Stalemate
20 XX. Apostando com a Morte.
Notas iniciais
~Assobiando e agindo como se não tivesse atrasado uma semana~
Mello sentava em sua cama, as safiras arregaladas em pânico. Suor brotava de sua testa e escorria pelo rosto, suas mãos esticadas para frente, como se tentassem agarrar alguma coisa, tremiam.
Tivera outro pesadelo e, daquela vez, fora ainda mais vívido.
– P-para de me tocar... Tira a mão daí! – O menino ruivo se debatia nas mãos de um ser cuja face estava mergulhada nas sombras. Ele tentava se soltar, mas um braço envolvia sua cintura e lhe tirava o ar cada vez que tentava escapar. Em pânico, a criança olhou para baixo, como que desejando que aquela mão desaparecesse. No segundo seguinte, preferia não tê-lo feito. O suposto braço que o segurava era feito de ossos, nada além de uma mão cadavérica surpreendente forte e extremamente imunda.
– MATT! LARGA ELE, SEU MALDITO! MATT! – O loiro gritava, tentando se mover, mas suas pernas pareciam feitas de chumbo. Ele movia os braços para frente, tentando alcança-lo, mas estes colidiam com uma superfície invisível, como se um campo de força o separasse de seu amigo. Não lhe restara outra opção a não ser gritar, mesmo sabendo que seria inútil. As paredes do cômodo não possuíam janelas e não havia qualquer sinal de porta, o que era extremamente estranho, já que uma luz brilhante, como um holofote, pousava diretamente sobre Mail, permitindo que o loiro presenciasse seu desespero.
– CORRE MELLO! SAI ...sai daqui... – Ele soluçava, sem poder se conter.
– Não quer que ele veja, é? – Uma voz, aparentemente masculina, ecoou na mente de Mello e, por um momento assustador, a cabeça de Mail desapareceu nas sombras. – Você é um bom amigo... Mas não passa disso.
– DEIXA ELE EM PAZ! – Mello berrou, tentando quebrar o vidro invisível.
A voz gargalhou audivelmente, fazendo os pelos de sua nuca se eriçarem.
– Faremos então uma aposta. Se conseguir tê-lo antes de mim, seu peito será curado. Caso contrário, sugiro uma caixa bem grande para que ele possa repousar.
– Do que você tá falando... – O loiro soluçava, sentindo suas forças se esvaírem.
– Abra os seus olhos, Mello... Abra os seus olhos...
O loiro ainda respirava com dificuldade, tentando se recompor e entender o que diabos fora aquilo. Abaixou lentamente as mãos ainda estendidas e, com um sobressalto de alívio, constatou que o mais novo dormia tranquilamente na cama ao lado com a boca aberta.
Minutos se passaram e Mello sequer perceber que continuava a observá-lo. Os cabelos curtos e repicados de Mail caiam tão graciosamente por seu rosto adormecido que era quase um pecado não parar para olhá-lo. Parecia um bebê daquela maneira, franzindo a testa e emitindo alguns resmunguinhos de vez em quando. O loiro sorriu com a visão, mas logo se conteve, arregalando os olhos e virando para a parede oposta.
Que merda está havendo aqui? – Era a pergunta que mais fazia a si mesmo naquele mês de verão. – Por que faço isso toda noite?
Mihael, pra variar, se sentia estranho. Irritava-se ao sentir-se tão eufórico na companhia de Mail, sem qualquer razão aparente. Sua cabeça e seu peito, de maneira completamente ilógica, doíam ao pensar demais no assunto, mas nem por isso o loiro desistiu. Aos poucos, começou a perceber que aquela sensação incômoda era ainda mais intensa do que pensara, infiltrando-se rapidamente no mar de emoções em sua mente e causando um verdadeiro pandemônio. Não acreditava, até o momento, que pudesse ter algo tão excepcionalmente DETESTÁVEL criando raízes dentro dele.
E, com isso, fez todo o possível para se livrar daquela...coisa..., desde dobrar suas horas de estudos diárias até triplicar a quantidade de chocolates. Mas o máximo que conseguir ganhar foram noites mal dormidas e várias cáries.
Por que eu não consigo descobrir? ... POR QUE? ... Odeio.., Odeio ter uma pergunta sem resposta... Simplesmente ODEIO!
