Stalemate

16 XVI. Lágrimas silenciosas.


Notas iniciais
Vou ter que fazer a terça de vocês mais feliz (OU NÃO), já que ontem não deu >.<
Ah, deixa eu mandar um bj pra esse divo do Kiyo-chan >.< (Algum dia ainda te mordo u.u Mas okay.)
Vamos ao capítulo! ~le autora super feliz porque não é segunda~

– Não... por favor...

Os pulsos do garoto ruivo eram algemados firmemente na cabeceira da cama. Com a face roçando nos lençóis ele se contorcia, implorando à medida que o resto de sua era arrancada às pressas.

– ... eu não quero...

A parte de trás de seu corpo, agora totalmente despido, esta à mercê do homem que o devorava com os olhos. Este, abrindo com rapidez os botões da própria calça, suspirou ao perceber o quanto estava excitado com aquele menino. Não aguentaria esperar nem mais um minuto: precisava fazê-lo o quanto antes.

– NÃO! – O mais novo berrou ao sentir algo roçar na sua entradinha intocada. Seus cabelos foram puxados com violência para trás, um gemido de dor escapando de seus lábios.

– Pode gritar o quanto quiser... – O homem sussurrava em seu ouvido. – Ninguém vai te ouvir.

Afastando as nádegas macias da criança para os lados, o mais velho forçou entrada com toda a força, suspirando de prazer com o contato e com os urros de dor que o garoto fazia.

– PARA! – As lágrimas corriam descontroladas pelas bochechas bem desenhadas, tirando o brilho natural dos belos olhos verdes.

– Assim... Grita mais alto... – O mais velho não media forças para humilhá-lo. Não importava o quanto o outro gritasse, ele continuava a pedir por mais. – Geme o meu nome...

- Fos...ter...

Mello sentou-se com violência, berrando.

Seu peito subia e descia com rapidez enquanto os olhos azuis arregalados de pavor esquadrinhavam o cômodo, sem encontrar ninguém.

Merda de sonho.

Ainda um pouco trêmulo, o loiro tateou o criado mudo à procura do celular, olhando o visor. Como faltavam apenas quinze minutos para o almoço, obrigou-se a tomar banho e retirar aquela barba incômoda, observando, ao final, sua face no espelho, antes de caminhar aos tropeços para o quarto de Matt. Após acordá-lo com um copo de água fria e ignorar os protestos do mais novo, ambos desceram em silêncio para o refeitório, cada qual com seus pensamentos.

– Ei Matt. – O loiro quebrou o silêncio ao final do almoço, seus pensamentos retornando ao imundo pesadelo que perturbara seu sono minutos antes, lhe dando pequenos arrepios de repulsa. – Compra alguns chocolates pra mim?

– De novo? Por que você não vai pra variar?

– Porque eu ‘tô pedindo pra você. Levanta a bunda daí e vai logo.

– Palavras mais bondosas não custam nada de vez em quando, loira. – Mail levantava, pronto para obedecer como um cachorrinho treinado.

– Não esquece de trazer os com nozes. – Mello ria da língua que Mail direcionou a ele.

Passados alguns minutos, o suficiente para o ruivo estar fora do orfanato, Mello ergueu-se de um pulo e correu escada acima, subindo de dois em dois degraus até alcançar o andar dos dormitórios.

Chegara à conclusão de que já não estavam mais brigados. Aquela bobagem de divisão de quartos tinha de acabar.

Para a própria segurança de Mail.

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Minutos depois, de volta ao instituto, Mail olhava a sacola em suas mãos com um sorriso triste nos lábios. Era deprimente pensar como fora correndo atender ao pedido de Mello, sem sequer ponderar sobre o assunto.

Eu sou pior que um cachorro... O cão, pelo menos, recebe um pouco de carinho em troca.

Engolindo em seco e afastando os pensamentos excessivamente melancólicos, o ruivo abriu a porta para o quarto de Mello e estancou com o que viu.

– Ah, você voltou. – Mello se ergueu de uma das camas, pegando a sacola das mãos do outro e examinando seu interior. – Eu adoro esse... – Pegou uma das barras maiores e abriu com pressa, suspirando ao sentir o chocolate derreter em seus lábios.

