Spirit
10 Desconfiança
Notas iniciais
Eu sabia que algo estava errado assim que vi Yuri Orlov pela primeira vez. Não entendi porque minha mente se recusava a confiar nele ou porque minha mão se recusava a apertar a dele até encontrá-lo perto de Rose.
Minha Roza. Eu ainda tentava esquecê-la, seguir minha vida sem tocá-la, mas todo o esforço que eu acumulava com o passar dos dias ruiu desastrosamente quando notei o quanto eles estavam ligados. Era algum tipo de brincadeira? Precisei de algumas boas semanas de treinamento para conseguir me aproximar dela e precisamos de mais algum tempo para firmarmos algum tipo de relacionamento, mesmo que frágil e desequilibrado.
Então Orlov parecia ter conseguido tudo isso em menos de um mês. Com certeza só podia ser algum tipo de brincadeira do destino mesmo. E Rose nem chegava a se importar com os boatos que se espalhavam pela Corte, sobre a suposta quantidade de vezes que ela saia do quarto dele ou sobre como sempre estão juntos.
Ainda era direito meu sentir raiva daquela situação? Ainda era direito meu tentar protegê-la de tudo? Direito meu ou não, estando errado ou não, eu sempre irei protegê-la.
Por isso quando o quarto de Lissa explodiu o primeiro nome que gritei foi o dela. Gritei por Rose como se fosse um ato automático, um reflexo e um instinto que sempre me dominavam.
Lembro bem de o meu coração começar a disparar quando não recebi nenhuma resposta, lembro-me de ter levantando com dificuldade e totalmente em alerta por qualquer perigo que ainda pudesse estar naquele cômodo. Eu não conseguia enxergar por causa da poeira, mesmo assim agarrei minha estaca e comecei a esquadrinhar o local, um sentimento desesperador começando a me dominar.
Foi então que alguém tossiu.
Naquele dia a minha mente gritou, puxando-me para lados diferentes. A razão, como sempre, queria que eu começasse a procurar pelos Moroi, por Lissa, seguir minhas obrigações. Mas pela primeira vez eu quis seguir meu coração e o desespero que o assolava. Eu queria Rose.
Dimitri.
Não era a voz dela, mas era tão bem-vinda quanto.
― Lissa! ― corri na direção dela ― Tudo bem?
A sobrevivência dela era meu trabalho afinal.
― Estou bem ― ela respondeu firme ― Onde está Rose? Não estou sentindo ela...
Naquele primeiro momento eu fiquei confuso. Até onde ainda sei a ligação era de mão única e só Rose conseguia sentir a amiga, mas no segundo depois eu me livrei dessa confusão. Não me importava com o que estava acontecendo entre elas, se Lissa estava dizendo que não a estava sentindo, então não era algo bom sob qualquer situação.
― Rose!
Não fui eu que a encontrou, mas também não me importei. Quando Orlov gritou o nome dela só me limitei a correr até onde ela estava deitada, inconsciente. Lissa passou por mim e segurou Orlov como se quisesse impedi-lo de fazer algo, ele parecia transtornado demais para pensar com clareza e sussurrava coisas inaudíveis e urgentes para Lissa que o mantinha firme. Mas uma vez eu fiquei confuso, mas me foquei em Rose e toquei em seu pescoço delicadamente.
Ela estava viva e isso era a única coisa que importava.
Era aquela esperança queimando dentro de mim que me manteve ao lado da cama onde ela dormia até hoje, quase uma semana depois. Os médicos, todos eles, disseram que Rose estava bem, fora de perigo, mas ninguém sabia dizer o motivo de ela permanecer inconsciente. Lissa ainda não apareceu para visita-la e tudo o que Ozera dizia é que ela precisava de um tempo para pensar.
Isso me preocupava.
