Stalemate

15 XV. Claro como água.


Notas iniciais
Nada de muito novo neste capítulo... A partir do próximo (talvez) fique mais interessante... Mas em todo o caso, boa leitura ^-^

No orfanato das maiores mentes da Inglaterra tudo havia voltado ao normal.

Ou, pelo menos, tanto quanto possível.

As antigas provocações de Matt deram lugar a outras ainda mais irritantes e pervertidas; a constante disputa entre Mello e Near se tornava cada vez mais acirrada a cada exame ou teste, deixando o primeiro frustrado com as derrotas consecutivas.

Tudo parecia estar nos eixos.

Ou assim parecia.

No interior de Mail Jeevas, nada mais estava como deveria. Seus batimentos disparavam sem qualquer aviso e seu coração se agitava repentinamente. Emoções se misturavam e se confundiam em sua cabeça, tornando as variações de humor frequentes e repetitivas. Se em certo momento queria matar todos à sua volta, em outro sentia-se extremamente solitário. Seu único consolo eram os inúmeros cigarros que, além de serem ótimos para controlar as emoções, também serviam para descontar as decepções do dia.

Que droga de adolescência. – Era um de seus pensamentos mais comuns.

Quando aos problemas de Mihael Keehl, nada havia mudado. As derrotas quase diárias para Near serviam como uma espécie de estimulante, aumentando seu desejo de vencê-lo. Era sua maior meta de vida: esmagar aqueles olhos cinzentos e fazê-los engolir seu próprio veneno. Ultrapassar o albino na frente de todo o orfanato e quem sabe até do próprio L, caso o maior detetive do mundo estivesse ali para testemunhar sua glória. Assim feito, Mello tinha certeza de que não lhe faltaria mais nada. Seria este seu ato final.

Essas e outras divagações mostravam o quanto o loiro gostava de sonhar e, por vezes, se perder nos sonhos. Neste caso a realidade não passaria de uma alternativa. Não teria obrigação nenhuma de viver nela.

Pelo menos não durante a maior parte do tempo.

Entretanto, por mais que quisesse pegar a dura verdade e enfiá-la no mais profundo abismo, esta sempre surgia de uma forma inesperada.

E o destruía por dentro.

Não tinha capacidade de superar o maior gênio da Wammy’s House. Era incapaz, um completo incompetente. Viveria eternamente na sombra daquele que merecia o status, que seria o melhor indicado para ocupar a cadeira de L. O segundo lugar seria seu túmulo, de onde jamais poderia escapar. Este era seu fardo, sua carga insuportavelmente pesada.

Ótimo... – Mello pensava, limpando uma lágrima solitária que escorria por sua bochecha.

Encontrava-se em seu quarto, na mais completa escuridão, rodeado apenas pelos seres assustadores da noite. O silêncio quase que poderia ser ouvido, se não fosse sua respiração em meio ao breu. Suas pernas tremiam solitárias sobre as grossas cobertas, cada tremor trazendo consigo uma nova onde de lágrimas e soluços.

- Para com isso... – O loiro sussurrava para si mesmo. – Você não é mais criança.

Ele se encolhia cada vez mais, tentando ao mesmo tempo se aquecer e controlar os soluços. Em certo momento, quase que automaticamente, se virou para a cama ao lado, apenas para encontra-la vazia.

É mesmo. Não tem mais ninguém aqui.

Engoliu em seco, sentindo a garganta arder com a falta de Mail. Como antes era comum naqueles dias, em que o loiro se sentia totalmente inferiorizado pela imagem do albino, que Matt aparecesse com um grande sorriso no rosto e o abraçasse até dormir, dizendo que tudo iria ficar bem, que ele iria conseguir.

Que estava ao seu lado.

Como ele mudou tanto e eu não percebi?

Há alguns anos a situação seria exatamente o oposto. Mail correria em sua direção, aos prantos, e o loiro o abraçaria com todas as forças, prometendo protege-lo e apertando-o entre os braços até que adormecesse. Ao raiar do dia, ambos conversariam tranquilamente e Mello limparia as lágrimas restantes nas bochechas do outro, caso elas voltassem a cair.

Durante muito tempo, aquela cena se repetiu constantemente. Porém, a frágil e desprotegida criança ruiva que precisava de cuidados já não existia mais. Em seu lugar havia um homem cujas fraquezas e temores da infância foram superados. Proeza que Mello, com toda sua inteligência e capacidade, não conseguira realizar.

