Stalemate
22 XXII. Amarga esperança.
Notas iniciais
O ruivo estava tonto, muito tonto. Parecia que um martelo de cinquenta quilos tinha caído por acidente em sua cabeça, prejudicando seu senso de direção. Ele não sentia dor. Na verdade, não sentia nada. Era mais um desconforto, como se mil drogas tivessem sido injetadas ao mesmo tempo em seu organismo. Tinha consciência de uma voz chamando-o, mas estava muito distante. Tentava responder, mas a voz não parecia ouvi-lo. Mail lutou contra a vontade de adormecer que os remédios lhe proporcionavam e forçou-se a abrir lentamente os olhos. Um teimou em permanecer fechado e Matt achou melhor não forçar.
A primeira coisa que viu foi muito, muito dourado. Ou Mello o olhava com a cara quase colada em seu nariz ou estavam prestes a asfixia-lo com uma cartolina brilhosa.
– E aí Mello... – ele sorria abertamente, as pálpebras um tanto caídas, como se fosse adormecer a qualquer momento. – Sua cara tá horrível.
Era verdade. O cabelo dourado, antes meticulosamente arrumado, estava desgrenhado e desarrumado em ângulos estranhos. Um par de olheiras escuras projetava-se sob os belos olhos azul-bebê, lhe dando a aparência de um lunático bonito. Seus lábios estavam rachados e, mesmo Mello tendo poucos pelos faciais, uma barba ralinha envolvia seu queixo.
O loiro riu de alívio. Pelo visto Mail não perdera a capacidade de insultá-lo.
– Devia se olhar no espelho antes de dizer isso.
– Eu dispenso, mas agradeço a oferta. Há quanto tempo me fiz de Bela Adormecida?
– Três dias.
– Nossa... – Mail fez menção de se esticar, mas ainda estava muito mole. Apenas sorriu como um babaca e Mello o acompanhou.
– Ahn... Matt, eu...
O que quer que fosse dizer, foi interrompido pelo barulho da porta. Um senhor de meia idade, com altura mediana, entrou no quarto, a expressão sombria. Tufos de cabelos brancos enfeitavam o topo de sua cabeça com forma oval. Sobre os ombros, um casaco marrom de couro, parecendo custar mais do que qualquer outra coisa na sala, o aquecia do frio. Em sua mão jazia um notebook com a letra L em uma grafia estranha.
O homem era Roger Ruvie. Ele era responsável pelo orfanato na ausência de Watari, mas este raramente deixava o instituto em suas mãos, devido à sua péssima capacidade para lidar com crianças.
Pelo visto, o caso em que L está é realmente complicado... – Mello pensou com uma curiosidade súbita. – Watari não volta há meses e ainda deixa esse cara no comando!
– Roger. O que aconteceu?
– Watari queria falar com o Matt assim que ele acordasse. – disse simplesmente e estendeu o aparelho para o ruivo. Este piscou algumas vezes e olhou suplicante para Mello.
– Eu seguro. – fuzilando o senhor de idade com o olhar e arrancando (com delicadeza, claro) o laptop de suas mãos, Mello o posicionou de modo que a tela ficasse de frente para o gamer.
– Olá, Matt. – a voz no aparelho estava drasticamente deformada. – Aqui é Watari. Estou usando a linha direta de Ryuuzaki para maior segurança e sigilo. – houve uma pausa do outro lado e Mello pôde jurar que o diretor estava contendo as lágrimas. – Fico aliviado que tenha acordado e esteja em ótima companhia. – talvez fosse apenas impressão, mas o loiro pensou ter visto um resquício de sorriso nos lábios do colega de quarto. – Queria poder conversar mais, mas receio que nosso tempo esteja acabando... – aquela frase foi tão sombria e o silêncio que se seguiu tão longo, que Mello imaginou quais significados haviam por trás daquelas palavras. – Sempre fui muito liberal com você, Matt. Com Mello e Near também. Vocês são meus preferidos e não vou negar isso. Mas foi um erro deixa-lo tão livre, Matt. Tenho que lhe pedir para que não volte a fumar outra vez, não só pela sua própria saúde, mas pela de todos neste orfanato. Considere isso como um pedido de pai para um de seus filhos mais queridos.
