Stalemate

11 XI. Sorriso oculto.


Notas iniciais
Segunda-feira! Dia de Stalemate >.

Suas pernas doíam do esforço excessivo.

Descer três andares e atravessar todo o jardim da Wammy’s em poucos segundos fora uma tarefa surpreendente e digna de medalha. O cansaço de Mail Jeevas ao ultrapassar o portão do instituto para as ruas só poderia ser comparado ao seu próprio desespero, este último tão nitidamente presente que fazia seu corpo inteiro tremer. Mal percebia o vento forte que atingia seu rosto, sua mente tão concentrada em seu próprio conflito interior que não havia espaço para mais nada.

Nunca em sua vida imaginara que algo do tipo aconteceria. Sentir desejo por um homem daquela maneira brusca fora realmente um choque e, como se isso não fosse assustador o suficiente, ainda havia o fato de que não era uma pessoa qualquer que lhe causara tal reação.

Fora o único com quem contara praticamente a vida inteira, sua fonte de inspiração, o loiro chocólatra por quem nutria uma preocupação quase insana, quem o ajudara nos momentos de dificuldade e o fizera rir nas horas felizes.

Seu melhor amigo.

Mello.

Mail mordeu o lábio, enfiando as mãos geladas nos bolsos. Caminhava mais calmamente agora, na direção do centro da cidade, a imagem de minutos atrás retornando à sua memória. E, mais uma vez, a mesma sensação de desejo tornando-se visível entre suas pernas.

Sua cabeça parecia estar girando. Não teve outra escolha a não ser encostar-se a um muro de tijolos vermelhos, totalmente pichado, para respirar. Suas costas deslizaram pelo encosto irregular até encontrar-se sentado sobre a grossa camada de neve, com os joelhos dobrados e a cabeça entre as mãos.

Tentou se acalmar. Talvez aquela fosse uma reação da idade, algum estímulo hormonal que fez seu interior se agitar. Ou talvez estivesse pensando em uma coisa diferente no momento em que o viu e, somente por isso, teve o ‘’acidente’’.

Matt suspirou pesadamente, seu hálito se solidificando no ar. Sabia que não era o caso. Tinha certeza de que não havia desculpa ou justificativa plausível que pudesse desviá-lo do assunto inevitável.

Sua sexualidade.

De início rejeitou completamente a ideia, mas, pensando com cuidado, havia uma possibilidade clara e latente de que fosse homossexual. Sentir-se tão fortemente atraído por alguém do mesmo sexo era, na melhor das hipóteses, estranho.

E, apesar de toda a contradição envolvida, o pensamento não podia deixar de lhe parecer interessante.

O que sentira momentos antes era diferente, novo, proibido, excitante e tão maravilhosamente errado aos olhos alheios que atiçava Mail mais do que qualquer outra coisa. Como seria se sucumbisse àquela tentação? Seria... bom? Poder tocar Mello sempre que quisesse, abraça-lo com segundas intenções, dormir ao seu lado...

Unir os lábios aos dele.

A vergonha tomou conta do rosto de Mail, deixando-o mais vermelho que seus cabelos. Levou as mãos aos fios cor de fogo e bagunçou-os em agonia. Não podia aceitar algo daquela magnitude com tanta facilidade. Talvez estivesse exagerando e aquilo fora somente uma atração momentânea. Mas, de qualquer modo, precisaria de tempo, de muito tempo para pensar no que faria.

Se é que seria necessário fazer algo.

Erguendo-se de um pulo e sacudindo a neve de suas roupas, continuou a caminhar rumo à loja de cigarros no fim do quarteirão. Tentou de todas as formas esvaziar sua mente, mas uma pergunta incomodava-o mais do que qualquer outra coisa.

Como seria... fazer aquilo... com um homem?

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Devidamente arrumado e com uma sensação contínua de tédio, Mello agarrou a primeira barra de chocolate que viu pela frente e deixou a biblioteca do instituto. Encontrava-se à véspera do aniversário de quinze anos de Matt, estudando sozinho no amplo cômodo. Calçava uma de suas botas favoritas, obviamente preta, com tiras laterais e spikes prateados que reluziam enquanto caminhava. Usava uma calça negra extremamente apertada, que marcava até demais suas pernas. Escolhera uma regata preta com uma caveira em vermelho no centro e por cima uma jaqueta grossa da mesma cor. Os cabelos loiros, um pouco compridos demais, encostavam no crucifixo em seu pescoço que, assim como o resto de suas roupas, divergia com seus olhos assustadoramente azuis. Mordiscava a barra em sua mão com certa raiva, arrancando um pedaço com os dentes. Seu olhar direcionava-se a todo o ambiente à sua volta enquanto descia as escadas, sem realmente ver nada. Seus pensamentos estavam longe dali.

