Stalemate

10 X. Cascata dourada.


Notas iniciais
Estava realmente com vontade de postar esse capítulo, por isso ele veio mais cedo. Ficou maior e melhor(eu acho) que o último.
Boa leitura ^-^

Uma semana se passara desde a briga entre Mello e Matt.

Tudo voltara ao normal no instituto para superdotados: Near se destacando por sua genialidade, Mello estudando como um louco para ultrapassá-lo e Matt, assistindo a tudo como um mero espectador.

Qualquer um que desse uma volta pelos cômodos da instituição veria uma alegria contagiante entre os alunos. O diretor do orfanato, Watari, anunciara uma excursão especial aos dois estudantes que conseguissem resolver primeiro uma charada criada pelo notório detetive de fama mundial, L.

Matt parecia entusiasmado com a notícia. Encontrava-se com Mello na seção de ‘’Casos sem solução’’ da biblioteca da Wammy’s, ajudando o loiro a escolher algum livro interessante.

– Você passou bastante tempo vegetando ontem, Mello. Conseguiu decifrar a charada?

O outro franziu o cenho, observando uma prateleira mais alta e tirando um livro de capa dura azul-marinho, folheando rapidamente suas páginas.

– Consegui há dois dias. – Respondeu devolvendo o exemplar ao seu lugar.

– O QUE?! – Matt exclamou, uma par de olhos azul o fuzilando por falar alto. – Desculpa. – Mello bufou. – Mas isso... Foi quando anunciaram a viagem! Por que não avisou o Watari?

– Porque eu não vou.

Mail estancou no lugar, o loiro continuando a observar as estantes como se o que falara fosse algo sem importância.

– Ok, já chega de chocolate Mello. Eles estão começando a afetar sua cabeça.

O mais velho revirou os olhos e finalmente encarou o outro.

– Eu só resolvi dar a oportunidade para outra pessoa.

– Claro e eu vou parar de fumar. – Ele rebateu em deboche. Mello o olhou com uma expressão de tédio.

– Muito engraçado. De qualquer forma, eu e Near vamos... – Um sorriso se espalhava pelo rosto de Mail, que continuava incrédulo.

– Peraí, peraí! – Ele gesticulava com as mãos, sem conseguir acreditar no que ouvia. – Então você vai desperdiçar a chance de mostrar a L seu potencial e ainda vai fazer um acordo com Near?

– Não vou fazer. Já fiz.

O queixo de Matt caiu.

– Esperaí Mello, explica isso direito!

Enquanto se afastava de um ruivo boquiaberto, o loiro se lembrava da conversa que tivera com Near, algumas horas antes. Não fora um discurso muito longo já que, assim que pôs os pés do quarto do albino, Mello já sentiu uma vontade súbita de sair dali o mais rápido possível.


– Poderia ao menos bater antes de entrar. – O pequeno prodígio de cabelos brancos retornava do banheiro ao ouvir a porta ser aberta com violência. Não se surpreende ao ver o loiro parado de braços cruzados e com cara de poucos amigos, suas costas apoiadas na porta fechada.

– Vou direto ao assunto Near. Sei que já resolveu o enigma de L. – Mello começou enquanto o outro subia com um pouco de dificuldade em sua cama alta, seus pezinhos balançando por alguns segundos no ar. O mais velho não pôde evitar a risada que escapou de seus lábios.

Ignorando-o, Near tratou de continuar o rumo da conversa.

– Sim, há dois dias. Assim como você provavelmente.

– Obviamente.

Foi a vez do albino controlar o sorriso.

– E o que veio fazer aqui?

– Só queria lhe perguntar se vai mesmo a esta excursão, já que eu tenho outros planos. – A expressão de Near, para raiva de Mello, permaneceu impassível com essa declaração, como se já a esperasse.

– O que tem em mente? – O pequeno esticou o braço para alcançar um robô pousado sobre o criado-mudo.

– Vou ceder a vaga para outra pessoa. Há essa altura não devemos ser os únicos a ter decifrado a charada.

– Obviamente. – Near respondeu, usando o mesmo tom seco do outro. – Acho que vou seguir seu exemplo de boa vontade.

– Não estou lhe obrigando a nada, foi somente um comunicado. Faça o que quiser. – E, virando-se, Mello se dirigiu a porta. Mais alguns segundos e teria conseguido sair sem ouvir o último comentário do outro.

– Também concordo em fingir que isso não tem nada a ver com o aniversário de Matt.

O loiro trincou os dentes, a maçaneta da porta sendo esmagada entre suas mãos.

Era aquilo o que mais odiava em Near.

