Stalemate II.

20 XX. 24/08/20XX


Notas iniciais
Eu não morri! (Explico melhor sobre o futuro da fic aqui: https://www.spiritfanfiction.com/jornais/o-fim-de-stalemate-ii-11296317) É importante! Vou colocar nas notas finais também! O próximo capítulo será o ÚLTIMO da narração do Matt (não se preocupem, a narração do Mello terá um número bem menor de capítulos kkkk). Boa leitura!

Quanto mais tempo alguém permanece desaparecido, maior são as chances de nunca mais ser encontrado.

Parece algo óbvio, mas para mim não fazia o menor sentido. Como não encontrar alguém que está esperando ser encontrado? Como eu poderia simplesmente abandonar as buscas e me dar por vencido? Quem tinha o poder para me falar quando bastava de procurar?

Quando meus olhos desviavam do teclado, eu não podia evitar as perguntas. Será que Mello realmente queria ser encontrado? Ele realmente estava em apuros e precisava ser resgatado? Ou apenas não queria conversar comigo?

Ou talvez...

— Não. — falei em voz alta. — Não, não, não.

Comando não encontrado.

— Ele está bem, está tudo bem.

Comando não encontrado.

— Computador idiota.

Comando não encontrado.

Se não fosse o cigarro novo que Caster comprara naquele dia, eu já teria quebrado aquele monitor. Enviado por Mello, ele funcionava exclusivamente por comando de voz, mas a sensibilidade às minhas palavras era irritante.

Desviando o olhar da tela, minha atenção recaiu em uma maleta ao lado da cama. Mesmo depois de ler e reler centenas de vezes aquelas cartas, eu ainda não conseguia acreditar no que diziam.

07/08 (Dezessete dias antes)

— Você sabe como abrir? — Caster perguntou com a testa franzida.

Não me dei ao trabalho de responder. Não conseguia tirar os olhos daquela maleta preta.

Três dias antes eu acordara no quarto de Caster, exausto, logo após ser resgatado daquele porão terrível. E meu salvador foi ninguém menos que Mello, o bipolar. Eu não sabia mais o que pensar. Apesar de não estar ao meu lado quando abri os olhos, Mello ligou no celular de Caster, histérico.

Entre soluços, ele me contou sobre aquela maleta. Dentro dela, ao que tudo indicava, estariam as respostas para todos os meus questionamentos dos últimos meses. As brigas. Os sumiços no meio da noite. A indiferença.

Seria tudo um teatro, Mello? O que o meu desespero significou para você durante esse tempo todo?

Sacudi a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos. Haveria tempo para remorso depois.

A maleta estava, claro, trancada. O segredo consistia em um número com 4 dígitos.

Deixei minha mente flutuar. Mello jamais colocaria nossos aniversários como senha. Nossos números de celular e endereço mudavam o tempo todo e não seria prudente utilizá-los. O mesmo com números e senhas de cartões, contas e coisas do tipo.

Contra minha vontade, peguei-me pensando no ano de nosso primeiro beijo.

Não… Isso é algo que eu colocaria como senha. Não ele.

O que poderia ser então?

Se a maleta era para mim, como ele dissera, deveria ser algo que ninguém mais soubesse, certo? Algo que significasse muito para nós dois…

Com um estalo, uma ideia surgiu em minha mente. Mas não podia ser, era simples demais…

Ou podia?

Com os nós dos dedos, comecei a girar as rodinhas do segredo.

Mello sempre soube que a nossa vida seria a mais difícil possível. Estava predestinado, desde que nossos pais nos colocaram esses malditos nomes. A primeira letra de nossos nomes, a maldita mesma letra, é a décima terceira letra do alfabeto. Coincidentemente, ou não, um número frequentemente associado ao azar.

Respirando fundo, terminei de posicionar o último dígito.

1313

O tranca se levantou.

Meu coração disparou.

Lentamente, com medo de que a maleta pudesse conter algo frágil, abri a parte de cima.

