Stalemate II.
2 II. 13/04/20xx
Notas iniciais

– Puta que pariu, Matt! Eu mandei você ir pela outra rua! – a voz irritada gritou em meu ouvido pelo comunicador.
Trincando os dentes e engolindo uma resposta malcriada, desviei de um buraco no chão e afundei o pé no acelerador, virando na rua seguinte à esquerda. Não havia muito carros a vista, claro, eram 4:30 da madrugada, então não era difícil despistar as viaturas que me seguiam.
Não sei se algum de vocês já foi perseguido pela polícia depois de sair de um rodízio de pizza. Podem acreditar, é bem desagradável sentir o carro balançar pra lá e pra cá quando a sua barriga está prestes a explodir.
– MATT! SEU BOSTA, SERÁ QUE EU TENHO QUE FAZER TUDO SOZINHO? – como podem ver, eu estava aguentando a situação muito melhor do que o meu “parceiro”.
– VAI A MERDA, MELLO! – gritei pelo comunicador. Ok, talvez não esteja tão bem assim.
Não se enganem pela nossa aparente falta de educação um com o outro. Eu e Mello nada tínhamos de inimigos. Na verdade, entre todos os membros que compõem a elite da máfia japonesa, nós éramos de longe os mais próximos. Isso se deve ao fato de que Mello e eu crescemos juntos. Bem, talvez não como vocês estão imaginando, com nossas mães nos levando ao parque durante a tarde e conversando em um banco enquanto nós dois brincamos no balanço. Quem dera tivesse sido assim.
Tenho poucas lembranças dos meus pais. Quando completei sete anos, minha casa foi assaltada e os dois assassinados diante dos meus olhos. Em pânico, corri desesperadamente até a cozinha e peguei o que pude carregar, como duas garrafinhas de água da geladeira e alguns poucos pacotes de biscoitos.
Abrindo com o pé um pequeno alçapão em um canto mais afastado da cozinha, desci correndo a escada de madeira até o porão e me escondi na parte mais escura que encontrei, afundando o rosto entre os joelhos e tremendo. Lembro-me de comer alguns biscoitos, tomar água e chorar nas horas que se seguiram. Não queria me mover e não conseguiria se quisesse. Tinha medo de abrir o alçapão e encontrar os assaltantes lá, me esperando. Ainda me recordo de suas fisionomias cruéis, os olhos sanguinários e as mãos empunhando armas.
Aquela noite foi a pior da minha vida. No momento em que o sol se pôs, ratos, duas cobras, um morcego e pequenas aranhas começaram a surgir dos cantos e das paredes. Todo o meu corpo se retesou. Nunca tive medo exatamente dessas coisas, mas naquele momento nada me pareceu mais assustador.
– Está sozinho, garoto? – as pequenas cobras pareciam me dizer. – Chegue mais perto. – as aranhas completavam. – Nós não vamos machuca-lo... Não muito.
Meus olhos arderam durante aquelas doze horas de escuridão, já que eu me recusava a fechá-los. Não consegui, claro, permanecer acordado a noite inteira, mas a adrenalina me manteve alerta e agarrado aos mantimentos por boa parte do tempo. Não suportei, porém, a exaustão, e dormi.
Acordei berrando no dia seguinte, com pequenas baratas subindo pelos meus pés. Corri até o alçapão e o empurrei, mas este não abriu: eu estava preso.
O que realmente aconteceu eu nunca descobri. Aqueles homens haviam visto a passagem e colocaram um móvel pesado em cima, por precaução? A madeira velha estava emperrando? Eu estava tão exausto que não usei força suficiente? Não sei. Só me lembro de ter entrado em pânico. Estava com medo, com tanto medo...
– Mamãe... – chamei aos sussurros, próximo a uma janela retangular fina que me permitia respirar. Os soluços eram violentos e o choro desesperado. – Papai...
Eu sabia que eles não responderiam. Era inteligente, entendera claramente o que havia acontecido. Mas sempre fui medroso. Covarde. Dependente de alguém mais forte para me proteger. E assim chamei em vão por eles, até ficar sem voz e desmaiar outra vez de cansaço.