Havia alguns dias que percebera um comportamento estranho de Matt, quase que anormal. O ruivo se encontrava menos extrovertido, mais calado e pensativo, passando vários minutos com os olhos vidrados no vídeo game sem perceber que a tela estava pausada. Agora era comum ouvi-lo resmungar durante a noite ou vê-lo acordar assustado, como se tivesse sigo pego fazendo algo errado. Pelas bitucas que Mello contara no cinzeiro, a quantidade diária de cigarros duplicara em menos de um mês, o que era um número alarmante.

Sem sombra de dúvida havia algo acontecendo. E, o que quer que fosse, incitava a curiosidade do loiro.

Seus pés deixaram as escadas largas rumo aos jardins salpicados de neve, o vento brincando com seus cabelos e fazendo cócegas em sua nuca. Não foi preciso que procurasse pelo ruivo por muito tempo, visto que este se encontrava fumando sob um velho carvalho, as costas apoiadas no tronco grosso e coberto por musgo.

Com um sorriso malicioso na face, Mello adiantou-se na ponta dos pés até o lado oposto da árvore e, com os lábios quase colados aos ouvidos do outro, chamou por ele o mais alto que pôde.

Mail engasgou-se de imediato com a fumaça que saía de sua boca, tossindo com violência. O cigarro branco caiu de sua mão e ele xingou baixinho, pisando sobre o pequeno maço desperdiçado. Seu coração ainda batia forte ao erguer as esmeraldas para o loiro sorridente.

- Pensando na vida, Matt? – Os cabelos dourados balançaram quando Mello sentou-se ao seu lado, convidando-o a fazer o mesmo. Mail, após lhe lançar um olhar de falso desprezo, obedeceu.

- Estava até você aparecer. – Respondeu secamente, massageando o ouvido dolorido antes que um sorriso se abrisse em seu rosto. – Acho bom me comprar uma caixa desses depois, era o meu favorito.

- Por que não compra você mesmo? – Mello, dando a última mordida no chocolate em suas mãos, meteu a mão no bolso da jaqueta e tirou uma barra, abrindo-a sem cerimônia.

- Porque se a loira burra se esqueceu, eu perdi esse privilégio quando fui te defender. – Era verdade que Watari havia o proibido de sair, mas, como vivam há muito tempo no orfanato, ambos sabiam que os funcionários andavam sempre muito ocupados para saber se um adolescente ou dois foram passear.

- E no mesmo dia saiu pra comprar cigarros. – Mello respondeu e, após dar um forte tapa na cabeça do ruivo, acrescentou:- Me chama outra vez de loira burra pra você ver.

Em seguida mergulharam em um silêncio incômodo, que Mello automaticamente estranhou. Normalmente Mail repetiria o insulto e sairia correndo em disparada com um loiro furioso às suas costas, mas parecia que o primeiro não tinha intenção alguma de se mover.

Enquanto o mais velho o observava, Mail tentava controlar o caos que se instaurara em sua mente. Estava evitando ao máximo manter qualquer tipo de contato com o loiro, tanto visual quando físico. Quando este falava, Matt sentia seu coração acelerar sem motivo e seus olhos serem atraídos para seu rosto. Resistia como podia àqueles estímulos, fazendo o possível para não esboçar qualquer reação. Não saberia o que fazer se Mello começasse a pensar que estava sendo evitado por ele.

Não queria se afastar do loiro mas, ao mesmo tempo, não o queria por perto.

- MATT! Caralho, o que houve contigo hoje? – Mello perguntou com raiva, chamando-o pela décima vez e sacudindo a mão aberta em frente aos olhos verdes vidrados no nada.

- Ahn? Nada, ‘tô ótimo. – Mail respondeu com um sorriso.

Mesmo que quisesse dizer mais alguma coisa, Mello não teve oportunidade. Logo em seguida Íris, uma das meninas mais velhas do instituto, se aproximou correndo dos dois, seus longos cabelos loiros brilhando à luz do sol.

