Spin-off Feelings

4 O Defensor Vitorioso?


Notas iniciais
Último spin-off. Prontos para matar as saudades de um certo personagem?

Era uma bela tarde de final de outono. Estava bastante frio do lado de fora, mas dentro do castelo, eu não precisava me preocupar com isso. Eu gostava do castelo. Era grande, sempre com algo de novo para ser descoberto, mas não vazio. Minha família e os funcionários do castelo estavam sempre transitando de lá pra cá, de modo que não havia como se sentir solitário nunca. Bem, às vezes isso incomodava. Tem vezes em que só o que você quer é um pouco de silêncio para ler um livro. No momento em que minha mãe adentrou meu quarto sem ser notada, eu lia um livro de Geografia e examinava vários mapas.

– Você sabe que dia é amanhã, Syver? – perguntou ela.

– Hum... Quinta-feira? – arrisquei distraído.

– Além disso.

– Não sei. É feriado?

– Querido, você não reparou em como os criados estão mais ocupados hoje? Trabalhando mais ainda do que normalmente...

– Não, não reparei, mãe... O que há afinal? – me virei para ela.

Ela colocou as mãos na cintura.

– Vamos, Syver, eu sei que você lembra.

Vasculhei minhas memórias por alguns segundos até compreender do que ela estava falando.

– A Condessa de Lillesand chega amanhã, não é?

– Exatamente – minha mãe sorriu.

Suspirei e voltei para os meus livros.

– O que foi, filho? Não está animado com a chegada da Condessa? – ela se aproximou, colocando as mãos em meus ombros.

– Não mesmo – confessei. – Não estou com um bom pressentimento, mãe. Sinto que a Condessa não vai gostar de mim, que algo vai dar errado...

– Ah, não diga bobagens! – disse ela, sorridente. – Vamos ser otimistas: Vai dar tudo certo. Além do mais, quem poderia não gostar de você, Syver? Você é tão encantador!

– Acho que só estou me preparando para o pior...

– Que pior, que nada! Vai dar tudo certo, você vai ver!

Minha mãe afagou carinhosamente meu cabelo e saiu. Olhei meu relógio de bolso; faltavam 10 minutos para a aula de equitação. Tecnicamente eu não precisava dessa aula, pois já era capacitado, mas eu gostava de sair do castelo um pouco, me distrair das tarefas de verdade e apenas cavalgar, fingindo que tinha liberdade. Às vezes, quando Louise me acompanhava, nós nos afastávamos do tutor mais do que deveríamos, e ele gritava desesperado, ordenando que voltássemos, ou ele perderia o emprego – e talvez até a cabeça.

Cavalgar era bom, mas se tornava melhor ainda se fosse em conjunto. Todavia, como eu tinha corretamente suposto, agora que Richard surgira, Louise passava cada vez mais tempo com ele. Eu não tinha nenhum problema com Richard, tirando o fato de eu achar que ele escondia alguma coisa de nós. Ele ia acabar contando quando se sentisse mais à vontade. Eu achava muito bom que Louise tivesse encontrado alguém adequado e que ela gostasse, porque eu sabia que ela queria muito compartilhar o amor com alguém, mas me entristecia saber que a veria cada vez menos, até que a perdesse de vez para o novo marido. Eu tinha ainda um irmão, uma irmã e um primo, mas nenhum deles gostava das mesmas coisas que eu. Daven passava a maior parte do tempo no quarto ou na biblioteca, lendo e estudando. Lynae, quando não estava flertando com algum guarda, estava de castigo. Nikolas até ganhara um cavalo de aniversário, mas ele ainda estava começando a aprender a montar no animal. Louise era a única que me entendia e gostava de quase todas as mesmas coisas que eu, e imaginar que o tempo nos afastaria era doloroso.