– MATT, POR FAVOR, RESPONDE! – a voz desesperada de Mello me tirou dos meus devaneios e eu desviei no exato momento em que iria atropelar um gato de rua. Ele chiou e desapareceu na escuridão.
– Fala Mello. Mal aí, tava distraído. – olhei de relance para o retrovisor, sorrindo ao perceber que já não era mais seguido.
– Você me assustou, viado. Vou te arrebentar quando chegar aqui. – pude ouvir vozes rindo pelo comunicador.
– Tem certeza de que quer se esforçar tanto? Você mal conseguia andar depois de ontem à noite. – novamente, risos e vaias do lado de Mello. Tinha certeza de que podiam ouvir nossa conversa, mas duvidava de que soubessem o significado por trás de nossas palavras.
Sorri outra vez. E pensar que depois de todo o meu sofrimento naquele porão, vizinhos ouviriam o meu choro, a polícia me resgataria e, após uma visita de Watari, eu seria trazido para um orfanato onde, por coincidência do destino, meu futuro amante estaria me esperando.
Lembro-me de ter pesadelos frequentes nas primeiras semanas que passei no lar para superdotados. Sonhos horríveis com cobras e ratos que subiam pelas minhas pernas e entravam em minha boca. Assustado, corria para o quarto do único garoto que falou comigo naquele lugar e dormia abraçado a ele, que nunca sequer reclamou.
Os anos que se seguiram daqueles dias até o dia desta narração são dezoito. Naquele momento, portanto, eu estava com vinte e cinco anos. (Ainda estou, na verdade.) Muita coisa mudou nesse período: aprendi como me defender, como usar uma arma, como goggles são legais, me apaixonei (tanto por um loiro gostoso como por vídeo games), comecei a fumar e larguei o cigarro, tive câncer de pulmão e por sorte descobri já no início, vi Mello lentamente aceitar o que sentia por ele, transei (muito) com aquele chocólatra... E entrei na máfia japonesa com ele, depois de sairmos da Wammy’s House, que fica na Inglaterra, aos 17 anos.
Não foi tão difícil quanto se pensa. Antes de sairmos do orfanato já andávamos em péssimas companhias, cujos nomes vocês descobrirão depois. Ainda mantemos contato, embora não seja o mesmo de antes.
Ah, esqueci-me de dizer por que fomos parar em um lugar tão longe de casa após deixarmos o orfanato. Bem, essa uma longa história ligada ao Caso Kira, que eu contarei outro dia. Na realidade nós não tínhamos mais motivo para ficar no Japão, já que Kira estava morto e L vingado, mas valia a pena pelo dinheiro. Era a única coisa que nos segurava naquele país.
– Estou chegando, Mello. – arrumei o aparelho em minha orelha e virei a última esquina. – Já pode ir tirando a roupa.
Novamente risos, seguidos de silêncio. Pelo visto, o loiro estava puto.
Ninguém entre os mafiosos sabia de meu relacionamento com Mello. Nós nos provocávamos em público, de brincadeira, porém dormíamos em quartos separados e não nos agarrávamos na frente deles. O loiro fazia questão que fosse assim e toda vez que eu perguntava o porquê, recebia sempre a mesma resposta:
– É pra te proteger.
Tentava argumentar que já tinha 25 anos, mas quem disse que ele escutava? Então ficávamos assim, mas eu não me importava tanto. Comê-lo às escondidas era muito mais excitante.
Desliguei os faróis quando entrei na rua de nosso esconderijo, para não chamar a atenção, e parei o carro na frente de uma casa. Segui caminhando com as mãos nos bolsos do meu colete super estiloso e entrei no prédio de dez andares no fim da rua. Acenei para o porteiro (sim, outro mafioso. Com certeza ele era inútil para outras coisas e por isso o colocaram ali, mas devia estar MUITO bem armado) e fui para as escadas, subindo de dois em dois degraus até o quinto andar. Devem estar se perguntando por que eu não fui de elevador. Vocês sabem como é difícil manter o meu corpo gostoso sem exercícios? Então me deixem em paz.