Mais uma para a lista de coisas que não consegui fazer. Meus parabéns Mihael, por ser o maior inútil da história.

Perdido entre as trevas e mais assustado do que nunca estivera em toda a sua vida, Mello só pensava em como se sentia sozinho. Ninguém surgiria dentre a escuridão para consolá-lo. Não haveria palavras de carinho para serem ditas ou ouvidas. Abraços imaginários seriam o máximo que receberia naquela noite.

A dor, a tristeza e o frio daquela cama finalmente reinaram sobre ele, levando-o a um sono turbulento e repleto de pesadelos.

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Na noite seguinte, Mello continuou a tremer de tristeza em sua cama. O mesmo ocorreu na outra e na outra, durante mais de duas semanas. Sentia-se arrasado a maior parte do tempo: sem forças para comer, beber, levantar ou mesmo se mover para respirar. Toda a vitalidade parecia ter sido sugada de seu corpo.

Apenas a dor permanecia.

Tonara-se comum para o loiro passar horas com os olhos presos ao teto, com lágrimas escorrendo sem parar por suas bochechas. Sua barriga roncando e sua garganta seca eram constantemente ignoradas.

Não tinha mais motivo para viver.

Durante um desses momentos de total alienação, em um dia de chuva, Mello sequer percebeu a presença de outra pessoa no cômodo. Mail entrava de mansinho, olhos atentos, extremamente preocupado com o estado do loiro. Este, com quem ainda falava pouco devido à briga, há dias parecia mais magro e menos disposto do que o habitual, a aparência cansada e abatida. Vários dias se arrastaram até que o ruivo deixasse aquele pequeno orgulho de lado e fosse ver como o outro se encontrava. Além de estar de saco cheio daquele afastamento, os rumores sobre Mello que circulavam pelo orfanato o assustavam: alguns diziam que ele estava com uma doença deteriorativa e incurável; outros que o loiro estava participando de uma pesquisa a cerca do efeito de novas drogas.

Verdadeiros ou não, Mail decidiu checar a autenticidade dos rumores. E ficou assustado com o que encontrou.

Mello estava pior do que ele imaginara. Bastou uma olhada dentro do cômodo para perceber isso: chorava compulsivamente, tremia sobre as cobertas desarrumadas, encarava o teto como se houvesse alguém lá, lutava contra o choro para respirar...

- Mello... – Horrorizado, o ruivo se aproximou e o envolveu em um abraço desajeitado, sentindo as lágrimas do loiro molharem seu ombro esquerdo. Este, agora finalmente ciente de sua presença, começou a resistir, empurrando-o com as duas mãos e gritando com ele.

Uma das coisas que mais odiava era que Mail o visse chorar. Não queria parecer um fraco para o ruivo, que desde pequeno sempre se espelhara nele.

‘’Um dia eu quero ser tão forte quanto você.’’

Mail havia se tornado forte. Como Mello jamais conseguira ser.

- Me solta, me larga! – Mihael esperneava, socando com força o peito de Mail, que aguentou cada soco com o rosto contorcido em dor.

Me recuso a soltá-lo Mello... Me recuso a deixar você.

Passaram-se alguns minutos até que o loiro vencesse o orgulho e parasse de se debater. Conseguindo o que queria, Matt escorregou para cima da cama e o abraçou com deveria, deixando o rosto de Mello repousar próximo ao seu coração.

Exatamente como o loiro fazia com ele, tantos anos antes.

- Vai ficar tudo bem Mihael. Você vai conseguir ganhar dele. Eu vou ficar do seu lado.

Ouvindo aquelas palavras tão doces, Mello imediatamente desatou a chorar. Chorava pesado, tremendo nos braços de Matt. Agarrava suas roupas e dizia entre soluços que não conseguiria, que era um imprestável, inútil e não merecia suceder alguém importante como L. O ruivo rebatia, dizendo a ele que o Mello que conhecera jamais desistiria e que era muito mais competente do que um alienígena sem sentimentos como o Near. Isso fez uma sombra de sorriso surgir nos lábios do loiro.

- Olha pra mim. – Mail segurou em seu rosto, fazendo as esmeraldas encararem as safiras marejadas de lágrimas. – Você é perfeito. E eu te proíbo de dizer algo que seja inferior a isso.

