Stalemate

19 XIX. Sorriso ridiculamente natural.


Notas iniciais
Pra quem queria um capi­tulo maior... ^-^
Postei hoje porque sou boazinha u.u (Mentira, é que não vou entrar amanhã)
Aproveitem o/

Mail movia seus dedos sobre os minúsculos botões do psp. Os bips causados pelos movimentos chegavam rapidamente aos ouvidos do ser acomodado na cama ao lado. Este, um loiro extremamente temperamental, precisava de toda a sua força de vontade para não jogar o livro grosso em seu colo na cabeça do outro.

– Matt...

– Ah, d-desculpa, é o jogo né? E-eu sabia que tava te atrapalhando, desculpa, foi mal mesmo. – Todo atrapalhado, Mail desligou o aparelho e o colocou sobre o criado mudo, enrolando-se sob as cobertas e fitando a parede oposta.

Mello detestava quando o ruivo fazia isso. Depois de quase dez anos de convívio com o outro, sabia que quando Mail começava a gaguejar era porque algo muito importante o incomodava. Antes, era frequente esse tipo de comportamento na véspera de um torneio de vídeo game com os outros órfãos. Porém, agora que crescera, o ruivo se tornara o melhor gamer do instituto, não havia a quem temer. A única conclusão lógica, portanto, era que Mail estava nervoso por um motivo diferente.

Enquanto Mello analisava a situação, tentando descobrir porque o outro estava tão agitado, Mail precisava segurar o impulso latente de sair daquela cama e abraçar o loiro. A briga entre os dois parecia estar finalmente dando uma trégua, de modo que Mail se sentiu contente apenas pelo outro falar consigo. Quer dar um fim àquela tensão entre eles e, para tanto, faria o que fosse necessário para agradar a Mello.

Mesmo que, entre as coisas que fizesse para o loiro, incluísse esquecer os insultos à sua sexualidade.

Estava magoado. Ferido, machucado, como se uma estaca afiada houvesse aberto uma cratera em seu peito. Não importava quantas vezes lutasse para esquecer o que acontecera: as palavras de Mello voltavam cada vez mais fortes à sua memória.

‘’Não é nada demais? Como ter uma bicha dormindo no mesmo quarto que você pode não ser nada demais?’’

E aquela ferida, que parecia estar cicatrizando, abria-se abruptamente, liberando uma quantidade enorme de dor e sofrimento.

Esqueça... – Mail repetia a si mesmo. – Esqueça que ele disse isso e tente reconquistar sua amizade e confiança aos poucos...

Com esse pensamento em mente, Mail continuou a seguir em frente, fazendo pequenas coisas aqui e ali para retomar a relação tranquila que possuíam antes, como fazer chocolate quente para ele todas as manhãs (sem esquecer, é claro, de não estar presente quando o loiro acordasse e visse a garrafa térmica com o delicioso líquido dentro), arrumar a cama coberta de chocolates, guardar os livros espalhados e organizá-los por ordem alfabética, cobri-lo durante a noite caso estivesse com frio... Tudo isso, obviamente, quando Mello ou não estivesse presente ou estivesse dormindo profundamente.

Pouco a pouco, Mail pensava estar reestabelecendo a antiga amizade entre ambos. Não sabia, porém, que preparara o terreno para algo ainda maior.

– Não, não era o jogo... – Mello se apressou em acrescentar, embora fosse mentira. – É que... Eu queria me desculpar. Sabe, pelas merdas que eu falei há algumas semanas.

Mello tinha consciência de que aquele simples pedido de desculpas não seria suficiente. Depois de tirar vários dias para pensar, ele chegara à conclusão de que todo o escândalo que fizera fora apenas consequência do choque à notícia. Por ter reações quase sempre explosivas (ok, SEMPRE), Mello levara tempo para absorver a verdade e perceber que sua atitude fora desnecessária. Não podia simplesmente sair gritando a primeira coisa que viesse à cabeça para o outro. O assunto era delicado, precisava ter sido abordado de forma cautelosa.

E agora, Mello sentia-se culpado.

Culpado por não ter pensado nas crianças que estavam dormindo ao redor, culpado por ter exposto a situação aos quatro ventos (por pura sorte, o corredor estava deserto naquele momento), culpado por ter explodido na cara de Mail sem pensar nas consequências e principalmente culpado por fazer o rosto do ruivo esboçar uma expressão tão desoladora.