Os ombros de Mail se tencionaram, cheios de culpa. O ruivo agora via claramente o dano que causara. Não apenas a si mesmo, mas a todas as crianças ao redor, que se tornaram fumantes passivas. Obviamente ele não era o único com tais hábitos, mas os funcionários sempre foram muito brandos com ele. Antes, o ruivo achava ser sorte, mas agora entendia o real motivo.
– Eu vou parar, Watari. É uma promessa.
– Se ele pegar outro cigarro... Eu soco o olho bom dele. – Mello sorriu, sendo acompanhado pelo mais novo. Até Watari se permitiu rir um pouco. Roger parecia entediado.
– Você vai cuidar dele melhor do que ninguém, Mello. – o loiro sentiu aqueles olhos verdes o observando e desviou o olhar para um canto subitamente interessante, constrangido com não se sabe o quê. Watari pareceu perceber o desconforto no silêncio, pois imediatamente acrescentou: — Bom, isso é tudo. Se cuidem vocês dois. Roger, preciso dar uma palavrinha em particular com você...
O senhor idoso, depois de arrancar (com ainda mais delicadeza que o loiro) o laptop das mãos do outro, saiu aos tropeços da sala, deixando uma atmosfera tensa para trás.
Mail logo tratou de quebrar o gelo, perguntando como estavam as aulas e o que Mello andara fazendo enquanto ele estava apagado. O loiro não mencionou algumas coisas, como o fato de ter dormido ali durante aqueles dias ou o de ter assassinado à sangue frio os agressores de Matt.
Haveria tempo depois para as boas notícias depois.
O assunto foi o de sempre. O novo misterioso caso de L.
Havia meses que o orfanato percebera algo errado. Watari não voltava. L não os contatava para ajuda-lo a resolver algum enigma ou lhes dar charadas complexas para solucionar. Os funcionários estavam tensos, olhando sempre para os lados como se um monstro fosse sair da parede e atacá-los. Quando eram indagados sobre isso, fingiam que tudo estava bem e sorriam tranquilamente.
Um dos garotos mais velhos, Jaden, conseguira arrancar uma única informação de um dos monitores recém-contratados. Este lhe disse que havia um serial killer à solta, mas afirmou não saber mais detalhes. A maioria das crianças não entrou em pânico, mas muitas cochichavam pelos cantos, alarmadas. L já havia capturado dezenas de criminosos, colocando-os atrás das grades com tanta rapidez que era invejado pela polícia. O que havia de diferente naquele assassino? Seria alguém capaz de ofuscar o grande L? Estaria o detetive em apuros, perdendo para um sujeito com tanto sangue nas mãos?
Mihael e Mail não concordavam com os boatos e, mesmo que não soubessem, Near também não. Os três acreditavam veemente no potencial dedutivo do ícone daquela instituição e tinham certeza (principalmente Mello e Near) de que ele iria encontrar uma maneira de derrota-lo, não importando quem fosse. Era tudo uma questão de tempo.
– E... você tem falado com o Near? – Matt perguntou timidamente, receoso de ter feito a pergunta errada. Talvez nunca admitiria em voz alta(e tivera muito trabalho em admitir para si mesmo), mas tinha uma raiva sem fundamento pelo anão, desde o dia em que este lhe entregara o anagrama.
Não... Não é sem fundamento. – Mail pensou naquela fração de segundo. – Eu sei Near... Eu sei o que você tenta esconder sob essa máscara. Eu posso ver as rachaduras na superfície. Posso ver suas pequenas ações desesperadas. Não vai conseguir esconder nada de mim... Não vou permitir que fuja das minhas perguntas...
E não vou deixá-lo ter o que deseja.
– Na verdade não. – Mello franziu o cenho. – Ele anda meio... sumido. Não que seja muito visível normalmente, mas eu acho que ele sabe alguma coisa... – Mello se aproximou a baixou a voz, o que fez o coração de Mail começar a sapatear. – ... sobre o caso em que L está trabalhando.
– Gãh... – foi a coisa mais inteligente que conseguiu dizer com o loiro tão perto.
Como que para azedar o dia de Mail e dizer Há! Hora de fazer do seu dia um inferno!, o destino resolveu fazer Sebastian entrar exatamente naquele momento.