Além da total falta de expressividade e da calma extrema em situações de risco, sua mania irritante de saber exatamente o que os outros estavam pensando era uma dor de cabeça para Mello. Como poderia um menino frágil, daquela idade, saber o que se passava na cabeça de uma das maiores mentes da Inglaterra? Havia mesmo a necessidade de ser tão brilhante ao ponto de conseguir enfurecer aos outros com poucas palavras?

Aquilo o deixava ensandecido. Suas emoções serem controladas tão facilmente por Near.

Não. Mais do que isso.

Ele ser controlado tão facilmente por Near.

– Se quiser que esses dentes permaneçam em sua boca, eu sugiro que a mantenha fechada. – O loiro ameaçou ríspido, batendo a porta ao sair e se afastando a passos firmes e rápidos.



Balançando a cabeça para livrar-se dos pensamentos, Mello é trazido de volta à realidade pelo sino de ouro do instituto, que anuncia o almoço. Ambos se dirigiram para o refeitório, como as outras crianças, Mail ainda exigindo respostas. Mello se esquivava de todas, dizendo que falaria depois e, quando estava para perder a paciência com o ruivo, este fez um sinal na direção de uma das mesas.

Um menino de cabelos negros, alto, robusto e acima do peso erguia-se e caminhava a passos firme até os dois, levantando olhares curiosos. Seu olho aparentava uma coloração levemente arroxeada, provavelmente de um machucado recente, na fase de cicatrização. Quando os alcançou seus dentes trincaram.

– O que quer, Kyne? – Mello perguntou de imediato, sem se amedrontar.

Logo outro menino se levantou, pondo-se ao lado do primeiro. Ambos eram belos exemplos de adolescentes que, depois de perceberam como seu tamanho poderia lhes ajudar a terem o que quisessem, faziam qualquer coisa para arrumar brigas com os outros.

Em suas cabeças de ervilha, era divertido.

– Acertar as contas, Mel. – Mail sentiu o loiro tremer ao seu lado. Odiava aquele apelido. – Ainda não terminamos nossa conversinha da semana passada.

Há seis dias Mello havia, como prometera, confessado ao ruivo que se envolvera mais uma vez em uma briga com Kyne. Este e mais um amigo o provocaram de uma forma que ele não conseguira se conter. Como punição Watari lhe proibira de ir à cozinha da Wammy’s, de modo que teria de usar seu dinheiro (que, a propósito, ganhava do próprio diretor) para comprar chocolates fora do instituto.

– Sai da frente. – Matt foi direto, falando sem olhá-lo nos olhos. Sabia que se aquilo continuasse Mello não se controlaria.

– Que coisa linda, Mel, trouxe o namorado pra te defender? – O outro menino se juntou ao primeiro e ambos riram da expressão de ódio de Mello. Este sentia os nervos à flor da pele, sua raiva tão extrema que era possível ouvir sua respiração pesada. Estava se preparando para atacar.

– Acho que ela ficou nervosinha, Brian.

Foi o suficiente. Os punhos de Mello se fecharam, prontos para serem enterrados naquele pedaço enorme de carne. Foram precisos milésimos de segundo para reunir força o suficiente para causar o máximo de dano. Porém, quando o loiro iria avançar, Kyne já estava rolando no chão de dor.

Tudo aconteceu em uma fração de segundo. No período de uma pulsação, Mail deu um soco bem localizado no maxilar do outro, tirando-o do lugar. Este, desorientado pela dor aguda, foi imediatamente ao chão, vomitando sangue como um louco.

Por um momento, ninguém fez nada. Nem um ser ousou se mover, todos parecendo prender a respiração. O próprio tempo pareceu congelar, todos os olhares direcionados para Mail. O ruivo, na mesma posição de ataque, respirava lenta e pesadamente, os sons ecoando pelas paredes. Seus dentes permaneciam cerrados, o corpo trêmulo, alguns fios cobrindo parcialmente as esmeraldas em fúria.

E como que para quebrar o silêncio, o loiro ao seu lado desatou a rir. Sua gargalhada audível se espalhou pelo amplo cômodo, os olhares assustados agora direcionados a ele.

– Eu não sabia que você era forte! Isso foi tão legal! – Mello exclamou para Matt com uma expressão de felicidade, os olhos safira quase brilhando de tanta excitação.

Mail apenas teve tempo de olhá-lo em dúvida e de sorrir timidamente em resposta, antes que os funcionários da cozinha viessem ver o que estava acontecendo. Logo o menino ferido foi levado à enfermaria, acompanhado de seu colega, e Watari foi chamado, seu olhar recaindo diretamente sobre Mello.