Enquanto eu divagava, os 10 minutos se passaram e eu já estava atrasado para a aula. Troquei as botas rapidamente e desci para os estábulos. Para a minha surpresa, Louise estava lá também, esperando ao lado do tutor.

– Até que um dia, príncipe Syver! Achei que tivesse desmaiado – disse o tutor, desgostoso.

– E por que eu teria desmaiado? – perguntei confuso.

– Ora, o senhor nunca se atrasa! Tem certeza de que está se sentindo bem, não é? Bom, vamos indo, pegue o seu cavalo. Aliás, vai ter que treiná-lo melhor, Alteza. Ele não atendeu a nenhum dos meus comandos.

– Foi exatamente para isso que eu o treinei. Kaptein só obedece a mim – respondi rindo.

Louise e eu montamos nos cavalos e partimos cavalgando, deixando o tutor enfurecido para trás.

– Vai dar uma última cavalgada com seu velho primo? – perguntei alto, para que ela me ouvisse.

– Por que última? – indagou no mesmo tom, rindo.

– Antes que o Richard me passe pra trás e você esqueça que eu existo.

Ela balançou a cabeça para os lados.

– Não seja idiota, eu não vou me esquecer de você!

– Ah, vai sim! Nem te vi ontem!

– Ah, Syver, eu só estava...

– Passando um tempo com o Richard, eu sei. Para conhecê-lo melhor... Mas é justamente isso que estou querendo dizer! Nós vamos acabar nos afastando, sei que vamos.

– Você diz cada coisa, Syv... Por que ao invés de ficar sofrendo por antecipação não aproveita um tempo de liberdade até que o Sr. Finnigan nos obrigue a voltar?

– Tudo bem. O último a chegar naquela árvore assume a culpa!

_____________

Enfim, chegara o dia do casamento. Em poucas semanas eu faria 20 anos, e então me casaria com a Condessa. Ela chegou à Arendelle alguns dias depois do aniversário de Nikolas. Na noite anterior à sua chegada, eu me revirava na cama, sem conseguir dormir. Estava nervoso, pensando em como ela seria, se iria gostar de mim, como eu deveria agir... Peguei qualquer livro da minha estante para ler e passar o tempo. Era um livro grosso de História, então eu teria muito para ler até cansar ou até o dia amanhecer. Devia estar lá pelo 5º capítulo quando caí no sono, cansado. Não sonhei nada, e acordei dolorido por ter dormido sentado.

– Lá vamos nós, Syver. É agora – disse para mim mesmo.

Tomei um banho e me vesti com a melhor roupa casual que tinha. Desci para o café da manhã e tentei comer o mais lentamente possível, mas o prato ficou vazio e eu não estava nem um pouco a fim de repetir. Vamos, Syver, do que você tem medo?, me perguntei.

– Uma hora você vai ter que ir, Syver, não adianta tentar fugir – disse Daven enquanto terminava seu desjejum e lia um livro.

Daven era meu irmão mais novo, gêmeo de Lynae, embora ele fosse moreno como nossa avó e Lynae fosse ruiva – uma sósia de nossa mãe.

Suspirei.

– Você está certo. Mas não sei se espero com nossos pais ou fico aqui e... – Fui interrompido.

– Alteza, o que ainda está fazendo aqui? Seus pais o aguardam no salão principal, a Condessa está para chegar – avisou Kai.

Meu coração acelerou.

– Estou indo, Kai. Obrigado por avisar.

Ele fez uma reverência e se retirou. Daven me olhou com uma cara de “Eu te disse” e apontou com a cabeça em direção às portas. Me levantei e arrumei a roupa, endireitei a postura e caminhei até o salão principal.

– Mas por que ele está demorando tanto? – perguntou meu pai, impaciente.

– Calma, Kristoff, ele já deve estar vindo – disse minha mãe.

– Bom dia, mãe, pai.

– Ah, aí está você, Syver!

– Até que um dia... Não estava pensando em desistir, estava?

