Stalemate

7 VII. A chegada da neve.


Notas iniciais
Esse ficou grande... *o*

‘’Merda...’’ – Mail pensava, a fumaça escapando de seus lábios e inundando a sala de jogos da Wammy’s House.

Suas mãos moviam-se freneticamente sobre a bancada do fliperama, apertando de modo compulsivo os botões coloridos. Movia o cigarro nervosamente de um lado para o outro em sua boca, seus olhos verdes acompanhando atentamente o que acontecia na tela à sua frente. Frequentemente trocava o apoio de seu corpo de um pé para outro, os tênis vermelhos acompanhando seus movimentos. Os jeans azuis largos e a camiseta listrada de preto de vermelho o acompanhavam como de costume, com a pequena diferença de que agora um colete, também listrado, jazia sobre seus ombros. Os goggles alaranjados sobre seus olhos e o cigarro em seus lábios completavam a figura de Mail Jeevas, no auge de seus catorze anos.

O silêncio e a escuridão que se seguiam no cômodo vazio ajudavam-no a se concentrar, relaxando seus músculos e focando sua mente. Aquele jogo estava desafiando-o havia dias, deixando-o cada vez mais irritado consigo mesmo.

A calmaria foi repentinamente quebrada pela porta se abrindo. A primeira reação do visitando foi torcer o nariz e estreitar os olhos azuis, desaprovando a fumaça excessiva que invadia seus pulmões.

- Que merda Matt, vai fumar lá fora.

Mello escancarou a porta e se precipitou para dentro com uma expressão carrancuda. Suas botas negras de cano longo bateram no chão de piso fio, produzindo um eco que ricocheteou pelas paredes. Aos quinze anos de idade suas roupas haviam mudado completamente: deixara as vestimentas largas e pijamas para trás, aderindo à uma calça de couro justa e um colete preto igualmente apertado, preferências que lhe renderam muitas provocações, especialmente de Mail. Mantivera apenas a cor negra com que tanto se identificava, além dos cabelos loiros que, exceto por um fio rebelde ou dois, continuaram inalterados, cortados em um Chanel.

- Eu estava muito bem aqui antes de você chegar. – Mail respondeu com um sorriso.

- Não me interessa, sai daí. Esse lugar precisa de ar. – Logo Mello percorria todo o cômodo em passadas rápidas, o barulho de suas botas acompanhando-o. Ele abriu as cortinas e escancarou uma das janelas, o vento forte varrendo seus cabelos para trás. O cheiro de chocolate, característico do loiro, se misturou com a fumaça que circulava o ar e atingiu em cheio o rosto de Matt, alargando o sorriso em seu rosto e obrigando-o a pausar o jogo por alguns momentos. O ruivo fechou os olhos por algum tempo, aquela fragrância interrompendo momentaneamente seus pensamentos, enquanto Mello observava os jardins com uma sobrancelha erguida. Suas mãos cobertas pelas luvas de couro repousaram suavemente sobre o parapeito da janela. – Tem alguém chegando. E parece que vai nevar. – Acrescentou ao erguer a cabeça.

Os céus pareceram concordar e minutos depois pequenos flocos brancos rodopiavam em direção ao chão. As crianças menores observavam, maravilhadas, uma enorme quantidade de neve lentamente cobrir as folhas das árvores, passando-as de verdes para brancas. Os pequenos começaram a correr para fora, deitando na neve, chamando uns aos outros para se divertir e até jogando bolas de neve um nos outros. O frio intenso não os incomodava, longe disso; aos olhos deles era agradável o modo como o vento brincava com seus cabelos e lutava para atravessar seus corpos, tentando ultrapassar as camadas de roupa que os protegiam.

Logo um senhor idoso com vestimentas formais deixava o instituto, atravessando os jardins. Seu terno sugeria uma ocasião importante, como uma reunião de negócios, sendo inapropriado para uma tarde fria como aquela, mas ele parecia não se importar. Caminhava lentamente, olhando de um lado para o outro, apreciando a bela paisagem que se formava e sorrindo para si mesmo.

Parou apenas ao atingir os belos portões de ferro da Wammy’s, o enorme W abrindo-se para a chegada de um novo visitante.

Do lado de fora, uma limusine escura estacionava lentamente. O motorista abriu a porta e, de início, parecia não haver ninguém lá dentro. Porém pouco depois, com alguma dificuldade, um garotinho de onze anos de idade desceu do carro. Piscou os olhos acinzentados e os ergueu ao céu, observando, pela primeira vez na vida, a neve a cair.

