Stalemate II.
19 Capítulo Especial: Caso Kira
Notas iniciais

O Mundo Shinigami é o pior lugar para um Deus da Morte.
Quilômetros mórbidos e vazios, semeados por terra cinza e infértil. Mil rochedos pontiagudos e íngremes ao meu lado, impossíveis de se escalar por seres humanos; dez mil penhascos à minha direita, que não dão para mar algum. Escolhi um desses para ser meu trono e ornamentei sua base com ossos, formando belos colares. Nem assim esse lugar tirou meu tédio, pelo contrário, somente tornou óbvia minha tentativa fútil de conseguir um pouco de diversão.
Outros partilham de minha sina. Pobres almas, fadadas a perecer na monotonia, observando os humanos e jogando cartas. Matando quando precisam, porque já não o querem.
Idiotas.
Fracos.
Inúteis.
— Ei, velho! – perguntou um shinigami curvado que se arrastava nos degraus que levavam ao meu trono. Segurava o caderno entre as mãos, suas longas garras arranhando a capa. – Velho! Veeelho! Eu sei que tá me ouvindo, responde aí!
Séculos, eras, éons… Há quanto tempo governo esse vazio? Há quanto tempo tal tarefa foi concedida a mim? E por que eu? Ninguém mais queria? Fui criado especialmente para isso?
Criação… Isso soa estranho.
— Então, cara, eu sei que você não curte muito, mas pode trocar meu caderno? Esse aqui tem a capa preta e eu prefiro mais uma vermelha sabe, lembra sangue, dá pra causar mais medo, entende?
No início, com poucos humanos e poucos shinigamis, era interessante. Estes se reuniam à minha volta, ajoelhavam-se e imploravam por anos para conseguir uma única página. Aproveitavam cada espacinho em branco na folha e quando não havia mais, escreviam outros nomes por cima.
Lá embaixo, os humanos sofriam com as doenças que nós provocávamos, atribuíam à demônios as mortes que nós causávamos, rogavam a deuses que não os ouviam.
Naquela época, eles eram os inferiores.
— Qual é, vai me dar ou não? – uma pedra acertou a lateral de uma das minhas cabeças.
Eu deveria ser capaz de controlá-los. Assim como um juiz, eu possuía o poder de decidir seus destinos.
Ao longo das eras, os humanos se reproduziram demais. As batalhas vieram, se foram; eles continuaram a persistir. Não importa se lancei pestes entre suas crianças, não fez diferença quando distribuí cadernos para os outros, que mataram milhares.
A praga humana espalhou-se. O entretenimento cessou.
E meu propósito se perdeu.
— Ãh… – O shinigami aproximou-se. – Você não morreu né?
Houve um momento em que não estive nesse lugar. Durou menos que um segundo e talvez não tenha acontecido. Eu estava em um corredor com várias portas, dos dois lados. A última porta do lado esquerdo abriu-se.
E eu me tornei o Rei Shinigami.
— O Rei não quer falar com você. Vá embora. – Armonia Jastin ordenou, colocando-se entre nós.
— Por que não? Eu só quero outra capa! Quebra meu galho aí, Jastin!
— Você quer passar por alguma das Agonias? Então suma!
— Ai! – ele se encolheu ainda mais. – Não! Eu quero um caderno mais legal, vou esfregar na cara do Dellid-- ai!
— Idiota.
Dor. Um dos elementos em comum entre os humanos e shinigamis. Capaz de dobrá-los à vontade do quem a inflige em um piscar de olhos. Para acabar com ela, o alvo jura fazer qualquer coisa: realizar favores, contar segredos, humilhar-se de inúmeras formas. Os shinigamis fogem dela. Os animais mais primitivos já sabem interpretá-la como um sinal de que algo está errado.
Os humanos, no entanto, buscam-na constantemente, em especial nos relacionamentos. Apoiam-se uns nos outros e, como filhotes, tentam a aprender a conviver. Não importa se o apoio é feito de algodão ou coberto de espinhos, eles usam seus braços fracos e suas mentes vazias para mantê-los por perto. A dor que os cobre é ignorada.
Eles preferem qualquer apoio do que apoio algum.
Huhu.
E ainda acreditam ser a espécie mais avançada.
Mas se esquecem de que, ao anoitecer, são devorados pelos vermes em que pisam durante o dia.
— Por favooor, Jastin! Me ajuda a convencer ele, eu preciso dessa capa nova!
— Precisa? – O shinigami curvado e Armonia Jastin silenciaram, atentos às minhas palavras. – Por que?
Mesmo diante de mim, ele não teve medo de responder.
— Porque… ah… Por causa do folgado do Dellidublly! Ele roubou no nosso jogo e ficou tirando uma com a minha cara. E eu sei que ele sempre quis um caderno de capa vermelha, então esse é único jeito de me vingar.
Vingança… Isso?
Não.
Erguendo minha mão, apontei para o shinigami. Gook era seu nome.
Era.
Com um movimento dos meus dedos, ele tornou-se pó.
E seu pedido infantil foi esquecido pelo vento.
— Quer que eu limpe isso? – Jastin perguntou, referindo-se ao morro de areia.
— Já deveria ter limpado.
Se eu pudesse, criaria novas regras para o Mundo Shinigami. Preguiça e falta de objetivo seriam classificados com o maior grau entre as Agonias e punidos com a morte.
Nesse caso, no entanto, os shinigamis seriam exterminados.
O que aconteceu conosco? Acredito que, ao escrever um nome no caderno, nós não adquirimos somente os anos de vida dos humanos, mas também suas emoções. Fomos contaminados pela apatia e desinteresse, sobrevivendo dia após dia ao invés de viver.
Uma exceção, por certo tempo, foi Ryuk.
Sempre cansado do tédio cotidiano, sempre de olho no mundo dos humanos por tempo demais… Ele os achava fascinantes, observava-os como uma criança que captura insetos em um pote de vidro.
Decidiu, então, certa vez, fazer um experimento com eles.
Ryuk veio me dizer que havia perdido seu caderno, mas descreveu o de outro. Eu o entreguei o caderno de Shidoh (que havia sido confiado a mim depois que outro shinigami o encontrou) e ele saiu às pressas para o mundo dos humanos, onde o derrubou.
Algum tempo depois, soube que ele se gabava por ter me enganado e conseguido dois cadernos.
Huhu.
Como se eu não soubesse quem era o verdadeiro proprietário daquele Death Note. Só o que fiz foi contribuir com os planos de Ryuk.
Confesso que não me arrependi do espetáculo.
Light Yagami... Kira. Misa Amane. Kyosuke Higushi. Teru Mikami. Inúmeros assassinatos ao redor do globo. Corporações nacionais e internacionais rebelando-se para proteger os próprios interesses, aflitos com um serial killer sem rosto e sem limites físicos, que matava a distância. Policiais desamparados, civis unindo-se em cultos ao Deus do Novo Mundo, governantes temerosos anunciando publicamente seu apoio ao assassino.
