Stalemate

9 IX. Olhos safira.


Notas iniciais
De agora em diante essa fic será atualizada toda segunda-feira, já que esse é um dia insuportável >.<
Eu alterei a capa, já que aquela será da segunda temporada >.< (Sim, eu já tenho ideia pra segunda temporada inteira *u* Essa fanfic tem tudo pra ser meu melhor trabalho kkk)
Acho que o próximo capítulo está bem melhor que esse, mas enfim...
Boa leitura *u*

Mail cambaleava ao encontro de uma árvore, sem qualquer firmeza sob seus pés. Escorou-se no tronco mais próximo e gradativamente sentou-se na camada dura de neve, sem se importar com o tremor que percorreu seu corpo. Cruzou os braços sobre o peito e dobrou as pernas, aquecendo-se como podia. Seus olhos foram atraídos para o céu, aquela vasta camada azul. O que era para ser uma paisagem bonita e alegre se tornara um cenário desolador e deprimente. Aquele excesso de azul poderia lhe lembrar muitas coisas: as ondas do mar, o vestido de alguma pequena menina, um campo de centáureas, a bela plumagem de um crejoá, as plantações de blueberry . Mas nada disso lhe vinha à mente. A única coisa que, em sua opinião, poderia ser comparada àqueles céus azulados, eram os olhos safira de Mello.

O céu nunca lhe parecera tão detestável.

Relembrando seus passos, Matt sabia que tinha motivos para certo. Sabia que apenas pensara no que era melhor para o loiro, tomara atitudes visando apenas seu bem. Acreditara que Mello ficaria feliz com aquilo.

Acreditara que o veria sorrir outra vez.

‘’Você faz qualquer coisa para vê-lo sorrir... Não é?’’ – Mail se lembrara das palavras de Near, naquele momento lhe parecendo mais vivas e necessárias do que nunca. Era a mais pura verdade: desde que entrara na Wammy’s dedicara mais tempo para o loiro do que para si mesmo, fazendo qualquer coisa que lhe fosse mandado, qualquer tipo de brincadeira que fizesse o outro rir, mesmo que poucos segundos.

Sempre achara que o fazia simplesmente por ser amigo de Mello e tinha certeza de que o loiro via do mesmo modo.

Mas as palavras de Near o intrigavam.

Que necessidade havia em dizê-las justamente naquela hora? O albino sempre fora uma criança de poucas palavras. Qualquer coisa que dissesse não poderia ser levada com algo sem importância: essa fora uma das coisas que aprendera com Mello.

Mas o que elas estariam insinuando?

Mail permitiu-se soltar uma pequena risada. Mello teria gostado de um desafio como aquele.

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// Stalemate //

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A porta do quarto abria-se lentamente.

Mail encontrava-se de costas para ela, deitado sob as cobertas de sua cama. Fingia que dormia, mas estava bem acordado. Não se movia sequer um centímetro, apenas escutava atentamente.

- Matt... Está acordado?

Ele não respondeu. Apenas se encolheu mais sob as cobertas, ignorando o loiro que entrava lentamente no quarto. Pelo barulho, parecia que mancava um pouco. O ruivo franziu o cenho, mas, apesar da curiosidade, não se virou.

- Matt, por favor... Não me ignora.

Mail suspirou e, lentamente, olhou para trás. Havia certa luminosidade vinda da luz da lua e como esta iluminava o loiro, suas feições eram bem visíveis.

- Mello! – O mais novo se sentou de um pulo, afastando bruscamente as cobertas e caminhando na direção do outro. – Quantas vezes eu disse para não brigar sozinho?

Mello somente suspirou, sem saber o que dizer. Mail fez um muxoxo de desaprovação ao observar os ferimentos do loiro de perto e, sem pensar duas vezes, pegou um pequeno kit de primeiros socorros que mantinha no quarto. Mandou que o outro se sentasse e imediatamente começou a limpar alguns cortes mais feios em suas bochechas.

- Matt... Sobre o que eu disse mais cedo... – O loiro falava, desviando o olhar.

- O que você tem na cabeça? Se arriscando por aí a essa hora da noite, sozinho e caindo no braço com qualquer um? Eu sabia que você era idiota Mello, mas não achei que chegava a tanto. – Mail sequer pareceu ouvi-lo.

Mello riu por alguns segundos, seu sorriso se transformando em uma careta ao sentir uma pontada em seu rosto com o movimento.

- É sério Matt... Olha, eu não queria dizer aquilo. Apesar dessa minha coisa toda com o Near, não tinha motivo pra descontar tudo em você. – Ele finalmente ergueu os olhos, um pouco envergonhado. – Me perdoa.

Mail sentiu o rosto esquentar, sem motivo aparente. Ficou encarando e se perdendo naqueles olhos azuis por algum tempo antes de responder, gaguejando um pouco.

- E-esquece isso. – Um sorriso tímido surgiu em seus lábios, antes de continuar a cuidar do outro. – Consegue esticar a perna?

Mello fez uma careta, mas conseguiu obedecer com certa dificuldade. Depois de se dar por satisfeito, o ruivo lhe deu um remédio para dor e o mandou dormir, mas antes o fez prometer que contaria tudo na manhã seguinte. Ambos se instalaram em suas camas, bem aquecidos e de olhos fechados.

