Stalemate

12 XII. Inocente brincadeira


Notas iniciais
Não vou poder entrar amanhã, então estou postando antes ^-^
(Olha como sou boazinha u.u )

Lenta e preguiçosamente, Mail despertava.

Alguém sacudia seu ombro com entusiasmo, chamando por seu nome aos sussurros. Revelando as esmeraldas cansadas, Mail se deparou com a imagem de um Mello sorridente sentado ao seu lado. Este apontou para o relógio

Meia-noite.

Observando o ruivo se sentar e limpar os olhos com as costas da mão, o sorriso de Mello se alargou. Aqueles cabelos vermelhos completamente bagunçados e o semblante confuso faziam-no parecer exatamente como quando criança. Antes que se controlasse, inclinou-se para frente e o abraçou com força, sussurrando em seu ouvido:

- Feliz aniversário Mail.

O mais novo subitamente arregalou os olhos, estático. De início já se surpreendera com o abraço inesperado de Mello, mas aquele sussurrar em seu ouvido o desestabilizara. Seu corpo se arrepiou. Não conseguia acreditar que o outro dissera seu nome verdadeiro daquela forma; tão próximo e sussurrante, como se lhe contasse um segredo.

Assim como daquela vez.

- Nome verdadeiro? – Matt perguntou com curiosidade, inclinando minimamente a cabeça para o lado. Os goggles sobre seus cabelos escorreram e taparam sua visão por alguns momentos, fazendo o outro rir.

- É! Todo mundo tem um, mas nós não podemos usar o tempo todo. – O mais velho se aproximou e falou baixinho, seus lábios cheinhos melados de chocolate. – Se você me contar o seu eu te digo o meu! – Com um sentimento crescente de euforia, Mello ergueu o dedo mindinho da mão direita e estendeu para o mais novo, que apenas piscou os olhos grandes e confusos. O loiro se moveu impaciente de um lado para o outro, suas vestes negras largas demais para o seu tamanho balançando com o movimento. – Qual o problema? – Perguntou com uma sobrancelha erguida.

Matt olhou para seus pezinhos descalços.

- É que... o tio Watari disse pra não contar. – Os fios ruivos cobriam seus olhos receosos.

- E se eu prometer não contar pra ninguém? Você me conta? – Mello insistiu, tentando controlar sua ansiedade.

- Mas... O-o meu nome é feio. – A voz de Matt tremia quando ele finalmente conseguiu fitar o outro, que ainda lhe estendia o dedinho.

- Não existe nome feio, só... Nome diferente. – Os olhos de Matt brilharam com aquilo e ele até se permitiu um sorriso tímido. – Então, vai contar?

O mais novo olhou ao redor do quarto escuro e, depois de se certificar que estavam sozinhos, assentiu minimamente.

- M-Mail. Mail Jeevas. – O mais velho não pôde deixar de rir. Mail engasgou. – E-eu disse que era feio!

- Não é feio, só um pouco engraçado. – Mello, percebendo que o outro não se moveria, usou sua mão esquerda para pegar o pulso do outro, entrelaçando os dedos mindinhos. – Eu sou Mihael Keehl.

- É bonito... – Mail se surpreendeu. Parecia nome de anjo.

Mello sorriu.

- Vamos selar o pacto?!

- Selar o que?

- O pacto! Isso quer dizer que você não pode contar o meu nome pra ninguém, nem dizer o seu para outra pessoa além de mim.

- E você pode contar o meu?

- Claro que não! Por isso é um pacto! Sabe... como uma promessa.

Depois de prometerem em alto e bom som que jamais revelariam o segredo um do outro, Mihael e Mail passaram o resto do dia brincando no quarto do loiro, chamando baixinho por seus nomes verdadeiros e rindo.

Sentiam como se partilhassem um tesouro valioso, em que mais ninguém poderia pôr as mãos.

Pertencia a eles. E a mais ninguém.

- V-valeu. – Matt respondeu, retribuindo o abraço. Era inacreditável como o perfume do cacau parecia se impregnar em Mello, a fragrância adocicada invadindo os pulmões negros de Matt.

- Melhor a gente ir.

