Spin-off Feelings

3 Um Homem Melhor


Notas iniciais
Neste capítulo, veremos a história da Feelings por um novo ponto de vista... Versão compactada, e com um "extra", cenas que não vimos no final da fic. Espero que gostem e nos vemos nas Notas Finais!

Os últimos meses tinham sido... Bem, diferentes. Inesperados. Sofridos. Quando minha família me condenou a voltar à Arendelle, a princípio pensei que fosse alguma piada, depois, quando me jogaram no navio, achei que era uma armadilha. O navio vai afundar, os desgraçados vão me matar e fazer parecer um acidente, pensei. Mas então, cheguei ao meu destino três dias depois, são e salvo, e pela primeira vez comecei a me perguntar se estavam falando sério. Dei umas boas gargalhadas pensando em terminar o serviço que eu deixara pela metade na última vez em que estivera ali, mas senti algo me atingir na nuca, olhei para trás e vi um homem parado, seu rosto muito sério.

– Do que está rindo, seu patife? Não voltou para cá pra ficar vadiando! Tome seu uniforme e comece a trabalhar! – ordenou o homem, me atirando um uniforme de guarda.

– Desculpe, – comecei. – Mas ninguém me disse nada sobre o que exatamente estou fazendo aqui.

– Você vai trabalhar aqui. E vai se comportar direitinho, se não quiser que eu lhe castigue! Aqui as coisas funcionam assim, Vossa Delicadeza.

– O que eu tenho que fazer, afinal? – perguntei irritado.

– Primeiro, vai colocar o uniforme. Depois, vamos começar o treinamento, e então começa o seu trabalho de verdade.

– Que é?

– Vigiar o reino. Vigiar o castelo. Vigiar a Rainha. Defender a todos com a sua vida.

– E por que eu faria isso?

– Porque é o seu dever, idiota! Você pensa que está tirando férias ou o quê?! Isso aqui é a sua punição por ter atentado contra Arendelle! Mas não se preocupe, quando terminar seu serviço aqui, terá aprendido uma ou duas coisas a respeito de caráter e comportamento. Garantimos que não vai voltar para o crime.

– Eu não sou um criminoso – afirmei.

– É mesmo? Que eu saiba, traição é crime – ele disse, num tom calmo e ao mesmo tempo assustador. – Punível de morte.

Engoli em seco. O homem sorriu.

– Agora, mexa-se! Não quero saber de moleza, você tem muito que aprender!

Pouco depois, descobri que o homem era o chefe da guarda. Eu tinha a intenção de acrescentar seu nome à “lista” de pessoas de quem me vingaria, mas depois de um tempo, acabei esquecendo a ideia. Quando revi Elsa, imaginei que ela fosse rir de mim, tripudiar, mandar me torturar ou executar. Mas não. Ela se assustou, primeiramente, depois mandou que me tirassem da sua vista. De algum modo, o chefe da guarda a convenceu a me integrar à guarda real. Algo no gesto de Elsa me impressionou. Eu esperava que ela aproveitasse a oportunidade para se vingar de mim, mas não fez isso. Se ela estava me dando uma segunda chance, ainda que involuntariamente, como eu podia querer matá-la? Aquilo mudou algo em mim. Senti como se Elsa tivesse lascado uma parte da grossa camada de gelo que cobria meu coração. Eu queria mudar. Queria melhorar. Por ela. Eu retribuiria a generosidade que ela tivera comigo. Eu seria um bom guarda, talvez até um amigo.

Mas não foi bem assim que aconteceu. Eu devia ter previsto que podia acabar me apaixonando por Elsa. E foi exatamente isso que aconteceu. Hans, Hans, olha no que você se meteu, dizia para mim mesmo, você é um condenado. Não é para Elsa. Mas eu não pude evitar. Certo, eu podia me apaixonar por Elsa, mas não podia fazê-la se apaixonar por mim. Como faria isso quando sou um criminoso e nunca poderia ficar com ela? Não, isso seria praticamente o mesmo que fiz com Anna. Eu nunca me perdoaria se a fizesse passar por isso. Ela merecia alguém melhor. Alguém que pudesse lhe dar um futuro sólido.