Orlov permaneceu ao lado dela tanto tempo quanto eu, dividindo o tempo entre dormir e olhar o lado de fora da janela. Durante esse tempo eu tentei entendê-lo, entender a relação entre eles. O Guardião sempre tinha os olhos vermelhos e uma enorme frustação estampada no rosto, parecia mais preocupado a cada dia, mas por algum motivo eu não senti nada romântico entre eles. O olhar dele era diferente e pela primeira vez imaginei que estava deixando passar algo realmente importante.
O céu ainda estava claro quando Orlov se levantou em um só impulso. Eu o olhei com o misto de susto e confusão, mas ele me ignorou e lançou um olhar atordoado para Rose que ainda dormia. Levantei-me com cautela.
― Orlov? Algum problema?
A porta abriu de chofre e subitamente pegamos nossas estacas, prontos para qualquer batalha. Arqueei uma sobrancelha ao notar que era Lissa, sorridente e com os olhos iluminados pela satisfação.
― Eu a senti!
Demorei alguns segundos para processar o significado daquelas palavras e então me lembrei do que ela havia falado no dia da explosão.
O monitor cardíaco chamou minha atenção quando começou a apitar em um ritmo diferente, mais acelerado. Imediatamente olhei para Rose que começara a se movimentar levemente.
― Ela está sonhando ― Orlov comentou parecendo aliviado.
Houve uma troca sugestiva de olhares entre os dois e pela milésima vez me perguntei o que eu estava deixando passar, mas decidi não tentar compreender nada daquilo no momento. A única coisa que eu quero no momento é que Rose abra os olhos, depois me preocuparei em esquartejar o responsável por tudo o que vinha acontecendo.
― Preciso ficar sozinha com ela.
A voz da Princesa me pareceu estranha e senti que algo estava errado mesmo com o enorme sorriso que ainda permanecia no rosto dela. Arqueei uma sobrancelha.
― Lissa... ― Orlov tentou discutir, mas calou-se diante do olhar duro dela.
― É só um momento, eu prometo. Podem esperar do lado de fora.
Orlov bufou e saiu irritado, eu me limitei a lançar um olhar desconfiado a ela e sair em silêncio.
― Ela acordou? ― Christian perguntou assim que me viu no corredor.
Balancei a cabeça negando, relances do momento da explosão voltando a minha mente.
― Por que a Vasilisa estava... daquele jeito? ― perguntei incerto quanto às palavras.
― Sei tanto quanto você... talvez um pouco mais ― Ozera riu sem humor ― A minha única certeza é que Lissa pode sentir Rose, sabe? Pela ligação. Lissa nunca me disse, mas tive certeza quando ela acordou hoje chamando por Rose. Foi estranho.
Franzi o cenho.
― Não deveria ser uma ligação de mão única?
― Deveria e tenho certeza que era, mas sinceramente? Não tenho certeza de nada desde a chegada dele ― Christian confessou indicando Orlov com a cabeça.
Comprimi os lábios em desagrado, lembrando-me da primeira vez que falei com Orlov, foi nossa primeira discussão também.
― Hey, conhece uma Dhampir chamada Rose Hathaway?
O sotaque me chamou atenção, era o mesmo que o meu, ainda assim o fitei com frieza, da mesma forma que olharia qualquer desconhecido que procurasse por Rose.
― Quem é você?
Meu tom deve ter sido um dos mais hostis que já usei, pois o olhar do homem endureceu imediatamente.
― Guardião Yuri Orlov, fui designado para a Guardiã Hathaway.
Olhei-o perplexo.
― Está me dizendo que vai ser Guardião de Rose?
― Exatamente.
Não consegui acreditar, Hans só poderia estar louco colocando um Guardião nos calcanhares de Rose. Até posso vê-la enfurecida, pronta para arrancar os órgãos de alguém.
― Acho que eu conheço você... ― Orlov disse de repente ― Deve ser Belikov, Dimitri Belikov, estou certo? O mentor que virou Strigoi e tentou fazer o mesmo com Rose.
Durante o resto da conversa eu só consegui pensar que não poderia matar ninguém, porque ainda estava em observação. Não escutei suas desculpas ou palavras soltas, nada mais me pareceu importante depois daquilo e em algum momento lhe dei as costas, deixando-o falando com as paredes.
