Depois, nós deveríamos deixá-los fugir e, secretamente, perseguiríamos Luke, independentemente de ele estar com o dinheiro ou não. O objetivo era rendê-lo e matar os outros, de modo a fazê-lo confessar como encontrou nosso esconderijo e passou pelo meu sistema de segurança (ele, ou alguém que ele contratou, teve de passar por 5 portões, todos localizados em um terreno grande antes do porteiro, 15 câmeras de segurança e 4 guarda-costas).
Pensando melhor, os seguranças provavelmente foram subornados. E eu até entenderia se conseguissem desativar duas ou três câmeras (até porque eu estava dormindo e Mello não permitia que mais ninguém tivesse acesso ao nosso sistema) ou passar por dois portões, mas aquilo era demais. Meu computador, que ficava ao meu lado enquanto eu dormia, não apitou sequer uma vez denunciando falha na segurança. Mello não fora o único quem eles provocaram: Eu fiquei puto. Fizeram-me de otário.
E esse foi um dos motivos por eu recusar, parcialmente, o plano de Mello. Primeiro porque ele não me ouviu (e olha que eu enchi o saco dele com isso) e se arriscou em uma missão perigosa; segundo porque eu queria não tirar informações somente de Luke, mas do bando todo. Duvidava que aquele cafetão/pedófilo tivesse feito tudo sozinho.
E terceiro porque eu adoro um tiroteio.
Mas vamos voltar à cena do aeroporto. Onde eu estava mesmo... Ah sim, tinha acabado de pular o porta corpo do segundo andar..
...
– AGORA! – eu me ergui de um salto, a arma longa firme em minha mão esquerda. Usando a direita para me apoiar no corrimão da mureta, dei um impulso e saltei para o andar de baixo.
Pares de olhos ergueram-se todos ao mesmo tempo, sem entender. Atrapalhados, os homens de Luke tentaram erguer as armas, mas não foram rápidos o bastante: todos ao meu redor pularam exatamente no momento em que gritei e logo todos apontavam suas armas e atiravam para baixo. Foi um pandemônio: alguns dos que estavam com Luke correram para todas as direções, protegendo-se como conseguiam e gritando acima dos barulhos dos tiros; outros tentaram fugir em pânico pela porta da frente e levaram várias balas, caindo segundo depois; Luke se abaixou sobre a filha, Lílian, que estava amarrada dentro da mala e, pegando-a no colo, correu para fora do aeroporto; nós, pendurados por cordas em nossos cintos que terminavam em ganchos presos no corrimão ao redor da mureta, caímos com um baque no primeiro andar, atirando em tudo o que se movia. Seis de nós, incluindo a mim, soltamos bruscamente a corda de nossos cintos e formamos um círculo protetor em volta de Mello e os outros três, nos agachando e, ao nos colocarmos de costas para eles, erguemos nossos escudos. Apesar de todos os vinte e quatro, excluindo Mello, Thomas, Jean e Rodner, trajarem coletes à prova de balas, quatro mais à frente caíram mortos após terem as pernas inutilizadas e os escudos voarem de suas mãos. Lúcio, como combinado, correra atrás de Luke e desaparecera na entrada do aeroporto.
– MATT! – o loiro gritava para se sobrepor aos tiros. Ao olhar para ele, vi que mais um do grupo de Luke caía morto. – POR QUE VOCÊ SEMPRE FODE TUDO?
– DE NADA! – eu sorri para ele, atirando em um membro inimigo que se aproximava.
Os tiros se seguiam, cada vez mais intensos. Berros eram ouvidos por todos os lados, pessoas corriam e todos os vidros do primeiro andar já haviam sido quebrados, exceto os blindados das portas automáticas na entrada. Ao longe, alguém implorava por misericórdia, seu grito rouco de dor morrendo ao longe enquanto sua alma partia desse mundo. Alguns atiravam contra nossos escudos e nós revidávamos, acertando seus rostos e os fazendo guinchar.
