Spirit
11 Controle
Notas iniciais
Eu me remexi na cama com a mente ainda nublada pelo sono e pela dor. Tudo acima dos meus ombros latejava de dor. Não conseguia lembrar exatamente o dia atual, mas algo na minha cabeça queria que eu abrisse os olhos e me levantasse da cama. Como um alerta irritante. Era importante. Será que eu estava atrasada para a viagem? Ao menos arrumei minhas malas? Espera, a viagem era hoje?
Senti uma mão apertar minha cintura e um suspiro às minhas costas.
Imediatamente arregalei os olhos.
Oh não.
Com um salto levantei da cama e o encarei como se estivesse diante de um verdadeiro fantasma. Porque era isso que Dimitri era na minha vida.
E agora ele também me encarava com os olhos arregalados, como se não pudesse respirar, completamente nu na minha cama.
E tarde demais eu notei que também estava nua.
Mas que Inferno!
Rapidamente me aproximei da cama e peguei um dos lençóis, me afastando na mesma velocidade. Tentei fazer minha cabeça funcionar. O que inferno tinha acontecido? Como eu fui parar na cama com Dimitri Belikov?
― O... o que aconteceu? ― me atrevi a perguntei tentando não encará-lo.
Limpei a garganta nervosa quando ele me olhou com descrença. Revirei os olhos. Era obvio que eu sabia o que tinha acontecido. Nós passamos a noite juntos, transamos e merda, como isso era um problema. Mas eu não lembrava de muita coisa, como por exemplo, o que nos levou até ali.
― Não seja idiota, eu sei o que aconteceu ― falei irritada enquanto me abaixava para pegar minhas roupas que estavam jogadas no chão ― O que eu quero saber é como chegamos até aqui. Não lembro de nada sobre ontem.
― Nada? ― Dimitri franziu o cenho ― Droga, você estava pior do que imaginei. Pior do que eu.
― Dimitri, só me fala o que aconteceu.
Dimitri respirou fundo e se levantou, não se preocupando em esconder qualquer parte do corpo. Eu prendi a respiração e quase me virei para não ver nada, mas achei que era tarde demais para sentir vergonha, então apenas engoli em seco e tentei prender minha atenção em seu rosto, mas não exatamente em seus olhos.
― Teve uma festa, logo após a reunião com os Guardiões ― ele começou a se vestir ― Nada grande. A Princesa não quis tomar nada e decidiu se retirar mais cedo, mas insistiu que você ficasse e se divertisse. Em algum momento você e aquele seu amigo Orlov... começaram a discutir. Então logo depois ele saiu com uma garota e você veio falar comigo.
Ele parou, ajeitando o tradicional sobretudo sobre o corpo.
― E...? ― incentivei a continuar.
Ele deu de ombros.
― Nada ― continuou com indiferença ― Nós só bebemos demais, uma coisa levou a outra. Não devia ter acontecido.
― Sim... não devia ter acontecido.
A indiferença firme dele me surpreendeu. Okay, não estávamos bem e não conversamos, mas podíamos tentar agora, não podíamos? Nos esforçar para tentar entender os dois lados e-
A porta abriu de repente.
― Ah, eu sabia.
Fechei os olhos brevemente e deixei um resmungo escapar. Yuri entrou no quarto lentamente, seus olhos transbordavam irritação e estavam fixos em mim. Ele sabia o que tinha acontecido antes mesmo de abrir a porta.
Eu me encolhi contra a parede, abraçando a mim mesma. Ainda estava nua, coberta apenas pelo lençol, mas não estava constrangida pela imagem e sim pelo ato. Eu sabia que não podia me envolver com Dimitri agora, sabia que ia ser um problema a mais para dificultar minha concentração no real problema que estava na Rússia. Yuri também sabia disso.
― Orlov ― Dimitri interferiu receoso ― Acho que precisa se acalmar antes de conversar com Rose.
― Saia daqui, Belikov ― Yuri exigiu sem tirar os olhos de mim ― Acho que já fez demais.
― Você está fora de controle, não vou sair.
Yuri rosnou e finalmente olhou para Dimitri, aproximando-se mais do que eu achei seguro. Segurei seu braço e o impedi de continuar.
― Saia, Dimitri ― pedi tentando soar calma ― Vai ser o melhor pra todo mundo.
Dimitri me lançou um último olhar e saiu. Logo em seguida a porta se fechou com uma rajada de vento e aquela, provavelmente, era a primeira vez que eu via Yuri manipulando algum elemento.
― Nossa ― murmurei surpresa. Não parecia ser uma manipulação tão fraca como ele tinha dito.
― O que você tem na cabeça? Meu Deus, como pode se entregar tão facilmente a alguém que pisoteou o seu coração?! ― ele questionou sem se importar com minha reação. ― Eu disse pra ficar longe dele, pra evitar problemas. Nós temos questões bem maiores do que relacionamentos pra nos preocupar, Rose!