Mihael não sabia como reagir, então apenas ficou encarando-o. Mail, por uma fração de segundo, pensou em como aquele seria um momento perfeito para se aproveitar da vulnerabilidade do outro e roubar-lhe um beijo.

Mas que tipo de amigo ele seria se o fizesse?

Por fim, decidiu-se em apenas confortá-lo. Abraçando-o com ainda mais força, permitiu que o loiro deitasse confortavelmente com a cabeça em seu peito e passou a acariciar os cabelos dourados.

- Não sei se você lembra, mas desde criança eu tenho pesadelos com meus pais.

- L-lembro.

- Pois então. Eu ainda choro por causa deles às vezes.

- Sério? – Mello perguntou entre um soluço e outro, sua voz repleta de um sentimento novo que ele não sabia explicar. Esperança, talvez? Felicidade em saber que não era o único a sofrer como uma criança com as coisas que aconteciam ao seu redor?

- Sério. Não tem porque você ficar com vergonha. – Os fios loiros e lisos deslizavam com facilidade pelos dedos de Mail, afagando com delicadeza a cabeça do mais velho, que já sentia-se sonolento. Este, se é que era possível, se encolheu ainda mais contra as vestes molhadas de lágrimas do outro, pronto para adormecer. – Ah, espera Mello, a minha roupa ‘tá molhada...

Os olhos do loiro já ardiam de sono, ele apenas pensava em descansar. Inconsciente do que fazia, começou a puxar a camiseta listrada de Matt para cima, tarefa que este, ainda um pouco surpreso, o ajudou sem pestanejar. Logo Mello voltou a se encaixar naqueles braços fortes e, sentindo as ondas de calor que emanavam daquele corpo, permitiu que estas o envolvessem e o levassem para um sono sem sonhos.

Mail ainda permaneceu acordado por vários minutos, apreciando com um sorriso bobo no rosto a cena que se desenrolava ao seu lado. A pele macia e clara de Mello recebeu seus carinhos durante todo o tempo em que manteve os olhos abertos, apenas focado na expressão delicada do outro: olhos fechados, lábios entreabertos, fios dourados caindo graciosamente sobre o travesseiro...

Daquele modo ele finalmente fazia jus ao nome angelical.

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Mello despertou apenas na manhã seguinte, sentindo-se mais descansado do que jamais se lembrava. Logo depois de abrir os olhos e revelar as belas safiras, seu estômago começou a roncar como um louco.

Há quantos dias tivera uma refeição decente?

- Bom dia bela adormecida... – Matt surgia pela porta branca do dormitório com uma bela bandeja de prata nas mãos, coberta de guloseimas dos mais variados tipos, principalmente chocolates.

- Que horas são? – O loiro perguntou, sentando-se e esfregando os olhos.

Adorável. – Mail sorriu.

- Hora de criança acordar. – Mello franziu o cenho para ele. – Você vai tirar essa carranca da cara assim que ver o que eu trouxe. – Teatralmente e de um modo quase infantil, Mail ergueu uma caneca vermelha com detalhes em branco usando sua mão livre. – Adivinha o que tem aqui!

Mihael não precisou pensar muito. Conhecia aquela fragrância de longe.

- Chocolate quente! Me dá! – Estendia os braços para frente, um sorriso enorme no rosto.

Mail riu daquela expressão, quase sem acreditar que era o mesmo garoto de horas antes.

Ah Mello... O que você seria sem mim?

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Os alunos sentavam-se, um a um, na ampla sala de palestras do segundo andar. Mello e Matt se instalaram nas cadeiras mais ao fundo, o mais próximo possível das janelas que traziam uma leve brisa. Um professor universitário, cuja reputação ultrapassava os maiores estudiosos no ramo da Genética, fora convidado a discursar sobre sua mais nova descoberta e agora encontrava-se sobre o palco com um sorriso afetuoso nos lábios finos.

Foi breve ao se apresentar e, logo em seguida, pediu a um estudante que fechasse as janelas para melhor visualização de sua apresentação no telão.

Mello imediatamente olhou de soslaio para o ruivo ao seu lado, que se retesou na cadeira.

- Matt... – Ele sussurrou, mas o outro mal o ouviu. Não conseguia processar coisa alguma.

Meu peito... Não consigo respirar.