Light… Um humano notório, com uma vida digna de um shinigami.
Sua morte, porém, foi uma decepção. Em seus minutos finais, sua humanidade emergiu e ele realizou tentativas patéticas para manter-se vivo, chegando ao ponto de implorar aos pés de Ryuk. Um verdadeiro shinigami jamais se rebaixaria tanto.
Na época, confesso que fiquei frustrado. Fiquei tão entretido com o duelo entre Kira e L que, quando a diversão acabou, não soube como reagir. Por um momento, pensei que os insetos que permaneceram vivos serviriam para o papel. Nate River. Mihael Keehl. Mail Jeevas.
O primeiro manteve-se firme em suas convicções, caçando criminosos e trabalhando como investigador mesmo após a captura de Light. Quando possuía 21 anos, outro caderno caiu no mundo humano, propriedade do shinigami Meadra. O humano que o acompanhava, no entanto, cedeu à pressão imposta por Nate e suicidou-se. O detetive, ainda que seja mais cruel que seu antecessor, vive com dignidade.
Os outros dois, no entanto, foram e ainda são pura escória.
Sonhos infantis, complexos de inferioridade, obsessão, ataques de raiva, vícios, carência, humilhações, crises de ciúme, insegurança, dependência, medo da solidão, rejeição, dezenas de discussões resultantes de um orgulho frágil.
Sentimentos tão humanos que me causam repulsa.
E eles ainda mantêm as mesmas manias, os mesmos erros, buscando um ao outro sem se importarem com as consequências. Sua estupidez não deixa de me surpreender, mesmo anos após a morte de Light.
Ah, se eles tivessem morrido daquela vez … Claro, eu poderia escrever seus nomes a qualquer momento e expurgar sua existência do universo.
Mas acho que a vida lhes traz mais sofrimento.
…
11/11 — Los Angeles
— Yagami, você...nunca matou ninguém, não é mesmo?
Soichiro Yagami havia acabado de realizar a troca do olho de shinigami com Ryuk. Aproveitando-se de sua nova habilidade, ele e os outros membros da Central de Operações Japonesa invadiram o esconderijo da máfia, disparando contra os criminosos e encurralando Mihael Keehl.
O policial poderia tê-lo matado. Uma palavra. Se tivesse a coragem de escrever o sobrenome do mafioso, a organização estaria terminada. Nate não teria acesso à informação sobre as regras falsas que Ryuk inseriu no caderno e Kira triunfaria.
Mas ele foi fraco.
E Mihael aproveitou-se disso.
— Desista e se entregue! – Soichiro continuou a ameaçá-lo, a caneta hesitando sobre o papel.
Um olhar para seu capanga e o mafioso percebeu que ele continuava vivo, sua mão próxima a uma metralhadora.
— Lamento, Yagami… Você deveria ter escrito meu nome de uma vez, quando teve chance… Mas, agora que percebi sua limitação, você não poderá mais fazê-lo.
Yagami pagou por sua cautela. Seu colete a prova de balas não foi suficiente para conter a munição, ferindo-o fatalmente. Atraídos pelo barulho, os outros policiais se apressaram a entrar.
Nesse meio tempo, Mihael correu para o fundo da sala, ao lado dos monitores de segurança. Uma passagem estreita, com uma porta encoberta pelo mesmo estilo das paredes, foi sua saída. No mesmo instante em que os investigadores invadiram o cômodo, Mihael saiu dele, descendo por uma escada que levava ao subsolo e acionando o detonador.
As explosões destruíram os prédios, cuja infraestrutura desabou em poucos segundos. Blocos de concreto desprenderam-se das paredes e teto, atingindo Mihael de todos os lados. Um em especial acertou o meio de suas costas e ele foi ao chão com um urro, onde permaneceu imóvel por horas até que fosse resgatado.
Patético.
Ele foi carregado até uma cama vergável em outro de seus esconderijos, esperneando pelo caminho.
— Mello, por favor, fica quieto! Preciso ver se você quebrou alguma coisa. – Mail Jeevas tentava mantê-lo de barriga para baixo, mas Keehl queria protestar.
— Não tenho tempo pra isso, Matt, Kira vai-- Ugh!
— Por isso que eu disse pra parar de se mexer. Acho que você fraturou algumas costelas… Vou chamar o Liam, vai que deu merda em algum dos seus órgãos.
— Não! Matt, por favor… – ele virou o rosto, tentando enxergar Mail. – Não quero que ninguém me veja assim. E duvido que ele vai querer me tratar depois do massacre de hoje. – Novamente, ele tentou levantar, mas seu rosto se contorceu em dor. – Os outros morreram, não tenho mais ninguém a quem recorrer.
Mail cruzou os braços.
— Ahem.
— Tirando você, lógico. – ele esboçou um sorriso.
— … Da próxima vez não vou te salvar. – Mail puxou as mangas de sua blusa e, abrindo a roupa de Mihael com cuidado, começou a analisar as costas machucadas. – Eu não sou médico, caramba…
— Eu tô bem, só me dá um comprimido pra dor e me deixa dormir.
Mail suspirou, mas obedeceu, pegando o remédio.
— Se continuar se arriscando assim vai acabar morrendo de verdade.
— Ficou preocupado? – Mihael tentou sorrir.
— Claro que fiquei, seu ridículo.
— Você que é ridículo.
Os dois eram ridículos.
— E agora, qual é o plano?
Mihael ficou em silêncio por algum tempo, olhando para o nada enquanto o outro esperava.
— Não vou vencer sozinho. – concluiu, mas ainda não estava pronto para abdicar de seus objetivos imbecis e superficiais. – Com a Polícia Japonesa aliando-se a Kira, não posso me arriscar assim de novo. Vou falar com Halle. Preciso pegar minha foto de volta e talvez…– ele não respondeu.
— Talvez o que?
Mihael retornou ao silêncio, finalmente permitindo que Mail cuidasse de seus ferimentos, cobrindo cortes com ataduras e massageando seu corpo dolorido, sua expressão fechada e soturna.
— Mello… Você vai ajudar o Near?
Silêncio.
…
Posso imaginar o que se passava em sua cabeça naquele dia. Todas as apostas estavam em Kira e Near, sua presença na corrida já não tinha mais valor. Porém, desde o início, sua busca pelo primeiro lugar era a única coisa que o movia. Se ele não tivesse aquilo, o que restava? Quem era Mihael Keehl se não a criança que odiava ser deixada para trás?
Não sou capaz de ler mentes ou entender sentimentos humanos, mas adoraria saber o quanto ele sofreu ao perceber que sua vida inteira resumiu-se em fracasso.