Da visão do namorado de Mail, a situação não podia ser pior. O loiro, aquele loiro, havia sido o primeiro a falar com o seu Matt, logo após ele acordar. Ninguém havia dito a ele que o ruivo estava acordado, mas aquela...coisa... já estava lá. E não era apenas isso. Mello estava totalmente debruçado sobre o cara que ele amava, com o rosto mais do que perto ao dele. Não é de estranhar que ele tenha chegado à conclusão de que os dois estavam se beijando.
– Matt... – ele falou, mas sua voz estava tão fraca que precisou dar um soco na porta aberta para ser ouvido. O movimento fez doer cada parte de seu corpo, mas ele mal se importou.
Quando Mello se virou, decidiu que já era o suficiente de pessoas esfarrapadas pelo resto do dia. Sebastian não estava ruim como Mail, mas não era como se pudesse ir saltar de bungee jump. Usava as roupas brancas da enfermaria sobre uma quantidade feia de hematomas e cortes, que já estavam em fase de cicatrização. Uma marca mais visível, na bochecha, que ia do lábio superior até o lóbulo esquerdo, estava a ponto de sangrar (ou assim parecia a Mello). Seu braço pálido e ligeiramente inchado estava envolto em uma tala. No resto, em geral, não havia com o que se preocupar.
Para Mello, ele estava ótimo daquele jeito.
– Mello... – o ruivo perguntou com cautela, sem tirar os olhos do moreno cujas íris de mel lacrimejavam. – Pode sair um minuto?
Os lábios do mais velho se abriram, prontos para dizer NÃO! ,mas algo o deteve. A conversa parecia realmente importante.
Bufando e revirando os olhos, ele deixou o quarto, sentando em um banco de espera e fitando um ponto aleatório.
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A conversa durou mais que um minuto.
Quando já se passara meia hora, Mihael estava no limite de sua paciência. Ergueu-se de um pulo e entreabriu a porta que o separava do quarto, espiando o que se desenrolava. Sebastian estava de pé, de costas para a porta, gesticulando com as mãos. O loiro agradeceu mentalme4nte por aquela não ser uma das roupas de hospital que era aberta atrás.
– ... não merece você! Qual o seu problema, Matt? – pelo tom, ele parecia estar desesperado para se fazer entender. Soluçando, ele se sentou na cama da enfermaria, no espaço ao lado de Mail, e deitou a cabeça em seu peito. O ruivo fez um tremendo esforço para erguer a mão e pousá-la sobre os cabelos azuis escuros, sorrindo com tristeza.
– Eu não queria isso, Sebby, de verdade. Preferia arrancar essa... essa coisa idiota de mim e jogar longe, mas... Não dá. Eu já tentei. – ele respirou fundo, movendo os dedos como podia. – Não posso continuar assim. É injusto com você.
O baixinho soluçou mais alto, mas parecia compreender, pois assentia com a cabeça enquanto o outro falava.
A curiosidade de Mihael estava nas alturas. Se ouvisse mais alguma informaçãozinha...
– Você sabe, né... – Sebastian se sentou, os olhos mel cheios de lágrimas fixos nas esmeraldas. – ...que ele só ‘tá preocupado com você porque acha que vai morrer. Quando você sair daqui, tudo vai voltar a ser como antes.
– Eu sei. – Matt suspirou e baixou os olhos para o próprio colo. Eles se abraçaram e permaneceram assim por algum tempo, o suficiente para Mello retroceder vários passos. Sentia-se um intruso. Sabia que não devia estar ouvindo aquilo. E, ao mesmo tempo, tinha quase certeza de que aquela conversa referia-se a ele.
Sem pensar, o loiro se virou e correu para longe dali. Estava sufocando. Precisava de um... de uma... precisava...
... do que?
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Mail estava internado havia um mês.
Estavam em meados de novembro e a melhora em seu corpo era impressionante. Vários hematomas haviam desaparecido. O inchaço em seu olho direito sumira quase que por completo e seus ossos e músculos estavam em perfeito estado. Conseguia mover-se, levantar e falar sem problema e sem ajuda. Seus reflexos e movimentos ainda pareciam um pouco lentos, mas não eram nada comparados aos de antes.