Não sentia-se melhor que um monstro.

E, como uma brincadeira do destino, o ruivo passara a ser ainda mais gentil com ele, fazendo o que estivesse ao seu alcance para agradá-lo. Daquela forma, parecia que Matt tinha feito algo errado e não o contrário.

O que fez Mello se sentir ainda pior.

Tudo bem, ele é gay... – O loiro repetia para si várias vezes por dia. – Eu fiquei com raiva no início por ter sido o último a saber... Mas, agora que eu sei, qual o problema nisso?

– V-você não tem porque se desculpar... Q-quer dizer, eu e o... – Mail relutou em dizer ‘‘Sebastian’’. – ... a gente... n-não devia ter feito aquela cena...

Eu sou patético. – Mail pensava com tristeza. – Ficar tão eufórico porque Mello voltou a falar comigo.

– É sério Matt... Eu não tenho nada a ver com o que vocês fazem ou deixam de fazer... Não tinha o direito de falar aquilo. – Mello ficou em silêncio por um tempo e, decidindo-se, fechou o livro e sentou ao lado de Mail na outra cama. O ruivo o imitou, mas se recusou a olha-lo. – Olha Mail... – O coração do ruivo revirou no peito à menção de seu nome verdadeiro. – Eu só fiquei irritado porque você nunca me contou. A gente se conhece a tanto tempo e você nem sequer mencionou o assunto.

– E-eu achei... que não você não ia reagir bem.

Mello engoliu em seco. O ruivo estava certo.

– Eu sei... Mas agora... Não quero que fique escondendo as coisas de mim. Prefiro que me diga logo do que descobrir de outra forma.

– T-ta... Me descul...

– Você não tem que pedir desculpas! – Mello bradou irritado e Mail desviou o olhar para um canto ainda mais distante. O loiro suspirou, se controlando. – Eu fui um imbecil e você não tem nada do que se envergonhar. Entendeu?

Mail assentiu, ainda sem olha-lo. Com extrema relutância e julgando que, apenas no mesmo, aquilo fosse necessário, Mello o abraçou, apoiando o queixo em seu ombro direito. Um pouco assunto, Mail retribuiu o gesto, amaldiçoando o próprio coração, que começara a pular como se estive em uma cama elástica.

– Você ‘tá bem? – O loiro perguntou, referindo-se não só ao que haviam conversado como também aos batimentos desesperados do outro que, pela proximidade, podia sentir.

Mail assentiu, sem dizer nada. Estava muito ocupado em sentir o perfume de chocolate nos cabelos de Mello, o qual era o mesmo desde criança.

– Você ainda usa esse condicionador? – Mail riu próximo à orelha do loiro que, alarmado, o afastou.

– Hã... É, eu gosto dele. – Levantando e desviando o olhar, ainda com os pelos da nuca estranhamente arrepiados, tratou de mudar logo o assunto. – Melhor a gente descer. Vai ter gelatina de morango como sobremesa.

Arriscou o olhar para o outro e ficou um pouco surpreso com o que viu. Mail sorria, de orelha a orelha, os olhos verdes parecendo brilhar em harmonia com os cabelos cor de fogo, sobre os quais jaziam os goggles alaranjados.

– Tá rindo do que? – Mello não pôde conter um risinho.

– Só tava pensando... Desde quando você gosta de alguma sobremesa que não seja chocolate?

Mello revirou os belos olhos azuis.

– Desde agora. Vem logo ou eu vou comer tudo.

– Ah, que maldade, loira!

Eles desceram as escadas de mármore, rindo como dois retardados (o que provavelmente eram), sem ter ideia de que haviam acabado de abrir portas que não podiam mais ser lacradas.

Não se pode dizer que tudo voltara ao normal depois disso, como sempre acontecia. Desta vez havia algo diferente.

Algo muito diferente.

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Mello se encontrava na sala de aula, observando a paisagem de verão que se estendia lá fora. Usava seu clássico colete preto, deixando à mostra os braços nem tanto musculosos e boa parte da barriga magra, calças negras e apertadas de couro, que marcavam excessivamente suas coxas, botas negras de cano longo, luvas de couro que alcançavam seus pulsos, uma pulseira com spikes prateados se projetando ameaçadores e, por fim, um cordão no pescoço com um crucifixo na ponta. Ao redor de dos olhos estonteantemente azuis, uma camada fina de delineador escuro realçava a expressão ameaçadora. As unhas pretas, um pouco compridas demais, tamborilavam na superfície da mesa de um braço, demonstrando o quanto sentia-se entediado.