Vozes elevadas interromperam meus pensamentos. Uma discussão entre Jastin e outros dois shinigamis, por causa de algum jogo de empilhar caveiras.
— CALADOS!
Eles silenciaram, encolhendo seus corpos ossudos e minúsculos e sumindo da minha frente. Que decadência. Esse lixo consegue ser ainda pior do que os nomes em seus cadernos.
No entanto, ainda estão acima dos dois idiotas que atrapalharam minha diversão. Mail… Mihael… Por um lado é bom que não tenham morrido. Se tivessem, seria rápido demais, fácil demais. Corações como os deles, frágeis e maleáveis, merecem ser comprimidos lentamente.
Ás vezes, quando não tenho nenhum shinigami para punir e minha melancolia chega a níveis críticos, observo suas ações pela janela do Mundo Shinigami. Tantas mentiras que poderiam ser facilmente resolvidas com uma comunicação mais eficiente. E pra que? Proteger um ao outro? Ou a si mesmos? Eles nem sabem mais o que fazem ou porque fazem.
Talvez fosse a hora de dar uma olhada.
Esticando minha longas asas, voei até o local, afastando os outros.
A janela para o Mundo Humano é acessível a qualquer shinigami e com ela é possível encontrar qualquer um de seus habitantes, desde que se conheça seu nome e rosto. Procurei pelo inseto loiro primeiro, seu estúpido nome gravado em minha mente.
Huhu. Arrumando briga na prisão assim que chegou?
Típico.
Não fiquei para ver quem venceria. Seu rosto contorcido em dor já era o suficiente para me satisfazer por dias.
O outro…. Mail Jeevas. Mãos machucadas, olhar fixo em um computador, reunindo informações sobre o local em que Mihael desapareceu. Ignorando a própria dor e focando-se no outro.
Corpos maiores, mas mentes congeladas no tempo, presas à época de crianças.
Sempre os mesmo erros, de novo, de novo, e de novo.
Era exaustivo só de assistir.
Continuei a observar Mail, atento às suas reações. Sua expressão séria não combinava com suas olheiras profundas e suas roupas sujas. Ele estava tão empenhado em sua tarefa que sequer notou o cigarro apagado entre seus dedos.
Novamente, penso em como seria ler seus pensamentos. Estaria com fome, sede? Quando foi a última vez em que tomou banho ou dormiu por mais de uma hora? Havia pensado em desistir de procurar?
Teria se arrependido de salvar Mihael tantas e tantas vezes?
— Ei, por que você olha tanto esses caras?
Não me dei ao trabalho de ver quem perguntou.
Montes de areia não podem mais falar.
É uma pena que os outros shinigamis não entendam a beleza de trazer sofrimento aos humanos (especialmente esses dois). Mas, se eles entendessem, acabariam se metendo em meus planos e não me permitiriam apreciar o show.
Mail finalmente deixou o computador, deitando na cama e fechando os olhos. Tão pacífico, tão controlado.
Tão sem graça.
…
20/11 — Nova York
Mihael Keehl sentava-se em um sofá cheio de remendos, uma barra de chocolate pela metade nas mãos e um notebook sobre o colo. Sua expressão carrancuda encarava a mesma página há 20 minutos, mas ele não parecia se dar conta disso. Os olhos vagavam de um lado para outro, lendo repetidas vezes a mesma linha. As palavras, resumo que ele mesmo fizera sobre o Caso Kira, foram meticulosamente escritas, de maneira tão impecável que a maioria dos humanos precisaria de horas para entender seu conteúdo por completo (ou pelo menos era o que Mail dizia).
— Ei, eu fiz café.
Mail Jeevas saiu de uma cozinha imunda, carregando duas canecas cheias de um líquido escuro.
— Tá brincando né? – Mihael desaprovou sem erguer os olhos. – Não vou tomar essa porcaria.
Mail revirou os olhos.
— Pra você é chocolate quente, mal agradecido.
Ele resmungou, esticando a mão enluvada para a caneca e tomando alguns goles.
Eles caíram em um silêncio, Mail observando com atenção o rosto de Mihael. O cenário assemelhava-se ao de um filme de terror; as embalagens espalhadas, as luzes intensas dos monitores, as paredes descascadas e rachadas, os olhares dramáticos. Eles sabiam que algo aconteceria em breve, que o trágico fim de Kira aproximava-se.
— Mello… – ele não respondeu de imediato, ainda fitando as mesmas palavras no notebook. – Ei, Mello.
— O que?!
— Não quer descansar um pouco? – perguntou na defensiva.
Mihael cerrou os dentes. Quantas vezes ouvira aquela mesma pergunta nos últimos anos?
— Não posso descansar agora, Matt. Kira ainda está vivo e Near está na minha frente. Ainda mais levando em conta o que falei pra ele ontem…
— Sobre o shinigami e as regras falsas? Acha que ele vai descobrir quais são?
— Tenho certeza que vai, se é que já não descobriu.
Novamente, silêncio.
— Ei...me desculpa. – Mail comentou baixo.
Mihael deixou o notebook de lado, suspirando irritado.
— O que você fez dessa vez?
— É que… – ele hesitou por alguns segundos. – Se não fosse por mim… Tipo… Se eu não tivesse insistido pra você deixar uma foto sua com Near lá no orfanato, você não precisaria ter ido até a SPK ontem.
A boca de Mihael se curvou em algo semelhante a um sorriso.
— A foto foi só um dos motivos, Matt. Há essa altura, ele tem muito mais chances do que eu. E agora ele me deve uma.
Mail ainda parecia incomodado.
— Eu sei, mas mesmo assim--
— Esquece isso, já foi. – Mihael fez uma tentativa de se esticar, seu rosto contorcendo-se em uma careta.
— Ainda dói? – Mail deixou a caneca de café no chão e se inclinou, esticando as mãos enluvadas para as costas do outro.
— Bem pouco. Acho que Near não percebeu nada. Seria bem patético se ele tivesse notado.
Mail massageou de leve os ombros dele, franzindo o cenho e mordendo o lábio. Mihael se ajeitou no sofá, virando para dar melhor acesso às suas costas.
— “Segundo Halle, Near acredita que o Segundo L seja Kira” – Mail leu no monitor. – Ela te disse isso ontem?
— É. – Mihael arrancou um pedaço da barra com os dentes, bebendo outro gole do chocolate quente em seguida. – O comissário-adjunto Yagami tinha me dito que Tota Matsuda era L, mas agora acredito que ele foi instruído a mentir independente das circunstâncias. Um homem extraordinário… ou um completo idiota.
— Quem diria que ele faria a Troca do Olho… Agora não só a Polícia Japonesa sabe o seu nome, mas L também. Ou seja, o próprio Kira quer o seu pescoço… Não vai mais poder mostrar seu rosto por aí.