Mas parece que quando eu percebi isso já era tarde demais porque não importou eu ter me afastado de Elsa, ela não me permitiu partir. Ela já me amava. Senti uma felicidade que achava que era impossível de se sentir, e não pensei em coisa alguma além do meu amor quando pedi Elsa em casamento ali e naquele instante.

Parei de relembrar e voltei ao presente. Observava o sol se pondo no horizonte enquanto brincava distraidamente com o chapéu em minhas mãos. Usá-lo na cabeça o dia todo apertava e machucava, causando certa dor de cabeça ao final do dia. Mas ultimamente, minhas enxaquecas estavam mais fortes que o normal. Isso porque havia quatro semanas que eu andava ruminando a mesma ideia insistentemente, até cansar meu cérebro. Andava pensando em como as coisas seriam, agora que eu era o noivo da rainha. Às vezes, eu acreditava que tinha feito uma péssima escolha, que devia ter ido embora sem olhar para trás, embora isso fosse partir meu coração. Outras vezes, acreditava que tinha feito o certo, que eu merecia ser feliz e que poderia fazer Elsa feliz. Ainda havia as vezes em que eu ficava preocupado com o que ia ser de mim. E se eu não fosse um bom príncipe consorte? E se não fosse um bom marido? A perspectiva de fazer tudo errado me assustava muito. E, além disso, o que as pessoas achariam de mim? O que diriam quando soubessem que o marido da rainha era um traidor condenado? Ninguém ficaria do meu lado. Quando eu compartilhava minhas preocupações, Elsa dizia que eu estava exagerando e fazendo drama. Mas era mais que isso. Eu queria ser aceito. Não suportava a ideia de falhar novamente com Elsa.

Observei dos portões do castelo uma figura grande aproximar-se da entrada. Kristoff voltava contente das montanhas – o que ele fazia lá era um mistério para mim.

– Boa tarde, Hans. O que faz aí? – disse ele.

– Não tenho certeza – dei de ombros. – Deveria estar vigiando, mas tenho a impressão de que estou sendo de menos serventia que um espantalho.

– Ora, por quê?

– Meu corpo está aqui, mas minha mente está em outro lugar.

– Posso até imaginar no quê...

Suspirei.

– Kristoff, como... Como você lidou com a repentina vida de príncipe? – perguntei.

– Ah, acho que estou te entendendo... Bem, é claro que eu tive e ainda tenho minhas preocupações, mas eu sei que Anna me ama e que está aqui para me ajudar. E isso já basta para mim.

– Então...?

– O que os outros pensam não interessa – respondeu, decidido. – Anna é a única cuja opinião sobre mim me importa, e ela gosta de mim como sou. Então, vê se desencana, Hans. Acho que você é esperto o suficiente para não desapontar a Elsa.

Assenti, pensativo. Kristoff sorriu e continuou seguindo para o castelo. Ele tinha razão, afinal. A única opinião que me importava era a de Elsa, e eu não iria desapontá-la. Eu seria a pessoa que ela merecia ao seu lado. Eu me esforçaria.

– Hans! – chamou Elsa. – O que ainda está fazendo aí? Venha jantar conosco!

“Você é esperto o suficiente para não desapontar a Elsa”. Ela estava parada nas portas do castelo, sorrindo. Caminhei até ela rápida e decididamente, joguei o chapéu de guarda longe e a tomei em meus braços, beijando-a intensamente. Kristoff assoviou e acho que ouvi Anna dar uma espécie de gritinho esganiçado e alegre.

– O que foi isso? – perguntou ela, ruborizada.

– Só estava morrendo de saudades.

Ela sorriu.

– Vou me lembrar de passar mais tempo longe de você.

Retribuí o sorriso e ofereci meu braço a ela, entrando no salão principal. Eu podia me acostumar com isso.

Notas finais
Bem, acho que eu consegui tapar alguns buracos, afinal. Eu sempre quis escrever no ponto de vista do Hans, mas a oportunidade só chegou agora. Obrigada por ler. Bjs, comentem e até a próxima!