Stalemate
6 VI. Fios de ouro e a trilha de fogo.
Notas iniciais
O sino anunciando o jantar tocava, despertando todo o instituto. Várias crianças começaram a correr eufóricas em direção ao refeitório, almejando conseguir os melhores lugares. Qualquer um que passasse poderia notar claramente a felicidade estampada em seus rostos. Algumas abriam sorrisos enormes, de ofuscar a vista; outras gesticulavam animadamente com os colegas, seus dentinhos de leite surgindo enfileirados para quem quisesse ver.
Entre as últimas crianças a chegar ao refeitório, estavam um loiro de olhos azuis visivelmente irritado e um ruivo de olhos verdes que tentava acalmá-lo.
- Você foi melhor que todo mundo, deveria estar feliz.
- Mas não tirei a nota máxima! – O loiro praguejava enquanto eles se serviam da porção de lasanha daquele dia. – Matt eu preciso ser ainda melhor se algum dia quiser me comparar à L!
‘’L.’’ O codinome de maior impacto na Wammy’s House. Aquela letra representava tudo para a maioria daquelas crianças, tanto as mais jovens quanto as mais velhas. Era um símbolo, uma meta a ser alcançada, a realização de um sonho. Estar à altura do maior detetive do mundo necessitava esforços excessivos, horas seguidas de estudo, dedicação rígida e disciplinada, coisa que raramente era encontrada em crianças, principalmente crianças daquela idade.
Para Mello, isso não queria dizer absolutamente nada. A única coisa que pensava, desde o momento em que colocara os pés naquele orfanato, era ser o melhor. Queria estar no topo, ser um ponto de referência para as outras pessoas, queria ser olhado e visto como alguém que conquistou seus objetivos, independente de tudo e de todos. O loiro afirmava constantemente que, não importando quais fossem as circunstâncias, passaria por cima de qualquer coisa que ficasse em seu caminho.
- Você vai conseguir na próxima. Só precisa de um pouco mais de confiança... – Mail interveio e, ao ver que o outro não respondia, acrescentou: — Mello, sorria um pouco. Eu prometo que te faço chocolate quente mais tarde, tá?
Os olhos azuis de Mello faiscaram ao ouvir a menção de chocolate quente. Ele acenou com a cabeça e gradualmente os músculos de seu rosto se moveram, um sorriso mais radiante e sincero do que o de qualquer outra criança estampado em sua face.
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Aquela semana de inverno parecia se prolongar, sem fim, pelas horas que se seguiam. Mello e Matt haviam saído de seus quartos para os jardins, esperando sentir uma leve e aconchegante brisa, mas foram pegos de surpresa. Um vento gélido vindo do oeste avançou rapidamente sobre os garotos, investindo pesadamente contra suas roupas e atingindo as camadas mais protegidas de seu corpo. Os cabelos de Mello eram varridos para trás e assemelhavam-se a fios de ouro, enquanto os de Matt pareciam deixar uma trilha de fogo ardente por onde passavam.
Ambos caminhavam a passos rápidos até a porta do instituto. Estiveram momentos antes sentados próximos ao limite dos jardins, conversando animadamente sobre os mais diversos assuntos.
- Mello... Quem são aqueles? – O ruivo apontou discretamente para um grupo de três meninos que estavam parados no topo da escada que levava ao segundo andar. Não eram muito mais velhos do que eles, mas algo na intensidade de seus olhares fez Mail ficar nervoso.
- Olhem só quem temos aqui... Mello e seu fiel escudeiro! – Um deles anunciou teatralmente, se aproximando e gesticulando na direção do ruivo, fazendo uma breve e debochada reverência. Os outros atrás dele riram e assoviaram, exibindo sorrisos tortos e mal formados.
- Saiam da nossa frente. – Mello rosnou, agarrando o pulso de Mail e puxando-o escada acima. Este o acompanhou, amedrontado, os olhos fixos nos degraus que pareciam se estender infinitamente.
- Ei, espera! O que é isso no seu bolso ruivinho?
Matt tentou, tarde demais, proteger o bolso direito de sua calça. Lá estava guardo seu primeiro vídeo game, um pequeno objeto vermelho portátil que o loiro juntara dinheiro para lhe dar. Mail o considerava um de seus pertences mais preciosos e, como tal, deveria estar sempre próximo a ele, assim como os óculos alaranjados que encimavam o topo de sua cabeça.
- M-me devolve! – Mail libertou seu pulso do aperto de Mello e avançou para o que pegara seu precioso jogo, mas este lhe desferiu um forte chute no estômago, fazendo-o cair sentado em um dos degraus e por muito pouco não o derrubou escada abaixo.
Houve um silêncio incômodo, em que todos prestavam atenção no pequeno ruivo escolhido. Quase que imediatamente este começou a soluçar, as mãozinhas apertando os lados do corpo dolorido e machucado.