– Não, pai, claro que não. – respondi, o que de certa forma era verdade. Desistir eu não desistiria. – Só estava... Inseguro.

– Isso passa, querido. Você vai se acostumar com a ideia, tenho certeza – minha mãe arrumou a lapela do meu casaco e sorriu, emocionada. – Syver, olha só pra você... Já está um homem feito.

– Graças a vocês – sorri timidamente.

Ela colocou as mãos no meu rosto e me deu um beijo na testa.

– Você é um filho tão bom, merece uma ótima esposa. Vai dar tudo certo, você vai ver.

– Ouçam – disse meu pai, de repente.

Ouvi cavalos trotando e relinchando e em seguida trompetes. Ela tinha chegado. Engoli em seco e respirei fundo, mantendo uma expressão séria. Kai se juntou a nós e logo as portas se abriram e um lacaio anunciou, com uma reverência:

– Sua Excelência, a Condessa Abigail de Lillesand.

Uma jovem pálida e loira, esguia, de rosto fino e maquilado adentrou o salão. Seus olhos azuis escuros examinavam o castelo todo com astúcia. Eles pararam em mim e ela andou lentamente na minha direção.

– Vossa Alteza Real, o Príncipe Syver de Arendelle – disse Kai em alto e bom som.

Abigail me fitou por alguns segundos sem falar nada, então eu comecei:

– Encantado, senhorita.

Ela estendeu a mão para mim, e eu achei que fosse me cumprimentar, mas logo percebi que era para beijá-la. Levei sua mão até meus lábios e beijei-a rapidamente. Ela puxou a mão de volta e finalmente disse:

– É um prazer finalmente conhecê-lo, Alteza.

Sorri gentilmente, mas ela não retribuiu. Ao invés, tocou meus cabelos e perguntou:

– Não estão um pouco compridos demais?

Instintivamente toquei meus cabelos também e respondi, um pouco sem graça:

– Ah, bem... Não sei, senhorita. O que acha?

– Acho que deve cortá-los. Estão muito... – ela gesticulou com uma mão. – Vulgares.

Senti que tinha levado um soco no estômago. Vulgar? Eu?

– Tenho certeza de que a condessa quis dizer que estão um pouco... rebeldes demais, filho. É uma boa ideia cortá-los – acudiu minha mãe.

– Sim, sim... Vou cortá-los, não se preocupe – assegurei, ainda um pouco atordoado.

– Ótimo. Ah, minha família mandou um presente de noivado. Alf! – ela chamou.

Outro lacaio se aproximou e entregou a mim um vaso laranja esquisito.

– Err... Obrigado. Vou guardar o... presente.

Subi as escadas e deixei o vaso em cima de uma mesa no meu quarto. Muito bem, acho que não começamos isso da melhor forma, mas temos tempo. Eu vou me adaptar, vou melhorar. Vai dar tudo certo, pensei.

Duas semanas se passaram e, para a minha agonia, Abigail se mostrava cada vez mais insuportável. Ela não gostava do reino, do castelo, das criadas, das roupas... Nem de mim. Bem, eu também não gostava dela. Estava cansado de tentar ser simpático e levar coices. Estava desistindo. Fui falar com meus pais, mas eles não quiseram me ouvir.

– Como é que é? – indagou meu pai, quando eu lhe disse que queria cancelar o casamento. – Eu entendi direito? Syver, nós temos um acordo, isso não é brincadeira!

– Eu sei, pai, e não me orgulho disso, mas não posso casar com a Condessa! Eu não a suporto, e tenho certeza de que ela também não gosta de mim! – protestei.

– Não seja inconsequente, filho! Case com a Condessa, pelo bem de Arendelle!

– Inconsequente? Pai, eu só quero ser feliz! Será que isso é tão errado assim?

Ele balançou a cabeça para os lados.

– Não acredito que esteja dizendo isso. Você sabe que uma vez assinado, o acordo não pode ser quebrado!