Mail olhou discretamente para o lado antes que ela chegasse, em tempo de ver o loiro fechar a cara.

- Matt! – A menina de olhos negros os alcançava. Usava um longo vestido vermelho com uma fita negra presa à cintura, além de vários colares e pulseiras que combinavam perfeitamente com suas sapatilhas brancas. – Finalmente te achei. Sabe, eu estava precisando falar com você. É um assunto importante, então eu agradeceria se você viesse logo. Você me conhece, sabe que eu não gosto de esperar. Até porque, se eu ficasse muito tempo te esperando sozinha, eu acabaria achando que desistiu de falar comigo! Aí eu teria que te procurar de novo e...

- Dá pra calar essa boca por pelo menos cinco minutos? – Mello pediu com amargura, lhe direcionando seu pior olhar de desprezo enquanto mordia mais um pedaço de sua barra de chocolate.

A menina franziu o cenho para ele.

- Eu sei que isso tudo é ciúmes, sua loira estúpida! Sabe que nunca vai poder sair comigo e fica todo estressadinho!

- Você tem muita sorte, sabia? – O loiro perguntou enquanto erguia-se lentamente, um sorriso debochado em seu rosto. – Se fosse um homem já estaria chorando de tanta dor, sua vad...

- MELLO! – Mail, depois de permanecer impassível, se pôs entre os dois que faziam o possível para ferir um ao outro com o olhar. – Será que vocês não cansam disso? – Eles viraram os rostos em direções opostas e Mail não pôde deixar de revirar os olhos. – Se for rápido em converso com você agora Íris. E enquanto isso... – O ruivo dirigiu-se ao outro. – Você fica aqui.

- Sem problema, mamãe. – Mello sentou-se e, ainda mais irritado que antes, passou a mordiscar o chocolate em sua mão.

Enquanto Mail e a garota se afastavam alguns passos, Mello fazia o possível para não observá-los. Com sua personalidade infantil e sem nada de especial, a menina (que em sua opinião mais parecia um papagaio) era o total oposto de Matt. Divertido, atraente e determinado, o ruivo indubitavelmente merecia alguém melhor. Por esse e outros motivos como incompatibilidade de gostos, personalidades, ações e gestos, ambos não conseguia se entender.

E isso era mais do que claro para Mello.

Nunca se dera bem com a ex-namorada do Matt. E nunca se daria.

De qualquer forma, aquela não fora a primeira menina com quem o ruivo se relacionara que não agradara ao loiro. Ainda houveram outras duas que não chegaram a ficar com ele por mais de três semanas, o que era um imenso alívio para Mello, já que aquelas garotas viviam importunando a vida de ambos com frases ridículas e indignas de atenção como: ‘’Por que fica dando mais atenção a ele?’’ ’’Não podemos conversar em particular com ele nos atrapalhando! Não me interessa se é o quarto dele também, eu o quero fora daqui!’’ ’’Eu não quero que fique no mesmo quarto que esse cara.’’, entre outras.

O fato era que Mello sempre tivera problemas com garotas. Se relacionara com apenas duas meninas e teve de literalmente chutar a última de seu quarto, já que esta parecia determinada a passar vinte e quatro horas por dia com ele. A primeira não lhe rendera tanta dor de cabeça, mas sim um machucado feio no rosto já que, erroneamente, esta pensara estar sendo traída pelo loiro.

Esquecendo-se por um momento desses acontecimentos, permitiu que seus olhos safira se perdessem na paisagem de inverno, sua respiração gelada se materializando no ar. Observava duas crianças deitarem no chão e fazerem anjos de neve quando o ruivo se aproximou sorrateiramente e se sentou ao seu lado, suspirando e encostando a cabeça no tronco da árvore.

- O que ela queria? – Mello perguntou distraído, mordendo o último pedaço da segunda barra de chocolate.

- Voltar comigo. – Mail respondeu simplesmente, sem sequer olha-lo.

- E você disse...?

- Que não.

Subitamente a neve voltara a cair com mais força, o sorriso mínimo de Mello oculto pela tempestade que se formava.

- Ah, eu quase me esqueci. – Mail disse depois de um tempo em meio à neblina rasa.

- O que? – O loiro perguntou.

- Loira burra.

Não foram precisos mais que alguns segundos para que ambos estivessem correndo de volta às portas abertas da majestosa construção de concreto, os cabelos loiros de um ardendo em fúria e um sorriso largo estampado no rosto do outro.