Progressivamente, começou a nutrir um sentimento intenso de ódio, digno de um mal perdedor, que se manteve presente em todos os momentos de seu dia, apenas aguardando a hora certa de explodir e atingir todos à sua volta. No começo Mello simplesmente feriu todos que cruzaram seu caminho, mas depois de pouco tempo escolheu uma espécie de alvo para direcionar suas emoções.
Sebastian Jigger.
Aquele besta e deformado anão... – Mello cerrava os dentes. – Tão insuportável, irritante, maldito! Por que não tropeça de uma escada qualquer e morre logo?
O moreno baixinho andava mais possessível do que nunca em relação ao seu namorado, Matt. Desde que soubera da crise violenta de asma do ruivo, não o deixava sozinho por mais de quinze minutos. Estava sempre conversando com ele e, quando estavam sozinhos, agarrava-se ao seu pescoço como um polvo.
Um polvo grudento e pegajoso.
Na opinião de Mello, o ruivo não podia ter arrumado alguém pior. Tudo naquele pequeno cefalópode era defeituoso: os olhos eram brilhantes demais, o cabelo chamava muita atenção, as roupas sempre estavam mais apertadas do que necessário e sua altura era ridícula. Nunca compartilhara nada disso com Mail, mas era exatamente assim que pensava.
Mas o que mais lhe chamava a atenção em tudo àquilo era a mudança de comportamento de Matt para com o moreno. O ruivo, que sempre fora falante e sorridente, parecia cada vez mais pensativo na companhia de Sebastian, os pensamentos se perdendo no ar. Este, claramente percebendo algo errado, chegara ao extremo de perguntar a Mello o que estava acontecendo.
Se arrependeu dois segundos depois.
– Como eu vou saber? Pergunta pra ele. – O loiro respondera com frieza.
A voz de Sebastian, apesar de ser harmoniosa para muitos, chegava a lhe doer os ouvidos.
– Mas você deve saber de alguma coisa! – Ele insistia, chegando a ser mais gay que o normal.
– Já disse que não. – Mello não tirava os olhos de seu livro. – Agora vai embora.
– Tem certeza que ele não disse nada?... Quer dizer... – Ele engoliu em seco, como se as palavras lhe raspassem a garganta. – Vocês dormem no mesmo quarto, se falam o tempo todo... Ele deve ter comentado...
– Você deve estar adorando isso, né?
– Adorando... o que?
Mello finalmente ergueu o olhar e riu da expressão confusa de Sebastian, seus próprios lábios se abrindo em um sorriso maligno.
– O fato de que ele ‘tá dormindo no meu quarto e não no seu.
Enquanto Mello levantava, saindo da biblioteca com o livro em mãos, os olhos cor de mel arregalados de Sebastian pareciam segui-lo como uma sombra.
Por que havia tido aquela reação com o menino? Por que tinha de dizer algo tão cruel, mesmo sabendo que ele sofria?
Mihael não sabia dizer.
Apenas sentira vontade de ser verdadeiramente mau com o garoto (o que era reservado para poucos, como Near, de modo que ele deveria se sentir honrado). E isso era tudo.
Não tinha qualquer explicação para se vangloriar por Mail dormir em seu quarto. Eram apenas amigos que compartilhavam um mesmo cômodo e nada mais.
Então...
Por que sentia como se tivesse ganhado uma batalha?
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O loiro comia seu almoço no canto mais afastado do refeitório, longe de todo o resto. A maioria das crianças, principalmente as mais novas, devorava tranquilamente suas porções de bife à milanesa, mas umas poucas apontavam para a mesa logo no início do grande salão. Dois adolescentes sentavam-se muito próximos um do outro, conversando aos sussurros. O mais baixo, de cabelos azuis escuros, dava de comer ao outro na boca, que ria baixinho e se remexia nervoso na cadeira, desconfortável por ter tanto olhares recaindo sobre eles.
Mail era o outro garoto.
Estava gostando de ser mimado daquela forma, mas algo o deixava incomodado. Além de todos o encararem como se fosse um E.T., sua nuca se arrepiava ao olhar para uma mesa em especial, mais afastada. Os olhos azuis que o encaravam expunham tanta fúria que era difícil acreditar que seu dono não estivesse assassinando alguém.
E o pior de tudo era que o faziam sentir culpa.