– Mello, por que as minhas coisas estão aqui? – Os olhos verdes pousavam sobre a outra cama, repleta de games portáteis, roupas, algumas caixas de cigarros, livros, revistas, estojos, dois notebooks, uma mochila e outros pertences.

– O que? – Mello olhou com indiferença para a cama e voltou-se para o outro. – Ah é, eu trouxe as suas coisas.

– E por que...? – Uma sombra de sorriso preparava-se para surgir nos lábios de Matt.

– Porque si... – O loiro ergueu uma sobrancelha para ele. – Que cara de bobo é essa? ‘Tá rindo de que?

– Estou rindo de uma certa loira... – Matt se aproximava a passos lentos, o olhar fixo no outro. — ...que insiste em não admitir o quanto sente minha falta.

– Eu nunca sentiria a sua falta, seu retardado.

– Oh, então assume que é ‘’a loira’’? Estou impressionado. – Mail ria de orelha a orelha, sentando-se na cama de Mello após o mesmo fazê-lo.

– Sabe o que falta pra eu dar um soco na tua cara? – Mihael escolheu a expressão mais assustadora que pôde para reproduzir em seu rosto, mas o efeito foi o oposto do esperado: Mail começou a rir como nunca. Há tempos que conhecia os ‘’métodos de intimação ‘’ do loiro e certamente, depois de tantos anos, aprendera a não se abalar com eles.

– Não banca o machão comigo, loira. – O ruivo passou o braço pela cintura fina e bem desenhada de Mello. – Nós dois sabemos que não consegue cumprir ameaças contra mim, então só assume que me ama logo, vai.

– Quem sabe nos seus sonhos... e que mania é essa de ficar me abraçando o tempo todo? – Mello empurrava o peito de Mail com força, que se esforçava para se segurar no loiro.

– Você me arrasta de volta pro seu quarto e não me deixa nem te abraçar? Então acho que sexo está fora de questão.

– FILHO DA PUTA! – Mello desferiu um chute bem calculado na barriga do ruivo que, ao cair de costas no chão, tentou disfarçar a dor intensa com um sorriso debochado para o outro.

Se ele teve essa reação com uma brincadeira... Só posso imaginar o que faria se soubesse que eu estava falando sério.

– Que maldade, loiro... – Mail levantava-se com dificuldade.

– Loiro... Ah, isso me lembra... – Mihael desviou o olhar, em parte por se sentir culpado pelo coice desnecessário e em parte por se lembrar do sonho nada casto que tivera, envolvendo Foster, o loiro adulto repugnantemente pervertido, e Mail. – Matt, você ‘tá proibido de ir ao Canil sozinho.

O ruivo ergueu uma sobrancelha, cético.

– Como é?

– Você me ouviu. – Mello se jogou em sua cama, pegando uma barra de chocolate na gaveta do criado mudo e erguendo os olhos para o teto.

– E por que não? – Mail perguntou mais alto, exigindo atenção. O loiro o ignorou. – Mello, eu vou ficar te cutucando até você me responder.

– Nossa, você é muito irritante quando quer. – Ele suspirou e, revirando os olhos com impaciência, fitou o mais novo, que se encontrava ajoelhado ao lado da cama, como um cachorrinho. – Porque não, Matt, aquele lugar não é bom pra uma criança medrosa como você.

– E você presume que pode me proteger? – O tom de Mail estava carregado de ironia.

– É claro. – Respondeu sem rodeios, como se fosse óbvio.

– Mas da última vez...

– Já chega, Matt! Você não vai sozinho e pronto! – Mello, depois de encará-lo por alguns momentos, virou de costas para a parede.

Emburrado, Mail fez bico e se levantou, abrindo a porta do quarto depois de agarrar uma caixa de cigarros e um isqueiro. O loiro olhou discretamente sobre o ombro.

– Onde você vai?

– Jogar. Posso, madame? Ou quer colocar uma coleirinha em mim antes?

Mello bufou e voltou a sua posição de antes, esperando alguns minutos antes de agarrar o celular sob o travesseiro.

– Sid? Se por acaso... o Matt aparecer por aí, me avisa. – E desligou sem esperar resposta.

Mail que, apesar de estar morrendo de vontade de desobedecer ao loiro, não o fez, preferindo esperar para tentar descobrir os motivos do outro. Não tinha as respostas que procurava, mas, em seu lugar, muitas perguntas brotaram em sua cabeça.