Mail concordou e, relutante, findou o abraço.

Logo estavam nos terrenos do orfanato, andando com cautela em meio à escuridão. A lua nova iluminava o céu daquela noite, não facilitando em nada a travessia. Quando alcançaram a outra extremidade dos jardins os portões se abriram de modo a permitir a passagem de ambos, Mello agradecendo um dos guardas com um aceno de cabeça.

Certamente aquele homem pagaria por sua imprudência, já que desobedecera a uma ordem direta de Watari.

Não que o emprego de um qualquer como ele fizesse alguma diferença para os dois adolescentes.

Já nas ruas desertas que circundavam o instituto, Matt permitiu-se tragar dois cigarros sabor menta. A fumaça cinzenta fluía de seus lábios e era trazida de volta pelo vento, batendo em seu rosto e fazendo-o tossir. Mello observava a tudo com uma sobrancelha erguida, mastigando um pedaço de seu chocolate amargo.

A caminhada rápida até o centro não lhes rendeu cansaço algum, muito pelo contrário: apenas os atiçou ainda mais. Encaminharam-se imediatamente para uma de suas ruas favoritas.

Não, rua era uma forma educada de se referir ao lugar. Qualquer um com um pouco de juízo o evitaria por toda a vida.

Com ratos das mais variadas espécies, era praticamente impossível não ser contaminado pela sujeira visível no asfalto e nos olhos dos animais que transitavam por ali, desde quadrúpedes aos que andavam sobre dois pés. Sorrisos bobos abriam-se nas feições das hienas, funcionando como uma máscara para uma vida de apostas, drogas, prazeres e fracassos.

A porta pela qual entraram em uma das várias atrações do lugar abriu-se para um ambiente tão convidativo quanto um cemitério. Homens sentavam-se ao bar caindo aos pedaços, suas faces decrépitas e arrasadas por anos de vícios afastando qualquer resquício da juventude que tiveram. Mesas uniam-se ao redor das mulheres seminuas sobre o palco, gargalhadas, dinheiro e cheiro de álcool inundando o ambiente. ‘’Garçonetes’’ andavam por entre as cadeiras com bandejas em mãos, lançando olhares para os rostos mais jovens a sua volta como aves de rapina à procura de suas presas.

Não foi preciso muito tempo para Mello e Matt serem notados. Desviando do mar de gente que se deslocava de um lado para outro e recusando com veemência as ofertas nada castas das dançarinas, finalmente alcançaram os cômodos ao fundo do estabelecimento. Passaram por várias portas e subiram diversas escadas, ignorando os gemidos e gritos ao redor, até chegarem ao destino, onde entraram sem pedir permissão.

Dentro do recinto, dois homens encontravam-se sentados sobre uma mesa carregando seus revólveres e pistolas com balas de diferentes tamanhos, enquanto um terceiro xingava a TV de plasma que exibia um Game Over em letras garrafais. Os dois primeiros receberam os visitantes com sorrisos e tapinhas nas costas, pegando latinhas de cerveja do freezer e pacotes lacrados.

- Chegou o seu brinquedinho, Matt. – Sid, um moreno corpulento e de aspecto assustador entregou um dos menos pacotes ao ruivo, que o rasgou e passou imediatamente a apertas os botões, esquecendo do mundo a sua volta.

- Quem é aquele? – Mello perguntou com a voz rouca, a bebida gelada descendo por sua garganta. Olhava para o quinto homem na sala, que antes estivera entretido em seu vídeo game. Os cabelos loiros e levemente ondulados que não passavam do meio de suas bochechas lhe davam uma aparência mais jovem, apesar de estar na casa dos quarenta e ser o mais velho do grupo. Possuía olhos negros e assuntos, além de um sorriso malicioso que não agradou em nada ao chocólatra.

- Sou Foster. Você deve ser o Mello. – Os olhos negros se desviaram para os dois homens, que afirmaram sua suspeita. – Tenho um trabalho para você.

Era assim que tudo funcionava por ali.