– Mello! – Trovejou o professor de Botânica, um velho de cabelo ralo e roupas dos anos cinquenta. – Estou te chamando há vários minutos! Venha no quadro e cite o nome científico de sessenta espécies de plantas fanerógamas venenosas!

O loiro revirou os olhos e foi até o quadro, começando a escrever. A sala inteira fez um Oh! de assombro, em parte porque ele sequer parecia pensar antes de escrever e em parte porque, sempre que um professor lhe pedia para fazer algo que já sabia, o loiro saía da sala para estudar sozinho ou proferia um belo e sonoro palavrão.

– Ah... Obrigado, Mello. – O homem parecia desorientado e, quando o loiro voltou ao seu lugar, tratou de retomar a aula.

– Três minutos e meio! Cara, você é incrível! – Mail sorria animadamente na carteira logo atrás do loiro, olhando para o relógio. As belas esmeraldas em admiração estavam cobertas pelos goggles, parecendo que no lugar dos olhos Mail possuía um par de faróis alaranjados. Estava vestido com uma camiseta regata listrada (que alternava entre branco e vermelho) um pouco apertada para seus padrões, já que a maioria de suas roupas encontrava-se na lavanderia. Não que alguém estivesse reclamando: algumas meninas e uns poucos meninos lançavam olhares de soslaio para o ruivo durante a aula. Este usava também uma calça jeans azul larga, luvas de couro pretas que iam até metade de seu antebraço e tênis All Star vermelhos com cadarço branco.

Estando lado a lado, ambos pareciam ter saído de mundos diferentes.

– Valeu. – O loiro sorriu de volta.

Mail estranhou. Normalmente, Mello diria algo como Eu sei ou É óbvio, mas nunca agradeceria. Talvez o excesso de chocolates estivesse finalmente afetando sua cabeça.

Mello voltou-se para a janela ao lado esquerdo e Mail acompanhou seu olhar. Lá em baixo, entre as raízes de macieiras, laranjeiras, carvalhos, sequoias, pinheiros e outras belas árvores, um menino de destacava sob as sombras. Seus cabelos azuis escuros, que tendiam para negros, balançavam ao vento enquanto ele erguia-se na pontinha dos pés na direção de um limoeiro, tentando alcançar um limão particularmente grande. Pulava, esticava-se mais, tomava impulso, mas nada de alcança-lo. Mail não pôde evitar de rir baixinho da cena e, quase como um reflexo, olhou para o loiro, esperando ver o mesmo sorriso em seus lábios.

A temperatura ao seu redor baixou uns dez graus. O ruivo literalmente tremeu com a expressão de puro ódio no rosto de Mello: o cenho franzido, os dentes trincados, os olhos azuis estreitados em um olhar sanguinário e perverso, como se este fosse capaz de matar ao apenas pousar na vítima. Quase era possível ver suas bochechas sujas de vermelho.

– Mello? – O mais novo o chamou timidamente.

Mello balançou a cabeça, voltando à realidade. Ergueu-se e, ao fazer um sinal, Mail o seguiu como um cachorrinho para fora da sala. Já sabia aquela matéria mais do que qualquer outro, então não havia problemas. Nem Near viera assistir à aula, de modo que não havia tempo para perderem ali.

– O que foi? – Mail perguntou preocupado.

– Nada... Só achei aquela sala meio quente. – Andando de costas com as mãos nos bolsos e se arrependendo de usar couro naquele calor, Mello olhou para o outro. – E aí, quer fazer o que?

– Tava pensando em dar um pulo no Canil...

– Pra que? Procurar um dono pra você? – O loiro riu e Matt não pôde deixar de pensar que, se ele era um cachorro, certamente queria que Mihael fosse seu dono.

– Babaca.

– Ta, falando sério. Não dá pra gente ir hoje, o Sid e aquele amigo dele vão levar umas putas pra lá.

– Amigo dele... O Caster? – Mello assentiu. – Cara, eles são nojentos.