Alguém atrás de mim gritou e eu me virei. Um dos que fechavam o círculo em torno dos prisioneiros caíra, sua perna sangrando violentamente. Quem o atacara agora mirava nos outros, que viraram suas armas para ele e o mataram, mas logo outros dois tomaram seu lugar, se escondendo e investindo pesadamente contra nós, objetivando os prisioneiros.
– MATT, NOVE HORAS! CHRIS, PROTEJA A PERNA DIREITA! PAUL, SE ABAIXE! – Mello começou a gritar instruções, as quais todos seguiram prontamente. Eu me virei noventa graus à esquerda e acertei o olho direito de um homem que se escondia atrás de um vaso. Ele guinchou, se retorceu e desmaiou de dor.
– NÃO! – um dos nossos, James, se jogou para proteger o irmão e levou um tiro certeiro no peito. Desviei o olhar, concentrando-me nos homens que tentavam atirar em Mello, pois não queria ver o que acontecera, mas, pelo grito de fúria e tristeza de seu irmão, era óbvio que James estava morto.
Rodner, Thomas e Jean se debatiam mais do que nunca, puxando as correntes e fazendo barulho às minhas costas. Mello continuava a gritar instruções e cada vez mais o número de inimigos diminuía. Depois de um tempo sobravam apenas sete deles , pelo menos no meu campo de visão. Eles se escondiam habilmente e eram muito rápidos também, mas nós estávamos em maior número: seriam abatidos mais cedo ou mais tarde.
– PAREM! – alguém entrara pela porta automática, os cabelos puídos e cortados tortos sujos de fuligem: Lúcio. Seu braço esquerdo envolvia o pescoço da filha de Luke, que continuava amarrada. Na mão direita, sua arma encostava-se à têmpora de Luke, que lançava olhares nervosos para a filha que não parava de tremer e chorar, apesar do pano amarrado na boca. — NINGUÉM SE MEXE!
Todos pararam, inclusive os nossos homens. Amigos e inimigos continuaram a apontar as armas uns para os outros, mas o som de tiros cessou. Relutantes, os aliados de Luke olharam para ele, que acenou freneticamente com a cabeça. Obedientes e ainda um pouco temerosos, os homens de Luke levantaram lentamente as mãos à cabeça.
Era hora de mostrar autoridade. Levantei-me.
– Armas no chão. Agora. – Eles obedeceram e os nossos homens as recolheram. – Naquele canto. – eu apontei com a metralhadora para o canto direito da porta, onde seria possível manter um olho nos homens de Luke e outro no próprio Luke. Eles foram: não olharam para nós, nem disseram nada, apenas abaixaram as cabeças e se mantiveram imóveis no canto. Cãezinhos bem treinados. – Trevor... – comecei a dizer mas, ao olhar em volta, notei que o gorducho havia sumido. Típico. – Walter e... – apontei para o cara que eu esqueci o nome. – Você. Vão procurar se há outros sobreviventes.
Eles foram e eu aproveitei a oportunidade para contar rapidamente em volta. Dos dezenove que foram resgatar Mello e os outros três, sobraram dez. Nove mortes. Talvez Trevor, que desaparecera, então nove ou dez mortes. Um número razoável.
Logo os outros voltaram, negando com a cabeça. Não havia outros sobreviventes, de nenhum dos lados.
– Matt. – o loiro chamou ríspido. Virei-me para ele, que somente me encarou. Ah, é!
– Luke, as chaves das algemas. – o homem ficou em silêncio. Lúcio pressionou a arma com mais força na cabeça dele e apertou o braço em torno do pescoço da menina, que choramingou.
– TUDO BEM, MAS DEIXA ELA EM PAZ! – sua respiração estava irregular, gotas de suor caindo de sua testa. – No bolso direito... da minha calça.
– Se tentar alguma gracinha... – eu me aproximei, procurando a chave. Fazia tempo que não colocava a mão na calça de outro homem além de Mello...
Foco Matt, foco. Sem pensamentos idiotas.
Finalmente achei as chaves e libertei o loiro e os outros três, que suspiraram aliviados. Antes de levantar, Mello puxou a gola da minha camiseta e sussurrou:
– Você vai pagar por ter me desobedecido.