Os médicos estavam preparados. Haviam marcado a cirurgia para o dia seguinte. O crescimento descontrolado das células no pulmão de Mail havia gerado um tumor, ou seja, o câncer de pulmão, que precisava ser removido antes que se disseminasse para as outras partes do corpo.
O ruivo não estava preocupado. Possuía total confiança nos novos médicos e enfermeiros selecionados rigorosamente por Watari, além de ter conhecimento dos aparelhos de última geração instalados na enfermaria. Tudo estava muito bem.
Ou, pelo menos, era isso o dizia aos outros, principalmente para Mello. Por dentro, estava chorando de medo.
Vai dar tudo certo... – ele se tranquilizava, respirando fundo. – Um errinho e meu pulmão pode ser furado, mas sem pressão.
Ele não estava tranquilo. Não mesmo.
– Matt! Maaaatt! – o loiro sacudia a mão na frente dele, tirando-o do transe.
Mello também voltara ao normal (ou ao que ele considerava ser normal). Seus cabelos estavam sedosos e macios, suas bochechas lisinhas como as de um bebê, as roupas justas arrumadas como se tivessem acabado de sair do armário, e seu sorriso brilhava mais do que nunca. Mail precisava de ainda mais força de vontade para não envolvê-lo em um abraço, já que o mais velho andava tão fofo naqueles últimos dias que o Jeevas tinha dificuldade para se concentrar.
Andara acordando várias vezes no meio da noite: efeito dos remédios, ou do destino. Abria os olhos bruscamente, surpreendendo Mello, que acariciava delicadamente seu rosto. O loiro tinha um sobressalto tão grande que por vezes gritava ou caía da cadeira. Era engraçado. E tão adorável que Mail tinha vontade de abandonar tudo e agarrá-lo ali mesmo.
Mas não o fez, como sempre.
Covardia? Talvez. Medo de ser rejeitado? Provavelmente.
O fato era que Mail fazia de tudo para mantê-lo por perto: não o aborrecia (pelo menos não mais que o normal), não lhe pedia nada, não tentava ser melhor do que ele em coisa alguma... Apenas ficava ali, recebendo seus carinhos como um bom animal de estimação. Não que isso não lhe agradasse, mas ele não conseguia aproveitar as carícias como antes. As palavras de Sebastian, apesar de serem exatamente as mesmas que passavam por sua cabeça, ainda lhe doíam.
Ele só está preocupado com você porque acha que vai morrer. Quando você sair daqui, tudo vai voltar a ser como antes.
VOCÊ ACHA QUE NÃO SEI? – ele respondia para si mesmo, para um Sebastian imaginário, para qualquer maldito que quisesse ouvir seus pensamentos. – ACHA QUE EU NÃO PERCEBO QUE ELE SÓ FAZ ISSO POR PENA? ACHA QUE EU NÃO SEI QUE NUNCA VOU TER QUALQUER CHANCE E PERCO TEMPO AO LADO DELE COMO UM IDIOTA? ACHA?
– Que foi? – Mail respondeu, um pouco seco demais. Já bastavam as vozes ecoando em sua cabeça, implorando para que mandasse o loiro embora e acabasse com aquele sofrimento. Ainda ter de ouvir Mello era como uma amostra grátis do inferno.
– Você... não vai me contar, mesmo? – sua voz era tão suplicante que, por um momento, Mail vacilou, porém se recuperou logo em seguida.
– Não... Ainda não.
Alguns dias antes, quando se sentia mais disposto, Mail fizera uma visita ao maior gênio do orfanato, Near. Ele insistira para que Mello não o acompanhasse, afirmando tratar-se de um assunto que o loiro não poderia saber, ao menos não no momento. Fora obrigado a jurar que o tema nada relacionava-se a L, e, ainda assim, percebeu que o mais velho ficou desconfiado. Estava desesperado para saber e, desde então, vivia insistindo com o ruivo para lhe contar. Mail continuava a lhe prometer que contaria em breve, mas, quando queria saber de alguma coisa, Mello era pior que uma criança.
– Por favoooor? – Ele fez um biquinho, o que fez Mail agarrar as bordas da cama.
Se controla. Não levanta. Calma. Respira fundo.