Caminhavam lado a lado, comentando sobre todo o tipo de pessoas que tiveram de conhecer durantes os transportes de drogas, assassinatos e outros trambiques, tomando cuidado de falar através de códigos simples inventados por eles, até que uma pergunta veio a Matt.

– Mello... Alguma notícia do Foster?

O loiro fechou a cara e uma onda de repulsa invadiu seu corpo. Tivera uma experiência infeliz com o policial, em que o vira beijar Mail sem nenhuma vergonha. E, para aumentar ainda mais o nojo que sentia do homem, sonhara que este estuprava o ruivo sem nenhuma piedade.

– Por que quer saber? – Mihael resistiu ao impulso de fazer algum comentário cruel como ‘’Quer continuar se esfregando no colo dele?’’

– Só pra saber... Eu tenho tanto nojo daquele cara. – Em parte isso não deixava de ser verdade, apesar do ruivo saber, após uma maravilhosa ligação de Sid, que aquela desagradável cena não fora inteiramente culpa do loiro quarentão.

– Não sei... O Sid disse que o velho anda meio enrolado depois que nós fizemos aquele trabalho pra ele. – Mello lembrava-se de ter feito todo o possível para manter Mail longe do homem durante os encontros de negócios, já que o olhar deste para o mais novo era tão lascivo que lhe provocava náuseas. – Mas não sei se é verdade. Ele é policial... Não confio nele.

Ficaram em silêncio por algum tempo, imersos em seus próprios pensamentos, até Mail ter uma ideia.

– Hey, Mello! – Ele sorria alegremente. – Já sei o que vamos fazer hoje.

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O som da bola de basquete quicando no chão ecoava pela quadra poliesportiva da Wammy’s House.

Nos fundos do instituto, atrás da gigante construção principal, havia uma quadra coberta, tamanho padrão. Por ser um orfanato para as crianças mais brilhantes da geração, não é necessário dizer que dali saiam apenas jogadores olímpicos. Por serem poucos os dignos de tal potencial, era comum que a quadra ficasse ocupada, em média, quatro vezes por dia. E, por sorte, naquele momento ela encontrava-se vazia.

Pelo menos até a chegada de Mail e Mihael.

Este trocara suas botas por tênis negros esportivos, assim como deixara de lado a calça de couro por uma bermuda da mesma cor. Aparentemente, não havia problema nenhuma nessa vestimenta, exceto pelo fato de que a bermuda era, na verdade, um belo shortinho preto com fivelas douradas que mal lhe chegava à metade das coxas.

– Anda, Matt! Vai jogar ou não?

O ruivo batia a bola no chão, sem muita consciência do movimento. Também trocara a calça jeans, mas colocara um bermudão, do tipo ideal para esporte. Tirara os óculos de piscina, mas naquele momento desejava não tê-lo feito: assim poderia disfarçar o quando estava secando com o olhar a parte de baixo do corpo de Mello.

– Hãn? – Foi a coisa mais inteligente que conseguiu dizer antes de limpar a baba do canto de seus lábios.

– A bola, seu retardado!

– Aaah! – Finalmente percebeu o que estava na mão. – A bola...

As regras eram simples. Um tentava avançar, a partir do centro da quadra, para a certa e outro teria de defender. A cada vinte e cinco tentativas, atacante trocava com o defensor.

Extremamente simples.

E Mail, logo de cara, começou mal.

– Você é péssimo, Matt! – O loiro lhe devolvia a bola roubada, depois da oitava tentativa. – Não consegue acertar uma!

Vai ver é porque tem alguma coisa me distraindo! – Mail pensou com raiva. – Não sei como as bolas dele não doem nessa roupa.

E o ruivo avançou mais uma vez. Mello o interceptou quase imediatamente, esticando o braço para que não pudesse passar. Mail girou e ergueu a bola em posição de arremesso, pronto para fazer uma cesta de três pontos. Um segundo depois da bola ter deixado suas mãos, Mello a bloqueou com um pulo, fazendo-a rolar audivelmente pelo chão.

– Tem certeza de que não quer desistir? Eu não digo a ninguém que perdeu de lavada se admitir que sou melhor que você.

– Ah, cala a boca. – Apesar do tom, Mail ria. Jogou a bola para o outro. – Vai pro meu lugar, quero defender.