— Sei disso.
Eles abaixaram as cabeças, trancafiados em seus próprios pensamentos. Por vários minutos, os únicos sons foram da mastigação de Mello e de seus dedos impacientes batendo na lateral do notebook. Seus ombros continuavam tensos.
Mail fez uma tentativa de segurar sua mão, mas Mihael se desvencilhou.
— Mello… Tem certeza de que não quer dormir um pouco?
Mihael o encarou, pronto para gritar. Acabou desistindo, talvez pelo cansaço, talvez pelo – ridículo – olhar genuinamente preocupado do outro.
— Agora não, Matt. Pode ir primeiro.
Mail, apesar de assentir com a cabeça, pegou um jogo portátil e se sentou ao lado de Mihael.
Seu café esfriou.
…
Além de não conseguir vencer seu concorrente, Mihael se submeteu à uma aliança temporária com ele, compartilhando informações e até mesmo conduzindo um membro da Central de Operações do Japão ao esconderijo de Nate River, em Nova York. Esse investigador, Kanzo Mogi, recusou-se a responder as perguntas de Nate a respeito do novo L, o que deu mais segurança a ele e Mihael sobre a hipótese de Kira ser alguém influente na Polícia Japonesa – possivelmente o Segundo L em pessoa.
Posteriormente, Shuichi Aizawa também contribuiu com as investigações da SPK e ele e Mogi foram libertados por Nate. Mihael foi informado disso e, com seu fiel animal de estimação ao lado, passaram a seguir ambos os japoneses. Mogi passava tempo demais com Misa Amane e um nome em especial sempre surgia em suas conversas: Light.
Mihael sabia que esse era o mesmo nome do filho de Soichiro Yagami. Considerando também que Mogi e Aizawa eram vistos em público com certa frequência e que Tota Matsuda foi o nome que Soichiro usara para denominar o atual L, Mihael concluiu que, na verdade, tudo fora preparado para desviar as atenções de Yagami Light, o verdadeiro Segundo L. E, portanto, Kira.
Claro que Nate River havia chegado à mesma conclusão dias antes, graças ao testemunho de Aizawa. O policial, no entanto, não teria ajudado Nate se não acreditasse que Mogi foi morto por Kira ao ser levado à SPK.
Se não fosse Mihael, Mogi não teria sido guiado à sede das operações de Nate.
Se não fosse Mihael, Nate não teria concluído tão cedo que Yagami Light era o Segundo L (e Kira, portanto).
No fim das contas, as ações de Mihael mais beneficiaram Near, seu maior rival.
O quão desprezível é isso?
…
13/12 — Japão
Boa noite. Eu sou Kiyomi Takada no jornal 6. Todas as palavras de Kira que lhes foram transmitidas no passado, por meu intermédio, e as que lhes transmitirei a partir de agora, se tornarão as leis que regerão o mundo.
Mail Jeevas fingia prestar atenção em seu jogo, mas seus olhos se alternavam da TV para o rosto distorcido e irritado de Mihael. Este comera tantas barras de chocolate nos últimos dias, que era quase impossível andar sem pisar em alguma embalagem.
— Mulher estúpida. Ela passa as informações de Kira com tanta tranquilidade, sem a menor resistência.
— Se eu fosse ela, com nome e rosto públicos, faria a mesma coisa. – Mail simulou apertar alguns botões. – Kira pode se livrar dela assim que fizer algo errado.
Mihael resmungou em resposta.
— Talvez… – ele arrancou outro pedaço com uma dentada. – O que mais me incomoda é a mudança de atitude dela… Por que começar a expor as próprias opiniões de uma hora pra outra?
— Você disse que no dia que ela começou com isso foi logo depois de se encontrar secretamente com alguém na noite anterior né? Conseguiu descobrir com quem foi?
— Não… nem tenho os meios para fazê-lo. A segurança em volta dela é absurda. – ele diminuiu bruscamente o volume da TV. – Me pergunto se é ela quem escreve no caderno… Yagami não deve conseguir, com os homens da Central por perto… Se bem que eles são meio idiotas.
Mail riu.
— E quando Demegawa era porta voz de Kira? Será que já era ela quem cometia os assassinatos?
— Acho que não. – Mihael fitava o vazio com um olhar lunático, um pedaço de chocolate pendendo de seus lábios. – Se ela tivesse o poder de Kira desde que o início, não teria mudado de comportamento depois de se encontrar com alguém. Talvez ela seja uma intermediária… Ou uma distração.
— E Amane?
Mihael torceu o rosto.
— Durante o tempo que a segui, ela nunca escreveu em um caderno semelhante e era constantemente vigiada por Mogi… Mesmo que ela tenha sido o Segundo Kira no passado, acredito que agora não seja mais. Deve ter abdicado do direito de propriedade.
— Então… – Mail largou o jogo inacabado, esticando os braços e cruzando as pernas, um pouco alegre demais. Discretamente, checou o relógio. – Estamos empacados, certo?
Ele não respondeu.
Mail apoiou o queixo na mão, exibindo um sorriso triste.
— Você esqueceu completamente, né?
Mihael virou o pescoço lentamente, desviando toda a atenção para Mail.
— Esqueci? Do que? Qual informação? – ele já esticava o braço na direção do notebook, mas Mail segurou sua mão.
— Calma, não tem nada a ver com caso.
— Então de que me interessa?
— Vem cá um segundo. – Mail levantou do sofá e tentou puxá-lo consigo, mas Mihael resistiu.
— Matt, não começa, não agora--
— Não é o que você tá pensando. – ele abriu um sorriso, mas o outro não parecia convencido. – Sério, eu juro. Vai se arrepender se não vier.
— Eu tenho que me concentrar, são muitas pistas para rever.
— Não tem nada acontecendo, Mello, deixa de ser chato. Você sabe que falta de sono afeta a capacidade de raciocínio.
Mihael revirou os olhos, mas cedeu e o acompanhou até a cozinha.
— Achei que você queria me obrigar a dormir.
— Depois. – Mail soltou sua mão e abriu o forno, revelando um grande bolo de chocolate com cobertura de morango e o nome Mihael escrito com chocolate branco derretido. – Eu ia te mostrar depois que estivesse pronto, mas já que você não falou nada… Ah, tem mais, peraí. – ele deixou um Mihael atônito para trás e correu até o quarto que dividiam, vasculhando o fundo do armário e voltando com um embrulho. – Fiquei na dúvida se comprava, mas acho que você vai gostar.
Mihael demorou a entender o que acontecia. Ele ficou ali,olhando do embrulho para Mail. Ainda perdido, desembrulhou lentamente o pacote. Quando retirou o papel de presente, viu que se tratava de uma jaqueta de couro larga e brilhante. Ele a vestiu, ajeitando o material sobre os ombros e fechando o zíper.