- Seja bem vindo. – Watari o cumprimentou antes de tirar um papel do bolso e entregar ao menino, que leu rapidamente e concordou sem hesitar, devolvendo-o ao homem. – Muito bem então, vamos entrando.

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Quando Mello e Matt alcançaram os jardins, estes já estavam apinhados de crianças curiosas. Watari passava por elas com um sorriso, um pequeno menino caminhando ao seu lado. Este as olhava sem expressão alguma, como se não fizesse diferença se elas estivessem ali ou não. Usava uma camiseta branca larga e uma calça da mesma cor. Seus tênis, também brancos, pareciam lhe incomodar, o modo com andava indicando que estava louco para tirá-los dos pés. Na mão esquerda levava um robô de brinquedo, destes que se dá para crianças de seis anos de idade e, na direita, uma mechinha de seu cabelo branco ondulado era lentamente enrolada.

- Quem é o cabeçudo? – Mello perguntou. Algumas crianças riram, mas o menino não sentiu nada ou, pelo menos, não demonstrou qualquer reação.

- Tenha o mínimo de educação, Mello. – Watari o repreendeu. Mail riu. – Este é Near, um forte candidato para a sucessão de L.

- Olá. – O menor falou, sua voz, assim como seu rosto, indicando uma idade menor do que possuía.

Mello se agachou, para que os dois ficassem na mesma altura. Seus olhares se confrontaram; o de Near não aparentando absolutamente nada, enquanto o de Mello estava carregado de ódio. Não lhe agradava nem um pouco o fato de que uma criança como aquela rivalizaria com ele a sucessão do maior detetive do mundo. Ser colocado em pé de igualdade com ele ou em uma posição inferior era algo que o loiro não iria tolerar.

- Veremos se ele é tão bom assim como diz, Watari. – E, lançando um último olhar de desprezo para o pequeno, Mello ergueu-se e deu as costas para os olhares curiosos. – Vamos Matt.

O ruivo dirigiu um breve sorriso ao novo aluno e, obediente, seguiu Mello de volta ao instituto.

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Àquele primeiro dia de neve se seguiram muitos outros e, com eles, diversas revelações. Rapidamente o potencial de Near começou a se espalhar pelo instituto, seus feitos sendo passados a quem quisesse ouvir. O pequeno prodígio não demonstrava apenas estar em um nível intelectual acima dos demais, mas também sabia como manter a calma em situações críticas, característica essencial para quem pretende assumir o lugar de L. Utilizava de sua meticulosidade e tranquilidade excessivas para resolver um mistério após o outro, tornando-se, em pouquíssimo tempo, o favorito para o cargo do grande detetive.

Porém, enquanto todos os holofotes eram dirigidos à Near e à sua brilhante atuação como gênio da Wammy’s, havia alguém atuando nas sombras. O outro lado da história, mais precisamente.

Mello.

Após um mero piscar de olhos, o loiro fora deixado de lado. Caiu no esquecimento, tornando-se, como muitos diziam no orfanato, ‘’a segunda opção.’’ Era mais do que óbvio que Near possuía uma mente extraordinária e digna de atenção, mas somente esse fato não era o suficiente para colocar Mello em um patamar inferior. O grande trunfo de Near, a sua maior arma contra o outro era, justamente, a ausência de emoções. Passivo, aplicado e capaz de tomar decisões baseadas em raciocínios lógicos, o pequeno albino era completamente o oposto de seu adversário. Impulsivo, guiado pelas emoções e pelo instinto, o loiro era constantemente precipitado em suas ações. Permitia que seus sentimentos dominassem-lhe a razão e, assim, praticamente assinando a vitória de Near.

Alheio a tudo isso, totalmente desligado do mundo presente, havia Mail. A terceira mente mais brilhante da Wammy’s House, mais desconhecida, que jamais almejara suceder L. Este não possuía planos para o futuro ou sonhos formados, mas tinha uma qualidade extremamente marcante em seu caráter; era persistente. Sabia que, quando definisse o que queria fazer da vida, não desistiria até ter atingido sua meta.