Porém, a escolha foi mil vezes pior. Não só por Mail ter de ficar lembrando que deveria manter os olhos na bola laranja (e não em outros lugares), mas também porque, ao ver o ruivo tão empenhado em defender sua cesta, a vontade de Mello em vencê-lo aumentou consideravelmente.

Mello se aproximou lentamente, sem tirar os olhos das esmeraldas. Andou para a esquerda e viu o olhar do outro acompanha-lo.

Olha nos olhos dele, Matt... Nos olhos! – O ruivo repetia mentalmente, apesar de estar achando a tarefa bastante difícil.

Subitamente, Mello correu em sua direção. Pela velocidade, parecia querer fazer uma enterrada, de modo que Mail teve de se esforçar para detê-lo. Por Mello ser um pouquinho mais alto (cerca de dois centímetros), estava acostumado a dizer a Mail que o vencia por causa da altura. Mas, pelo visto, o ruivo estava cansado de perder, já que o marcou tão pesadamente que o loiro não teve outra escolha a não ser retroceder.

– Parece que alguém ficou nervosinho... – Mihael debochava, quicando lentamente a bola para o outro lado da cesta, de modo a fazer um semicírculo com Mail no centro.

Estavam a três metros de distância, mas Mello podia ver o sorriso nos lábios de Matt. Jamais admitiria em voz alta, mas um de seus maiores passatempos era ver o sorriso do ruivo. Não um sorriso amarelo ou de educação, mas um sorriso natural, puro, que mostrava vários dentes.

Natural... Aquela palavra parecia descrever bem o adolescente de olhos verdes e cabelos vermelhos escuros. O balanço do cabelo, o contorno do rosto, os movimentos nervosos com os dedos... Toda a sua beleza, na opinião de Mello, parecia fluir naturalmente em ondas de calor.

– Vai ficar quanto tempo admirando a minha beleza? Não tenho o dia todo, loira! – Mail ofegou e riu, mas Mello estancou, a bola presa firmemente nas mãos. Suas unhas pretas apertavam o material laranja e duro enquanto pensava que aquilo era exatamente o que estivera fazendo: admirando a beleza do ruivo. – O que foi? – Ele pareceu preocupado por um instante.

– Nada... Tudo bem. – E continuou batendo a bola, avançando um pouco depois e tendo sua tentativa de enterrada bloqueada por Mail. Com o impacto ombro a ombro, ambos caíram desajeitadamente no chão, de modo que, após um primeiro momento de colisão brusca, Mello estava entre os dois braços de Mail, cujos cotovelos ralados se apoiavam no chão. As pernas de ambos estavam entrelaças de tal forma, que da metade do tronco de Matt para baixo, seu corpo encostava-se ao de Mello.

Constrangedor, para dizer o mínimo.

– A-ah... D-desculpa, Mello, eu...

– Tudo bem... – Mello olhava para o lado, consciente de ter um cara gay bem em cima dele.

– F-foi sem querer, o sem ombro bateu no meu e aí... – As palavras saíam desesperadas de seus lábios. Ele estava em pânico: se Mello percebesse algum nível mínimo de excitação ou visse um brilho necessitado em suas esmeraldas, seria o fim.

Felizmente, Mello pareceu não notar nada disso. Estava mais preocupado com a parede do canto mais distante da quadra e em saber porque sentia tanto calor.

– Matt... Só... Sai de cima.

– Ah... é... tá.

Já de pé e com alguns arranhões feios nos cotovelos e joelhos, Mail seguiu com o loiro para o vestiário, decidido a ir à enfermaria e limpar o pouco sangue que saía dos ferimentos. Se trocaram em silêncio, de costas um para o outro, uma tensão pesada entre eles.

Mail mal teve tempo de quebrar o silêncio já que, enquanto abotoava sua calça, um cansaço que o consumia desde a vigésima cesta parecia estar aumentando. Respirava com extrema dificuldade, mal conseguindo falar. Uma forte dor no peito seguida por uma súbita e intensa falta de ar o fez vir ao chão com um baque ensurdecedor.

– Matt! – O loiro correu em seu auxílio, deitando-o confortavelmente no chão enquanto tentava entender o que acontecia. Mail apenas arranhava o próprio peito sobre a camisa e murmurava:

– Dói...

O loiro estava em pânico. Fora treinado para agir em casos como aquele, mas ver Mail ali, abrir desesperadamente a boca como um asmático, na tentativa de sugar um pouco daquele precioso oxigênio, fazia suas mãos tremerem.