– Dessa vez não foi ele. – Um dos meninos mais velhos do instituto falou em meio à confusão. O loiro sorriu para o homem idoso, seu olhar malicioso fazendo algumas meninas rirem baixinho. Mail revirou os olhos com a cena e Watari ergueu uma sobrancelha.

– Então quem...

– Fui eu. – Matt deu um passo à frente, sem se abalar. Watari pareceu extremamente surpreso, mas decidiu não expressar nada em público.

– Na minha sala. Agora. – E, virando-se, saiu a passos rápidos do refeitório.

Murmúrios dos estudantes e deboches eram ouvidos aqui e ali, mas os olhos e ouvidos de Mail eram direcionados apenas à Mello, que ria de orelha a orelha.



__________________________________________________________________­­­­­­­­­­­­­­


// Stalemate //

___________________________________________________________________



– Você me decepcionou hoje, Matt. Esperava esse tipo de reação de qualquer um... menos de você. – Watari anunciou com pesar.

Ambos se encontravam na tão respeitada sala do diretor. Coberta de livros dos mais variados tamanhos, o cantinho particular de Watari transmitia uma impressão que ia contra seu propósito: limpa e metodicamente arrumar, o cômodo era até convidativo para se passar uma bela tarde de sol.

– Eu sei. – O ruivo respondeu simplesmente. Seu olhar divagava pela janela aberta, observando o formato das nuvens no céu. Nas últimas semanas aquele era um momento raro, visto que a neve caía com ainda mais força ao longo dos dias.

– Sei que faz qualquer coisa por Mello, mas...

– POR QUE TODO MUNDO FICA DIZENDO ISSO? – Mail ergueu-se de um pulo, batendo com as mãos abertas sobre a mesa. Seus olhos fixos no senhor à sua frente captaram a imagem assustada do mais velho, fazendo-o se arrepender imediatamente do tom que usara. – Desculpa. – Ditou se sentando e olhando para os tênis vermelhos que usava.

Watari sorriu afetuosamente.

– Não foi minha intenção te ofender, Matt. O que quis dizer é que você é um bom amigo e que sua atitude foi com a melhor das intenções. – Ele fez uma pausa e, visto que o outro nada respondia, continuou. – Entretanto o que fez é intolerável. Como castigo vai ficar por um mês sem sair do instituto e, se eu souber que Mello está comprando algo para você, principalmente se forem cigarros, ele também perderá o privilégio.

Mail engoliu em seco. Estava ciente a tempos de que Watari não aprovava sua prática de fumante, mas ficar seus bebês era um problema que ele teria de contornar. E ainda havia Mello: se seu temperamento já era instável quando consumia livremente seus chocolates, era impossível imaginar o quanto ficaria descontrolado sem eles.

– Entendi. – Sua cabeça permanecia baixa enquanto suas mãos se dirigiam aos goggles alaranjados sobre os cabelos, arrumando-os.

– Mais uma coisa antes de ir... Você saberia dizer se Mello já conseguiu resolver o enigma imposto por L?

O ruivo finalmente ergueu a cabeça, seus olhos verdes encontrando-se com os negros de Watari.

– Ele conseguiu, mas me disse que não vai à excursão.

Um pequeno sorriso se fez presente nos lábios do outro.

– Eu já imaginava... – Comentou baixinho, seus olhos se perdendo na vista de sua janela.

– Por que ele faria isso? – Mail perguntou com certa urgência, demonstrando interesse e curiosidade.

O sorriso de Watari se alargou.

– A data da excursão é um de fevereiro... – O homem de cabelos grisalhos finalmente olhou para Matt. – Isso ajuda?

Mail franziu o cenho por alguns momentos, concentrando-se, e logo em seguida a compreensão se espalhou por seu rosto.

Primeiro de fevereiro era seu aniversário.


__________________________________________________________________­­­­­­­­­­­­­­


// Stalemate //

___________________________________________________________________



Mail caminhou a passos lentos de volta ao quarto e, ao encontra-lo vazio, se pôs a fumar no parapeito da janela. Os sons do chuveiro indicam que Mello estaria em um de seus longos banhos diários e que, provavelmente, não sairia de lá tão cedo.

Estando livre da companhia do loiro, Matt permitiu que sua mente divagasse. Segurando o pequeno cigarro branco aceso entre o indicador e o dedo médio da mão esquerda, pois era canhoto, enquanto as palavras de Near e Watari retornavam à sua memória.

– Você faz qualquer coisa para vê-lo sorrir... Não é?

– Sei que faz qualquer coisa por Mello, mas...

Tão parecidas em sua composição e tão repletas de significados. Estariam ambos tentando dizer a Mail que ele dedicava tempo demais de sua vida ao loiro?