Era tão irritante! Finalmente encontrara um cara legal, que gostava dele e o fazia feliz, mas, quanto mais se aproximavam, mais pensava estar fazendo algo errado. Não estava sendo justo com Sebastian e muito menos com os próprios sentimentos! Fizera uma tentativa, durante certo tempo, de se apaixonar por Sebastian, mas, no íntimo, sabia que não era possível. Amava aquela loira maldita e, em vez de tomar alguma atitude, ficava se esfregando pelos cantos com outro cara.
Parabéns Mail... Seu bosta covarde.
– Matt... – Uma mão quente encontrou sua bochecha e um par de olhos castanho mel o observou com preocupação, o que fez seu estômago revirar de culpa.
– Ah, o que?
– Aquele cara... – Sebastian baixou a voz, claramente referindo-se a Mello, já que estreitava os olhos para ele. – Não para de te encarar... Ah, merda... – Ele se aprumou quando Mello se ergueu e caminhou diretamente até eles, sob muitos olhares curiosos.
– Eu vou lá no Sid. – O mais velho nem se dignou a olhar o moreno.
– E-eu vou com você! – Mail ergueu-se com disposição.
Sebastian imitou o gesto e, totalmente enciumado, selou os lábios do ruivo em um beijo rápido.
– S-sebby... – Matt gaguejou, em pânico por ter tantos pares de olhos voltados para ele. Se sentiu novamente com sete anos, no meio de várias pessoas desconhecidas que estavam prontas para julgá-lo.
O namorado, porém, não olhava para eles. Seus olhos estavam pregados de forma desafiadora nas safiras que pareciam prestes a cuspir fogo. Travaram uma batalha silenciosa durante uma fração de segundo e, pela expressão de fúria do loiro, ele saíra derrotado.
– Vem logo! – Mihael bradou e arrastou o outro pelo pulso, soltando-o somente quando estavam fora do orfanato.
– Ai, Mello... – Mail puxou o pulso vermelho e dolorido, esfregando-o na mão. — Machucou. Por que fez isso?
Mello não respondeu. Seu olhar permanecia à frente, as mãos nos bolsos. Um silêncio desconfortável se instalou entre os dois no caminho para a tão conhecida boate/ponto de drogas, e só foi quebrado após uma boa dose de cerveja preta com Sid e Caster.
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– HEEEY, MELLO! – O homem de cabelos negros meticulosamente penteados para trás com gel soluçava de tão bêbado. – Eu duvido... que você dê um beijo no Matt.
– Eu ‘tô bêbado, mas nem tanto Caster! – O loiro enquanto fingia nadar no chão.
– Covaaaaaaaarde! E se o ruivo te beijar? Você topa?
– Aããn? E desde quando tu é ruivo? – E os dois caíam na gargalhada como babacas, enquanto Sid ressonava em um canto.
Mail assistia a tudo com uma sobrancelha arqueada. Não tinha tomado uma gota de álcool, com... trauma... do que acontecera.
– Mello, você não acha que é hora de ir? – Perguntou discretamente, com medo de levar uma garrafada na cabeça.
– Não seja estraga pr... estrag... Ah, não fode, Matt! – Mihael se aproximou cambaleante, vendo tudo girar a sua volta. Sorriu como um retardado e segurou na bochecha de Mail do modo que lhe pareceu mais delicado, mas para o ruivo foi um verdadeiro tapa. – Nooossa, que pele macia! – Ele tinha tanto entusiasmo que Matt não pôde conter o riso. O loiro continuou a rir por um bom tempo, até se enroscar no sofá ao lado de Mail e deitar a cabeça em seu colo, adormecendo em segundos com um sorriso no rosto.
– S-s-seus fracotes! HIC! – Caster controlou os soluços com dificuldade, se largando em uma poltrona. Gargalhou sozinho por algum tempo, de uma piada que somente ele parecia entender, até sua cabeça pender para trás. Seus roncos ecoaram pelo cômodo carregado com um cheiro forte de bebida, cigarro e outras coisinhas mais.
Finalmente.... paz. – Mail sorria de canto, conseguindo por milagre ouvir as vozes em sua cabeça. Se recostou no sofá e brincou lenta e distraidamente com as mechas douradas do adolescente em seu colo.
Tão macios... – Fios lisos deslizaram por sua mão, o sono pesado de Mello impedindo-o de sequer se mover. Os dedos longos de Mail contornaram a bochecha alva, acariciando com carinho e cuidado. Afastou alguns fios rebeldes e contemplou seu trabalho, voltando imediatamente às carícias delicadas.