Por que não me quer indo até lá sozinho, Mello? Do que tem tanto medo?

E, principalmente:

Por que trouxe minhas coisas de volta? Qual o motivo de me querer perto de você?

Por que continua a me dar esperanças com essas pequenas coisas?

Por que não me deixa simplesmente partir?

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Os gemidos extremamente eróticos ecoavam pelo banheiro abafado.

Gotículas de água em forma de vapor flutuavam sem ritmo pelo ar sufocante, parecendo acompanhar os sons desconexos que o adolescente de quase dezesseis anos fazia. Este, consciente do escândalo que produzia, tentava em vão se conter, mordendo o próprio lábio inferior para, instantes depois, soltá-lo com um suspiro sofrido. Sua respiração acelerava e gotas de suor escorriam de sua testa à medida que seu ápice se aproximava, fazendo o coração em seu peito disparar de expectativa.

– Mello... Mello...

Juntamente da imagem do belo loiro de olhos azuis, o êxtase atingiu Mail com violência, surpreendendo-o e levando-o a um estado de total estupor, visto que todos os seus pensamentos pareceram, por aquele breve momento, evaporar como fumaça.

Os minutos se passaram e, com eles, a sensação provocada pelo orgasmo também se foi. Matt se recostou na parede gelada do box e deixou-se escorregar até cair sentado no chão, cansado demais para se manter em pé. Erguendo a mão esquerda e deixando-a sob a água corrente, Mail observou o líquido viscoso escorrer pelo ralo com uma expressão de completa desolação, se sentindo mais estúpido do que nunca. Em seu dia a dia ele não percebia com clareza o quanto sua situação era deplorável; apenas em momentos como aquele se dava conta do quanto era patético.

Que merda eu ainda faço aqui... Por que continuo com isso?...

Os questionamentos do ruivo cresciam diariamente, perfurando sua cabeça com situações fantasiosas que ele, ao mesmo passo que as desejava, sabia que jamais se concretizariam. Estas obscureciam a realidade presente, impossibilitando-o de ver qualquer graça na verdadeira essência da vida que o rodeava. Apesar de estarem em meados de outubro, com encantadoras paisagens de outono ao alcance da vista, as vozes incessantes em sua cabeça raramente lhe permitiam ver alguma beleza na natureza ao seu redor. Tudo em sua mente era confinado e lacrado em algum canto longínquo e inacessível, obrigando seus pensamentos a convergirem para um único ser.

Mello.

Há meses que o loiro se tornara a fonte de seus piores problemas e de suas melhores fantasias. Com aquele sentimento incontrolável e estúpido crescendo sem controle dentro de si, Mail não encontrara nenhuma outra escolha a não ser ficar impotente ao lado do outro, nutrindo aquele amor desesperadamente inútil. Tentara, inúmeras vezes, dizer ao loiro o que se passava consigo, de formas discretas, quase enigmáticas, mas, com exceção de L e Near, Mello estava cego para com todo o resto.

... Por que você não consegue me ver?...

Finalmente derrotado, o ruivo tomara a decisão de não tentar uma aproximação direta do outro. Depois de observá-lo meticulosamente, chegara várias vezes à conclusão de que, se falasse abertamente quais eram suas reais intenções, o relacionamento de ambos se romperia bruscamente, de modo que nenhuma palavra ou discurso emocionado poderia curar. Era preferível poder estar ao seu lado, como amigo e protetor, auxiliando-o em tudo que precisasse, do que ter de se afastar sem possibilidade de volta.

... Se você sorrir está tudo bem pra mim, Mello...

Com aquilo em mente, Mail continuava a permanecer junto ao loiro, calado, fiel, com um sorriso no rosto, lutando dia após dia para não deixar transparecer a angústia tão gritante em seu íntimo. Cada vez que os olhos verdes encontravam-se com os azuis uma fagulha se acendia, incendiando o que sobrara do coração em pedaços de Mail.

Este com frequência se pegava observando o outro durante as aulas, questionando o que havia de errado consigo.

... seria tão mais fácil se eu tivesse me apaixonado por uma garota normal... E construísse uma vida comum ao lado dela... Mas é claro que o destino não poderia ser legal comigo. Seria pedir demais.

Levantando-se com um esforço enorme e desligando o chuveiro, Mail se lembrou com um suspiro de como, algumas semanas antes, em uma de suas crises de raiva ele relatara cada detalhe do que estava acontecendo a Sid.