– A RUIVA CHEGOU! – um dos gordos sentados no sofá gritou quando eu abri a porta e todos os outros o acompanharam. Não fazia ideia de quantas pessoas havia na sala, mas, pelo barulho, eram muitas. Gritos, música alta, sons de latinhas batendo e outros tinidos desagradáveis inundavam o apartamento. Alguns dançavam, outros riam de absolutamente nada e uns mais idiotas falavam com as paredes. A maioria estava sentada no sofá ou em pé, mas não me ative a nenhum dos baderneiros. Apenas uma pessoa me chamou a atenção, que estava sentada no canto do sofá com as pernas cruzadas. Um laptop a sua frente estava aberto, no qual essa pessoa provavelmente estava observando o meu trajeto. Ela ergueu os olhos azuis e me fuzilou com eles, quase como se dissesse Você está atrasado.
– Ainda vestido, Mello? Que decepção. – sorri de canto, recebendo vários gritos de animais que pedem briga e muitos “Foi legal te conhecer, Matt!”. Rangendo os dentes e pisando firme, o loiro se levantou e caminhou até mim, prensando-me contra a porta fechada e encostando uma arma que ele tirou não sei de onde na minha bochecha.
– Por que você me desobedeceu? Eu mandei ir por um caminho específico assim que terminássemos de roubar aquele banco. – o loiro se aproximou ainda mais, seu nariz quase se encostando ao meu. Encolhi-me e engoli em seco, fingindo estar com medo. O corpo de Mello, coberto de cima a baixo por trajes de couro, escondia o meu das pessoas que estavam atrás, rindo e observando. – Por que foi para o outro lado?
Oh Deus. A mão dele está massageando o meu saco.
– Não vai...uh...acontecer de novo. – ele empurrou o cano frio ainda mais contra a minha bochecha. Alguns mafiosos pararam de rir e retesaram o corpo, alarmados.
Não sei se já disse isso antes, mas Mello é alto, com cabelos loiros levemente compridos cujas pontas repicadas quase alcançam seus ombros, usa geralmente uma calça agarrada ao corpo, regata e jaqueta larga, tudo de couro. Para quem não o conhece, ele tem cara de filhinho rebelde que ganha roupas caras dos pais, mas que ainda assim os odeia.
Se é assim que ele parece aos outros, então como Mello conseguiu o respeito e admiração dos membros da máfia japonesa? Deixem-me contar uma historinha de como nós entramos, definitivamente, nessa vida. Na época, ainda estávamos no encalço de Kira.
...
Nossas roupas estavam com furos de tiros e manchas de sangue que não nos pertenciam. Havia poeira, sujeira, sangue, mofo e marcas de bala ao nosso redor. O corredor no qual estávamos era quase um quadrado perfeito, se não fossem por algumas imperfeições, mas não me ative a esses detalhes. Nunca fui bom em observar coisas que não se movem. Meus olhos foram atraídos por Mello, que abriu a porta de madeira à nossa frente com um chute. Homens do lado de dentro ergueram as armas para nós, prontos para atirar, mas o que havia nas mãos de Mello os fez parar.
– Senhores, eu pensaria duas vezes antes de tomar qualquer atitude precipitada. Não somos a polícia e não temos a intenção de agir contra vocês. Muito pelo contrário, meu objetivo é ajudá-los. Não é culpa de vocês o que aconteceu aqui, claro. A culpa é da antiga... gerência. – com um movimento, Mello atirou o que estava em sua mão para frente, o que rolou pelo chão até atingir o centro da sala. Os homens que lá estavam escondidos atrás de poltronas e caixotes acompanharam o movimento com os olhos arregalados e as bocas abertas. No meio do cômodo, a cabeça de seu antigo líder jazia deformada, horrenda e sem vida.
– Matt. – o loiro me deu a deixa, sem desviar o olhar dos mafiosos incrédulos.