― Mas, até onde sei, eu não fui a única a me divertir noite passada ― tentei forçando um sorriso orgulho.
― Mas eu estou com pleno controle sobre meu Espirito, o que com certeza não pode ser dito sobre você.
Meu sorriso sumiu, tive que respirar fundo enquanto agarrava o lençol e me afastava da parede.
― Desculpa...Acredite em mim, Yuri... eu não queria que isso acontecesse, pelo menos não agora.
Yuri comprimiu os lábios e se afastou, ainda parecendo irritado. Eu também estava irritada, além de frustrada, mas apenas com o que tinha acontecido com Dimitri e sim com o todo. Não estaria naquela se situação se não houvesse tanta coisa nas minhas costas nesse exato momento. É demais e estou começando a pensar que é mais do que posso suportar.
― Arrume-se ― Yuri disse de repente, preparando-se para sair do quarto ― Viajamos em algumas horas e você precisa conversar com Dimitri antes de estarmos em solo russo.
Paralisei.
― Espera, o quê?
― Você não pode ter mais uma distração e se não se acertar com ele, vai tentar de afastar dele, depois vai ficar resmungando e se lamentando até a morte, pensando no motivo de ainda não ter falado com ele ou se seria rejeitada ou não ― ele disse com impaciência, como se estivesse falando o obvio pela segunda vez ― Portanto, vamos agilizar as coisas. Fale com Belikov e livre-se dessa distração.
Quando a porta se fechou novamente, só me restou olhar ao redor, para o quarto vazio e bagunçado. É claro que eu concordava com Yuri, sempre concordava, mas será que ele não entendia que o Dimitri sempre seria uma distração? Certo, quando brigamos a situação é mil vezes pior, mas como infernos eu resolveria isso sem jogá-lo no meu abismo de problemas?
***
Eu e Yuri entramos no refeitório lado a lado e agradeci mentalmente pelo lugar estar quase vazio. Não aguentava mais receber olhares femininos de ódio por causa do deus grego que tenho como irmão.
Na única mesa ocupada estava Christian, Mikhail, Dimitri e Lissa que sorriu na minha direção. Tentei sorrir de volta, mas tudo o que eu queria era sentar em uma mesa bem distante ou voltar para o meu quarto. Provavelmente era a primeira vez que eu estava fugindo – ou tentando fugir – desesperadamente de uma situação que com certeza não estava preparada para enfrentar. Na maioria das vezes eu me forço a seguir em frente, porque situações como aquela me perseguem por tempo demais e era muito mais prático enfrentá-la de uma vez. Mas hoje, especialmente hoje, sinto que sou capaz de cavar um túnel com minhas próprias mãos se fosse o necessário para sair dali. Também sinto que meu controle está beirando o abismo, pensando seriamente em se jogar e me abandonar.
― Não fuja, logo vai passar horas no mesmo avião que ele. Faça logo o que tem que fazer ― Yuri sussurrou no meu ouvido.
Ele estava falando de Dimitri, claro. Yuri estava com raiva por eu “ter me entregado tão facilmente a alguém que pisoteou meu coração”, mas também sabia que na situação atual a minha primeira decisão era me afasta do deus russo. Ironicamente era Yuri que tentava ferrar com esse plano de distância, achava que fugir era o pior que eu podia fazer.
Sinceramente eu não entendia meu irmão. Talvez ele fosse o homem mais racional que já encontrei em vida ou talvez só fosse um pouco impaciente demais, mas o que o faria ser tão insistente em fazer eu me reaproximar de Dimitri? Será que ele não podia ter um mínimo de confiança de que eu conseguiria lidar com isso sem me distrair de toda aquela história de Guardião do Espírito?
De qualquer forma eu me sentei na mesma mesa que Lissa, por causa de Yuri e por livre e espontânea insistência dele. Se tivessem me prendido a ele com algemas daria no mesmo. Olhei para a minha comida com desânimo e uma surpreendente falta de fome. Se estava nervosa? Claro, logo estaria na Rússia novamente — lar dos Strigoi e das minhas piores lembranças – e ainda havia Dimitri, sentado do outro lado da mesa preferindo olhar para uma sujeira na mesa a ter que olhar nos meus olhos.
― Problemas no paraíso? ― Christian questionou ― Vocês não costumam brigar muito.
― Estamos bem ― Yuri e eu respondemos de forma automática.
Era obvio que não estávamos bem, mas eu não podia dizer que na verdade Yuri estava com raiva por eu ter transado com o cara que ele odeia e que eu devia me importar com isso por sermos irmãos, depois explicar sobre todos os outros problemas
― Isso é por que vamos para a Rússia? ― Mikhail quis saber.
Eu o fuzilei, notando que Yuri já estava irritado o suficiente para não permanecer calado.
― Claro ― ele respondeu acidamente lançando um breve olhar furioso para Dimitri ― E por causa de alguns russos.