O ambiente ao seu redor parecia comprimir-se, o teto tornava-se cada vez mais próximo. Suas mãos e pés começaram a tremer descontroladamente e suor brotava de sua testa, escorrendo pelo contorno de seu rosto. Seus lábios tornavam-se secos e um anel imaginário parecia obstruir sua garganta, impedindo a passagem do tão precioso oxigênio. Um medo inexplicável tomava conta de si, fazendo-o olhar desesperadamente para os lados à procura de uma saída. O coração em seu peito chocava-se com força contra suas costelas, parecendo estar prestes a explodir. Por um momento, sua visão vacilou e ele precisou se firmar no braço de Mello para não cair.

- Está tudo bem aí atrás? – O professor perguntou e ambos o ignoraram.

O mais velho agarrou Mail pelo braço e, servindo de apoio, o arrastou para fora da sala. Uma lufada de ar os atingiu diretamente no rosto, preenchendo os pulmões negros e danificados do ruivo, que sentiu seus batimentos retornarem lentamente ao ritmo normal.

- A sua claustrofobia ‘tá piorando Matt... Você precisa fazer alguma coisa! – Mello exclamava enquanto o mais novo tinha um ataque controlado de tosse. – E ainda fuma que nem um condenado... Vai morrer antes dos vinte assim!

- Eu ‘tô ótimo... – Mail afirmou com um sorriso, arrumando os goggles que lhe tinham escapado dos olhos.

- Você sempre diz isso... – Mello sussurrou, mais para si mesmo do que para o outro. Este não tardou em mudar de assunto, caminhando tranquilamente pelo corredor enquanto a mente de Mello trabalhava a mil.

O que está havendo com você, Jeevas?

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Os dedos de Mail moviam-se com rapidez pelos botões coloridos. A sala de jogos, quase sempre lotada, encontrava-se vazia para a alegria do ruivo. Este, se perdendo nas horas que passavam, sequer percebeu quando um pequeno albino se instalou a alguns passos atrás de si, montando quebra-cabeças e torres de dados.

Por fim, entediando-se de uma das dezenas de máquinas, Mail virou-se na direção de outra e, com o movimento, tropeçou em uma das montanhas de dados e caiu graciosamente de cara no chão.

- Ne...ar! – O ruivo rolava para o lado, desviando das pequenas pecinhas que insistiam em querer furar sua pele. – Por que não avisou quando entrou?

- Eu avisei. – O pequeno nem se deu ao trabalho de erguer o olhar, apenas continuou a enrolar uma mechinha do cabelo alvo com uma mão e recomeçar sua torre com a outra.

- Não avisou!

- Avisei sim. Você até me cumprimentou.

- Não me lembro disso.

- Não me culpe por sua falta de atenção.

Mail revirou os olhos e tratou de se sentar ao lado do outro. Juntos, montaram e desmontaram um quebra-cabeça após o outro, trocando palavras apenas ocasionalmente. Novamente Mail perdeu a noção do tempo e, quando deu por si mesmo, ouviu Mello arrombar a porta do cômodo com um belo chute.

- MATT! VOCÊ FAZ IDEIA DE QUE HORAS SÃO?

- JÁ É TARDE MELLO, PARA DE BERRAR!

- E VOCÊ ESTÁ FAZENDO O QUE, SEU RUIVO MALDITO?!

Matt fez menção de se levantar, mas Near segurou na manga de sua blusa. Os olhos verdes ergueram-se para ele, confusos.

- Dê a ele. – Tirando um pequeno papel cuidadosamente dobrado do bolso da calça branca, o menor o introduziu no bolso do colete de Mail. Este nada respondeu, apenas continuou a fitá-lo e Mello, vendo que os dois o ignoravam completamente, agarrou o ruivo pela gola e começou a arrastá-lo porta afora.

- Loira desgraçada, isso dói! – Matt desviou-se do outro e o encarou com raiva.

- Essa é a ideia. O que estava fazendo lá?

- Por que quer saber? Ficou com ciúmes? – Mail sorria abertamente.

- Engraçadinho. São duas horas da manhã, vai dormir. –Dito isso, virou-se e caminhou a passos firmes até seu quarto, sendo seguido de perto por Mail.

- Se não foi isso então por que me arrancou de lá? Vamos loira, admita.

- Você nunca cala essa boca? – As botas de Mello faziam eco no chão polido.

- Não até você dizer com todas as letras que estava morrendo de saudades do ruivo aqui.

Já na frente de seu próprio quarto, Mello girou nos calcanhares e encarou o ser a sua frente. Os olhos verdes cobertos pelos goggles e os fios cor de fogo arrepiados lhe davam uma aparência extremamente boba, em particular quando combinadas com o sorriso pervertido que naquele momento dominava seus lábios.