– Você o que?! – O homem de olhos castanho claros tossia violentamente após se engasgar com uma cerveja.

– Eu... gosto do Mello. – Mail abraçava uma pequena almofada preta, encolhendo-se com os joelhos dobrados sobre o sofá espaçoso.

– Eu ouvi da primeira vez!

– Então por que pediu pra eu repetir? – O ruivo perguntava com raiva.

– Porque não dá pra acreditar! Cara, quem diria... Quer dizer, eu sempre pensei que um de vocês dois eram bicha, mas tinha quase certeza de que era a loira... aquelas roupas apertadas... – Ele inesperadamente soltou uma gargalhada, seguindo uma linha independente de pensamentos. – E você escondendo o jogo este tempo todo, hein ruivinho! – Dando uma piscadela para o outro, o homem tornava a rir com gosto.

– Se eu pudesse eu não queria ser... – Mail falou baixinho, com certeza raiva, após alguns instantes. – Mas eu não tenho opção.

– E então, como vai ser? Você quer que eu o embebede pra poder estup...

– NÃO! – Sid chegou a se assustador com o tom do mais novo. – Eu nunca faria isso!

– Então por que veio me contar isso? – Ele se recostou na outra ponta do sofá, tomando mais um gole da cerveja gelada.

– Porque eu não sei mais o que fazer... – A voz de Mail saiu abafada pela almofada e, minutos depois, soluços infantis e constrangedores foram ouvidos.

Ah cara... Por que na minha almofada? – Sid pensava, respirando fundo.

– Ele sabe que você está aqui?

– Não. – Respondeu simplesmente;

– Olha só Matt... Eu não sou a melhor pessoa pra você conversar sobre isso. – Perguntou depois de um momento de silêncio.

– É óbvio... mas... eu só... queria falar pra alguém. – Mail respondeu com sinceridade, abaixando minimamente a almofada e fitando Sid com os olhos verdes molhados.

O homem engoliu em seco. Pouquíssimas pessoas sabiam que, ao contrário de bebidas, cigarros e mulheres, aquela era sua maior fraqueza: ver uma criança chorar.

– T-também não precisa chorar... – Ele se agachou na altura de Matt, tirando cuidadosamente a almofada de suas mãos. – Você sabe que o Mello sempre foi um idiota. Não vai perceber nada até você dizer.

– Eu não vou dizer nada. – Mail respondeu de imediato, olhando para o próprio colo.

Eles ficaram em silêncio, sem saber muito bem o que dizer. Suspirando, Sid se levantou e pegou uma caixa de cigarros, oferecendo um ao ruivo.

– Faz dia que eu não fumo um... Tava sem dinheiro. – Mail admitiu.

Isso explica o berreiro... – O homem ria internamente. – Essas crianças... Sempre precisam de uma chupeta para canalizar as emoções.

– Tenho um trabalho fácil se quiser...

– O que eu tenho de fazer? – Matt secou os olhos com as costas da mão.

– É bem tranquilo, você só precisa vestir um...

– Sid, eu já falei que não vou trabalhar de stripper.

– Assim complica, Matt! – Ele riu e passou um isqueiro ao outro que, usando-o para acender um cigarro, suspirou com a nicotina preenchendo seus pulmões já tão danificados.

Retornando a um clima mais ameno, a conversa entre ambos seguiu para um rumo completa e convenientemente diferente.

Para alguns, aquele dia com Sid poderia não passar de um encontro entre dois bêbados e desocupas, mas para Mail foi como aliviar um peno enorme dos ombros. Apesar de sentir vergonha por, naquela idade, ter chorado na frente de um adulto e ainda por cima ter de comprar o silêncio do mesmo dias depois, o homem não deixava de ter razão. Mello não perceberia que havia algo errado, a menos que Matt lhe dissesse claramente.

Coisa que o ruivo não estava nem um pouco a fim de fazer.

Com lágrimas silenciosas fazendo cócegas em suas bochechas, Mail tratou de se vestir, fitando demoradamente o espelho. Aquela figura desolada e pálida já não lhe era desconhecida há meses, mas nem por isso o agradava saber que os olhos tristes a fita-lo eram seus.