– Não posso, Mello. Agora não. – Afirmou olhando para o colo, recusando-se a encará-lo. O que conversara com Near naquela sala de brinquedos... nem ele sabia se teria forças para repetir um dia.
Mello suspirou, mas assentiu com a cabeça.
– Fazer o quê... – ele passou um longo tempo em silêncio, até pegar um objeto encostado na parede ao lado. Mail não tinha reparado antes, mas agora Mihael carregava um violão negro em sua mão esquerda, a superfície do instrumento reluzindo de tão limpa. – Eu... Ah, merda... Bom, ãn... Eu... Ouvi você cantar... alguma vezes...
– VOCÊ O QUE?! – a voz de Mail saiu um pouco aguda demais e ele limpou a garganta antes de continuar a falar. – Mello, por que não me avisou? Eu não teria cantado se soubesse que você... ah, cara...
As bochechas dele coraram tanto que Mello começou a rir.
– Viu? Exatamente por isso! Você canta bem, Matt, e... bom... eu também queria tentar. – o loiro se acomodou na beirada da cama, com as mãos em posição.
Mail sorriu.
Esse Mello... Sempre querendo mostrar que pode ser bom em tudo.
– Tá, manda ver.
Mello respirou fundo. Aprendera assustadoramente rápido a tocar, de modo que ainda estava um pouco inseguro. Além disso, tinha plena consciência de que, nem de longe, sua voz era tão bonita quanto a de Mail.
Mesmo assim, não podia recuar. O outro o observava com tanto interesse que ele não teve outra escolha senão começar.
Shyness is nice, and
Shyness can stop you
From doing all the things in life
You'd like to
Shyness is nice, and
Shyness can stop you
From doing all the things in life
You'd like to
So, if there's something
You'd like to try
If there's something
You'd like to try
Ask me — I won't say "no"
– how could I?
(A timidez é legal, e
A timidez pode te impedir
De fazer todas as coisas
Que você gostaria de fazer na vida
A timidez é legal, mas
A timidez pode te impedir
De fazer todas as coisas
Que você gostaria de fazer na vida
Então, se há alguma coisa
Que você gostaria de experimentar
Se há alguma coisa
Que você gostaria de experimentar
Peça para mim — eu não diria "não"
Como eu poderia?)
Mail não pensou antes de fazer aquilo. Geralmente, esse tipo de coisa não acabava muito bem, mas ele pouco ligou. Seu corpo estava movendo-se por ele, sem qualquer controle racional.
Sua mão direita garrou a gola de Mello, puxando-o para frente, fazendo o violão cair com um estrondo. Eles se encararam. Mello estava muito, muito perto. Ele poderia ter contado seus cílios se quisesse. Ou podia descrever exatamente qual era o tom azulado daqueles belos e hipnóticos olhos. Suas pálpebras pesaram, permanecendo entreabertas. Ele ouvia os ruídos da própria respiração e de seus batimentos, que ansiavam pelo que aconteceria. Aquele com certeza era o segundo mais demorado de sua vida, e talvez o mais importante. Ou assim seria, se tivesse se concretizado.
Os erros de Mail foram dois. O primeiro, olhar tempo demais para os olhos de Mello. Aquilo dera tempo ao loiro para reagir e formar uma expressão. Mail observou as safiras se arregalarem e os lábios do amado se entreabrirem, mas não sabia se era de choque ou de concordância.
Ambos? Nenhum? Afinal, o loiro queria ou não? Ele não era hétero? Por que não lhe dera uma voadora em vez de simplesmente encará-lo? Estaria brincando com Mail? Esperando para ver se realmente teria coragem? Ou estava apenas nervoso?
A confiança de Mail se esvaiu naquela fração de segundo. Em geral, ele sempre conseguia saber o que Mello estava pensando, mas, naquele momento, não conseguia decifrar a expressão do loiro.
Seu segundo erro foi ter sido bruto demais. O estrépito causado pelo violão fez três enfermeiros brotarem no quarto em exatos seis segundos, nos quais Mail precisou soltar o mais velho e se recompor.
– Que barulho foi esse? Mello! – eles o encararam com reprovação. – Ele vai passar por uma cirurgia amanhã. O mínimo que pode fazer é não deixa-lo estressado.
– NÃO! – o ruivo falou um pouco alto demais, surpreendendo a todos. – N-não tem problema. Deixa ele ficar, eu...