Agarrando o colete de Mail, Mihael o trouxe para frente com um puxão e, com uma risadinha, aproximou seus lábios do ouvido direito do ruivo, quase tocando-o.

- Eu estava morrendo de saudades. – Sussurrou com a voz mais sedutora que conseguiu fazer, rindo baixinho e empurrando o outro segundos depois.

Enquanto o loiro destrancava a porta, Mail permanecia no mesmo lugar, estático.

Há tempos que aquilo acontecia com mais frequência. Conforme suas provocações cresciam, as do loiro seguiam o mesmo caminho: a cada dia tornavam-se mais letais e perigosas, atiçando sensações no corpo do ruivo que nem ele mesmo sabia da existência. Estava ficando cada vez mais desesperado com tudo àquilo, já que não conseguia se acostumar com as mudanças e as novas emoções que brigavam constantemente dentro de si. Toda essa agitação fazia nascer em sua mente um coro desordenado de vozes, que insistiam em berrar ao mesmo tempo.

Eu só queria um pouco de silêncio! – Era o que pensava, sem conseguir assimilar coisa alguma.

- Matt... – O outro, ainda de costas, o tirou bruscamente de seus pensamentos. – Você ‘tá com um celular no bolso?

Mail abriu a boca para respondeu que não, mas, no último segundo, mudou de ideia, as esmeraldas arregaladas em pânico.

- ‘To.

- Hum... Vai dormir então. – Com um aceno Mello entrou e fechou a porta, deixando um ruivo completamente pasmo do lado de fora.

Passados alguns segundos de relutância, Mail olhou discretamente para o meio de suas pernas e fez uma careta.

Não vai dar pra esperar até amanhã...

Derrotado, caminhou de cabeça baixa até seu quarto, ansioso para se livrar do ‘’celular’’.

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Já passava da meia noite quando, a caminho do Canil, Mail lembrava-se do papel que Near lhe dera há alguns dias antes. As poucas palavras que ocupavam o centro da folha formavam uma frase simples e sem qualquer sentido aparente.

Melhoras, lula seboso.

Provavelmente um anagrama. – Mail pensara ao lê-la.

Anagrama (do grego ana = "voltar" ou "repetir" + graphein = "escrever") consiste em uma espécie de jogo de palavras em que se altera a ordem das letras de uma palavra ou frase para formar outras. É difícil descobrir o objetivo do escritor de um anagrama, já que a palavra (ou frase) escrita pode ser rearranjada em várias outras.

Ele só pode estar tirando uma com a minha cara... – O ruivo não podia deixar de pensar ao se lembrar, pela centésima vez, de como ficara frustrado ao não conseguir decifrar a mensagem que o albino estivera tentando passar. Apesar de ter sido instruído pelo mesmo a entregar o papel ao loiro, decidira não fazê-lo até ter certeza de que a mensagem não continha nada de... embaraçoso. – Se isso tiver alguma relação com o que eu ... sinto... por Mello, estou ferrado.

Sacudindo a cabeça para se livrar daquele incômodo, percebera que já se encontrava nas portas do refugio para fracassados. O cheiro de cigarro ali se fazia mais do que presente à medida que caminhavam, observando os seres imundos ao seu redor. Alguns homens fumavam ao redor das mesas, soltando fumaça na cara dos que passavam, enquanto outros, completamente bêbados, caiam pelos cantos como animais mortos. Mulheres surgiam sem qualquer aviso, esbarrando e se esfregando no primeiro que as olhasse com interesse.

- Olá. – Uma bela ruiva de cabelos bastos, vestida somente com o mínimo necessário, sorriu para Mail e, como este a dispensou com uma careta, partiu para o loiro.

Mello foi conduzido pela mão até a poltrona mais próxima. Seus pensamentos estavam tão longe que mal percebeu que a mulher o guiava, tomando conhecimento de sua presença apenas quando esta sentou em seu colo, observando-o faminta.

Essas vadias estão cada vez mais abusadas...

- Você é pesada, sua vadia. Sai de cima de mim.

Aquele pequeno comentário gerou uma indignação entre os que estavam ao redor. Mail precisou correr para separar um bêbado que, com o objetivo de defender a moça, pulou no pescoço do loiro, apertando até deixá-lo vermelho de raiva. No segundo em que estava livre Mello teve a brilhante ideia de chutar o meio das pernas do outro e, somente em meio ao caos que se estabeleceu em seguida, Mail conseguiu arrastá-lo para longe da briga.