Conhecido popularmente como Canil, o lugar reunia todo o tipo de pessoa que se possa imaginar, desde a filha do prefeito local até a escória da sociedade. Atraía os mais diversos contrabandistas, traficantes e refugiados que estivessem dispostos a vender, comprar ou esquecer dos problemas. Não havia restrição, regras ou qualquer proteção sobre os que ali passavam.

Não passava de um lugar para os cachorros desobedientes se divertirem.

- Trabalho? – O interesse de Mello se avivou. Utilizava o dinheiro recebido naqueles serviços para pagar seu vício por chocolates que, a longo prazo, tornava-se um fardo pesado em seu bolso.

O homem remexeu em suas vestes até encontrar a foto de um presidiário foragido, seu olhar atento à reação de Mello.

- Consegue encontra-lo? – Estendeu o objeto para o outro e esperou.

Foster trabalhara durante muito tempo como um bom policial. Fora correto, seguira os princípios da ética e se tornara rigorosamente disciplinado, até ser escalado para um caso acima de sua capacidade. Percebera de imediato que não conseguiria resolvê-lo sem ajuda de pessoas ligadas ao tráfico, uma vez que caçava uma grande quadrilha atuante em toda a Inglaterra. Passara a acreditar no ditado que dizia: ‘’Se não pode vencê-los, junte-se a eles’’.

- Preciso de mais informações e no mínimo duas semanas. Pagamento adiantado.

Sid e seu colega de bebida, Caster, riram. Mello sempre ia direto ao ponto.

- Esse vai te dar trabalho, Foster. É um dos mais rápidos, mas o mais caro.

O policial concordou e, contra sua vontade, aceitou os termos e preços de Mello.

O restante da madrugada se seguiu mais descontraída, com risadas, piadas sujas e muita bebida. Por volta das seis horas Sid e Caster desceram para o bar, deixando os outros para trás. Mello levantara minutos depois e, cambaleando, fora ao banheiro.

Mail se encontrava esparramado sobre o sofá, os olhos verdes vagando por pontos pretos no teto que somente ele enxergava. Perdera os goggles em algum canto ao virar o terceiro copo de cerveja e esquecera-se por completo deles. Sua mente agora alternava entre observar o homem loiro ao seu lado e rir de vez em quando de piada nenhuma.

Foster tentava firmar-se na poltrona de couro marrom em que se jogara, mas suas pálpebras teimavam em pesar. Não sabia se era sonho ou realidade quando um adolescente acomodou-se em seu colo, as mãos enroscando-se em seus cabelos.

- Ei Mello... – O ruivo observava aqueles fios entre seus dedos e voltava a rir baixinho, a voz embargada e rouca. – Eu já sei o que quero de aniversário.

As esmeraldas captavam um homem de quarenta anos, bêbado e sem reação, mas sua mente transformava a imagem em seu melhor amigo de roupas apertadas. Sem noção do que estava fazendo, Matt começou a se inclinar para frente, os olhos e lábios entreabertos. Queria provar da boca de Mihael pelo menos uma vez, nem que este o empurrasse com todas as forças, xingando-o horrores. Seria somente um teste, uma pequena experiência, para saber se o que acontecera outro dia e que o fizera pensar ser homossexual tinha algum fundamento. Não haveria danos nem arrependimentos.

Tudo não passava de uma inocente brincadeira.

O policial loiro, com apenas centímetros a lhe separar de Matt, piscou algumas vezes antes de abraçar o outro com força. Seus lábios se encontraram e ele correspondeu imediatamente, sem sentir remorso algum.

Afinal tudo não passava de um sonho, não é?

- Vocês deviam limpar esse lugar de vez em q... – Aquele fora o momento que Mello escolhera para voltar do banheiro. Não conseguiu aceitar imediatamente a imagem que seus olhos lhe transmitiam: Matt enroscado nos braços de um velho, seus lábios tocando-se vorazmente aos dele.

Foram precisos alguns minutos para que se convencesse de que a cena não era efeito da bebida. A realidade lhe atingiu, provando que seus olhos não mentiam. Uma onda de raiva cresceu em seu íntimo, fazendo seus braços e pernas tremerem. A adrenalina que parecia pulsar em suas veias lhe deu forças para avançar e empurrar Mail pelo peito, lançando-o para trás. O ruivo gritou ao colidir a cabeça com uma mesa de centro, precisando se segurar na superfície de madeira até o mundo parar de girar. Mello varreu o cômodo com o olhar e agarrou uma arma sobre uma cômoda, dando uma coronhada na têmpora de Foster, que desmaiou no mesmo instante.

