Stalemate
23 XXIII. Beijo de chocolate.
Notas iniciais

Mello estava mentalmente exausto. Havia passado as últimas quatro horas se remoendo em seu quarto, mergulhado em pensamentos. As vozes em sua cabeça eram tantas e tão altas, que ele se surpreendeu por não ter enlouquecido ainda. O que elas lhe diziam era tão impossível e ao mesmo tempo tão óbvio, que sua mente doía.
Ei, Mello, adivinha só! O Mail gosta de você!
Merda. – foi seu pensamento imediato.
Aquele ruivo... Há quanto tempo estaria interessado nele? Como conseguira esconder algo tão importante? Ou melhor, por que não lhe contara nada? E ainda, se estava com aqueles sentimentos dentro de si, por que namorara por tanto tempo com Sebastian?
Não importa... – Mello dizia a si mesmo. Aquele era o fato, independente do que o loiro pensava ou sentia.
Mello, abra seus olhos. – a frase de Near, que por tanto tempo lhe parecera um dos mais complicados enigmas de sua vida, agora fazia total sentido. Mas era tão diferente do esperado que, se aquela cena com o violão não tivesse acontecido, o loiro jamais teria adivinhado.
As lembranças de Mello convergiram para outra ocasião, no dia do ataque respiratório de Mail. Após ter terminado a respiração boca a boca, Mello pôde claramente ouvir o colega de quarto sussurrar: ‘’Espera... ‘’, como se quisesse mais. Naquele momento, por estar tão preocupado, o mais velho não deu tanta atenção ao assunto. Agora, criticava-se por não ter percebido antes.
Outras imagens cruzaram sua mente, um tanto mais antigas. A expressão triste e o sorriso forçado de Mail quando Mihael conversava com alguma garota (ou garoto, algumas vezes); a mania que o colega de quarto tinha de querer agradá-lo o tempo todo, comprando chocolates, fazendo chocolate quente, confortando-o em seus surtos de inferioridade; o modo como o ruivo o encarava fixamente, durante vários segundos, até Mello perceber e lhe perguntar o que havia de errado (o que o ruivo sempre respondia com evasivas) ...
Ah merda... Então aquelas brincadeiras pervertidas... Ele estava falando sério? – Mello engoliu em seco, em pânico só de pensar na possibilidade.
Estando farto de tantas indagações rodeando sua cabeça, ele decidiu fazer uma visita (super) rápida a uma das únicas pessoas que sabiam sobre o segredo de Mail. Ou seja, seu maior rival.
Não se pode dizer que fora uma conversa agradável.
– Eu não entraria aí, se fosse você. – um menino loiro, de olhos azuis escuros e cabelos cacheados o aconselhou. – Ele está de mau humor.
Mello olhou com relutância para a porta aberta ao seu lado. Near montava uma torre de dados após a outra e, logo que acabava, as derrubava com um chute. O loiro estranhou. Nunca o vira fazer aquilo.
– Não tenho medo dele.
– Pois deveria. Ontem, depois de visitar o Matt, uma menina veio conversar com ele e...
– Eu posso ouvir o que dizem aí fora, sabiam? – A voz de Near foi ouvida, um tanto ríspida.
Mello franziu o cenho e entrou. Fechou a porta com pouca delicadeza (quase na cara do outro menino) e se aproximou sem rodeios.
– Você sabia. – era uma afirmação, não uma pergunta. O menor se virou e lhe dirigiu um olhar que Mello não soube interpretar muito bem. Raiva? Tédio? Acusação? Aqueles olhos cinzentos misturavam sentimentos reprimidos com o mais denso nada, o que deixava qualquer um confuso.
– É claro. Diferente de mim, você e Matt não sabem controlar as emoções. – ele chutou mais uma torre de dados. Colocara tanta força naquilo que Mello perguntou se seu pé descalço não estaria dolorido.
– Você não parece tão calmo assim.
– Não sei do que está falando.
O loiro suspirou. Aquele anão mentiroso.
– Por não me contou?
– O que você acha que foi o anagrama?
– Um trabalho patético, digno de uma criança.