Chutei o ar, irritado.

– Maldito acordo! Pra que eu fui assinar?! – esbravejei.

– O que está feito está feito, e você vai casar com a Condessa!

Continuei a discussão até que todo mundo já estivesse assistindo. Segurei as lágrimas de raiva e revolta e subi para o meu quarto, furioso. Não costumo me irritar fácil, sou calmo e tranquilo, mas essa história de casamento realmente me aborreceu. Ao ver o horrível vaso de noivado, agarrei-o e joguei-o contra a parede. O objeto se estilhaçou e minha raiva se abrandou, mas não estava acabada por completo. Caminhei até a sacada e me debrucei sobre ela, admirando o reino.

– Arendelle, Arendelle... Eu achava que faria qualquer coisa por você... Mas não posso me casar com alguém que não amo. Lamento – baixei a cabeça e suspirei. – O que eu não daria pra ser livre...

Fui interrompido por batidas na porta, seguidas pela voz de Louise querendo falar comigo. Fiquei em silêncio, então ela entrou e se aproximou para conversar comigo. Estar com Louise era bom; ela sempre me animava, aconselhava e ajudava a colocar os pensamentos no lugar. E assim que ela me deixou sozinho, encarei uma nova opção na minha vida: Fugir.

Eu não cogitaria isso em outra hipótese. Amava minha família, jamais a abandonaria. Mas era preciso. Eu queria viver, ser feliz, e jamais conseguiria isso ali, vivendo com Abigail. Quem sabe eles não voltam atrás depois que eu for embora, pensei. Mas também havia a possibilidade de eles mandarem os guardas me procurarem, me prenderem, me castigarem... Sacudi a cabeça, afastando os pensamentos e decidindo agir.

Eu podia sair sem dar satisfações a ninguém, mas eu sentia que Louise merecia uma explicação. Ela não tinha culpa pelo que estava acontecendo, e eu tinha certeza de que ela ficaria muito triste com a minha partida, mas ficaria mais ainda se eu não me despedisse dela. Com esse pensamento, corri para procurar na gaveta da minha escrivaninha por papel e pena.

Fiquei uns 10 ou 15 minutos apenas pensando no que escrever, e então molhei a pena na tinta e comecei a carta com cautela. Suspirei longamente depois de terminá-la. Ficar longe da minha família era a única coisa que me incomodava nisso tudo. Bem, eles teriam que entender. Já passava da hora de eu me libertar.

Inclinei-me sobre a sacada e assoviei o mais alto que podia. Em poucos segundos, meu cavalo negro apareceu lá embaixo, relinchando, à procura do lugar de onde viera o assovio.

– Aqui, Kaptein! – disse eu, abanando as mãos no ar.

Precipitei-me sobre o parapeito da sacada, mas hesitei, temeroso. Uma queda daquela altura significaria graves danos, ou até minha morte. Aquilo teria que ser feito do jeito certo; só havia uma chance. Respirei fundo e subi no parapeito, flexionei os joelhos e pulei, caindo agachado no telhado e escorregando. Desequilibrei-me no final, mas por sorte cai em cima de Kaptein. Montei o cavalo e tomei fôlego, um pouco espantado.

– Muito bem. Vamos, garoto, corra. Pra bem longe daqui – dei uns tapinhas no lombo do animal e ele imediatamente começou a cavalgar.

Já não me importava mais o que os outros diriam. Se fugir era errado ou não. Se eu deveria voltar. Pelo menos por um tempo, eu seria apenas eu mesmo, sem nada para me oprimir ou controlar. A liberdade veio enfim para Syver Bjorgman.

Notas finais
* É provável que "Syver" tenha origem na palavra "syv", que significa "sete", por isso era um nome geralmente dado ao 7º filho numa família. Fim. Espero que tenham gostado e entendido melhor esses personagens "incompreendidos"! Bjs e até a próxima.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!