- Qual é o seu problema? – Matt perguntava enquanto subiam os diversos lances de escada.

- O cara tentou me esganar, Matt! O chute no saco foi mais do que merecido. – Ele sorria satisfeito, tirando uma barra de chocolate do bolso e arrancando um pedaço com os dentes.

- E eu não estivesse lá? Você teria virado saco de pancada daqueles trogloditas.

- Eu não preciso de babá, Matt. Sei muito bem me virar sozinho.

Claro, tanto sabe que há alguns dias estava até passando fome! – O ruivo pensava, sem coragem de proferir as palavras que eram mais do que verdadeiras. – Você precisa de mim, Mihael!

Aquelas afirmações, mortas e enterradas na garganta de Mail, que nada tinham de falsas ou fantasiosas, baseavam-se no estado deplorável do loiro há algumas semanas. Desnutrido, tendo crises de choro, surtos violentos por parte de seu complexo de inferioridade, isolamento físico e emocional, sinais claros de bipolaridade...

Aparentemente, um caso sem solução.

Contudo, somente quando o ruivo passou a cuidar dele (obrigando-o a dormir as horas necessários, enchendo-o de comida e restaurando sua antiga aparência) foi que Mello voltou ao normal.

- Você nunca vai admitir... Não é? – Mail sussurrava com certa tristeza.

- O que?

- Nada, nada...

Por fim, alcançando a porta de Sid, Mello a abriu com um chute. Foram ouvidos uma série de barulhos, como objetos caindo com estrépito no chão, antes que o homem moreno e corpulento surgisse de seu quarto, sem fôlego e enrolado apenas em uma toalha.

- Mas que merda...

- Põe logo uma roupa Sid, ninguém ‘tá a fim de ver o que tem por baixo se ela cair. – Mail comentou, se jogando no sofá.

- Seus pirralhos, sumam daqui! Não é uma boa hora... – Sid lançava olhares de soslaio para o cômodo do qual acabara de sair.

- Tem uma das suas putas aí, por acaso? – Mello se instalou em uma poltrona, do outro lado da sala. – Despacha logo, eu vim aqui falar de trabalho e não estou com saco pra esperar.

- Pivetes malditos, saiam e voltem outra hora! – O homem pegava Mail pelo braço e o arrastava para fora, quando Mello se levantou e abriu a porta do quarto.

- Sai. – O loiro dava espaço para ela passar enquanto Sid espumava de raiva. – Depois o velho te paga.

Completamente constrangida e cobrindo-se como podia, a mulher saiu aos tropeços do quarto. Todos a acompanharam com o olhar, sem se mover, exceto Sid que tentou desesperadamente chama-la de volta, mas ela já havia desaparecido escada abaixo.

- Espero que seja importante sua loira filha da puta. – O homem fechava a porta com um estrondo e pegava uma arma sobre a mesinha de centro. Aproximando-se de Mello, deslizou a superfície gelada do objeto sobre sua bochecha. – E que envolva muito dinheiro, senão eu sugiro que comece a rezar.

- Você devia me agradecer por te impedir de pegar uma doença venérea... – O rosto de Sid se contorceu em fúria e Mail, novamente instalado no sofá, riu baixinho. – E não precisa fazer essa cara porque você vai ganhar uma boa grana desta vez.

- Acho bom... – Disse entre dentes, fechando-se no quarto e saindo minutos depois, completamente vestido.

Com os três na sala, começaram-se as negociações. O trabalho, que Mello recebera há dois dias, consistia na entrega de uma série de produtos ilegais (incluindo drogas e munição) para uma rede de tráfico em outro país, a milhares de quilômetros dali. Para escapar da fiscalização, o produto teria de ser passado por mãos já extremamente imundas com a sujeira deste mundo, como presidiários, chefes da máfia, assassinos e prostitutas.

Literalmente, a escória da sociedade.

- Quanto eu levo nisso? – Sid perguntou ao final das explicações.

- Tem muita grana envolvida, mas muita gente pra pagar então eu diria... Cinco por cento.

- Vocês só podem estar de brincadeira. – O mais velho ria, entornando uma garrafa de cerveja gelada.

- É o que tem pra hoje. E eu não faria pouco caso se fosse você. – Mello rapidamente rabiscou um número em um papel, entregando ao outro. – Já recebi metade de adiantamento. Em dinheiro.