— Tem aqui também. – Mail se apressou a pegar o último item do presente, uma touca preta, e colocar nas mãos de Mihael. No mesmo instante, ele desatou a rir.
Jeevas havia mandado bordar os dizeres Willy Wonka na touca.
— Gostou? – Mail também sorria, completando o circo.
— Eu adorei. – Mihael parecia uma criança que havia acabado de ganhar doce. Ou um shinigami que ganhou uma aposta. Não tem muita diferença.
Mail segurou suas mãos, aproximando os rostos.
— Feliz aniversário, Mello.
Finalmente, a expressão de Mihael se clareou e ele entendeu o porquê dos presentes. Seus ombros relaxaram e seu sorriso se alargou. Eles se abraçaram por um longo tempo.
— Você tinha esquecido mesmo?
— Aham. Ultimamente só tem espaço para Kira e Near na minha cabeça.
Mail se afastou levemente, guiando uma das mãos de Mihael até seu rosto.
— Acha que consegue esquecer um pouco esses nomes e comemorar seus 20 anos só comigo?
Não me recordo da resposta de Keehl.
…
31/12 — Japão
E agora, peço-lhes licença para um pedido de desculpas. Lamentavelmente, Misa Amane, ou Misa-Misa, como todos a chamam carinhosamente, e que deveria abrir este festival, não chegou ao teatro até o presente momento.
Mihael sentou-se bruscamente no sofá, quase chutando os notebooks espalhados pelo cômodo. Aumentou o volume quase no máximo, mas outros artistas já haviam se organizado para ocupar o lugar de Misa Amane e as músicas do festival começaram.
— Meeeeello, quer baixar isso aí? Eu tô tentando dormir. – Mail, com os cabelos bagunçados, olhos cansados e vestindo quase nada, saiu do quarto. – Não sabia que você gostava dessas porcarias que eles chamam de música.
Mihael não respondeu de imediato, os olhos fixos na TV. O outro, com sono e irritado por ser ignorado, se colocou entre ele e o objeto.
— Ei! Tô falando contigo!
— Misa Amane está desaparecida.
Mail bufou e vagarosamente começou a acordar, esfregando os olhos e se jogando no sofá.
— Aham… Quem é ela mesmo?
Mihael ignorou-o.
— Será que foi Kira? Mas por que agora? Se Amane abandonou o direito de propriedade, não deveria ser uma ameaça para ele… – ele tirou uma barra de chocolate de baixo de um dos monitores e começou a comer apressadamente. – A não ser que ela tenha obtido novamente o caderno… Mas uma mulher como ela… Light não a usaria de novo.... – ele se enrolou no sofá, uma das mãos apertando a própria cabeça. – Talvez se estivesse desesperado o suficiente ou se ela fosse encurralad--
— Que? – Mail perguntou, já que o outro parou abruptamente de falar.
Aos poucos, a expressão de Mihael relaxou, sendo substituída por um sorriso fino.
— Near. Halle me contou que ele suspeitava que Amane fosse o Segundo Kira. Ele deve tê-la aprisionado, por precaução, para inviabilizar o uso do Olho de Shinigami. – ele virou o rosto para Mail. – Matt, acho que ele não sabe sobre o Direito de Propriedade do caderno.
— Pode ser…
— Pode ser? É quase certeza! Ele não sabe! – Mihael se levantou, entusiasmado.
Ele ficava feliz só de pensar que possuía algum conhecimento a mais que Nate.
Tolo.
— Mello… Você não acha que seria uma boa… sei lá… talvez… mencionar isso pra ele?
O outro parou no mesmo instante, abaixando as mãos e tensionando os ombros.
— O que foi que você disse?
— Não precisa ser diretamente! Mas… Kira já deve ter se beneficiado muito com esse recurso. Pode acabar passando a perna em vocês dois.
Mihael ponderou por algum tempo, sua alegria de um segundo atrás ausente.
— Não existe essa possibilidade. Sei que Yagami Light é Kira e acredito que Near também saiba. É só uma questão de tempo para conseguir alguma prova. E eu acho que já sei como. – ele observou a programação da TV, que transmitia o festival. Em vários momentos, a câmera captava as expressões faciais de Kiyomi Takada, que dançava e ria.
— A porta-voz de Kira? – Jeevas se surpreendeu. – Acha mesmo que ela falaria alguma coisa pra você?
— Sei que não. Mas deve ter algum jeito de usar suas ações a meu favor.
— Como?
— Tenho algumas ideias, mas ainda não é o momento de colocar em prática. – Mihael voltou a sentar e diminuir o volume da TV. – Primeiro, precisamos esperar que as festas de fim de ano terminem. Com a chegada do Ano Novo o que não faltam são seguidores fanáticos de Kira querendo entregar oferendas pra ela. Não tenho dúvida de que seus seguranças estão preparados para checar cada mínimo presente que ela receber e investigar cada um que se aproximar dela em um raio de 50 metros. Isso se não houver alguém da polícia japonesa por ali, pronto para me matar ou se a própria Takada tiver o Olho de Shinigami e o caderno. Kira poderia tê-la obrigado a fazer a troca e agora usá-la no lugar de Amane… – ele respirou fundo, massageando a cabeça. – Vou precisar de tempo e de pelo menos mais um pessoa. Hora de cobrar uns favores antigos.
— Não seria mais simples envolver Near? Eu vi na TV há umas duas semanas que a Halle se infiltrou como segurança pessoal da Takada. Se vocês trocassem informações--
— MATT! – ele bateu com o punho em uma mesa de centro, quase quebrando-a. Mail levantou de um pulo, afastando- se. – Se você sugerir só mais uma vez que eu me alie à Near, vai levar um tiro no meio da testa! Entendeu?
Jeevas virou-lhe as costas, caminhando para o quarto.
— Foi só uma ideia. Eu tô cansado.
…
De volta ao meu trono, fui recebido por Jastin, que me aguardara pacientemente.
— Alguma coisa interessante?
— O mesmo de sempre.
Ele riu.
— Os humanos nunca mudam, né? Podem errar várias vezes até se perderem na contagem… e não vão aprender nada com isso. – ele arrumou seus colares sobre o pescoço e os anéis sobre os dedos. – Já os shinigamis, não o fazem. Isso aqui costumava ser mais agitado… Você vivia punindo os que desobedeciam às regras, lembra-se? Grupos de shinigamis vinham observar os infratores sofrerem as Agonias em suas mãos. – Jatin olhou para o nada, como se a cena estivesse ainda acontecendo. – Acho que eles aprenderam depois de tanto observar a dor alheia.