Todos os olhares foram para Dimitri e de volta para Yuri, completamente confusos. Porque, claro, o fato de eu ter que falar com Dimitri para resolver as coisas não significava que Yuri faria o mesmo, ou que sequer tentaria. Ambos ainda não se suportavam.
― Yuri por favor... ― alertei afastando a comida.
― O quê? Não posso ficar com raiva?
― Claro que pode, mas já pedi desculpas! Podemos manter isso entre nós?
― Isso por acaso é ciúmes? ― Dimitri perguntou absurdamente sério.
Senti a raiva de Yuri inflar consideravelmente.
― Dimitri fica na sua ― pedi sendo mais rápida.
― Só estou tentando entender.
― Entender o quê?
― O motivo de estar voltando para um lugar que odeia e essa... relação de vocês.
Paralisei. Dimitri não era estupido e durante essas semanas nunca ousei pensar o contrário. Mas sendo sincera nunca parei para pensar em como ele estava lidando com tudo, principalmente com minha relação com Yuri. Os boatos que se espalhavam diziam que eu e Yuri éramos namorados ou algo assim, nem tivemos o trabalho de negar. Não era uma situação agradável, claro, mas simplesmente decidimos que tínhamos problemas maiores no nosso caminho. Obviamente eu não parei para pensar só em Dimitri, afinal, ele me magoou, eu o magoei... achei que nada deveria ser dito, que explicações não eram mais obrigatórias entre nós.
E só agora comecei a achar que poderia estar errada.
Senti raiva, muita raiva. Não sabia se era por causa da escuridão do espirito ou só por cansaço, mas eu deixei fluir livremente. Dimitri não tinha o direito de estar com raiva, mesmo depois do aconteceu. Ele me veio com aquela história de “o amor acabou” e tratou nossa última noite como se fosse nada além de algo que nunca devia ter acontecido e não havia qualquer coisa que mostrasse uma reconciliação entre nós. Por que eu tinha que explicar alguma coisa?
― Eu já falei que odeio você, Belikov? ― Yuri anunciou, sua voz carregada de raiva.
― Não me importo com isso, Orlov ― Dimitri respondeu no mesmo tom ― Todos sabem que há algo acontecendo aqui e eu quero saber o que é. Quero saber no que está colocando Rose!
Os olhos de Yuri faiscaram com uma fúria contida, ele iria explodir a qualquer momento.
― Acho que devia melhorar esse tom comigo ou simplesmente ficar calado.
― Não tenho que obedecer a você.
― Mas devia ficar na sua, como Rose disse. Nada do que está acontecendo interessa a você.
― Rose ainda é minha-
Yuri bateu o punho na mesa com força, assustando a todos.
― Rose era sua aluna, era sua namorada ― devolveu entre dentes ― Era... passado. Hoje ela não é mais nada de você, Belikov. Você decidiu por isso, agora aguente as consequências e fique bem longe dela.
― Não é você que decide ― rebateu Dimitri cerrando os próprios punhos.
Foi a minha vez de bater na mesa.
― Será que vocês não podem ter uma conversa civilizada ao menos uma vez na vida? ― interrompi irritada.
Era algum tipo de brincadeira sem gosto? Quem eles pensavam que eram para falar assim de mim, como uma propriedade?
― Yuri, vamos arrumar as malas ― falei repentinamente me levantando.
― Mas eu ainda nem comi ― Yuri argumentou irritado.
― Yuri, vamos arrumar as malas agora.
Quando seus olhos arregalaram puder concluir que ele sentia, tanto quanto eu, a sensação crescente dentro de mim. A escuridão crescendo sutilmente e o controle se esvaindo, mas rápido do que o normal até. Geralmente eu conseguia controlar porque estava acostumada ao murro invisível que ganhava quando a escuridão surgia, porque ela não crescia em mim, eu simplesmente a roubava de Lissa. Mas aquilo... não, aquilo era diferente, era meu, era familiar e, apesar de mórbido e agoniante, eu não sabia se queria controlar. Eu deveria, não deveria? Por que eu deveria?
A resposta veio segundos depois, quando minhas mãos começaram a tremer. Era a raiva, pura e plena, que exigia o meu controle. Porque eu não podia machucar as pessoas ao meu redor. Jamais.
― Vamos ― Yuri levantou pegando minha mão ― Sei exatamente o que pode te relaxar.
E era exatamente o que estava fazendo naquele momento. Assim que ele segurou minha mão eu senti como se um peso tivesse sido retirado de cima do meu peito, então consegui respirar fundo e naturalmente voltei ao meu controle. Não precisou de muito para compreender o que havia acontecido, já que eu fazia um processo semelhante com Lissa. Só que Yuri não estava pegando toda a escuridão, estava apenas pegando uma parte, equilibrando a Guardiã dentro de mim, sendo exatamente o obstáculo necessário entre eu e a insanidade.
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