Ele precisa deitar. – Foi seu primeiro pensamento. Deitou-o delicadamente e começou a fazer massagem cardíaca, dizendo-lhe que tudo iria ficar bem e controlando ao mesmo tempo o ritmo de suas pulsações. Ficava mais apreensivo a cada instante. Se seu coração parecia disparar de nervoso, nada se comparava ao de Mail: este batia dolorosa e violentamente contra o peito, tentando bombear um oxigênio que não estava ali.

Mihael tentava lhe dizer para respirar com calma, mas Mail não parecia ouvi-lo: estava muito nervoso, o que apenas dificultava. O cérebro do loiro começou a trabalhar furiosamente, procurando outra solução. Era difícil, pois não sabia sequer o que o ruivo tinha, mas, ainda assim, pensou com afinco. Em um primeiro e desesperador momento, não se lembrou de nada. Mas então, conforme alguns leves espasmos abalavam o corpo do ruivo, Mello encontrou uma alternativa, apesar de não estar muito animado a coloca-la em prática.

Hesitou o período de uma pulsação e, vendo que os olhos verdes estavam começando a se fechar, fechou as narinas de Mail com uma mão e, enquanto enchia a boca de ar, segurou em seu queixo com a outra.

O toque dos lábios foi estranho. Mello apenas teve tempo de perceber, por um milésimo de segundo, que o gosto do cacau combinado com o de menta não era tão ruim. Infelizmente não pôde se ater a detalhes e passou a fazer o que era de fato necessário: soltou todo o ar acumulado dentro da boca do ruivo. Estava preocupado demais com o mais novo para se sentir constrangido, de modo que repetiu o procedimento cerca de 20 vezes por minuto. Mello não sabia, mas qualquer um que passasse ali imaginaria que estavam trocando um beijo delicioso e profundo, pelo modo como colocava todos os seus esforços naquilo.

Mail recobrou lentamente a consciência, primeiro sentindo algo invadir seus pulmões com uma pontada e depois algo quente e molhado tocando-lhe a boca. Abriu os olhos e sentiu que a alma quase saía do corpo: Mello estava de olhos fechados sobre ele, os lábios colados, os cabelos dourados fazendo cócegas em suas bochechas. Teria ficado ali para sempre, sem se mover, se Mihael não tivesse percebido que o tórax do ruivo inflara, enchendo-se de ar. Abriu os olhos e sentiu a face queimar com as esmeraldas arregaladas para ele. Um segundo antes de se afastar e, apesar de Mail estar tossindo e tentando respirar calmamente pelo nariz, pôde ouvi-lo claramente dizer:

– Espera...

Mail queria mais. Pouco se importava consigo, com sua condição respiratória. Havia chegado tão perto, mas tão perto, que seria um insulto recuar. Precisava sentir, apenas por outro ínfimo segundo, os lábios doces de Mello. Repetia mentalmente, na esperança de alcançar os pensamentos de seu objeto de desejo: Eu te amo, eu te amo. Me veja aqui ao seu lado, Mello.

Entretanto, o loiro tinha outros planos. Estava assustado por ter tido de salvar a vida de Mail tão de repente e assuntado com a expressão necessitada que vira em seu rosto. Sem pensar, ergueu-se de um pulo e caminhou dois passos para trás, estático. Mail se levantou com extrema dificuldade, sentiu o peito ainda doer.

Que merda... Acabei assustando ele.

– Você tem que ir na enfermaria. – Mello tentava esconder, mas sua voz estava trêmula. Estava em choque e coberto de preocupação: por uma fração de segundo pensara que poderia poder Mail. – Agora.

– Mello! – O loiro já caminhava para fora. Se virou lentamente. – Obrigado... você... me salvou.

A expressão do mais velho pareceu relaxar por apenas um minuto, um sorriso passando por seus lábios. Logo, todavia, retomou sua face preocupada.

– Me deve uma. Consegue andar?

Mail assentiu e, depois de ter um violento surto de tosse que quase fez o coração de Mello sair pela boca, saíram para os jardins verdes e ensolarados.

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Mail abria a porta do quarto, feliz por se ver livre de todos aqueles exames e triste pela bombinha de asma que pesava em seu bolso. Pensava somente em deitar e morrer de vergonha, quando viu que Mello fuçava nas suas coisas com uma grande sacola.