Eu engoli em seco, mas não disse nada. Pelo seu tom de voz, aquilo não era uma proposta para uma noite quente de BDSM.
– Lúcio, passa ela pra cá. – erguendo-se, Mello já assumiu a posição de líder e começou a comandar a situação. Eu fiquei na minha: vai saber que tipo de punição ele poderia acrescentar se eu abrisse a boca.
Lúcio soltou o pescoço da menina, que perdeu o tom arroxeado de antes. Mello a segurou pelo braço e desamarrou o pano que a impedia de falar, mas deixou o que prendia suas mãos juntas às costas. Ela arquejou e respirou fundo, as lágrimas rolando pelo rosto.
– Se começar a chorar demais ou gritar, vou ter que bater em você. Então faça um favor pra todos nós e fique quietinha enquanto eu bato um papo com o seu pai.
– Lílian... V-vai ficar tudo bem tá? Eu vou te levar pra casa filha, vou comprar tudo que você quiser... – Luke olhava aflito para a filha, que encarava o chão, os dentes cerrados. Ela parecia com raiva do pai.
– Não se pode comprar o amor de uma filha, Luke... – Mello sorria, feliz com a virada nos acontecimentos. – Você tem que merecer.
– CALA A BOCA! CALA JÁ ESSA BOCA, MELLO! – o homem gritou e Lúcio lhe deu uma forte coronhada na cabeça. Ele não desmaiou, mas ficou atordoado. Apoiou a cabeça na parede e olhou para baixo, os cabelos cobrindo o rosto.
– Chega de conversa. – Mello falou e se postou a menos de um metro de Luke. – Quero saber como você encontrou nosso esconderijo e como entrou lá.
Ele demorou um pouco para responder.
– Vai ter de me matar primeiro.
Mello sorriu. Sem dizer uma palavra, ele pegou Lílian pelo braço e a jogou de costas no chão. A menina gritou e o pai ergueu a cabeça, em pânico.
– Última chance. – Mello avisou, sombrio. Luke engoliu em seco, mas não disse nada.
O loiro fez um sinal com a cabeça para Rodner, indicando a menina. Este sorriu e lambeu os lábios, o som do tilintar de seu cinto ecoando através do silêncio. Ela arregalou os olhos e eu desviei os meus. Não queria ver aquilo.
– FICA LONGE DA MINHA FILHA! – Luke avançou, lívido de raiva, no rosto uma expressão um pouco tonta. Parecia nauseado: em parte talvez pela coronhada, em parte pela cena que via. Lúcio e outros dois homens o seguraram. Mello mandou Rodner parar com um aceno e este fez um muxoxo de impaciência.
– Disse alguma coisa? – O rosto de Mello mostrava nada além de tédio.
– E-eu não entrei lá, eu nem sei onde fica o esconderijo de vocês! Foi o Fabrício quem fez tudo! – Luke olhou para um dos homens mortos no chão. – É ele ali! Eu só disse pra ele te investigar... – ele engoliu em seco, olhando de Mello para a filha. – Tinha outros dois o ajudando, Márcio... – ele indicou outro homem morto mais adiante. – E Kevin... KEVIN! – Luke olhou para os sete homens que continuavam no canto, sob a mira das armas. – DIGA A ELES COMO FEZ PRA ENTRAR LÁ!
Kevin, um moreno de cabelos e olhos escuros, olhava relutante para o patrão.
– Senhor... O Fabrício me fez jurar que não...
– NÃO ME IMPORTA! EU NÃO LIGO PARA O QUE ELE TE FEZ JURAR, MAS EU JURO QUE TE MATO SE NÃO ME AJUDAR AGORA!
Lílian, que muito provavelmente nunca tinha ouvido o pai gritar daquela forma, se encolheu um pouco. Kevin então, finalmente, começou a falar.