Dei dois passos para frente e virei o notebook em minha mão para que eles pudessem ver a tela. Seus olhos se focaram em mim e pude ver através dos goggles alaranjados que eles ainda estavam em pânico. Parecia que realmente consideravam aquele chefe invencível.
– O sistema de segurança de vocês possui cerca de dez anos. É incrivelmente ultrapassado. – falei calmamente. – Os pontos em vermelhos são os lugares onde eu faria algumas mudanças e os em preto são os que eu substituiria completamente.
– Acho que podemos chegar a um acordo. – Mello retomou o discurso. – Assim que vocês saírem daí e agirem feito homens.
Eles engoliram em seco e olharam uns para os outros. Pareciam finalmente estar se recuperando. Um a um, levantaram e surgiram dos cantos mais improváveis da sala. Alguns abaixaram as armas, mas outros as mantiveram erguidas.
– E o que me impede de atirar em vocês agora mesmo? – um homem carrancudo e de sobrancelhas grossas rosnou para Mello.
– Pode tentar se quiser. – reprimi o sorriso. Mello, assim como eu, estava usando uma roupa especial à prova de balas por baixo da normal. – Mas com essa barriga, duvido que seja rápido o bastante.
Todos rimos, exceto o homem.
– SEU DESG... – ele engatilhou o revólver, mas o cano da minha arma já estava claramente apontado para o meio de suas pernas. O computador portátil equilibrava-se precariamente em minha outra mão.
– Matt tem cinco anos de experiência em treinamento com armas de fogo. Podia te matar de olhos fechados. Além disso, há três bombas de alta potência escondidas neste edifício, preparadas para detonar assim que o coração de um de nós dois parar de bater. Creio que alguns dos aqui presentes possuam esposa e filhos. – Mello dirigiu o olhar para um dos homens que se escondera o mais distante possível. Era um dos que estava com a arma em punho. – Ryner, como vai a pequena Amanda?
O homem arregalou os olhos e deu três passos para trás, horrorizado. Colocou imediatamente a arma no chão. Outros o imitaram.
– ELE ESTÁ BLEFANDO! – o primeiro gritou, mas suas tremiam. – NÃO TEM BOMBA NENHUMA!
– Está disposto a arriscar? – Mello se aproximou, suas botas fazendo barulho no chão de madeira. Seus olhos cruéis pareceram ficar ainda mais claros e vívidos quando encarou o homem, que era quase duas cabeças mais alto do que ele. – Quer mesmo deixar seu irmãozinho Christian viver sozinho?
O homem engoliu em seco, nervoso. Se desse um passo para frente, sua barriga jogaria Mello longe. Tentei segurar o riso. Não era o momento de ter pensamentos idiotas como aquele.
– C-como sabe...
– Não importa. – Mello assumiu a posição no centro da sala, de costas para mim. – Vamos aos negócios?
Ninguém se opôs.
...
– Ah, não vai acontecer de novo? Tem certeza? Porque caso contrário eu vou ser obrigado a tomar providências. – os olhos lascivos de Mello assumiram aquele brilho claro e maligno que eu tanto conhecia. Seria realmente assustador (e até um pouco atraente) se seus lábios não estivessem levemente curvados em um sorriso e sua mão não estivesse brincando comigo lá embaixo. Claro que eu era o único que via (e sentia) isso.
– A-absoluta. – a tensão dos homens em volta era quase palpável. Não tiro a razão deles. Mello era mau e eu havia feito uma grande burrada ao perder a entrada da rua que estava nos planos. Poderia ter atraído a polícia para o esconderijo e ferrado com tudo.
– Que seja então. – ele finalmente tirou a arma gelada do meu rosto e se afastou, mas não sem antes apertar meu amigo de baixo. Puto. – Vocês aí, desliguem esse telefone. Nem pensem em trazer um bando de vadias pra cá.