Colocando-se no lugar deles, não teve outra opção senão concordar. Era até cômico, se não ridículo, o modo como o ruivo jogava tudo para o alto, apenas para seguir os passos do outro. Um bom exemplo disso seria a escolha das matérias escolares, todas opcionais: o único curso que Mail fazia de diferente era o de Tecnologia Avançada. Todos os outros em que se escrevera fora a pedido de Mello, que ele aceitara sem questionar.

Naquele momento perguntava-se se aquilo era certo. Deixar que Mello controlasse sua vida ao seu bel-prazer, sem reclamar sequer uma vez. Tentou imaginar, por breves momentos, como seria sua vida sem o outro para lhe importar, para lhe dizer o que fazer.

Não pôde.

Franziu o cenho, espantado com a conclusão a que chegara. Até aquele instante não fazia ideia do espaço que Mello ocupava em sua vida, do quanto ele lhe era indispensável.

Do quanto ele precisava do loiro.

E não pôde deixar de sorrir com esse pensamento.

– MATT!– A voz estrondosa do loiro foi ouvida, ricocheteando pelas paredes.

– Que foi? – Matt respondeu, após um suspirou, se aproximando da porta do banheiro a passos lentos e cansados.

– Eu esqueci a toalha!

O ruivo riu abertamente.

– E eu com isso? Sai daí e vem buscar. – Disse o mais alto que pôde, perto da porta do banheiro. – Ei, como sabia que eu estava aqui?

– Dá pra sentir esse cheiro nojento de cigarro pela janela! E para com isso que eu não ‘tô com paciência pra aguentar essas brincadeiras seu gamer maldito! Pega logo!

– E por que eu deveria? – O ruivo aproveitava cada oportunidade para provoca-lo. Seu sorriso se abria cada vez mais que o outro lhe respondia com brutalidade: simplesmente amava aqueles momentos cômicos com Mello.

Instantes depois ouviu-se o chuveiro ser desligado e alguns barulhos de objetos caindo, sendo seguidos pelos barulhos dos passos do mais velho. Quase imediatamente um soco foi dado com força na parte interna da porta branca, fazendo-a tremer.

– É o meu último aviso, Matt. Não me obrigue a sair daqui.

O ruivo se afastou alguns passos, sorrindo como uma criança que finalmente ganhara o doce que esperava. Apoiou os cotovelos na janela e deu uma longa tragada no maço já pela metade, observando a fumaça escapar por entre seus lábios.

– Ninguém quer ver o seu corpo magricela, Mello.

Imediatamente o loiro entrou no cômodo com um ódio nos olhos que contrastava com as bochechas coradas de vergonha. Com apenas uma toalha de rosto cobrindo sua cintura, este amaldiçoou o outro com todos os nomes que lhe vieram à mente, segurando sua proteção precária com uma mão e escancarando o armário com a outra.

Mail apenas ria e, acreditando que Mello já havia encontrado a toalha de banho, se virou.

O loiro encontrava-se de costas para ele, procurando em uma das gavetas mais baixas. Os cabelos dourados e molhados caíam como uma cascata de ouro ao lado de sua face, alguns pingos indo de encontro ao chão. As gotas em suas costas largas escorregavam e desenhavam suas curvas até região do quadril, onde se encontravam com a toalha branca. Esta mal conseguia cobri-lo: mais da metade das coxas levemente torneadas de Mello estava à mostra, completamente ensopadas.

Os olhos atentos de Mail o cobriram de cima a baixo em milésimos de segundos, absorvendo cada detalhe com igual rapidez e, quase imediatamente, recebendo uma resposta direta de seu corpo. Os músculos de suas pernas e costas se contraíram com velocidade, as mãos tremeram levemente.

E seu membro se enrijeceu.

– ... e espero que esteja preparado para quando eu... – Mello fez uma pausa em seu discurso para olhar de soslaio para trás, por cima do ombro. Deparou-se com um Matt de olhos completamente arregalados, tentando agarrar a parede às suas costas e olhando fixamente para o loiro, como se tivesse acabado de ver um fantasma. – Matt?... – Perguntou em dúvida, olhando-o com o cenho franzido.

Mail, recuperando o movimento em suas pernas, virou-se para a janela e, trêmulo, a fechou, interrompendo a corrente de ar gelada e cortante que entrava no quarto. Apagou o cigarro no cinzeiro sobre a cômoda e dirigiu-se à porta, sua respiração alterada. Murmurou algo como ‘’preciso de ar’’ e, mal havia fechado a porta às suas costas, desatou a correr pelo corredor aparentemente sem fim, perguntando-se porque seu coração parecia querer sair pela boca.