Stalemate
8 VIII. Dores internas.
Notas iniciais
- Mello, por favor, me ouve!
- Eu não quero te ouvir Matt, me deixa em paz!
Os dois melhores amigos discutiam abertamente nos jardins desertos da Wammy’s House. A paisagem de inverno se agravava a cada dia, banhando as copas das árvores com o tom belo e alvo do fim de Janeiro. Os raios de sol pareciam preguiçosos e decididos a não aquecer um centímetro daquela grama coberta por neve, que era pisoteada pelo loiro enraivecido que caminhava às pressas, querendo claramente se afastar o máximo possível do outro. Suas botas afundavam na grossa camada de neve, deixando pegadas por onde passava. O ruivo vinha logo atrás, seus olhos cobertos pelos goggles alaranjados, apertando o passo para alcança-lo.
- Eu só queria ajudar!
- Ajudar?! Você não me ajudou em nada, só piorou as coisas. Nunca vou entender porque fez isso.
Nem o próprio Mail conseguia entender. Não sabia explicar ao certo porque tomara aquela atitude. Por que, após Mello tirar uma nota menor em um teste, Matt procurara o albino? Sabia que o loiro ficaria enlouquecido se soubesse.
E foi exatamente o que aconteceu.
Mail andava calmamente pelo corredor, olhando com atenção as portas brancas dos dormitórios. Encontrou a que procurava em pouco tempo, batendo duas vezes e observando a placa dourada com a inscrição ‘’Near’’. Esperou até ouvir um ‘’entre’’ e abriu-a.
O pequeno menino de cabelos brancos encontrava-se sentado no chão do quarto, de costas para a porta. Suas mãozinhas moviam-se delicadamente pelas peças espalhadas, encontrando rapidamente as que precisava e montando seu quebra-cabeça. Seu pijama branco de tamanho maior que o ideal cobria-o da cabeça aos pés descalços, que eram tão brancos como o resto do corpo. Ele se virou e ergueu preguiçosamente os olhos para o outro, voltando imediatamente a atenção para frente.
- É raro vê-lo por aqui, Matt. Aconteceu algo com Mello?
- Não, ele está... – Mail travou, sem saber o que dizer. Seu amigo estava muito estranho após ter perdido mais uma vez para Near; não queria comer, remexia-se na cama durante a noite e criara o hábito de se isolar, evitando até a companhia do próprio ruivo que, a esta altura, não sabia mais o que fazer ou a quem recorrer. – Olha Near, eu preciso de um favor.
O mais novo parou de se mover, escutando com atenção.
- Diga.
- Eu sei que não faz por mal, mas o Mello tem um sério complexo de inferioridade e você só está piorando as coisas. As notas nos exames realmente são importantes para ele, de um modo que nem você consegue entender. – Ele fez uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado. – Se você pudesse, pelo menos uma vez, deixa-lo se sentir vitorioso...
- Está sugerindo que eu perca de propósito, que erre algumas questões no próximo exame?
Mail engoliu em seco. Sabia que estava pedindo demais, que alguém do nível de Near precisava de todo o mérito possível para se destacar perante os outros e que não cederia com facilidade. Mas que outra escolha lhe restava?
- Near, eu... – Matt começou, sua voz tremendo levemente.
- Tudo bem. – O outro respondeu, sobressaltando o ruivo. – Posso fazer isso. Só peço que não o subestime, ele com certeza vai desconfiar. E não se preocupe que não direi nada a ninguém.
Mail mal podia acreditar. Ficara sem palavras com a atitude de Near e, antes que pudesse se conter, abraçou-o por trás com carinho. Este ficou imóvel, um pouco constrangido com a súbita aproximação.
Depois de agradecer e lhe dar as costas, Matt abriu a porta, pronto para deixar o cômodo. Não pôde sair, porém, sem ouvir as últimas palavras do albino.
- Você faz qualquer coisa para vê-lo sorrir... Não é?
Os olhos cinzentos de Near o observavam com cuidado, avaliando-o. Mail apenas arregalou os olhos e, sentindo o coração bater mais forte, deixou o quarto sem lhe dar uma resposta.
Dias depois houve a tal prova. Mello fora extremamente bem, como sempre, mas Near tirou uma nota pouco abaixo. Muitos ficaram surpresos e entreolharam-se com curiosidade, mas o albino nem se abalou. Voltou para o quarto sem dizer uma palavra sequer, sem ousar dirigir o olhar ao ruivo.