– Exato. – seu pescoço se virou novamente e, por um segundo, seu olhar era idêntico ao de Ryuuzaki, que Mello lembrava tão bem. – Eu dei a frase para uma das crianças mais novas e ela criou aquilo. Achei que assim você levaria mais a sério.
– Como eu levaria aquilo a sério?! – os dentes de Mello estavam trincados. Ele já não sabia se Near estava falando com seriedade ou se estava apenas brincando com ele, como se fosse uma peça de seus quebra cabeças idiotas.
– Quanto mais estranhas as coisas lhe parecem... Mais elas te fascinam, Mello, do jeito bom ou do ruim
Pronto. – Mello pensou. – Já começou com os enigmas ridículos.
– O Matt... te disse mais alguma coisa?
O pequeno começou a enrolar uma mechinha de seu cabelo alvo e ajeitou a manga da camisa larga.
– Nada que seja do seu interesse. – e voltou os olhos para frente, ditando de modo que a conversa estava encerrada.
Por milagre, Mello não havia discutido. Não estava com paciência para pensar nas palavras do albino, não naquele momento. Precisava de outra fonte de informações e, infelizmente, só lhe restara uma opção.
Teria de falar com Sid.
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– Você só pode estar brincando, loira!
O moreno estava recostado em sua poltrona favorita, saboreando uma garrafa de cerveja. Assistia tranquilamente a um jogo de tênis quando o loiro entrou, dando algumas indiretas sobre o comportamento de Matt. Do outro homem, Caster, não havia sinal, mas vários tubos de gel vazios enfeitavam o chão.
Eles começaram a conversar. Mello confirmara coisas de que suspeitava há certo tempo e descobrira outra que não tinha nem ideia. Pelos relatos de Sid, Mail, desde os quinze anos, o visitava para falar de Mello, lamentando suas tentativas inúteis de chamar a atenção do loiro (Sid contara essa parte com tanto descaso que Mello teve de se controlar muito para não soca-lo). Também ficou sabendo que um dos motivos do moreno não ter lhe dito nada era porque Mail lhe pagava para isso. O loiro ficou furioso e exigiu que Sid devolvesse cada centavo ao ruivo. O homem, é claro, recusou.
– Então eu vou receber cem por cento do lucro do próximo trabalho. E você vai ter de fazer um servicinho de graça pra mim, sem reclamações... Ou nossa conversa acaba por aqui.
Pelo tom de Mello, a ameaça ficou claramente subentendida. Ou Sid cooperava, ou o loiro estava fora de seus trambiques. E isso era algo que esvaziaria significativamente os bolsos do mais velho.
– Argh! Você é irritante, loira... Tudo bem, o que quer?
– Na hora certa você vai saber. – ele riu de modo sombrio, mil possibilidades passando por sua mente. – De qualquer forma, não foi pra isso que eu vim... – ele fez uma pausa, desviando convenientemente o olhar. – Você sabe por que... o Matt namorou com aquele cara?
– O anão? – Sid andava bem informado. – Não é óbvio? Achei que você era um dos nerdzinhos... – ele riu com gosto e abriu outra garrafa. – A ruivinha fez isso pra tentar te esquecer, claro.
Mello olhou para o céu azul do lado de fora, um tanto melancólico. Como não percebera antes? Foram tantos avisos, tantos gestos e palavras que poderiam lhe indicar os sentimentos do outro... Sentia-se um idiota.
– Ei, não precisa se torturar por causa disso. – Sid pareceu ler seus pensamentos. – Matt fazia de tudo pra esconder de você. Eu também não teria percebido.
Mello suspirou e pegou uma barra de chocolate ao leite do bolso da jaqueta. O cacau derreteu em seus lábios, acalmando-o mesmo que por alguns segundos, permitindo-o organizar seus pensamentos.
Tudo bem, o Mail gosta de mim... Tanto Near quando Sid já sabiam, mas, aparentemente, eles são os únicos... Ele tentou fazer aquilo, mas alguma coisa o deteve... E então agora...
Então agora... o que?