Ele tinha razão. Fazia muito tempo que um shinigami não era punido por mim, tempo demais. Eles mal tinham vontade de escrever nomes para sobreviver, quem dirá para desobedecer alguma regra? O ócio os dominou, um vírus que pegaram dos seres humanos.
Provavelmente, por ser o Rei, eu seja imune.
— Seria uma boa se o Ryuk derrubasse o caderno de novo… – ele comentou com um suspiro.
— Jastin, vá até o Mundo dos Humanos.
Ele ficou confuso.
— Por quê?
— Quero maçãs. 13. Não me faça repetir.
Sem reclamar, Jastin me obedeceu. Se os outros shinigamis fossem como ele, talvez nosso mundo tivesse alguma chance de se reerguer.
…
26/01 — Japão
Naquela manhã, Kiyomi Takada chegou à sede da emissora NHN em um de seus carros particulares. Como sempre, dezenas de seguranças a cercavam enquanto ela deixava o veículo, sua expressão tranquila e orgulhosa. Ela possuía a maior arma do planeta, o Death Note, e poderia matar qualquer um dos que a seguiam a qualquer momento. Tinha meios para contatar o responsável pelos atuais assassinatos de criminosos e ainda era intermediária entre ele e o próprio Kira, a quem conhecia em pessoa.
Racionalmente falando, ocupar esse posto seria o suficiente para que qualquer um temesse pela própria vida acima de qualquer outra coisa, porém seu queixo erguido e seu sorriso sereno diziam o contrário.
Nunca vou entender esses insetos.
— O que é aquilo?
De repente, um carro desconhecido se aproximou em altíssima velocidade, seu motorista quase atropelando os seguranças. Eles nem tiveram tempo de se recuperar, pois o rebelde disparou uma cortina de fumaça em direção a Takada.
— Rápido! Para dentro na NHN!
— Não! – uma figura de moto surgiu em meio à fumaça, falando alto e com urgência. – Se alguém a atacou aqui, é perigoso ficar dentro ou nas proximidades da NHN! É melhor levá-la para longe daqui! Senhorita Takada, suba na moto! Depressa!
Halle Lidner não conseguiu enxergar através da viseira escura e estreita do capacete, mas reconheceu a voz de Mihael Keehl. Tomando uma decisão rápida, ela permitiu que ele transportasse Takada, mas ordenou que fossem escoltados. Ao mesmo tempo, outro time de seguranças perseguia o carro do rebelde.
Assim que conseguiu uma oportunidade, Mihael entrou com Takada em um beco estreito, acelerando até perder os carros dela de vista. Retirando algemas de um compartimento na moto, ele prendeu o próprio pulso com o de sua refém.
— Quem é você?!
(...)
Há alguns minutos dali, na direção contrária, o rebelde era avidamente perseguido por pelo menos uma dúzia dos carros de Takada. Os homens o acompanharam por diversas ruas, tentando chegar perto o suficiente para atirar.
— E agora, cacete, pra qual lado? – ele berrava em um comunicador de ouvido, recebendo prontamente a resposta:
— Segunda entrada à direita, não perde. – Mail Jeevas enrolava-se com os cabos e os notebooks dentro de seu próprio carro, há quilômetros do rebelde. Ele monitorava o trânsito ao redor da NHN e estipulava uma rota de fuga para Jackson.
— Tem uns carros vindo dali, não dá!
— Do outro lado é pior, faz o que eu mandei. – Mail alternava o olhar entre dois monitores. – Da a volta por eles assim que aquele carro branco passar.
— Não vai dar cara, é muito estreito!
— Eu sei que dá, acelera!
— Ma--
Era tarde demais. Depois de dez minutos de perseguição, ele foi guiado até uma rua bloqueada pelos carros dos seguranças, invalidando qualquer tentativa de evasão.
— Resistir é inútil, renda-se! Saia do veículo com as mãos para cima!
Trêmulo, o rebelde acionou bruscamente o freio, agarrando-se ao volante e sussurrando rapidamente pelo comunicador.
— Puta que pariu e agora? Eles vão me matar, Matt, o que eu faço?
— Se acalma. Você é cúmplice do sequestro da Takada, tenho certeza que vão querer te interrogar sobre Mello. Desmonta o comunicador, separando o ponto e o microfone, como eu te ensinei. Deixa o ponto bem fundo no seu ouvido e esmaga esse microfone. Aquela escuta embaixo da sua camisa está segura, eu vou ouvir as perguntas deles e te dizer exatamente o que responder.
— Tá… M-mas peraí… Eles vão querer me revistar!
Mail não disse nada. Jackson rosnou.
— Quer saber? Isso aqui não vale aquela grana. Fodam-se vocês dois. – foram suas últimas palavras antes de sair do carro, erguendo as mãos. – Ei, não atirem! Eu tenho informaç--
Os japoneses não lhe deram ouvidos, abrindo fogo contra o motorista e seu veículo, pintando-os de vermelho-escuro. O rebelde caiu com um baque e os seguidores de Kira, em suas casas, comemoraram ao ver seu corpo na TV.
— Idiota. – Mail comentou consigo mesmo antes de sair de seu carro e esmagar o comunicador com o pé. Na volta ele fechou um dos notebooks e se concentrou no ponto vermelho na tela do outro. Agora só lhe restava observar o trajeto de Mihael, que acabara de chegar ao primeiro destino.
(...)
Oculto dos que passavam pela rodovia , um caminhão de uma transportadora próxima foi o esconderijo que Keehl utilizou para a moto. Assim que se certificou de que o capacete estava bem encaixado e que fechou as portas da carga, Mihael ordenou que Takada colocasse tudo que estivesse usando em uma caixa.
— Está me dizendo para ficar nua aqui…?
— Isso mesmo. – ele explicou sobre a possibilidade dela carregar transmissores em suas roupas. Como Takada ainda hesitou, ele lhe apontou uma arma e pegou um cobertor em um canto. – Anda logo. Pode usar este cobertor.
Ela acabou obedecendo e, ao fim, estava sentada e enrolada na coberta, seus pertences em uma caixa que Keehl acabava de fechar.
— Agora, fique quietinha aqui. Eu já volto.
Do lado de fora, ele trocou rapidamente suas roupas pelas dos funcionários da transportadora a qual pertencia o caminhão, assegurando-se de que a viseira do capacete continuava intacta antes de recolocá-lo. Pela janela entre o motorista e a carga, Keehl observou Takada, que, disfarçadamente, tentava ver seu rosto através do capacete.
Com as mãos firmes, ele dirigiu até o depósito de expedição, livrando-se dos objetos pessoais de Kiyomi. Trocando pela última vez suas vestes, Keehl regressou à estrada, rumo à sua última parada. Uma pequena TV instalada na parte da frente informou-o de que Jackson foi baleado e morto pelos seguranças de Takada. Ele não perdeu tempo olhando para o monitor.