Eu o quero... Quero todo pra mim!
Estando finalmente sozinho (ou, pelo menos, sendo o único acordado), o ruivo podia demonstrar o quanto estava apavorado. Se já era difícil segurar o que sentia por Mello desde seus quinze anos, agora, após mais de um ano, se tornara praticamente insuportável. Durante meses precisou aperfeiçoar seu auto controle, deixar bem claro para sua mente (e corpo) que não poderia tê-lo. Quando parecia que ia perder totalmente a calma, Matt percebeu que precisava com urgência de uma válvula de escape, começando, assim, a namorar com Sebastian. Por certo tempo, a estratégia foi mais do que eficaz: ele se contentava perfeitamente com os toques e beijos que trocavam. Era suficiente, de modo que aquilo parecia acalentar seus desejos.
Mas não mais.
Agora, com um Mello indefeso em seus braços, só o que pensava era em toma-lo para si o quanto antes, alimentando-se de seu calor. Queria mostrar ao loiro que sabia como cuidar dele, sabia como fazê-lo feliz.
Se ele me desse uma chance... Só UMA...!
Infelizmente, sabia que tal pensamento não lhe era permitido. Fazer qualquer espécie de tentativa falha com o loiro poderia acarretar em consequências desastrosas. Não podia se dar ao luxo de tentar e fracassar. Tê-lo ao seu lado, independentemente do relacionamento que mantinham, era, em sua visão, mais importante que seus próprios desejos.
Mail perguntou-se se Mello estaria tendo bons sonhos, sem saber que o loiro sonhava carinhosamente com ele.
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O herdeiro da família Jeevas andava relutante pelas ruas no caminho de volta ao orfanato. Suas pernas se moviam, uma após a outra, mas sua mente estava longe. Deixara Mello dormindo no Canil e voltara sozinho para a Wammy’s, com receio de ser repreendido se o acordasse. O loiro sabia muito bem se cuidar, de modo que não havia problema. Mail tinha um exame de Tecnologia Avançada (o único curso em que Mello não o acompanhava) no dia seguinte, mas não era por esse motivo que voltava sozinho. Não havia necessidade alguma de estudar para a prova: o que ele realmente precisava era de um tempo afastado de Mello.
Era doloroso estar em sua presença. Às vezes parecia ainda mais penoso se afastar dele, mas o mais novo sabia que era necessário. Não conseguia encará-lo, não conseguia sequer estar no mesmo lugar que ele sem se sentir desconfortável. Tudo já estava indo extremamente mal para o ruivo e, mesmo assim, Sebastian ainda o havia beijado na frente de Mello! Eles evitaram falar sobre o assunto no caminho de ida para o Canil, mas Mail sabia que, cedo ou tarde, a cena viria à tona.
Enquanto repassava tudo isso mentalmente, Matt começava a se sentir cada vez mais inquieto. Não havia uma alma viva na quadra que circundava a edificação para crianças brilhantes, nem mesmo um cachorro ou gato abandonado. O silêncio reinava de forma tão assustadora e sólida em volta daquela construção que até o vento parecia desviar de sua zona de domínio, fazendo as folhas das árvores dos jardins não se moverem um milímetro. Um arrepio percorreu a espinha de Mail e ele sentiu um pressentimento ruim avançar sobre ele.
Ainda assim, precisava entrar. O lado de fora do lugar estava congelando-o até os ossos.
É bobagem. Mello está bem. Você está bem. Está tudo bem...
Os portões de ferro com o gigantesco W se abriram à sua aproximação e Matt entrou sem hesitar. Olhou com desconfiança para os lados enquanto caminhava, entrando no prédio e subindo dois andares o mais depressa possível. Tudo parecia normal, até chegar na metade do terceiro lance da escada: passos rápidos se aproximavam pelo corredor, andando depressa.
Não... Andando era pouco. O dono dos pés corria como se disse dependesse sua própria vida.
– Hey, bichona!
O ruivo cerrou os dentes e estancou no lugar. Estava esperando por isso. Sabia que, após a cena ridícula de ciúmes que Sebastian aprontara, algo do tipo aconteceria. Mesmo estando ciente de que todos na Wammy’s eram altamente inteligentes, isso não os impedia de julgar uns aos outros segundo seus próprios princípios: decorar infinitas fórmulas matemáticas não afastava o preconceito.
Ele se virou lentamente, com medo do que pudesse ver. Mas era ainda pior do que imaginara.