Que merda estava havendo ali?

- Vem logo! – O loiro praticamente arrastava o mais novo pelos degraus, empurrando-o em direção a rua. Fazia um vento forte àquela hora da madrugada, mas não o suficiente para pará-lo. Perderam certo tempo na caminhada de volta já que Matt tropeçava a cada dez passos, mas finalmente chegaram. Apesar dos portões serem abertos e o estado deplorável de Mail ser claramente visível, ninguém apareceu para ajudar.

Não fazia parte do acordo.

Fazer o ruivo subir pelas escadas sem acordar metade do instituto fora provavelmente a parte mais difícil. Quando, por fim, Mello conseguiu entrar no quarto e coloca-lo na cama, os primeiros raios de sol já entravam furtivos pela janela.

Nenhum dos dois se preocupou em fechá-la, adormecendo em segundos.

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// Stalemate //

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De acordo com a teoria de Mello, existem três fases da bebida.

O calor, que é o momento exato em que esta desce por sua garganta; a felicidade, que é quando todos os problemas parecem nunca ter existido e você sente que pode voar; e a ressaca, o remorso latente que lhe atinge no dia seguinte.

Mail estava enfrentando as terríveis torturas da terceira fase.

Já passavam das quatro da tarde quando ele despertou, cansado demais para sequer se mover. Sua cabeça latejava com tanta intensidade que tinha certeza de que a arrancaria do corpo se tivesse força para levantar os braços. Não fez nenhum esforço para se mover, esperando adormecer novamente. Não conseguiu.

Frustrado e com a cabeça queimando como o inferno, usou toda a sua força de vontade para sentar e se arrastar até o banheiro, levando um tempo que lhe pareceu uma eternidade. Lavou o rosto e mirou o estranho no espelho, piscando repetidamente para ter certeza de que não estava sonhando.

Precisava se barbear. E cortar os cabelos. E talvez trocar a cara por uma melhor.

Depois de dizer um olá para a comida de dois dias atrás na pia do banheiro e limpar os restos de vômito dos lábios, Mail se obrigou a entrar sob a água morna do chuveiro. Se sentia um trapo. Só queria que o mundo parasse de rodar e quem quer que estivesse batendo em sua cabeça com um porrete morresse.

Após se vestir e colocar para fora quase tudo que havia em seu estômago, se arrastou de volta para o quarto com a cara pior do que antes. Nesse meio tempo Mello havia acordado e o observava com cara de poucos amigos.

- Vai me dar sermão agora? – Matt perguntou, cada palavra produzindo uma pontada de dor em sua cabeça.

- Você sempre foi fraco pra bebida seu idiota! Eu falei pra não passar da terceira lata.

- Fala mais baixo cacete. – O ruivo deitava em sua cama, massageando as têmporas doloridas.

- Ah, desculpe, da próxima vez eu deixo aquele velho te fazer de puta! – Por que Matt não entendia o perigo ao qual fora exposto? Se o loiro não estivesse ali para socorrê-lo, ele provavelmente estaria estuprado em algum quarto de motel.

- Do que você ‘tá falando? – A paciência de Mail diminuía rapidamente. Lembranças rápidas da noite anterior dançavam em sua mente como flashes, amplificando a dor.

Ótimo, ele não lembra. – A raiva de Mihael não podia ser maior.

- Que você não pensa antes de fazer merda!

- SOME DAQUI! – Mail berrou com a força que lhe restava, arrependendo-se logo em seguida com a dor. Sua voz estava carregada de ódio.

O loiro gritou algum xingamento incompreensível e bateu a porta com um estrondo, fazendo Mail pensar que seu crânio racharia ao meio. Por certo tempo tentou entender o que Mello quisera dizer, mas, à medida que a agonia em sua cabeça se tornava insuportável, se contentou em pegar um remédio para dormir em seu kit de primeiros socorros e cair ferrado no sono.