– UGH! Não tem UMA mulher bonita hoje e os caras são ainda piores! Que inferno, vou ter que esperar até a noite para... – Caster, que entrava aos tropeços no cômodo, trajando uma camiseta com os dizeres I ♥ puppies e passando uma quantidade generosa de gel no cabelo, estancou ao ver o loiro. – Mello! O que te traz aqui tão cedo?
O loiro não disse nada e, portanto, Sid o colocou a par dos acontecimentos. Basicamente, disse algo como: Ele descobriu que o ruivo quer o corpo dele nu. Preciso de mais cerveja.
Caster não tirava os olhos de Mello, que sentia o rosto um pouco quente e engolia em seco de vez em quando. Este fitava a janela com um ar nostálgico, lembrando das várias vezes em que Mail se insinuara para ele, afirmando estar brincando. Mihael, na época, achara as brincadeiras estúpidas e sem sentido. Agora compreendia seu verdadeiro significado.
– Loira... Loira! – Caster precisou chamar por algum tempo para Mello se virar. O homem passava outra camada de gel no topete escuro. – Já decidiu o que vai fazer sobre isso?
Mello negou com a cabeça. Andava evitando pensar no assunto. A única certeza que tinha era a de que precisava fazer alguma coisa, mas as ideias em sua cabeça o deixavam... incomodado. Uma pequena e ínfima possibilidade estava alfinetando sua mente desde que descobrira sobre os sentimentos de Mail, mas ele continuava a afastá-la. Tinha de haver outra alternativa.
– Huhuhu... – Caster riu da expressão do loiro, sendo acompanhado por Sid. Mello ergueu uma sobrancelha.
– O que é tão engraçado?
– Eu não acredito nisso... Olha a cara dele! – Sid gargalhava e bebia o último gole da garrafa.
– Matt vai ficar tão feliz! – o cara do gel parecia nas nuvens. Mello se levantou.
– DO QUE VOCÊS ESTÃO FALANDO?
– De você e ele! – Caster ergueu-se e colocou as mãos em seus ombros, encarando os olhos azuis com uma animação ainda mais viva que a de uma criança. – Mello, você se apaixonou por ele e nem percebeu!
O coração do loiro disparou no peito, seus olhos arregalaram-se. Por que sentia-se tão encurralado?
– V-você bebeu? Me solta! – ele se desvencilhou daquele aperto, caminhando a passos firmes para a porta. Tinha prometido visitar Matt antes da cirurgia e era o que faria.
– Vai visita-lo no hospital, loira? – Sid perguntou às suas costas e Mello hesitou por um segundo, horrorizado. – Acertei? Sério?!
Ele bateu a porta com toda a força e desceu as escadas de dois em dois, atingindo o nível da rua antes de diminuir o passo. As casas passaram lentamente por ele, ficando para trás. O próprio tempo pareceu retardar, permitindo que pensasse com mais clareza.
Mello, você se apaixonou por ele e nem percebeu!
Ridículo.
Patético.
Sem fundamento.
Quer dizer... Mail era um cara, certo? Seria bizarro se ele tivesse algum sentimento estranho pelo ruivo... não seria?
Foi quando o loiro se deu conta. Jamais havia se apaixonado verdadeiramente por alguém antes. Não fazia ideia de como era a sensação. Todos os seus casos, todos os namoros e relacionamentos pelos quais passara não eram nada mais do que um passatempo, uma diversão momentânea. Ele poderia muito bem estar gostando de alguém há tempo, sem quer se dar conta.
Não se desespere, Mello. – ele pensou. – Respire fundo e pense. O que está sentindo agora?
Coração acelerado. Respiração alterada. Uma dor estranha no peito, como se faltasse um pedaço. Garganta seca. Dedos das mãos trêmulos e uma vontade absurda de morder o lábio inferior.
Não... Não podia ser. Aquilo estava mais para alguma doença viral ou algo do tipo. Não podia ser amor, o sentimento maravilhoso, idiota e perfeito de que todos falavam.
Mello revirou os olhos e pegou outro chocolate, jogando a embalagem do anterior no chão. Tentou se concentrar em uma sensação particular e expandir sua visão a partir dali. Seu peito. Era quase insuportável o que sentia ali. Seu corpo estava chamando por algo que ele não fazia ideia do que poderia ser, e Mello o calava com barras e barras de chocolate.