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// Stalemate //

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Após o jantar, Mello e Matt passaram boa parte da noite conversando sobre o que fariam no dia seguinte. Como o ruivo estava veemente decido a não participar da disputa pela viagem do dia seguinte, eles precisaram fazer outros planos.

- Tem certeza absoluta de que não quer tentar? A solução é bem simples, eu posso até te dar a resposta se quiser. – Mello ofereceu, talvez pela quinta vez.

- Eu já disse que não, Mello. Mesmo que fosse difícil, isso realmente não me importa. – Mail, deitado em sua cama, ergueu os olhos do game em suas mãos para fita-lo. – Sabe que nunca quis ser L.

Ouvir isso de alguém que passara boa parte da vida em um orfanato para superdotados cuja maior meta era encontrar alguém digno de substituir L, provavelmente seria chocante para uma pessoa que viesse de fora da instituição. Para Mello, porém, não causou uma reação maior do que um suspiro. Já estava acostumado com aquela ideia indiferente de Matt em relação a L, apesar de nunca aprova-la por completo.

Frustrava-o o fato de que as ambições de Matt resumiam-se a zerar jogos e consumir um número absurdo de cigarros.

Quanto ao ruivo, este mal se importava com o que o maior detetive do mundo pensava ou deixava de pensar; fazia ou deixava de fazer. Criara dentro de sua cabeça um mundo próprio, seguro, reconfortante, onde não existia orfanato, L, regras, preocupações ou qualquer tipo de problema. Este universo era formado apenas por seus preciosos jogos e cigarros. O resto, ou seja, qualquer influência externa, estaria impossibilitada de atingi-lo e, da mesma forma, nada de seu espaço interno poderia sair.

Ou, pelo menos, era o que ele pensava na época.

- Matt...

- Hum? – Voltando sua atenção para o loiro após alguns minutos de alienação, Mail percebeu uma expressão de preocupação em seu rosto, os olhos safira o estudando com minuciosidade.

- Voc... – Ele desviou o olhar brevemente. – Você não acha que anda fumando demais?

Mail analisou aquelas esquivas orbes azuis com atenção, estas esperando que ele demonstrasse alguma mudança em seu comportamento.

Segundos depois, totalmente alheio à sua vontade, um sorriso largo e alegre, quase infantil, se espalhou pelo seu rosto. Mello logo se surpreendeu com aquilo: há semanas que não o via sorrir com tanto entusiasmo.

- Ficou preocupado comigo, Mello?

Como já era de se esperar, o loiro franziu o cenho para ele.

- É claro que não! O seu cheiro que está me irritando profundamente, mal dá pra andar do seu lado. – Visto que o outro não parava de sorrir, ele bufou irritado. – Você é ridículo. – E, virando-se, entrou sob as cobertas em silêncio.

- Eu agradeço a preocupação loira, mas me deixe com os meus cigarros que eu não digo nada das suas roupas de ator pornô.

Mello revirou os olhos e, como estava cansado, apenas ergueu o dedo médio para Mail, que riu ao ver o que causara no outro.

A relação de ambos sempre fora daquele modo.

Brigas, tapas, socos, ofensas, palavrões, gestos obscenos e termos de baixo calão usados em discussões idiotas faziam parte de seu cotidiano. Não se passava um dia sem que tirassem sarro da cara um do outro, tais práticas se tornando tão frequentes como um simples bom dia. E, para Mail, estavam bem daquela forma.

Até o que acontecera duas semanas antes.

O ruivo fechou os olhos tentando, sem sucesso, esquecer. Desde aquele dia sua atitude mudara completamente em relação à Mello. Não conseguia vê-lo da mesma forma: se antes o loiro fora apenas um colega de quarto, agora se tornara o homem pelo qual Mail sentira nada menos que um aterrador desejo físico.

E como se envergonhava por isso.

Passara, desde então, a observar o mais velho com o dobro de cuidado, querendo captar cada movimento, palavra, reação, olhar e sentimento que pudesse ajuda-lo a entendê-lo melhor. Achava que, com o tempo, conseguiria perceber que o que acontecera não passara de um estímulo passageiro.

Contudo, o que Mail continuadamente ignorava era que, mesmo uma fagulha insignificante como aquela, com o passar dos dias e das noites, poderia vir a se tornar um incontrolável incêndio.