Mas Mello não era burro. Sentira uma euforia momentânea, mas quase que imediatamente começara a desconfiar. Conhecia Near a certo tempo para saber que ele não erraria assim, de uma hora para a outra. O loiro suspeitava que algo, ou alguém, fizera o outro responder errado de propósito. Sabia que, se houvesse uma terceira pessoa envolvida, duas hipóteses poderiam ser colocadas em evidência: ou o objetivo seria desestabilizar Near, ou fazer com que ele, Mello, atingisse o auge.
Não precisou pensar muito. A primeira hipótese era pouco válida já que, de todo o instituto, o próprio loiro era o único que almejava com todas as forças alcançar o topo. E, levando em consideração a segunda teoria, o único nome que lhe veio à mente foi Matt. Apenas o ruivo teria cara de pau o suficiente para pedir a Near que fosse mal no teste.
E Mello acertara. Ao falar francamente com Matt, pressionando-o ao limite, recebeu uma confissão do outro. Enfureceu-se de imediato, saindo do quarto a passos firmes sem sequer lhe dirigir mais uma palavra.
Em algum lugar, bem no fundo de seu coração, agradecia a tentativa do ruivo. Sabia que este a fizera com a melhor das intenções. Mas se sentia humilhado. De que adiantava todo o seu esforço, se precisava que Near errasse intencionalmente para conseguir ultrapassá-lo? Não havia sentido em todas as noites mal dormidas, com um livro grosso sobre o colo, se de nada lhe valia todo aquele conhecimento. Fazia todo o possível para se tornar cada vez mais inteligente, mas onde estaria a graça, a emoção do desafio, se Near simplesmente o deixasse vencer? Valeria a pena passar por todos os obstáculos se, no final da corrida, o troféu lhe fosse entregue de bandeja?
Não. Aquilo não era uma disputa. Era apenas pena, misericórdia.
Piedade.
E isso era algo que Mello não conseguiria engolir. Não com seu ego, seu precioso orgulho de mal perdedor.
__________________________________________________________________
// Stalemate //
___________________________________________________________________
Depois de dizer poucas e boas para Near, Mello se aventurou pela cozinha da Wammy’s e roubou algumas barras de chocolate para guarda-las no quarto. Quando o abriu, porém, viu que o ruivo não estava mais lá e se encaminhou para os jardins. Teve a infelicidade de encontra-lo lá, sentado sob uma árvore, olhando o trajeto que os flocos de neve faziam dos céus até o chão.
No momento em que Mello o viu fez menção de retroceder e dar meia volta, mas Mail percebera sua presença. Este se levantou de imediato e tentou conversar, fazê-lo entender seu ponto de vista, mas o loiro mal lhe dava ouvidos. Caminhava à frente, rebatendo uma ou outra frase de Matt.
- Mello, por favor, me ouve!
- Eu não quero te ouvir Matt, me deixa em paz!
- Eu só queria ajudar!
- Ajudar?! Você não me ajudou em nada, só piorou as coisas. Nunca vou entender porque fez isso.
Matt engoliu em seco. Não sabia como argumentar contra o outro. Tivera boas intenções, mas, se Mello nem o ouvia, não havia muito que se fazer.
- Tenta entender, eu estava tentando...
- CHEGA! – Mello bradou furioso, virando-se bruscamente para observá-lo. Havia a mais pura raiva em seus olhos, dirigida diretamente ao ruivo, que o fitava com uma mescla de tristeza e arrependimento. – Por que está tão obcecado com isso? Você anda estranho ultimamente, Matt.
- E-eu só... – Mail tentava dizer algo, irritando-se com sua voz trêmula.
- Não me interessa nem um pouco o que estava tentando fazer. Nunca precisei de você. Não preciso agora e nunca vou precisar. – Mello lhe disse lenta e pausadamente, olhando fixamente em seus olhos verdes. Virou-lhe as costas e correu para longe, exatamente como havia feito horas antes no quarto em que dividiam.
Mail imediatamente sentiu algo estranho. Seu coração pareceu contrair-se bruscamente no peito, antes de voltar a bater, desta vez muito mais veloz. Sua garganta começou a arder e os olhos lacrimejaram, embaçando sua visão. O ruivo tratou de limpar o rosto da melhor forma que pôde e, ao fazê-lo, percebeu que suas mãos tremiam. Piscou freneticamente, tentando clarear os pensamentos.
Não sabia o que estava acontecendo. Não se lembrava de ter sentido algo semelhante sequer uma vez em sua vida. Sentia uma dor incômoda em seu peito. Uma dor que não vinha de fora, como uma dor muscular, mas parecia ter sido criada do lado de dentro, enraizando-se e esmagando-o de um modo lento e brutal.
‘’O que é isso?’’ – Mail pensou, levando uma mão trêmula à camisa listrada e apertando-a na região do coração.
Fale com o autor