O que eu quero? Neste momento... o que eu mais sinto vontade de ter?
O loiro ergueu o olhar para o prédio da Wammy’s que se projetava diante dele. Passou pelos portões sem prestar atenção e atravessou os jardins escuros. Sabia que deveria esperar até o dia seguinte para ir visita-lo, mas não conseguia esperar. Era como se seus pés tivessem criado vida e só soubessem caminhar em uma direção: na de Mail.
Sem sucesso, Mello tentou esvaziar a mente enquanto subia os dois lances da escada de mármore. Seus passos ecoaram em seus ouvidos durante todo o trajeto até a enfermaria, que agora estava apenas alguns metros à frente. Mais silenciosamente do que se achava capaz, Mihael andou por entre os corredores do mini hospital e virou à esquerda. Diante da porta aberta do quarto, ele hesitou, pensando que merda estava prestes a fazer e se não seria melhor dar meia volta, mas era tarde demais. Mail o vira.
– Mello! – ele exclamou com um sorriso, em uma mistura de alegria e alívio. Estava sentado na cama de lençóis brancos, as pernas balançando divertidas no ar enquanto a enfermeira dava espaço para Mello entrar e deixava apresada o quarto. Seus olhos verdes brilhavam como os de uma criança e o mais velho não pôde evitar o sorriso de canto.
Ele não me odeia... E veio me ver! – Matt precisava se controlar ao máximo para não tornar seus pensamentos audíveis. Estava transbordando de emoção por dentro.
– Oi. – Mello olhou constrangido para o lado.
Estava mais do que claro que ele ficaria com vergonha depois do que Mail fizera, mas este estava decidido a não deixar o clima estranho.
– Sabia que eles suspenderam a morfina há uns dias? Cara... era tão bom. – Ele conversava despreocupado, tentando fazer Mello relaxar.
Seu sorriso desapareceu ao olhar para o loiro.
Mello estava à beira de um ataque de nervos. Algumas situações constrangedoras (antes inexplicáveis) ainda enchiam sua cabeça, sem deixa-lo raciocinar. Suas emoções estavam, novamente, fazendo de tudo para tomar o controle, e faltava muito pouco para que ele cedesse. Sentir algo que não sabia explicar deixava-o furioso, quase enlouquecido. E, sem querer, quando estava prestes a mandar o mundo inteiro tomar naquele belo lugar, uma memória específica veio à tona, tão clara que o surpreendeu. Ironicamente, era uma lembrança de Sebastian, ex-namorado de Mail.
Ele só está preocupado com você porque acha que vai morrer. Quando você sair daqui, tudo vai voltar a ser como antes.
Aquilo era tão injusto e irritante que Mello teve ainda mais vontade de gritar. Sempre se preocupara com Mail e sempre iria se preocupar. Além disso, era ele quem decidia se as coisas continuariam a ser como eram ou não.
E, naquele momento, Mello foi capaz de decidir. Finalmente soube dizer o que ele mais queria.
Eu quero mudar as coisas.
– ... Mello?
Se ainda estivesse sob o efeito da morfina, Mail acreditaria que tudo o que aconteceu em seguida não passou de uma alucinação. O loiro avançou e o tempo desacelerou. Mail pôde claramente vê-lo dar dois passos e se curvar alguns centímetros para frente, de modo que seus lábios tocassem os dele.
Se Mail estivesse morto, ele desejou nunca retornar. Se estivesse sonhando, pediu para não acordar. Os lábios macios de Mihael eram mais doces do que qualquer outra coisa que ele já havia experimentado na vida. Qualquer que fosse a sensação de beber do mais delicioso vinho e comer a mais saborosa fruta, ele podia garantir que não chegava aos pés do que estava sentindo. Aqueles lábios, ao encaixarem entre os seus, faziam seu coração querer sair do peito. O gosto de chocolate que sua língua experimentou, ao ser tocada pela de Mello, fez um surto enorme de adrenalina, semelhante a um choque elétrico, percorrer seu corpo, fazendo-o acreditar que a qualquer momento fosse virar manteiga.