– Você devia ver a sua cara, Matt! – Um garoto grandalhão de cabelos negros desgrenhados falava com um sorriso torto. – Não achei que ficaria tão surpreso com o trato que demos no Sebastian. Ou, eu deveria dizer... Seeeeebby? – Seu tom era fino e forçado enquanto seu comparsa balançava o corpo inerte do namorado de Mail pela gola. Este não podia ver, mas o corpo do menor estava coberto de hematomas.
– Keny, seu desgraçado... – Matt murmurava, arrependendo-se logo em seguida. Havia três deles. Já passava da meia noite. Ninguém a vista.
Estava perdido.
– Eu não seria tão mal educado se fosse você. Pode acabar me deixando... irritado. – Eles se aproximavam e o cercavam lentamente em um semicírculo, prontos para abater a presa indefesa.
– Você é um covarde e vocês... – Dirigiu o olhar para os outros dois, a fim de tentar uma tática diferente. — ... são uns idiotas. Não percebem que ele só usa vocês pra fazerem o que ele não quer fazer? Aposto que nunca ficaram relaxando e deixaram pra ele o trabalho sujo.
– Até que é verdade... – Um deles disse, pensativo.
– Um ‘’por favor’’ também não mata ninguém...
– IDIOTAS! ELE VAI FUGIR!
Mail já corria violentamente pelo corredor, desejando mais do que nunca que aqueles brutamontes não fossem rápidos como eram estúpidos. Ouvia os passos frenéticos atrás de si e virava um corredor atrás do outro, dobrando esquinas e disparando como uma flecha pelos ambientes vazios. A perseguição durou cerca de quinze minutos, já que, apesar de não aparentar, Matt era bem rápido. Conseguiu acelerar velozmente por uma curva, confundindo um dos perseguidores, e chutar o meio das pernas do outro, mas quando Keny avançou para ele, sabia que estava ferrado. O moreno estava na Wammy’s por ser um exímio jogador de futebol americano, provavelmente o melhor da geração. Sabia melhor do que qualquer um como derrubar alguém.
– Mais alguma tentativa de fuga brilhante, coelhinho? – O ruivo tentava pensar calmamente, mas a tremedeira em suas pernas não ajudava em nada. – Ou prefere apanhar como um homem? Não que você saiba o que é isso, claro.
Um dos cúmplices do moreno surgiu por trás dele, um sorriso maligno em seu rosto. Não havia sinal do que Matt chutara no meio das pernas e algo lhe dizia que não o veriam tão cedo.
– Você corre bastante... Vamos ver se também sabe gritar.
O Jeevas engoliu em seco. Caminhava sem perceber para trás e, quando seu pé alcançou a parede, sabia que não havia mais saída. Mesmo que alguém os ouvira correr pelos corredores, duvidava muito que viriam em seu socorro. As crianças tinham pavor de Keny, que tirava vantagem disso. Respirando fundo, fechou os olhos e aceitou o que estava por vir.
Não gritou. Não daria esse prazer a eles. Mas sentiu dor como nunca antes. Socos e mais socos foram desferidos, primeiramente, em seu estômago, e ele sentiu o café, almoço e jantar virem à boca. Alguém segurou seus pulsos com firmeza às costas enquanto outro alguém, que Mail mal podia ver, atingia seu rosto repetidas vezes. Um gosto salgado se manifestava em seus lábios, mas ele não sabia se era sangue ou lágrimas. Somente quando pisou em algo molhado no chão que se deu conta: estava sangrando mais do que seu corpo aguentaria. Com um súbito extinto de sobrevivência o ruivo tentou se mover, mas, como esperado, não podia. Seu corpo estava reunindo todas as forças para mantê-lo respirando. Podia sentir o coração se esforçando para manter-se em movimento, assim como o cérebro para mantê-lo consciente. Mas sabia que não funcionaria. Se Mail tivesse sorte, o cérebro o deixaria desmaiar primeiro e não sentir mais dor, para que pudesse morrer em paz.
Mas os dois agressores pareciam querer exatamente o contrário. Quando Mail parecia prestes a desmaiar eles lhe davam um bom tapa e uma dose gigante de água fria, forçando-o. O sistema funcionou por algum tempo, mas, quando o ruivo não conseguia nem se manter em pé, eles perceberam que não havia mais o que fazer.