Não havia nada além de cartas. Dezenas delas, de cores diferentes, escritas com canetas diferentes, sem qualquer tipo de ordenação. Em algumas havia datas, em outras ele mal terminara uma única linha. Em algumas, ainda, Mello claramente amassara com raiva e depois desamassara. Em outra ele desenhara uma taça gigante de vinho, com um laço alaranjado em volta, assinando seu nome embaixo.

Franzi o cenho. Mello nunca desenhava.

Uma das cartas, a que estava por cima de todas as outras, chamou imediatamente minha atenção por conta de um pequeno detalhe: era a única visivelmente dobrada. Como se quem a escreveu quisesse esconder seu conteúdo.

Confuso, ergui cuidadosamente o papel. Meus olhos se arregalaram, um caminho de eletricidade percorrendo minha nuca e arrepiando meus pelos.

A folha estava coberta de letras em vermelho. Pelo cheiro, eu sabia muito bem que aquilo não era tinta e fora escrito recentemente. As palavras me perdoa cobriam cada centímetro da folha, umas escritas sobre as outras, não necessariamente na ordem certa. Na borda inferior, em alguns pontos o papel parecia mais fino, como se alguém derramara gotas de água. Ou lágrimas.

Meus dedos estremeceram, ávidos para soltar a carta. Mas algo me prendia a ela. Algo ruim.

Senti uma mão em meu ombro, tirando-me do transe.

— Matt, não quer descansar um pouco? — Caster perguntou, cauteloso.

Dobrando a folha e colocando-a de lado, voltei minha atenção para o restante do conteúdo da maleta.

— Vou descansar assim que ler tudo isso. — Caster fez menção de tentar pegar uma carta, mas eu o impedi. — Só depois que eu terminar.

Ele revirou os olhos e foi para outro cômodo.

As outras cartas estavam, no entanto, escritas em código. Combinações aparentemente aleatórias de letras formavam páginas e páginas de uma escrita estranha, que variava de bela e cuidadosa para um garrancho praticamente incompreensível. No verso de uma delas, no entanto, Mello escrevera uma única palavra legível: notebook.

Foram os dois dias mais frustrantes da minha vida. Dia 09, finalmente, o notebook chegou. Apertei o botão de ligar às pressas, sentindo meu coração apertar no peito quando um rosto tão conhecido apareceu. Olhando diretamente para mim, ele perguntou:

— Qual é o meu nome?

— Mello… — sussurrei antes que pudesse me conter.

A tela escureceu. Desesperado, pressionei a tecla novamente. O mesmo vídeo se repetiu.

— Qual é o meu nome?

Fiquei em silêncio por alguns segundos, simplesmente observando seu rosto. Ele parecia… exausto. Bolsas pretas sob seus olhos, sua testa e seu pescoço sujos, cabelo bagunçado, rosto fundo… Meu estômago se contraiu em preocupação. Quando ele teria gravado aquele vídeo? O que aconteceu?

Em meu nervosismo, quase esqueci de respondê-lo.

— Mihael Keehl. — enunciei depois de me certificar que Caster não estava por perto.

O computador iniciou. Na área de trabalho, havia dois programas, um intitulado “M.K.” e o outro “Decodificador”. Deslizando o dedo com cuidado sobre o mouse, cliquei no primeiro.

Em um primeiro momento nada aconteceu. Segundos depois, no entanto, o rosto de Mello surgiu, parecendo ainda pior. Ele tentava sorrir, com a boca cortada e alguns machucados bem visíveis no queixo.

— Qual é o seu apelido?

A imagem, como antes, congelou. Desta vez não perdi tempo.

— Matt.

Seu sorriso se alargou.

— É mesmo você então, hm… Deve estar se perguntando o que é isso. Bom… — Mello respirou fundo, piscando muito. — Digamos que, depois de tantos anos convivendo com você, aprendi uma coisa ou outra sobre programação. Basicamente, esse computador responde à sua voz e somente à sua voz… Isso se eu fiz tudo certo. — acrescentou em um murmúrio, parecendo preocupado por um momento. — Andei gravando você falar a algumas semanas, me preparando caso… — ele hesitou. — Caso a reunião com S desse errado. Você ouvindo isso só prova que eu fiz alguma merda.