Ao que tudo indicava, nós fomos seguidos por meses. Fora tudo muito bem planejado: o suborno dos seguranças que, além de permitirem a entrada de Kevin no prédio, deram a ele uma planta exata do edifício, com marcas precisas da localização das câmeras e dos portões; a participação de três membros da máfia japonesa, que frequentavam nosso apartamento e passavam informações sobre nossa rede de computadores (eu sinceramente não sei como eles tiveram tempo de vasculhar os meus computadores. Será que mexiam neles quando eu e Mello dávamos aquelas escapadinhas para um hotel? Mas todos pareciam tão bêbados nas festas... ); e a contratação de dois ex-policiais, peritos em informática, que conseguiram desativar todas as câmeras de segurança ao mesmo tempo.
Quando ele terminou, eu olhei automaticamente para Mello. O loiro, assim como eu, não parecia inteiramente convencido com aquela história. Do jeito que ele narrou, parecia que fora algo fácil. Tudo bem, os portões e os seguranças era a parte mais simples: cada portão possuía uma única senha, independente do morador, e os seguranças são humanos e, portanto, possuíam um preço. Mas eu programei todas as 15 câmeras para que, ao captar um rosto desconhecido, que não constasse no banco de dados, emitisse um alerta alto e claro. Mesmo em um sono pesado, eu seria capaz de ouvir com clareza.
Algo estava errado.
– E como conseguiram a chave da porta? – Mello perguntou e Kevin riu.
– Se conseguimos passar por toda aquela segurança, acho que passar por uma portinha é o de menos.
– Mas eu quero saber. Como?
Ele suspirou.
– Trevor me deu a chave do apartamento e fez uma cópia da chave da portaria.
Mello rosnou. Nenhum de nós havia reparado que deixamos a porta aberta do apartamento naquele dia e que Trevor levara a chave, logo depois de limpar a casa? Mas quem poderia nos culpar, estávamos tão cansados...
Isso explica porque Trevor desapareceu. Comecei a desejar que fossem dez mortes do nosso lado.
– Você vai vir conosco. – Mello fez um sinal para o cara que eu ainda não lembrava o nome. Este avançou e pegou Kevin pelo cotovelo, arrastando-o para fora do aeroporto.
– Pronto, Mello, agora liberte a Lílian. – Luke, que se mantivera calado durante o relatório de Kevin, agora parecia à beira de um colapso.
– Você sabe melhor do que eu, Luke... Que, enquanto viva, uma pessoa pode muito bem quebrar um juramento. Ela pode falar, sem querer ou de propósito, coisas que não deveria. Contudo... – ele sorriu para Luke, um brilho maníaco em seu olhar. – Os mortos não falam.
– NÃO! – Luke gritou, mas Mello já erguia a arma. O loiro, no entanto, em vez de mirar na menina, apontou para Luke.
E atirou.
– PAAAAAAAAI! – ela se inclinou para frente, arrastando-se na direção do pai que caíra, mas Mello a interceptou e lhe deu um chute na barriga. A menina arquejou, sem fôlego, dobrando-se ao meio.
– Ela é toda sua, Rodner. – ele disse, indo na direção de Luke que caíra deitado de lado e cuspia sangue.
– Mello. – eu o chamei. Aquilo havia ido longe demais. Eu somente sequestrei a menina para colocar pressão em Luke, não havia motivo para tratá-la daquele jeito. Ela parecia ter dezesseis anos, no máximo. Não era justo.
Mello virou levemente a cabeça para me encarar e eu retrocedi dois passos. Havia uma fúria sem limites ali. Seus lábios chegavam a tremer, tamanho era o esforço que ele fazia para não avançar e me bater. Aqueles olhos me fitavam com tanta ferocidade que era como se dissessem: Não questione a minha autoridade na frente dessas pessoas. Fique quieto e não se meta, ou vai ser pior para você.
Engoli em seco e olhei para o chão. Eu já havia feito o suficiente por um dia, certo? Mello não precisava ficar ainda mais irritado.
Vendo que, como sempre, eu o obedecera, Mello voltou sua atenção a Luke e puxou-lhe os cabelos para cima. Este deu um gemino de dor, sua boca molhada e vermelha de sangue.
– Você quer assistir enquanto brincam com sua filha? Ou prefere morrer antes? – Luke não respondeu, mas pequenas lágrimas caíram de seus olhos ao observar a filha. – Ah, não chore. Ele vai trata-la bem... Eu acho.