– Como assiiiiiiiim, Mello? Não dá pra comemorar se não tiver mulher! – um dos muitos homens já bêbados, Jean, reclamou com a voz embargada. – A gente se comporta, vai, só chama umas vinte! – e todos caíram na gargalhada quando ele tentou levantar e caiu de cara no chão.
Um barulho baixo, que rapidamente foi aumentando, veio lá de fora. Apenas tive tempo de me afastar da porta antes que Sid e suas 879874878798 negas entrassem fazendo arruaça.
– Alguém pediu umas gostosas? – ele gritou, os braços nas cinturas de duas mulheres. Todos os acompanharam, comemorando e abrindo mais latas de cerveja.
Acho que ainda não apresentei o Sid. Ele é uma das más companhias que andavam comigo e Mello na época da Wammy’s. Corpulento e com cara de mau, há uns dois anos ele deixou o cabelo castanho crescer. Ficou horroroso. O cara é um tarado, bêbado até a raiz dos cabelos e um completo miserável sem propósito na vida. Não sei sobre seu passado e não quero saber. Foi ele quem me apresentou ao cigarro e descobriu sobre minha tara pelo Mello (na verdade eu contei para ele e o maldito me chantageou, mas isso são águas passadas).
Ri abertamente da cena. Apesar de que alguns estavam traindo as esposas naquele exato momento, os caras eram divertidos.
– Ei, garoto. – suspirei quando uma das garotas se aproxima, empurrando os seios contra o meu peito. Lá vem. – Não quer se divertir um pouco comigo?
– Acho que não. – eu tentei empurrá-la, mas ela resistiu. Até consigo entendê-la, afinal, não precisa ser muito inteligente para escolher entre mim e aqueles quarentões nojentos.
– Ei, eu também quero um pedacinho desse. – uma loira se juntou à primeira, morena, e tocou em meu braço.
– Eu sou comprometido, tias. Caiam fora. – tentei me desvencilhar, mas outras me perceberam e se aproximaram, tentando de qualquer jeito me tocar. Ugh, que nojo.
Eu o ouço antes de vê-lo: passos rápidos e furiosos de Mello que pisam firme em minha direção. Agora a coisa vai ficar interessante, pensei.
– Você não tem tempo pra isso, Matt. – ele afastou três garotas como se elas fossem lixo. – Esqueceu da merda que fez hoje? Vai ter que pagar por isso.
– Ah, qual é Mello! – eu fingi estar chateado, passando as mãos em volta das cinturas de duas delas e rindo. Sabia que teria de lavar muito as mãos depois e que provavelmente não estaria vivo até o final daquela noite, mas era tão divertido deixar o loiro irritado. – Não posso ficar só um pouquinho?
– Tira ele daqui, Mello, esse ímã pra mulher vai roubar as mais gostosas! – Sid, um dos poucos que sabia sobre nós, deu uma forcinha. Justo agora que estava divertido?,suspirei.
Sid vacilão.
– Não precisa ficar com ciúme, querido. – uma morena de olhos verdes com um corpão se enganchou no meu loiro e meus dentes rangeram. Vaca. – Você também é muito gato. Até mais gostoso que esse ruivo, eu diria.
Ô mocreia! Eu tô ouvindo isso, sabia?
– Anda logo, Matt. – o loiro a ignorou e me segurou pelo braço, puxando até o elevador. Na descida, ele permaneceu em silêncio.
Eu estava ferrado.
Finalmente chegamos ao térreo e saímos para a noite. Mello caminhou até sua moto e me ofereceu a chave que estava em seu bolso. Achei meio estranho, mas aceitei e coloquei o capacete, subindo na moto. Ele fez o mesmo e se sentou na garupa, abraçando minha cintura.
– Você sabe pra onde. – falou baixinho e eu sorri.
Dei a partida e guiei a moto pelas ruas desertas, desviando de buracos e pedaços de lixo. Somente quando as mãos de Mello abriram o zíper do meu colete e os botões da minha calça, entendi por que ele me deixou dirigir.
Esse viado quer nos matar, só pode. – foi o que pensei.