– Matt! – A voz do loiro, vinda do outro lado da porta, o tirou de seus devaneios. – Onde ‘tá aquele papel que eu pedi pra você guardar?

– Na minha gaveta! – O ruivo limpos os olhos e, respirando fundo, saiu do cômodo sufocante. Secando os cabelos cor de fogo com uma toalha, Mail se encaminhou para a janela, depois de lançar um olhar rápido ao outro, que fuçava em seu armário. Os belos tons alaranjados das folhas nas copas das árvores não melhoraram em nada seu humor, muito menos a brisa gelada que brincava com seu rosto.

Eu costumava gostar do outono. Da paisagem. Da cor das folhas. Do som do vento nas árvores... Agora isso não me traz alegria alguma.

Ou, melhor dizendo, não me traz sentimento algum.

– Matt... O que é isso? – O loiro se aproximava a passos lentos, erguendo um pequeno papel amassado na altura dos olhos verdes, que demoraram um pouco a entender a inscrição.

Melhoras, lula seboso.

Com um choque, Mail se lembrou do que se tratava. O papel fora dado por Near, meses antes, para que fosse entregue ao loiro.

– Ah é... O Near me pediu pra te dar. – Mail comentou indiferente, já esperando a euforia que se seguiria da parte do loiro.

– Pra mim? – Ele examinou as palavras com a testa franzida. – Há quanto tempo?

– Alguns dias. – Mail mentiu descaradamente.

– E por que não me entregou antes?

– Eu tinha esquecido, só isso! – O ruivo pegou um casaco e caminhou a passos firmes para a porta.

– Calma, por que ‘ta tão estressado? – Mello finalmente ergueu os olhos para ele.

– Por nada. – E bateu a porta.

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– Albino de merda! – Mello invadia o quarto em que o ruivo repousava com um jogo em mãos, jogando-se na cama vazia.

– O que aconteceu agora? – Mail perguntou sem pausar o vídeo game, pensando em quantas vezes repetira aquela mesma sentença nos últimos anos.

– O que você acha? Aquele anagrama desgraçado! – Ele se ergueu com uma energia surpreendente e estendeu uma pequena folha para Mail que, vencido, parou o jogo. Era a mesma que Near lhe dera meses antes, com a diferença de que agora havia quatro palavras embaixo da inscrição original.

Melhoras, lula seboso.

Mello, abra seus olhos

– Abrir os meus olhos! Mas que imbecil aquele pirralho... Escolhendo um anagrama tão tosco e fácil como esse... – O loiro se jogou outra vez em sua cama e, apesar de desdenhar as palavras do albino, pensava seriamente no que elas podiam estar querendo lhe dizer.

Talvez abrir meus olhos para ele? Ou seja, que esse cabeçudo anão vai me ultrapassar e eu deveria fazer alguma coisa? Ou quem sabe ele vai tentar trapacear em algo e eu deveria estar atento? Ou será que L estaria infiltrado entre os pirralhos, nos observando, e ele percebeu e eu não?

Fechando ou olhos por alguns instantes, Mello procurou se acalmar. As duas últimas hipóteses pareciam ilógicas, se não ridículas, visto que Near não precisava trapacear e L detinha outros meios para avalia-los. A primeira opção, sem sombra de dúvida, era a mais aceitável: Near estava claramente provocando-o. E Mello, como bom lutador, não recusaria um desafio tão direto de seu maior rival.

Abrindo novamente os olhos, Mihael se sobressaltou ao encontrar Mail o observando de perto, a centímetros de distância apenas os separando. O ruivo, que antes estava com as pálpebras caídas e os lábios entreabertos, deu um pulo para trás ao ver que fora descoberto em um momento de fraqueza.

Que merda Mail, se recomponha!

O loiro, por um breve momento, teve a impressão de que o mais novo não estava olhando realmente para seus olhos, mas para um ponto um pouco mais abaixo.

Ele estava olhando pra minha boca?

– E-então Mello... Acho que já é hora do jantar. – Ele se virou e começou a vasculhar suas coisas, sem realmente saber o que fazia.

Mello ainda permaneceu observando estático por alguns momentos, desconfiado, antes de sacudir a cabeça pra se livrar daquela bobagem. Concentrando-se novamente nas palavras do albino, passou a pensar com o dobro de dedicação no que elas poderiam vir a significar, sem saber que estava olhando desesperadamente no lugar errado.