Sem pensar, ergui minha mão para a tela, tentando acariciá-lo. Então ele programou aquele computador para que aceitasse respostas específicas e somente na minha voz? Era impressionante, até para Mello.

— Nem sei por onde começar… — ele baixou os olhos. — Espero que quando ouvir isso você já tenha a maleta. Tem algumas cartas lá, mas… Bom… Eu não estava muito bem quando escrevi a maioria delas. Pode usar o programa Decodificador para ler as que estão criptografadas. Se não as tiver, tudo bem, esse vídeo vai explicar tudo. Quase tudo. — ele soltou a respiração, como se carregasse um peso. — Tenho duas horas para gravar isso, então… vou fazer valer a pena. — Mello ergueu o olhar, me hipnotizando com suas safiras. Fiquei sem ar por um momento. — Matt, se eu… se eu morri, me perdoa por falhar com você. Eu tentei e errei milhares de vezes, muito além do perdoável. Só estou gravando isso porque sei que você quer respostas, mas… Se eu estou morto, então não tem nada pra você aqui. Não posso te impedir de assistir isso, mas peço que veja como um encerramento, como uma chance para buscar outra vida. Não se envolva mais com pessoas como eu, Caster, Sid ou qualquer merda desse meio. Vá ser feliz. É meu último pedido.

Minhas mãos tremiam, meu coração disparava contra o peito. Eu não piscava, com medo de perder algo. O estado de Mello era… deplorável. Seu rosto parecia uma caveira.

— Mas se por algum milagre eu sobrevivi… Vamos nos encontrar em breve. Vou conversar com você, cara a cara, como deveria ter feito desde o início. Escrever, desenhar, gravar um vídeo… Nada disso é suficiente. Você merece mais.

Com um suspiro final, Mello afastou os fios de ouro dos olhos cansados.

E abriu o coração.

24/08 (Presente)

Era mais do que eu podia aguentar. Todas aquelas informações, simplesmente jogadas em mim sem o menor cuidado. Mesmo com todos os avisos do mundo, eu nunca estaria preparado para ouvir o que ele contou.

E mesmo assim, eu queria mais.

Tanto no vídeo como nas cartas, havia fragmentos. Mello tentou resumir ao máximo os acontecimentos dos últimos meses: o conflito na Wammy’s, os encontros, a chantagem… Ele havia aguentado tanto sozinho. Por quê? Claro que não sou um mestre quando o assunto é negociação, mas eu poderia ter ajudado em tanta coisa...

Perdoá-lo por tudo era mesmo o certo? Naquelas cartas havia explicações, mas nada que justificasse seus atos por completo. Ao invés de respostas, eu tinha ainda mais perguntas. Meu coração continuava com uma ferida muito aberta. Aquilo não era nem de longe suficiente.

Esfregando os olhos, tentei me acalmar. Não adiantava ficar remoendo as decisões de Mello. Ele estava vivo, eu tinha certeza.

Também conhecida no dicionário como esperança, mas isso é um mero detalhe.

Precisava encontrá-lo o quanto antes, mas não conseguiria fazê-lo sem o auxílio de Caster.

A porta abriu-se as minhas costas. Falando no diabo…

— Matt! — ele sussurrou apressado, fechando a porta e correndo até mim. Estava tão animado que nem se deu ao trabalho de sentar. — Alguns “amigos” de Sid vieram conversar comigo. O cara enlouqueceu, perdeu centenas de milhares de dólares juntando o que gastou no cassino, com prostitutas, drogas e sei lá o que mais. Os que estão do nosso lado ouvem a mesma coisa aqui e ali: não tem mais dinheiro entrando. Depois da última cagada dele na semana passada, é oficial: temos a maior parte do pessoal dele à nosso favor.

— Quantos? — perguntei, também me levantando. Caster colocou a mão sob meu braço e me guiou até a cama. Minha prótese bateu na quina, mas, claro, não senti quase nada. Perder o pé tem suas vantagens.

— Ainda não tenho certeza, eles estão desorganizados, com medo de falar. Não sabem em quem confiar.

Assenti devagar, imaginando as possibilidades.