– MELLO! – eu gritei, tentando me concentrar na rua enquanto o puto acariciava o meu peito por baixo da camisa. Vamos morrer, é certeza.
Ele se limitou a rir e escorregar as mãos pelo meu dorso até o cós da minha boxer azul bebê. Seu riso ficou mais alto.
– CALA A BOCA E PARA COM ISSO! – me distraí por um segundo e a moto deu uma guinada violenta para a direita. Senti Mello me agarrar pra se segurar. Bundão. — A gente podia ter morrido, porra!
– Para de reclamar. – senti alguma coisa gelada e dura encostando nas minhas costas nuas e tive certeza de que não era o Mello Júnior. Apesar disso, o loiro pareceu entender o recado e parou com as carícias. Se um policial nos abordasse, eu não saberia como explicar a calça aberta e as marcas de dedo no meu abdômen.
Minutos depois, chegamos ao local. Um hotel grande, mas não muito luxuoso, com serviço de quarto. Colocamos a moto no estacionamento e subimos até nosso andar, abrindo a porta com a inscrição 69 e fechando ao entrar. Nós fazíamos isso de vez em quando: selecionávamos um quarto de hotel para ficarmos a sós, sem barulho e sem distração.
Mello me virou as costas e tirou a jaqueta.
– Você parecia bem à vontade com aquelas vadias. – a regata branca ressaltava os leves músculos de seus braços nus. Mello ficou mais forte fisicamente depois de sair da Wammy’s, mas eu ainda o vencia nesse quesito.
– Impressão sua. Sabe que não suporto mulheres. – me aproximei devagar, sorrindo, mas Mello não podia ver, claro. – Eu só consigo ficar à vontade com uma pessoa.
– E o que acontece se essa pessoa não quiser nada com você hoje? – ele ficou parado, ainda sem me olhar. Sussurrei em seu ouvido, com uma voz que sei que o faz se derreter:
– Então vou ter que fazê-la me querer. – e deixei um chupão atrás de sua orelha, agarrando-o pela cintura com firmeza.
Não me lembro de já ter comentado isso, mas fazer sexo com Mello é uma coisa do outro mundo. Dependendo do que está a fim de fazer, o loiro pode mudar completamente: desde uma besta selvagem e dominadora (sim, eu já experimentei ser passivo do loiro e acreditem quando eu digo que ele não é nem um pouco delicado quando fica por cima) até um carneirinho tímido e envergonhado. Há dias em que ele quer pura e unicamente uma boa transa; outros, porém, em que prefere que eu o toque de cima a baixo, acendendo-o pouco a pouco e misturando sexo com amor. Uma gracinha.
Mas não importa com qual Mello vou ter de lidar hoje: eu o quero. E quero agora.
– Matt... – ele suspirou quando ataquei seu pescoço com beijos, chupões e mordidas. Virou na minha direção e enroscou as mãos em meus cabelos. Seus olhos estavam nublados e suas pálpebras caídas. Delícia. – Você me quer?
Só três palavras e esse loiro já acabou comigo.
– Quero. – disse com a voz rouca e sedenta, colando meus lábios aos dele e inclinando o corpo até estarmos deitados sobre a cama de casal. Mello acariciou meus cabelos e eu o envolvi em meus braços com mais força, grudando nossos corpos (e mostrando quem manda nessa porra). – Quero te devorar bem devagarzinho. – lambi os lábios ao encará-lo e Mello quase, quase corou. No último minuto ele fez uma cara de pervertido que ninguém mais sabe fazer.
Eu amo isso, sério. Amo esse loiro, essa porcaria de vida e todas as merdas engraçadas e perigosas nas quais me meto.
Aliás, acabei de perceber que meu colete e minha calça ainda estão abertos. Tento não pensar no que o pessoal da recepção deve ter imaginado quando me viu passar assim por eles, em plena madrugada. Será que acharam que sou um garoto de programa? Se bem que Mello tem mais cara disso do que eu.
Não que ele seja. Não, isso nunca.
Mello é meu e de mais ninguém.
Certo?
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