Conversaram entre si e Mail sentiu vento passando por seus cabelos. Poderia ser que o estivessem carregando e levando-o para algum lugar. Ou talvez fosse a brisa que o carregaria para o descanso eterno. Ele não sabia. Não conseguia sentir nada além de dor, extrema e infinita dor.
Ouviu um baque forte e o chão o acolheu. Ele sentia gosto de sangue, vômito, tortura, ardência e dor em todos os músculos. Se morrer significava ter aquelas dores longe de si, ele aceitaria de bom grado.
Uma porta foi trancada e a última visão de Mail, através dos olhos roxos e inchados, foi um lampejo dourado. Provavelmente um anjo, que viera busca-lo. Mello lamentou por não poder ver seu rosto, já que, naquele momento, a consciência finalmente o deixou e ele se rendeu.
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– Você tinha razão, Mello. Nós... Bem, nós estávamos tratando uma paciente que era nossa maior prioridade... E acabamos não prestando atenção no Matt como deveríamos. Ele não tem asma.
Mello olhava fixamente para o melhor amigo na maca ao lado. Estava coberto de fios, com várias máquinas e um número ainda maior de médicos ao seu redor. Estes moviam-se para cima e para baixo com pranchetas em mãos e sussurravam uns aos outros com pesar, como se fosse uma pena para aquele adolescente morrer tão cedo.
Mihael queria gritar. Queria berrar com eles para que parassem de ser tão pessimistas quanto ao quadro do ruivo. Seu coração estava fraco e ele respirava com ajuda de aparelhos, mas NÃO estava morto. Enquanto houvesse esperança, Mello se agarraria a ela com todas as forças.
– Ainda estamos fazendo exames para confirmar. Mas não tem como ser outra coisa... – A enfermeira que conversava com Mello olhou sobre o ombro, um tanto apreensiva. – Como pode alguém fazer isso a outra ser humano! Pelo menos quem fez isso vai ser expulso...
O loiro se remexeu na cama. Ou, melhor dizendo, tentou. Depois de resgatar Mail daquele armário, Mello deve um surto nervoso. Asfixiou um dos agressores e jurou ir atrás do outro e de Keny, que tiveram de se trancar em seus quartos para arrumarem as malas. Foram precisos seis médicos para segurá-lo e aplicar um veneno paralisante. Não haveria efeitos colaterais e Mello se manteria consciente o tempo inteiro, mas, por algumas horas, não moveria um músculo.
– A paciente que atendemos antes... Bem, ela era a filha da rainha! Quer dizer... a princesa! Coitadinha, teve uma doença tão grave... – Ela pigarreou e se recompôs. – Nós raramente temos uma oportunidade como essa e Watari deixou bem claro que era nosso dever curá-la. Imagine como ficaria nossa reputação se a deixássemos morrer! O diretor fez questão de trazer os dez melhores especialistas do mundo na área só para atende-la... E, felizmente, conseguimos preservar a reputação desse lugar.
Mello queria dizer que estava pouco se ferrando para a reputação daquele lugar. Queria manda-la colocar a reputação daqueles médicos em um lugar não muito agradável. Queria fazer um escândalo e matar cada um deles, mas não pôde fazer nada disso. Estava indefeso. O ódio que residia dentro dele se acumularia durante horas e horas. Coitado de quem estivesse por perto quando o efeito do veneno passasse.
Vou fazer questão de que Watari fique sabendo disso, mesmo que esteja fora do orfanato há meses, trabalhando pro L... Melhor darem adeus aos seus empregos, seus médicos de merda. Principalmente você... – Ele dirigia seu olhar mais assassino para a mulher.
– De qualquer forma... Acho que você deve ser o primeiro a saber. – Ela respirou fundo, assumindo novamente uma posição profissional. – Ele tem câncer de pulmão, Mello. Quando estava naquele armário, teve uma falta de ar súbita e só está respirando por causa dos aparelhos. Muitos órgãos foram danificados por causa da agressão e... nós não sabemos o que vai acontecer. Talvez ele nem acorde.
Mello não a ouvia. Um súbito pensamento o ocorreu, a lembrança de um sonho, que parecia ter acontecido milhões de anos atrás. Mail sendo puxado por uma mão cadavérica... Mello impotente, sem poder ajuda-lo...
E ele finalmente compreendeu. Não era um homem que arrastava Mail para a escuridão em seu sonho. Muito menos uma pessoa.
Era a própria Morte.
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