Pelo retrovisor ele viu um carro veloz se apressar pela avenida deserta, obrigando-o a dobrar a velocidade para tentar escapar. Minutos depois, no entanto, o carro praticamente encostava no caminhão, como uma provocação. Rosnando, Mihael virou bruscamente o volante, saindo da estrada. Takada encolheu-se no compartimento de carga, atenta aos suportes que prendiam a moto a seu lado.
O perseguidor continuou em seu encalço até as ruínas de uma igreja, onde chegou perto o suficiente para atirar várias vezes e destruir um dos pneus dianteiros. Takada gritou com o movimento brusco, mas Mihael manteve o volante firme e lentamente desacelerou.
— MAS QUE PORR-- – ele começou a berrar enquanto abria a porta, mas sons de tiros interromperam-no. Suas costas bateram com força na lateral do banco do motorista e ele acabou escorregando até o chão.
Assim que os tiros começaram, Takada fechou os olhos e cobriu a boca com as mãos, tentando não gritar outra vez.
Ela ouviu uma risada e uma voz masculina do lado de fora.
— Que foi, Mello? Tá meio pálido. – alguém fazia força para pegar um corpo do chão. – Sabia que ontem eu finalmente achei aquele teu muquifo? Quase fiz uma visita, mas você estava acompanhado, então fiquei do lado de fora. Nunca pensei que te veria sair de moto pra sequestrar a Kiyomi Takada… Tá famoso, sabe? Todos os canais japoneses estão falando de você. – Kiyomi ouviu um porta-malas ser aberto e depois fechado, além de passos se aproximando. – Pena que nunca mais vai mostrar essa cara de mulher por aí, seu ladrão filho de uma puta.
A porta-voz de Kira apressou-se em segurar o cobertor sobre os ombros quando a porta traseira do caminhão foi aberta. Ela fechou os olhos por um momento, protegendo-os da luz. À sua frente, um homem com respingos de sangue guardava a arma no bolso, suas mãos ainda mais vermelhas que suas roupas.
— Opa! E aí?
— P-por favor, me ajude a sair daqui! – Takada tremia diante da figura desconhecida. – E-eu tenho dinheiro, posso te dar quanto quiser!
— Eu gosto de dinheiro, princesa, mas… Não acho uma boa ficar perto de você. Por causa do Kira não consigo ficar sossegado. – ele apontou para uma máscara que cobria seu rosto. – É um porre ter que andar por aí assim… Mas enfim....Deve ter muita gente te procurando, então… tô caindo fora tá? E não esquece de falar bem de mim pro Kira.
Antes que Takada pudesse dizer qualquer coisa, ele fechou a porta de carga, deixando-a no escuro, e saiu com o carro, afastando-se o mais depressa possível.
(...)
— Caramba! Eu tava meio nervoso no início, mas acho que deu tudo certo. Na verdade, acho não, tenho certeza que arrasei. Não concorda, Mello? – Mail perguntou, sorrindo e observando Mihael pelo retrovisor. Suas mãos, manchadas com sangue de um qualquer que Mello havia matado horas antes, sujavam o volante do carro. Quando percebeu, ele as limpou na roupa, também imunda. Seu rosto se contorceu com o cheiro.
— Eu não te contrataria como ator. E tira essa máscara idiota antes que eu te bata pelo “cara de mulher”. – Mihael, com um notebook no colo, observava Takada pelas câmeras que ele instalara anteriormente em dois pontos da carga do caminhão, ambos próximos ao teto. Havia também uma escuta acoplada a uma delas. – Anda, mulher, eu sei que você escondeu alguma coisa nesse cobertor! – ele resmungava.
— E se ela não fizer nada, Mello?
— Duvido, ela não é tão burra quanto a Amane. Agora que se livrou de mim, vai tentar escapar de algum jeito, talvez falando com Kira ou... – ele segurou a respiração quanto a viu retirar um celular, uma pequena folha de papel e um lápis.
— Que foi?
— Para aqui.
Ele obedeceu, estacionando o carro em uma região distante tanto do caminhão quanto da estrada e juntando-se a Mihael no banco do passageiro.
— Aquilo é um pedaço de papel?
Kiyomi começou a discar e eles colocaram dispositivos nos ouvidos, escutando-a claramente.
— Light...Sou eu!
— Ela disse Light?! – Mail perguntou, levando um tapa na cabeça e um pedido de silêncio.
— E...eu estou com um dos celulares que consegui ficar sem que o vigia percebesse. L-light... Salve-me... – ela tremia enquanto o ouvia falar. Aos poucos, foi respondendo suas perguntas, tentando se manter lúcida. – N-não, eu… Eu não sei o que houve, um homem apareceu e o matou. Consegui ouvir um nome...Mello. S- sim, eu o vi ser baleado. – ela fez uma pausa. – E-estou dentro de um caminhão, só tem uma moto aqui comigo… T-tudo bem… Tudo bem, vou esperar. – Kiyomi baixou o tom de voz. – Ah! Acho que ouvi alguém, tenho que desligar!
Com o cenho franzido, Mihael observou Takada iniciar uma nova ligação.
— Sou eu. Preciso que me envie o maior número possível de punições.
Atônitos, eles se aproximaram do monitor.
— Droga, não consigo ler os nomes… – Mail reclamou, mas Mihael analisava as fotos que Takada recebera por email.
— São criminosos. Apareceram esses dias em noticiários. – Seus olhos arregalaram quando Kiyomi começou a escrever nomes no pedaço de folha. – Não acredito…
— É um pedaço do Death Note. – Mail chegou à mesma conclusão.
— Por que eu nunca testei isso? – ele cerrou os dentes, puxando os próximos cabelos. – Se tivesse guardado uns pedaços de folha eu poderia ter matado o Soichiro e ficado com o caderno!
— Quem podia adivinhar? Aquele shinigami idiota não avisou nada.
— Eu devia saber… Ele falou sobre a segunda regra falsa.
— Mas isso considerava queimar o caderno inteiro, não arrancar umas fol--
— Não interessa Matt! – ele gritou histérico. – Foi a minha estupidez que causou tudo isso!
— Mello.
— Agora ela vai ser resgatada por aqueles imbecis da Polícia Japonesa, que não vão desconfiar de nada. E eu duvido que Kira apareça e mesmo que venha, ainda não sei quem mata em seu lugar. Não adianta matá-lo sem descobrir isso.
— Mello.
— Vamos ter que rever as imagens, tentar enxergar o segundo número para quem ela ligou. A pior parte vai ser descobrir de quem é esse número…
— Mello.
— O que?! – perguntou ríspido.
Mail não respondeu, apenas apontou para a tela do computador. Mihael seguiu seu olhar.