Rapidamente e de modo inconsciente, Mail se tornara uma espécie de ‘’freio’’. Com o ódio de Mello por Near aumentando dia após dia, cabia ao ruivo acalmar o ser impulsivo que frequentemente parecia prestes a espancar o albino até a morte. Controlar as crises do loiro se tornava difícil, ao passo que, com o tempo, Matt tentava conversar mais com Mello sobre o assunto. Tinha esperança de fazê-lo entender que, mesmo se não pudesse vencê-lo, deveria respeitá-lo.

- Não estou dizendo para se juntar a ele Mello, mas... – O ruivo argumentava, talvez pela décima vez naquele dia.

- Vou fazer o que tiver de fazer, Matt. – O loiro rebatia agitado. – Ainda não é suficiente... Preciso estudar... – Murmurava, mais consigo mesmo do que com o outro. – Preciso melhorar. E rápido!

Era isso que Mail temia. Conforme a luz de Near parecia brilhar cada vez mais, a determinação de Mello em superá-lo se transformava em uma obsessão. Via seu amigo enlouquecer lentamente diante de seus olhos e permanecia impotente diante da situação.

- Mello...

- Vou voltar tarde. – O loiro anunciou e, saindo sem esperar por resposta, fechou a porta atrás de si.

Fazia alguns anos que Mello e Matt dividiam o mesmo quarto. O número de crianças no instituto aumentou e, à pedido de Watari, eles aceitaram sem pestanejar. Fora divertido para eles, no início, mas agora, na idade em que estavam quase não fazia diferença. A cama de Mail, situada do lado esquerdo do quarto, se encontrava completamente lotada de roupas e vídeo games espalhados, obrigando-o a começar a arrumá-la. Do lado direito, infestada de barras de chocolates, a cama de Mello estava igualmente bagunçada. O ruivo suspirou e, cansado, decidiu arrumar a do outro depois.

Nenhum dos dois se incomodava com a desordem. Haviam aprendido a viver com ela assim como viviam um com o outro. Assimilar os comportamentos de Mello e suportar seu temperamento explosivo foram habilidades que Mail aprimorou com os anos, do mesmo modo que Mello aprendeu a conviver com o cheiro de cigarro que por vezes infestava o quarto, apesar de nunca concordar com tal prática do ruivo.

Mesmo sendo questionado pelo outro diversas vezes, nem Mail sabia porque começara a fumar. Quando alcançara certa idade e lhe fora permitido sair sozinho do instituto, um homem ofereceu para que experimentasse. Somente se dera conta da idiotice que fizera tempos depois, mas já era tarde; se viciara e não havia escapatória. A sensação da nicotina entrando em seus pulmões se tornara seu refúgio, onde seus problemas pareciam nunca ter existido. O efeito, porém, era temporário: o que justificava a necessidade de continuar a alimentar o vício.

Fumando um após o outro, em uma corrente incessante de fumaça.

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Mail fechou os olhos e suspirou, repousando a cabeça sobre o travesseiro. Cansara-se de jogar e decidira finalmente dormir, mas pensamentos vieram em sua mente como uma chuva torrencial, um após o outro.

Percebera há pouco tempo que seu número de cigarros consumidos por dia aumentava cada vez mais, deixando-o curioso. Isso geralmente acontecia quando certo fato o deixava irritado, como não conseguir passar a fase de algum jogo, mas nada do tipo acontecia há três semanas. Sua cabeça latejava com frequência, seu corpo implorando por um pouco mais daquele vício. E Mail tentava se acalmar, colocando os pensamentos em ordem e recordando os últimos acontecimentos.

‘’ Near chegou faz um mês. Mello, com seu complexo de inferioridade, o viu como um rival e faz de tudo para se livrar dele. E... Não, espera... Foi só isso?’’ – Mail franziu o cenho. Nenhuma das situações que vieram à sua mente tinha qualquer ligação com ele, então, por que elas o perturbavam tanto?

Uma coruja piou ao longe, despertando Mail de seus pensamentos. Desviou o olhar para o lado, algumas mechas vermelhas caindo sobre sua testa. Sobressaltou-se ao ver o mostrador do relógio.

4:00 AM.

Seus olhos verdes pousaram na cama vazia ao lado e, em seguida, no casaco de couro pousado sobre ela. Mordeu o lábio inferior, preocupado. Mello ainda não havia voltado e não se lembrava de tê-lo visto agasalhado. Apesar do sistema de ar condicionado da Wammy’s, aquela madrugada de inverno estava particularmente gélida. Se Mello, imprudente como era, tivesse se aventurado pelos jardins estaria congelando lá fora.