Eu quero que ele fique. – completou mentalmente. – Por favor, Mello. Fique e aja naturalmente, finja que nada disso aconteceu, eu não me importo...
– Matt, eu... – ele olhava para todos os lados, menos para o rosto de seu colega de quarto. – Tenho uma coisa pra fazer agora.
– Mello... – sua voz era patética de tão suplicante.
Não me odeie. Me desculpa, desculpa...
– Eu venho te ver antes da cirurgia, tá? Tenta... dormir um pouco. A-até amanhã. – ele se virou e quase tropeçou ao sair correndo de lá. Para Mail, estava mais do que claro que ele não queria sua companhia.
Eu sou um idiota, um retardado, um completo imbecil! Por que justo agora eu não consegui me controlar? POR QUÊ?
Os médicos já haviam saído. Mail mordia os lençóis da cama, segurando os soluços descontrolados que queriam vir. Tinha obrigação de se acalmar. Talvez, só talvez, não tivesse estragado os quase dois anos que passara escondendo seu amor por Mello. Precisava pôr a cabeça no lugar e pensar calmamente em um jeito de sair daquela situação, sem que o loiro percebesse qualquer estranhamento.
Se ele não tivesse cantado... Nada disso teria acontecido.
A letra daquela música... ah, aquilo mexera tanto com Mail, que ele sequer sabia explicar. Descrevia suas emoções de forma tão perfeita e clara, que ele se surpreendeu por não estar flutuando. Como que para responder seus pensamentos, uma brisa suave, vinda de lugar nenhum, passou por seu rosto, varrendo seus cabelos para trás. O adolescente órfão simplesmente foi tomado por um sentimento novo e inusitado, como uma pequena e bela flor que se abre em pleno inverno. Todo o seu ser foi preenchido por aquela sensação, e ele soube que nunca mais a deixaria ir.
Esperança... Será que ele poderia se dar ao prazer de senti-la? Seria este o caminho para a glória... ou a estrada para a sua perdição?
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Mail não sabia, mas Mello, por mais absurdo que pareça, não estava zangado com ele. Estava confuso e, ao mesmo tempo, furioso consigo mesmo.
Se os médicos não tivessem chegado... Se ele não tivesse parado... O que eu teria feito?
Qualquer que fosse sua resposta, esta se perdeu com a chegada de Sebastian. O garoto vestia um sobretudo negro que o fazia parecer um tapete com pernas. Uma mala grande, que parecia estar lotada, era arrastada lentamente atrás dele.
– Onde...? – Mello não precisou terminar a frase.
– Vou estudar em uma escola de artes especializada. – respondeu fitando o chão (o que não era muito difícil, considerando sua altura). – Não conte a ele.
Mello não sabia o que pensar, então apenas confirmou.
– Eu... E-eu... – Sebastian engoliu em seco e ergueu seus olhos mel para fitar as safiras. Estavam banhados em fúria. – Eu quero te dizer uma coisa, Mello. Não sei o quanto você se importa com o Matt, mas ele realmente faria qualquer coisa por você. Ainda acho que não o merece, mas se ele te quer... Não posso fazer nada a respeito. – Mello começou a falar, mas foi impedido. Seus olhos se arregalaram de surpresa. – NÃO! Eu ainda não acabei de falar! ... Aquele cara... – ele gesticulou na direção da enfermaria. – É a melhor coisa que você vai arrumar nessa vida. Então eu espero que coloque logo essa cabeça pra funcionar antes que você o perda. E se quer saber, acho bom não magoá-lo, porque não vou pensar duas vezes pra voltar se ele me quiser.
Sebastian suspirou aliviado, tirando finalmente um grande fardo das costas. Sem esperar por resposta, ele deu a volta e partiu, o som seu passos sumindo gradativamente ao longe.
Mello estava, literalmente, de boca aberta. Quando fora mesmo que alguém tivera coragem de falar daquela maneira com ele?
Eu acho... – ele pensou. – ... que nunca. Essa foi a primeira vez.
Seus pés começaram a se mover para frente, guiados por uma força invisível. Ele os acompanhou até o quarto, um pouco grogue, e se jogou na cama.
Tinha muito no que pensar.
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