– Hã... Mello?

O loiro nem se dignou a olhar. Mexia nas tralhas incontáveis de Mail com rapidez, jogando todas as caixas e bitucas de cigarro que encontrava no saco.

– Ei! O que você ‘ tá fazendo? – O mais novo percebeu o que acontecia e se enfureceu. Toda a mágoa que guardara nas últimas semanas pelo outro pareceu voltar como um furacão.

Como aquele loiro imbecil, vagabundo, desgraçado, que o chamara de bicha, tinha a ousadia de pegar os seus cigarros, a única coisa (além dos vídeo games) que o fazia feliz? Quem ele achava que era, sempre dizendo o que pensava, fazendo o que queria, sem se preocupar com os sentimentos dos outros?

Era a gota d’água.

– MELLO! – O ruivo se aproximou e puxou aquele ser pela gola com toda a força, fazendo Mello tropeçar e bater a cabeça na quina de uma das camas.

Toda a sua raiva se dissipou quando viu o mais velho se encolher de dor como uma bola e levar uma mão à cabeça, tirando-a de lá empapada de sangue.

Matt se desesperou. Pegou o kit de primeiros socorros que guardava e começou a mexer nos fios loiros (agora tingidos de vermelho), mas Mello o impediu com um sonoro tapa no rosto. O loiro levantou, mas mal alcançou a porta e teve de se sentar de novo, já que o mundo inteiro girava e perdia o foto. Sua cabeça pesava e, por fim, ele desmaiou.

Mail se ergueu e, com a bochecha ainda ardendo do tapa, pegou Mello nos braços e o levou até a enfermaria.

A dor física não o incomodava tanto, mas a dor interna era desastrosa. Soubera, ao chegar na gigantesca instalação branca com diversos quartos e salas de cirurgia de última geração, que fora consenso entre eles e Mello para cortar o tabaco do ruivo, nem que para isso tivessem de usar a força. Pareciam irritados com o loiro, mas não disseram a Mail por quê. De qualquer forma, não se preocuparam em revistar o quarto deles, já que o próprio loiro se encarregara da tarefa de jogar fora o cigarro.

Em resumo, Mihael estava tentando ajuda-lo. E Mail o feriu.

Jamais se perdoaria por isso.

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Mello acordou pouco tempo depois, se sentindo muito melhor e estranhando a ausência de Mail. Queriam que ele passasse a noite, mas o loiro se recusou. Antes de sair, teve uma segunda e violenta discussão com os médicos, insistindo veemente que estes refizessem os exames em Mail. Os homens e mulheres de jaleco faziam um esforço gigantesco para não elevar a voz com Mello, já que haviam pesquisas sendo feitas dentro nas salas ao lado e crianças machucadas adormecidas, mas o loiro não parecia estar a fim de cooperar. Afirmava com segurança que, apesar do diagnóstico asmático que lhe forneceram de Mail, novos testes eram necessários. Os médicos e enfermeiros por fim lhe deram alta, dizendo que sentiria uma ligeira pontada na cabeça pelas próximas vinte e quatro horas e, se ele não queria uma audiência particular com o diretor do orfanato, era melhor que diminuísse o tom.

Idiotas... – O loiro pensava ao caminhar de volta ao quarto, mordendo o lábio e franzindo o cenho. Estava extremamente irritado com o ruivo, mas isso não o impedia de se preocupar com sua saúde. Tinha quase certeza de que Mail estava com algo bem mais grave que asma e receava que descobrissem tarde demais.

Porém, assim que abriu a porta do quarto branco com seu nome em uma placa dourada, deixou o pensamento de lado. Naquele momento entendeu porque Mail não estava com ele no hospital.

O quarto estava irreconhecível. As roupas, antes espalhadas de qualquer jeito, estavam arrumadas por cor nos armários. A superfície dos móveis brilhava lustrosa, claramente encerada. Jogos, livros, chaveiros, mochilas, canetas, papéis: tudo encontrava-se organizado. Nenhuma nuvem de poeira dançava pelo chão extremamente brilhoso. As paredes, antes descascadas e sujas com marcas de pé, ofuscavam de tão brancas. O cheiro que enchia o ambiente não era mais de cigarro, mas outro aroma mais do que conhecido: cacau. A luz do luar que entrava pela janela milagrosamente limpa, caía diretamente na parte mais importante do cenário, como se Mail tivesse feito de propósito: a cama de Mello estava coberta dos pés a cabeça pela maior quantidade de chocolates que o loiro já havia visto, desde chocolate ao leite, amargo, branco, de avelã, até os com amendoim, nozes, passas e pistache.