- Droga Keny, não precisava ter chutado tão forte. – Um dos meninos observava Mail com uma expressão preocupada.
- Nem coloquei tanta força assim, esse pirralho está fingindo.
Enquanto todas as atenções se dirigiam ao ruivo, Mello sentia seu corpo começar a tremer. Jamais experimentara tal sensação. A raiva apoderava-se de si, aquele sentimento intenso fluindo para seus membros e controlando seus movimentos. Não se preocupava com o que acontecesse, não queria saber das consequências. Só havia ele, um monstro que ferira Mail e o próprio ruivo, aos prantos.
- Vai, levanta log... – Em segundos, Keny fora empurrado com força para trás, caindo de costas sobre o piso gelado do segundo andar. Mello lançou-se sobre ele e desferiu inúmeros golpes, acetando qualquer parte do corpo do outro que pudesse alcançar. O menino se defendia do ataque de Mello como podia, mas estava assustado demais para reagir com precisão. Nos breves momentos em que pôde vislumbrar os olhos de Mello, estes lhe eram cruéis, malignos, aquelas belas orbes azuis dirigiam a ele todo o seu ódio, parecendo à beira de começar a soltar faíscas.
A alguns passos de distância dali, Mail erguia timidamente o rosto frente aos gritos que ouvira, as lágrimas escapando de suas esmeraldas avermelhadas e escorrendo pelas bochechas. Dois dos meninos corriam para acudir o terceiro, que tinha uma criança loira sobre si. Alguns segundos foram necessários para que Mail identificasse a criança como sendo Mello, que já era arrancado à força de cima do outro.
- Mello seu desgraçado! Você vai pagar por isso! – Keny tampava o nariz sangrento com uma das mãos e corria desesperadamente escada abaixo em direção à enfermaria, sendo seguido pelos dois comparsas.
O olhar do ruivo foi atraído para Mello, que arquejava rapidamente. Seu rosto quase não apresentava marcas, afora uma marca roxa em sua bochecha direita. Gradativamente suas mãos paravam de tremer, até finalmente se acalmarem por completo.
- Mello...
- Matt, você está bem?
Mail levantou-se lentamente e subiu os degraus, olhando para os tênis vermelho-vivos. Queria agradecer o outro por tê-lo defendido, mas não sabia como.
- Ei. – Mello chamou sua atenção e ele ergueu relutantemente os olhos verdes. O loiro estendeu a mão direita, abrindo um sorriso ao ver a expressão do outro. Um objeto vermelho reluzia entre seus dedos. – Pega.
Mail piscou algumas vezes, atônito. Além de tê-lo defendido de meninos mais velhos e de ter vingado o machucado que sofrera, Mello ainda conseguira recuperar seu precioso vídeo game no meio da confusão. O loiro se arriscara por ele sem pensar duas vezes, não temendo as consequências. A coragem que demonstrara deixou Mail fascinado por alguns momentos, olhando para Mello com a cabeça levemente inclinada para o lado.
- O quê que você ‘tá olhando? – Ele perguntou ríspido, incomodado com aquele olhar verde fixando-o.
- N-nada! – Mail pareceu voltar a si rapidamente e, com um sorriso, pegou o objeto da mão estendida de Mello.
Quando o loiro estava prestes a lhe dar as costas e continuar a subir, em um impulso repentino, sem qualquer fundamente, Mail se inclinou e depositou um beijo na bochecha ferida de Mello, que sentiu a face esquentar instantaneamente.
- Obrigado Mello. – Ele agradeceu com um sorriso e acrescentou: — Um dia eu quero ser tão forte quanto você.
Os olhos de Mello se iluminaram e as palavras pareceram lhe escapar, um sorriso tímido manifestando-se em seus lábios cheinhos.
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E assim os minutos se seguiram.
E se transformaram em horas, dias, semanas, meses e anos. Os invernos vieram e se foram, levando com eles a magia que reside no coração de cada criança. A simplicidade e inocência se transformaram de um presente real para uma memória esquecida, sendo substituídos pelo amargor e pelas provações da vida adulta. Brincadeiras e sorrisos diários foram deixados para trás, o arco-íris convertendo-se em uma terrível monocromia. O próprio tempo pareceu desacelerar, tornando ainda mais vívida a escuridão que se esgueirava sorrateira para dentro de cada um.
Não é da natureza da escuridão perdoar. Ela confunde, embaralha a mente, devora e mata de dentro para fora. Em frente ao caos, ao sinal de uma pequena centelha tudo silencia. Uma chama minúscula de esperança teima em permanecer acesa, pronta para cobrir tudo ao redor com seu calor. Aquela chama que, mesmo passando despercebida, ainda está lá, refugiada no âmago de cada coração, esperando ser alimentada e transformada em um mar de fogo.
Mail Jeevas passou os sete anos seguintes totalmente inconsciente da existência dessa chama, até que, quando o caos e as trevas ameaçavam consumi-lo por completo, uma fagulha se acendeu.
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