- Gosto deste monte de zeros.

- Matt vai levar uma parte do material para os primeiros transportadores, mas o resto é com você. – Sid assentiu, bebendo mais um gole. – A propósito... cadê o Foster?

O homem riu, lançando um olhar para o assustado Matt.

- Ele não vem aqui faz um tempo, parece que o superior anda de olho nele. Mas me ligou ontem. Disse que ainda quer os seus serviços Mello, apesar do que... aconteceu.

- Nada feito. – O loiro respondeu de imediato.

- O cara perdoou a coronhada e ainda vai te pagar adiantado, Mello! O que você tem na cabeça, merda?

- Eu disse... NADA FEITO! – O loiro bradou com raiva, lembrando-se do modo como o velho passava as mãos nojentas pelo corpo de Matt.

- Ele ‘tá desesperado, disse pra te convencer de qualquer maneira.

Mihael ia começar a protestar quando Mail o interrompeu, pela primeira vez.

- Espera Mello. – Os olhares convergiram para ele quando se dirigiu a Sid. – Queremos o triplo do que havíamos combinado antes.

- Qual é, nem ferrando que um policial teria tanto dinheiro assim.

- É pegar ou largar. – Mail sorria de lado e Mello o observava espantado.

Sid suspirou e sorriu, cruzando os braços.

- Você não devia andar tanto com ele. – Indicou Mello com a cabeça. – Vai acabar igualzinho.

- Vou levar como um elogio. Vamos Matt. – O loiro girou nos calcanhares e se afastou, descendo de dois em dois degraus.

- Ei Matt. – O ruivo se virou, já na soleira da porta. Sid o observava com uma expressão estranha, que Mail não soube identificar de imediato.

- Que?

- Não se esforce tanto por outra pessoa. – Ele fez uma pausa enorme, escolhendo com cuidado as palavras. – Saia enquanto é tempo.

Mail, ainda um pouco atordoado, assentiu rapidamente com a cabeça e se afastou a passos rápidos. Enquanto descia as escadas, seus pensamentos lentamente eram colocados em ordem e ele assimilava o que acabara de acontecer.

Sid, mesmo sendo o que era (bêbado, traficante e iludido pelos prazeres da vida), quisera lhe passar duas lições importantes com aquelas poucas palavras.

Primeiramente, pensando por poucos segundos, Mail deduziu que ‘’outra pessoa’’ referia-se a Mello. De acordo com o homem, o ruivo não deveria perder tanto tempo com alguém que, era mais do que óbvio, não valorizava sua ajuda.

E segundo, pelo que Sid lhe dissera, Mail deveria deixar o mais rápido possível aquela vida de crimes. Era jovem e, como ainda havia tempo para se separar de gente daquela laia, não deveria tardar em fazê-lo.

Apesar de guardar na lembrança os dois valiosos conselhos, Mail não seguiu nenhum deles. Viveria a vida de seu próprio jeito, faria o que fosse preciso para estar ao lado de Mello. Mesmo que para isso precisasse matar, roubar e praticar qualquer tipo de crime hediondo, não havia problema. De certa maneira, até se acostumara com a prática.

Não era tão difícil depois da primeira vez.

Caminhando ao lado de Mello nas ruas assustadoramente desertas da madrugada, as esmeraldas erguiam-se para o céu escuro e repleto de nuvens. Uma garoa fina caía sobre suas bochechas, quase como lágrimas silenciosas, enquanto se recordava da expressão enigmática de Sid, agora clara como a água.

Expressão que sugeria nada mais, nada menos do que a mais pura pena.

Notas finais
Olhem só esse trecho, do site infoescola, sobre a claustrofobia : ... qualquer vivência de um trauma em um lugar fechado pode ser o estímulo inicial para desenvolver nestas pessoas este gênero de fobia. Outros estudiosos veem nesta perturbação uma expressão de ímpetos sexuais e culpas reprimidas. (Ok né Matt kkk >.< )
Ah, sobre o anagrama, eu tentei, eu JURO que tentei cria-lo por mim mesma, mas não deu. Se continuasse tentando atrasaria o capítulo... Ainda vou criar um pra essa fanfic, talvez na segunda temporada, quem sabe. (É promessa u.u )
Mas enfim, sintam-se livres para tentar decifrá-lo ou esperem até segunda que vem ^-^.