- Você ‘tá sempre cuidando de mim... – Mello falou, sem pensar, em meio ao silêncio. – Obrigado Matt.

Os lábios do mais novo tremeram de modo suspeito, formando um sorriso constrangido, seu coração implorando para saltar fora do peito.

- N-não precisaria se você parasse de brigar tanto. – Mail respondeu, sem firmeza na voz.

Mello riu.

- Sabe que eu não consigo.

- É... Eu sei. – Foi a vez de Matt rir.

Logo em seguida o loiro entrou em sono profundo, deixando Mail com seus pensamentos. Este sentia que havia algo de errado consigo. Por mais que Mello gritasse com ele, por mais que o magoasse, Matt não conseguia deixar de perdoá-lo.

Era sempre assim e ambos eram estúpidos nesse ponto. Brigavam por motivos banais e se desculpavam em situações ainda mais idiotas. Não passavam de duas crianças cujos corpos haviam crescido demais.

Mail riu com o pensamento. Se dissesse algo do tipo para o loiro receberia em contraposição uma atitude extremamente infantil: um belo soco na cara.

Deixam as ideias de lado e virando-se na cama pela décima vez naquela noite, Matt tentou com todas as forças pegar no sono. Mas sua mente fazia questão de mantê-lo acordado. Parecia pregar peças no ruivo, obrigando-o a prestar atenção nos menores sons ao seu redor: o pio de uma coruja, o balançar do vento nas árvores, latidos de cachorros ao longe, o barulho que Mello fazia ao se mover na cama, um grilo na janela e até seus próprios batimentos. A insônia o fazia ouvir os barulhos noturnos que Mail tentava repelir, em vão.

Quando finalmente a teimosia de sua mente o deixou dormir, seu sono foi banhado por pesadelos.

Estava escuro, muito escuro. Havia cobras por toda a parte que se enrolavam em suas pernas, impedindo-o desse mover enquanto uma tempestade caía sobre seus cabelos. Tentava se libertar, mas elas apenas o prendiam ainda mais, prejudicando sua circulação sanguínea. Sempre que suas mãos se aproximavam demais as serpentes exibiam suas presas para ele, o veneno letal pingando de seus dentes afiados.

Por mais que quisesse... Não podia se aproximar.

O sonho durou pouco. Logo Mail se forçou a acordar e, mesmo sendo de madrugada, afastou as cobertas com violência e ergueu-se de um pulo, correndo até o banheiro. Respirava pesadamente enquanto lavava o rosto, ficando seu olhar no espelho à sua frente. O reflexo lhe mostrava seus cabelos vermelhos rebeldes, a camiseta listrada amassada e as esmeraldas em pânico.

Tivera muitas vezes aquele mesmo pesadelo.

Revivia os momentos de terror em que, aos sete anos, fora forçado a presenciar o assassinato de seus pais após uma tentativa de assalto. Lembrava-se de ter corrido com lágrimas nos olhos até a cozinha e descido pelo alçapão que dava acesso ao porão.

Como não costumavam visitar o cômodo com frequência, havia todo o tipo de animais lá. Pequenas cobras, um ou dois morcegos, ratos, baratas, lesmas e aranhas dividiram o lugar com Mail por dois dias e duas noites, até ser encontrado pela polícia na manhã do terceiro dia. Não ousara sair nesse meio tempo por medo dos sequestradores ainda estarem na casa e sobrevivera com o que teve empo de pegar na cozinha. Uma pequena janela o permitira, mas nem de longe era o suficiente. Fora levado imediatamente ao hospital com sinais de desnutrição e insuficiência respiratória e, dias depois, após receber a visita inesperada de um senhor idoso em belos trajes, já frequentava a Wammy’s House.

Nunca perguntara a Watari como este o encontrara e como sabia o prodígio que viria a se tornar. Mas nunca tivera real interesse em saber. Todas as lembranças que antecediam a Wammy’s eram, para ele, um misto de horror e solidão.

Depois de finalmente conseguir se acalmar, Mail voltou a passos lentos para cama, instalando-se sob as cobertas. Seus olhos permaneciam bem abertos, cenas desagradáveis passando diante dele. Lembrava-se das horas de desespero que passara, gritando, chamando por seus pais com todas as forças.

Mas eles nunca apareceram.

O ruivo suspirou com pesar ao sentir as malditas lágrimas escaparem de seus olhos. Quando era criança tal atitude era justificável, mas a poucos dias de completar quinze anos parecia algo sem fundamento. Tivera plena certeza de que, depois de tantos anos, havia superado seus temores do passado.

Naquele momento não tinha tanta certeza.

Seu olhar se desviou para o lado, na direção do loiro que dormia tranquilamente. Mail perdera a conta de quantas vezes se embrenha sob aquelas cobertas, chorando nos braços do outros e sendo confortado com poucas e preciosas palavras. Por apenas um momento pensara em repetir o ato, mas sabia que não havia o menor cabimento. Estava se tornando um homem e, portanto, precisava agir como tal. O que Mello diria se o visse desabando emocionalmente ao seu lado, como uma criança?

Acabou se contentando em ficar ali, chorando baixinho e temendo fechar os olhos.