Impulsionado pelo momento, Mail se ergueu de um pulo, fazendo vários fios conectados a ele escaparem. As máquinas ao redor de seu leito começaram a apitar, principalmente a que media seu coração, que batia perigosamente rápido. Ele mal as ouviu. Seus braços passaram velozes pela cintura de Mihael, prendendo-o em um laço apertado. O loiro, sem se importar que a porta estivesse escancarada, envolveu o pescoço do mais novo com igual entusiasmo, aumentando o contato entre as bocas. Mail detinha total domínio do beijo, sensação que Mello experimentava pela primeira vez. Sentia a língua afoita do outro acariciar a sua, deixando-a mais úmida do que já estava. Podia ouvir o mais novo suspirar audivelmente entre seus lábios, como se estivesse com dor, mas podia apostar que não era isso. Mail estava deliciando-se de tal forma que sequer percebia o barulho que estava fazendo, como um animalzinho saciando sua sede.
Mail fazia o possível para se conter, mas aquilo estava além de seu controle. Mello havia cedido. Havia se entregado a ele. Estava em seus braços, totalmente impotente, respondendo a cada toque de modo ainda mais eufórico. Não fazia nenhuma tentativa de escapar ou de fugir, apenas permitia que Mail fizesse o que bem entendesse. Nem sequer tentava batalhar pelo domínio, o que realmente surpreendeu o ruivo. Ao que tudo indicava, Mello gostando de ser dominado daquela maneira, e muito.
O loiro não percebera, mas havia começado a ofegar. Suas mãos trilhavam quase que automaticamente o caminho do pescoço para os cabelos de Matt e daí para suas bochechas, o que fazia o ruivo se arrepiar da cabeça aos pés. Sentia o rosto e os lábios formigarem com aqueles toques tímidos e delicados de Mello. Seus braços, postos em X ao redor do mais velho, apertavam os lados da cintura magra com firmeza, sem poder acreditar que estava realmente ali e que aquilo estava realmente acontecendo. Mesmo sendo algo totalmente não planejado, eles se moviam em uma sincronia tão perfeita e aprofundavam o contato com tanta determinação que Mail quase acreditou que estava sonhando.
Se fosse verdadeiramente um sonho, ele com certeza o faria durar mais do que nove segundos e definitivamente não faria enfermeiros aparecerem para separá-los.
– Mello... – uma ponte de saliva os conectou por alguns segundos, antes de serem bruscamente afastados.
Os enfermeiros e médicos responsáveis por Mail, após estancar por alguns segundos à porta, um pouco surpresos, começaram a agir como profissionais. Usaram a força para separar os dois adolescentes no cômodo, sendo preciso quatro homens para conter o mais novo, que não parava de se debater.
– ME SOLTA! NÃO!
– PARA COM ISSO, MATT! – a voz do loiro, que soou como uma ordem, foi mais do que suficiente para fazer o outro estabilizar. Eles o deitaram na cama e injetaram alguma coisa em sua veia. – E-eles tem razão... – Mail quase levantou de novo. Desde quando Mello era tão calmo? – Você precisa descansar...
– Mas...
– Boa sorte amanhã, tá? – Mello lhe deu um sorriso largo e raro, o que destruiu qualquer ideia de Mail em tentar lutar. Por um momento aquele loiro parecia o mesmo de quando eram crianças: feliz, inocente e sem qualquer peso na consciência.
– O horário de visitas acabou. – Uma mulher mais velha, de expressão entediada, quase chutou Mello para fora, que precisou conter o impulso de lhe dar uma bofetada. Relutante, acenou para Mail e deixou o quarto, sentindo lentamente o peso do que fizera subir pelo rosto e aquecer suas bochechas.
No quarto, os enfermeiros restantes arrumavam os fios conectados ao corpo de Mail. Se eles diziam algo ou o repreendiam por alguma coisa, o ruivo estava pouco ligando. Sua mente estava muito, muito longe.
Lentamente, Mail ergueu a mão até seus lábios e os tocou com o dedo indicador, sorrindo ao perceber como estavam úmidos.
Apenas uma parte dele ouviu um dos médicos sair murmurando:
– Adolescentes idiotas.
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