Na cama ao lado, Matt acordava com o barulho da porta. Piscou algumas vezes, desorientado, até focalizar o loiro e correr em sua direção, caindo de joelhos.

– Mello... Mello, me perdoa, eu NÃO queria... – Ele abraçava as pernas de Mello, tagarelando sobre como sentia muito e entedia se o loiro o espancasse até a morte. Quando finalmente terminou, fungando, ergueu os olhos choros e o bico de cachorrinho para Mello, que teve de controlar um impulso ensandecido de passar a mão em seus cabelos. Em vez disso, pediu para que o outro soltasse suas pernas. Bem lentamente, Mail atendeu ao pedido e Mello se ajoelhou ao seu lado, o que realmente o surpreendeu.

O loiro não disse nada. Não sabia o que dizer. Simplesmente abraçou seu colega de quarto com força, apertando sua cintura e escondendo o rosto em seu pescoço. Mail, ao perceber a respiração quente e delicada de Mello em contato com sua pele, sentiu uma espécie de corrente elétrica se espalhar daquele ponto para o resto do corpo.

Não se lembrava de ter estado tão feliz.

Apesar de ter descoberto que era asmático, machucar Mello, ter uma falta de ar crônica e assustar o loiro com sua expressão pervertidamente gay, tudo fora recompensado com o toque dos lábios de Mello nos seus, naquele vestiário.

Talvez não fosse o melhor beijo do mundo (nem sequer fora uma beijo, pra falar a verdade), mas era um começo. Se antes Mail apenas imaginava como seria namorar com Mello, tendo absoluta certeza de que NUNCA, em hipótese alguma, poderia vir a dar certo, agora ele via como se talvez, apenas talvez, fosse possível.

Sabia que alguma coisa estava acontecendo com o loiro. Seu comportamento andava assustadoramente diferente para com ele. Antes, se o ruivo fizesse algo como abraçar suas pernas, o máximo que ele faria seria chuta-lo no estômago. E aquele abraço, então? No mesmo dia em que Mail sua cabeça sangrar?

Jamais aconteceria. E, mesmo assim, aconteceu.

– Sabe, Mello... Eu gastei todo o meu dinheiro nesses chocolates. – Mail o abraçava de volta, tomando extrema cautela com o que dizia. Não era só porque o loiro decidira ser legal com ele que colocaria tudo a perder. – Então não tem como comprar cigarros. E, além disso, eu peguei alguns deles chicletes e adesivos pra fumante. Aí eu nunca mais vou fazer aquilo com você e não vou mais precisar do cigarro, e aí...

Mello sorriu. Esse maldito ruivo que não para de falar...

– Você vai conseguir, Matt. Eu sei que vai.

Com isso, Mail finalmente silenciou, o corpo tão quente que precisaria de uma banho gelado mais tarde. Amava Mello mais do que nunca e estava disposto a fazer qualquer coisa para que este perdoasse o que tinha feito. Em sua opinião, não importava o tamanho do sacrifício: se fosse por Mello, ele faria.

O loiro, porém, não sabia o que sentir. Havia uma coisa estranha se agitando dentro dele. Fome? Raiva? Sono? Não saberia dizer. Quando entrou naquele quarto, estava prestes a estraçalhar o ruivo em pequenos e insignificantes pedacinhos, mas agora achava que isso poderia esperar.

Por um momento, lembrou-se de que o cara que estava abraçando era gay, mas, por algum motivo que ele ainda não compreendia, aquilo não o incomodou. Ele simplesmente aceitou o mais novo daquele jeito. E não era porque Mail era seu amigo e ele fosse obrigado a atura-lo, mas porque, depois dos acontecimentos, percebera que aquele detalhe em nada mudaria a vida de ambos. A personalidade de Mail era a mesma. Aquele ruivo babaca, irritante, retardado, ruim em basquete, com um sorriso ridiculamente natural não mudara.

Quem mudara fora Mello, mesmo que ainda não percebesse.

Ainda.