Rindo, Mello se levantou e, com sua maravilhosa e prestigiada Desert Eagle, silenciou Luke de uma vez por todas.
A menina guinchou: chorava copiosamente, arrastando-se, ainda com os pulsos amarrados para trás, na direção do pai. Ninguém a impediu. Todos somente a observaram. Quando, finalmente, ela alcançou o corpo e se dobrou sobre ele, Mello decidiu que o show já acabara. Com a mesma arma que atravessara o coração de Luke, ele acabou com a vida de sua filha.
Não me surpreendi com o ato. Mello era mau, mas não era cruel a ponto de fazer Luke assistir ao estupro da própria filha. De qualquer forma, os dois morreriam. Eles sabiam demais.
E, como Mello havia dito, os mortos não podem falar.
...
No dia seguinte, já em um novo esconderijo, Mello viera me informar que um novo sistema de segurança seria instalado, com reconhecimento de retina e de digitais. Já estava mais do que na hora, em minha opinião. Além disso, Mello se encarregara de interrogar os outros membros do grupo de Luke e, ao que parecia, eles não sabiam de nada. Foram todos, naturalmente, executados. Por último, ele me disse que faria uma “limpeza” nos integrantes mais próximos da máfia. Todos que ele julgasse indignos de confiança fariam uma visita só de ida para o inferno.
– E tem outra coisa, Matt. – ele se sentou ao meu lado no sofá, seus olhos sem deixar os meus por sequer um segundo. – Lembra do que eu te disse ontem?
Engoli em seco e afirmei com a cabeça.
É, agora ferrou.
– Você não deveria ter me desobedecido, Matt. Eu te disse exatamente o que fazer para evitar mortes e ferimentos desnecessários, mas você é tão idiota que quis fazer exatamente o contrário. – Ele foi se aproximando a cada frase, a expressão cada vez mais zangada. – Eu estou com uma puta raiva porque vou ficar um tempão limpando a sujeira que você fez. O que eu mais queria agora era te xingar te todos os métodos possíveis e te espancar até te deixar roxo, mas você provavelmente gozaria com isso. – É, ele tinha razão. – E, portanto, eu vou te castigar de outro jeito. – Esse suspense está me matando, sério. – Pra começar, você vai limpar a casa sozinho pelos próximos três meses. Durante esse tempo você vai ficar sem vídeo game, incluindo Wii, XBOX, PS3 e PS4, PSP e todas as porras dos outros consoles que você tiver. Eu tiraria o seu celular também, mas preciso me comunicar com você de algum jeito e o comunicador falha demais quando chove. – Quem é essa loira, a minha mãe por acaso? – E pra terminar... – ele se levantou, me olhando de cima, como sempre gostou de fazer. – Durante esse período, você não vai ter nada disso. – E apontou para todo o seu corpo em um longo gesto teatral. Com isso, o loiro saiu gingando para a cozinha e tenho quase certeza de que estava rindo.
Pera, vamos recapitular porque eu acho que a minha mente pifou por um momento... Quais eram as punições mesmo?
Limpar a casa sozinho por três meses... É, acho que eu passo conviver com isso.
Ficar sem vídeo game por três meses... Ugh isso vai ser horrível e eu provavelmente vou morrer no processo, mas tudo bem.
Passar três meses sem comer o Mello... PERA, O QUE?
– MELLOOOOOOO! – corri para a cozinha, choramingando e implorando para ele deixar de ser tão malvado. O loiro somente me deu um chute, se desvencilhou e se trancou no quarto.
Eu tenho que ser positivo... É, tudo bem, vai ser complicado limpar a casa, mas eu sempre vou ter meus vídeo games para relaxar... Ah, esquece ele tirou os meus vídeo games também. Bem, mas eu posso descarregar o estresse com uma boa noite de sex...
Ah não.
E foi assim que, com algumas poucas palavras, Mello me tirou tudo pelo que vale a pena viver: vídeo games e sexo. Não sei se vou sobreviver, mas, quem sabe, eu saia desse inferno em um mês e meio por bom comportamento.
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