O ruivo ergueu-se de um pulo, pegando a jaqueta negra e saindo porta afora. Enquanto caminhava pelo corredor silencioso, seus olhos detinham-se no objeto em suas mãos. Ergueu-o à altura do rosto, inspirando profundamente e sentindo o arome de chocolate invadi-lo. A toca felpuda fez cócegas em seu rosto, o que o obrigou a afastá-la.

Concentrou-se, focando seus pensamentos. O loiro não lhe dissera onde fora, mas mencionara pouco antes de sair que queria estudar mais, para ter condições de ultrapassar Near. Se qualquer outra pessoa tivesse lhe dito algo parecido, Matt provavelmente nem teria ouvido e não se incomodaria com seu paradeiro, mas como envolvia Mello a situação era completamente diferente. Precisava pensar: onde o loiro costumava ir quando estudava?

Não seria um lugar aleatório, disso Mail tinha certeza. Deveria ser um lugar calmo, silencioso e com certo acúmulo de pessoas, para que alguém como Near, um completo antissocial, não se aproximasse. Não foi necessário muito tempo para que Mail concluísse que o único lugar possível era a biblioteca.

Desceu as escadas e atravessou um largo corredor até alcançar o lugar. Extremamente espaçosa, a biblioteca da Wammy’s House abrigava mais livros do que a maioria das bibliotecas públicas da Inglaterra, sendo quase impossível estimar seu número. Os exemplares foram divididos em mais de quarenta sessões, catalogados de acordo com o assunto e ordem alfabética, respectivamente. As crianças possuíam liberdade para pegarem qualquer livro, mas cabia aos funcionários guarda-los corretamente. Watari era extremamente metódico quanto a isso: não tolerava livros fora de seus respectivos lugares.

Dispersas pelo extenso cômodo, haviam mesas e poltronas dedicadas à leitura. Após verificar quase todas as acomodações, Mail suspirou aliviado ao constatar que o loiro dormia como um bebê com a cabeça e os braços apoiados sobre uma das mesas. O ruivo se aproximou para observar, notando que apenas uma pequena parte de seu rosto era visível. A fresta entre seus cabelos dourados e os braços exibia a bochecha esquerda e os lábios entreabertos, além do olho esquerdo coberto pela pálpebra.

Por algum motivo, quanto mais observava, menos Mail tinha vontade de acordá-lo. Sua expressão dizia que dormia tão profundamente que qualquer perturbação o irritaria. Eram extremamente raros os momentos em que Mail podia observá-lo com a face tão serena, por isso, que mal havia em deixa-lo ali?

Enquanto o ruivo pensava consigo mesmo, Mello resmungou baixinho, tremendo de leve. Mail mordeu o lábio, apertando a jaqueta contra si. Não suportava vê-lo sentindo frio e, mesmo que o loiro gritasse consigo, precisava tirá-lo dali.

- Mello... – Ele chamou calmamente, tocando-o no ombro. O loiro murmurou algumas coisas incompreensíveis, mas não se mexeu. Tornou a chama-lo, no mesmo tom de voz.

Finalmente, na quarta tentativa, o loiro abriu os olhos. Piscou algumas vezes e ergueu o olhar para o outro, sua voz saindo fraca e baixa como a de uma criança.

- Matt... Eu ‘tô com frio.

Mail sorriu.

- Aqui. – Ele cobriu os ombros do outro com a jaqueta. Mello tremeu um pouco pela mudança de temperatura. – Vem, se apoia em mim.

Com um pequeno esforço, Mello obedeceu. Mail praticamente o carregou pelas escadas até o quarto, já que este parecia totalmente esgotado. Fechou a porta e depositou o outro sobre a cama, colocando vários cobertores sobre ele até que se desse por satisfeito.

- Melhorou Mello?

O loiro acenou com a cabeça, os olhos azuis entreabertos. Ergueu o olhar para Mail e sorriu, um sorriso que corou as bochechas do ruivo que o observava atônito. Com o sono pesando e o calor penetrando seu corpo, Mello acabou por adormecer em poucos minutos.

Mail se deitou logo em seguida. Suas pálpebras pesavam, mas ele não sentia sono. Sorria consigo mesmo e perguntava-se o que havia no sorriso do outro que o deixava tão feliz.

Notas finais
Nos próximos capítulos teremos Mail, que começará a perceber que sente algo ''diferente'' por Mello >.< (Estou ficando muito romântica por causa dessa fic... Argh u.u )