Orlov passara uma péssima primeira impressão.
― Acha que ele pode ter uma culpa direta no que vem acontecendo? ― perguntei a Christian, fazendo-o franzir o cenho enquanto pensava.
― Tanta coisa está acontecendo Dimitri... é difícil imaginar que está tudo interligado. Mas com certeza ele está envolvido em algo.
Voltei a olhar a porta pálida do quarto onde Rose estava e suspirei. Queria entrar e ter uma conversa sincera com ela, perguntar o que estava acontecendo e pedir desculpas por tudo o que eu já tinha feito. Era desesperador se sentir cego e culpado ao mesmo tempo. Mas era claro que o perdão de Rose demoraria a chegar, assim como as respostas para o que estava acontecendo. A maior prova disso foi quando Rose finalmente acordou. Lissa abriu a porta ainda sorridente somente para deixar Orlov passar por ela praticamente correndo e voltar a fechá-la em seguida. Ozera bufou ao meu lado, mas havia chances dele receber explicações depois. Com certeza o mesmo não valia para mim e não voltei a insistir. Estava irritado demais para isso.
A semana passou lentamente e permaneci em silêncio. Não visitei Rose no hospital e não tentei contatar Lissa, nem mesmo puxei assunto com Christian, muito menos voltei a me aproximar de Orlov. E mesmo fora do hospital, só voltei a ver Rose em uma reunião com a Rainha.
Uma reunião completamente inesperada por um assunto que me incomodava.
Quando eu entrei a sala já não estava completamente vazia, Lissa estava sentada com Christian, completamente serena, o que me fez arquear uma sobrancelha, Rose estava em pé, opaca e inquieta ao lado de Orlov, claramente nervosa.
― Aproxime-se Guardião Belikov ― Rainha Tatiana pediu ― Isso não vai demorar.
Eu obedeci em silêncio e esperei enquanto ela observava cada um com irritante calma.
― Fui comunicada sobre uma viagem à Rússia e como não me oponho, precisamos acertar cada detalhe. Não podemos arriscar a segurança da Princesa que insiste em participar dessa aventura.
Lissa sorriu concordando e eu senti meu estômago revirando. Se pudesse ter alguma escolha, jamais voltaria a Baia, muito menos a Rússia. Só pesadelos me esperavam naquele ninho nada silencioso de Strigoi.
― Quando pretender ir?
― Imediatamente, se possível ― Lissa se adiantou energética, trocando um olhar significativo com Rose.
― Algo a acrescentar Hathaway? ― Rainha Tatiana questionou em tom incisivo.
― Não agora ― Rose respondeu sorrindo.
Então ela me fez o favor de trocar um olhar cumplice com Orlov e eu compreendi, pelo menos em parte. Era um plano, claro que era um plano, porque Rose não conseguia ficar longe de confusão por muito tempo e o tempo inconsciente no hospital parecia ser mais do que o suficiente para ela. Além disso, a única certeza que eu tinha é que se tratava de um assunto sério, um problema grande, porque tenho absoluta certeza de que Rose estava odiando a Rússia tanto quanto eu, provavelmente até mais. Ela não voltaria a colocar os pés naquele território arriscado tão rápido por algo menor que um grande problema.
Suspirei tentando ignorar minha frustação. Eu não consegui conversar com ela, ela não fazia esforço para conversar comigo e estávamos prestes a voltar para o lugar onde eu não só a usei como também a tranquei como uma prisioneira. Rússia parecia um poço de lembranças desagradáveis e culpa agora.
Começamos a traçar os planos básicos de segurança, discutindo pela moradia e transporte, logo eu teria a responsabilidade de planejar algo mais firme com os outros poucos Guardiões que nos acompanhariam, mas eu não conseguia me impedir de olhar para Rose a cada cinco minutos e lamentar tamanha motivação por uma viagem.
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