— Eles precisam de um líder. — Caster reforçou, sorrindo.

Levantei as mãos em protesto.

— Nem pensar, não, não. Se me verem agora vão contar para o Sid. E vai tudo por água abaixo.

— Mas, Matt--

— Pode esquecer. Relaxa, tenho uma ideia melhor.

Ele ficou esperando que eu explicasse, mas meu plano para acabar com Sid podia esperar alguns minutos. Havia outra coisa cutucando minha cabeça por dentro.

— Caster… Posso perguntar uma coisa? É sobre o Mello.

Por um momento pareceu que ele diria algo, mas ao olhar para mim mudou de ideia. Suspirando, respondeu:

— Claro, Matt. O que foi?

— Você sabia pelo que ele estava passando. Pelo menos em parte e não adianta negar. Sabia que Salazar queria me matar para atingi-lo e por isso Mello te colocou para me seguir. Na cabeça dele, isso me protegeria. Ele também… ah, você sabe o resto. — Caster ficou em silêncio, apenas me observando. — Como alguém que viu tudo isso acontecer pôde… — apoiei a cabeça nas mãos, tentando encontrar as palavras certas. — Por que continuou ajudando ele? Foi mesmo só pelo dinheiro?

— Você até que fica fofo com esse olhar desamparado. — ele riu, esperando que eu fizesse o mesmo. Não funcionou. — Olha… — Caster passou os dedos pelo cabelo coberto de gel, claramente desconcertado. — Não foi só por isso, apesar de ser o principal motivo. Mas digamos que… Eu entendo o que Mello fez. Entendi o que ele pretendia na época e entendo agora. Não quero dizer que concordo ou que se estivesse na posição dele faria o mesmo. Digamos que, depois de todos esses anos, acabei gostando de vocês dois. Um pouco. — ele sorriu. — Foi o modo que encontrei para ajudar os dois. Não saiu como eu esperava.

— Se estivesse no meu lugar, o que você faria?

Ele manteve os olhos baixos e a testa franzida.

— Como assim?

Apertei as mãos por um momento, antes de soltar meus dedos com uma exclamação de dor. As pontas praticamente sem unhas continuavam sensíveis.

— Acha que Mello merece outra chance?

— UOU. — Caster soltou o ar e se abanou como se estivesse com calor. — Essa bomba veio do nada.

Continuei sério, esperando ele responder.

— Bem… Isso depende dele. Como eu disse antes, entendo o que ele fez e por que fez. Mas não precisava ser assim, entende? Se desde o início ele tivesse simplesmente se aberto com você, teria evitado muito problema. — Caster colocou a mão sobre meu ombro. — Vocês precisam conversar. Olho no olho. Faça Mello falar primeiro e, se ele só pedir desculpas mas não se comprometer a pelo menos tentar mudar… Então simplesmente não vale a pena. Relacionamentos são difíceis, Matt, muito difíceis. E se uma das partes não está disposta a melhorar pela outra… Então fica impossível.

Palavras me faltaram para respondê-lo.

— Uma coisa de cada vez, ok? Primeiro vamos nos concentrar em encontrá-lo. Qual o seu plano?

Com uma força mental que eu nem acreditava possuir, empurrei aquela dor incômoda para o fundo da mente. Mello nem estava presente e mesmo assim conseguia me ferir. Vergonhoso, para dizer o mínimo.

Foco, Matt. Foco.

Finalmente, depois de horas, resolvi com Caster e com alguns membros da máfia próximos a Sid sobre o que faríamos com ele. Dali dez dias, o atual “líder” estaria de volta depois de uma viagem de avião de 20 horas. Exausto, ficaria mais vulnerável. Nesse meio tempo, Caster e eu prepararíamos o cenário para o show.

Estou indo, Mello. Por favor, não desista agora. Só mais um pouco e tudo estará acabado.

De uma maneira ou de outra.

Notas finais
(Explico melhor sobre o futuro da fic aqui: https://www.spiritfanfiction.com/jornais/o-fim-de-stalemate-ii-11296317) É importante, não deixem de ler! Pretendo postar dois capítulos semana que vem. Bjss
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.