A porta voz de Kira levantava-se com tranquilidade, sem se incomodar com o cobertor que caía a seus pés. De costas para as câmeras, ela abria a tampa do tanque de combustível da moto.
— Porque você deixou a chave lá dentro Mello? … Mello? – ele balançou os ombros do outro, que mantinha o olhar fixo.
— O caderno. Ela está sendo controlada.
— Que?! – Mail foi abrir a porta do carro, mas Mihael o impediu. – Mello a gente tem que fazer alguma coisa! Aqueles papéis são uma prova de que ela--
— Eu sei, mas, Matt, nós temos esse gravação. Além disso, mesmo se segurarmos os braços e as pernas dela, não vai fazer diferença, ela vai morrer de parada cardíaca.
— Mas… – Sem conseguir pensar em novos argumentos, Mail contentou-se em permanecer sentado e assistir em silêncio enquanto Kiyomi Takada se suicidava, engolida pelas chamas.
…
27/01 — Japão
Mihael estudava pela centésima vez as imagens da morte de Takada quando o celular de Mail tocou, assustando-o.
— Quem é? – ele perguntou.
— Near. – Mail ergueu a cabeça, pedindo permissão para atender. Mihael concordou, relutante.
— Olá, Matt.
— O que foi, Near?
— Durante o sequestro de Takada, um distrator foi utilizado para que Mello pudesse fugir com ela. Imaginei que o motorista do carro pudesse ser você, uma vez que ainda não reconheceram o corpo. Fico feliz em saber que está bem.— ele fez uma pausa, o som de seus bonecos colidindo substituindo o silêncio total. — Posso falar com Mello?
— Mello? – Os olhares de Mihael e Mail se encontraram.
— Quando o Segundo L me informou de sua morte, que Takada supostamente presenciou, por um momento acreditei. Mas como não havia outro corpo no local, precisei averiguar. Você atendeu minha ligação, sua voz está alta e clara. Isso é prova suficiente para mim de que ele está vivo.
Mail lentamente afastou o celular do ouvido, estendendo-o a Mihael. Depois de ponderar e grunhir por um momento, ele pegou o aparelho.
— O que foi? Quer contar para Kira que ele não conseguiu se livrar de mim? Ou reclamar que eu deixei Takada morrer? Ou talvez jogar na minha cara que está mais próximo de capturar Kira do que eu?
— Não. Liguei para agradecê-lo.
Milagrosamente, Mihael não retrucou. Sem palavras, apenas franziu o cenho em descrença e aguardou.
— Assim que o Segundo L falou de sua morte, fiquei aliviado.— Mihael explodiu, berrando um “QUE?!”, mas Nate ignorou. – Àquela altura, o sequestro de Takada não poderia ser mais desvantajoso, tanto para mim quando para Kira. Sua interferência, em um primeiro momento, não representou nada além de um fardo, um imprevisto para meus planos.
— Vai tomar no seu--
— No entanto… — River continuou pacientemente a explicar. – Se não fosse o seu ato inesperado, eu não teria descoberto um fator imprescindível para a estratégia de Kira. Se não fosse o sequestro, eu continuaria a cair como um tolo em seu plano. Se não você, Mello, eu teria perdido.
Os olhos de Mello se arregalaram em surpresa, duas esferas que queimavam com fogo azul. Nate não disse qual foi sua descoberta e o orgulho de Mello impedia-o de perguntar.
— Não me entenda errado, meu plano para capturar Kira ainda vai funcionar. Porém, não posso negar que minha vitória seria impossível sem a sua colaboração. — Mihael sorriu. – E, como forma de recompensá-lo, gostaria de convidá-lo para um confronto direto com Kira amanhã.
A boca de Mihael abriu e fechou várias vezes, sem emitir qualquer chiado. À sua frente, Mail aguardava de pé por uma explicação, gesticulando e sussurrando com ansiedade. “O que ele disse?” “Vai te entregar pro Kira?” “Tá brigando com você?” “Tá pedindo sua ajuda?” “O que quer que eu faça?”
Mihael não disse nada por alguns minutos, sua expressão mudando a cada instante. Raiva, dúvida, raiva, surpresa, alegria, confusão. Sua mão livre ora fechava-se em punho, ora alisava os cabelos, tirando-os do rosto. Seus pés batiam no chão em um ritmo aleatório, captando o olhar de Mail.
Lentamente, ele se levantou, parando diante do outro.
— Você não estará nem atrás de mim, nem à frente, mas ao meu lado. — Nate continuou, já que Mihael nada dizia. – Ainda que recuse, eu e os outros membros da SPK não revelaremos que você está vivo.
Mihael, como se não ouvisse ninguém, alisou vagarosamente um dos lados do rosto de Mail, surpreendendo-o. Seus dedos passaram pelas olheiras dele repetidas vezes, como se tentasse apagá-las. Depois desceu para seu ombros, apertando os braços finos.
— Mello? – Mail sussurrou, alternando a atenção de Mihael para sua mão, que agora tocava as pontas de seus dedos sujos. – O que foi? O que ele quer que você faça?
Ele se encararam por algum tempo, conversando sem palavras.
Nate, ao telefone, também manteve-se mudo.
Quando Mail sussurrou que estava tudo bem, Mihael pareceu acordar de seu estupor. Agarrando o celular, ainda sem desviar os olhos, ele respondeu com firmeza:
— Não.
E desligou.
…
Na noite do dia 28, eles receberam a seguinte mensagem pelo celular de Mail Jeevas:
Kira está morto.
Os dois cadernos foram destruídos.
Desde então, eles se deslocam de um país para outro, unindo-se a organizações criminosas locais e acumulando a maior quantidade de dinheiro que podem. Subordam quem estiver disposto a aceitar o dinheiro, sequestram quantos forem necessários, matam quando sentem vontade.
E quando acredito que eles atingiram o fundo do poço, os insetos erguem-se e começam tudo de novo.
Depois de testemunhar suas ações pelas últimas duas ou três décadas, posso garantir que sua época mais valiosa foi durante a ascensão e posterior queda de Kira. Naqueles dias eles tentaram, mesmo afundados em lama até o pescoço, contribuir de alguma forma para a sua captura, ainda que do modo mais imbecil e utilizando os métodos mais medíocres ao qual sua espécie tem acesso.
Porém, a partir de então, seus dias resumem-se a sobreviver e esconder um do outro o que realmente estão pensando. Tantas noites mal dormidas, tantas brigas por orgulho, tantas lágrimas derramadas. Por anos, eles permitiriam que a dor fizesse parte de suas vidas diárias, ignorando sua presença ainda que ela gritasse em seus ouvidos e açoitasse sua carne.
Se pudessem me ouvir, existe uma única pergunta que eu gostaria de fazer para a dupla de parvos.
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