Spin-off Feelings

2 O Primeiro e Único


Notas iniciais
No último capítulo, esqueci de mencionar as idades dos personagens: No início do capítulo a Rainha tinha 18 anos, e Gardar tinha apenas 2. Na segunda parte, ela tinha 46, Gardar tinha 30 e Hans tinha 10. Leitores, é com grande orgulho e prazer que eu lhes apresento a história por trás de uma mente perturbada... Um verdadeiro coração congelado.

Outra criança na família. Mais um filho homem. Mais um ser para eu detestar.

Quando Hans nasceu, ninguém se importou muito. Era só mais um bebê, afinal. O que era mais um irmão quando eu já tinha tantos me importunando? Como eu era o mais velho, a culpa dos erros dos mais novos sempre recaía sobre mim. Eu aprendi a não errar no dia em que derrubei vinho na minha roupa na festa do meu 10º aniversário. Meu pai ficou tão furioso que me bateu com uma cinta até se acalmar, o que demorou bastante. Minha mãe estava cuidando dos mais novos, e por isso não notou quando saímos da festa. Mas o que mais me doeu não foi as cintadas, e sim o tapa que meu pai deu no rosto de minha mãe mais tarde, quando ela reclamou por ele ter me batido. Nunca mais eu erraria. Mas os meus irmãos não pareciam entender isso também, e erravam constantemente. Quando eles quebravam algo, diziam alguma besteira ou se atrasavam para algum compromisso, a culpa sempre era minha. “Está vendo, Gardar?! É por isso que deve tomar conta de seus irmãos!”, “Isso não teria acontecido se você estivesse vigiando o seu irmão!”, “A culpa é toda sua, e por isso você que vai ser castigado!” e outras coisas do tipo eram as acusações de meu pai. Quando ele entenderia que nem sempre eu podia controlar o que eles faziam? Nunca, pelo visto. Eu sempre respondia com um “Sim, pai” e baixava a cabeça, respeitoso e envergonhado. Mas nenhum dos 12 nunca causou tantos problemas quanto Hans, e o pior de tudo: Minha mãe o acobertava. Ela preferia defender ele a mim. Eu não podia aguentar mais isso. Queria vingança. Hans ia pagar por ter nascido. Todos iam se arrepender de ter errado. Um dia, todos iam servir a mim. Eu seria o rei deles.

E eu sentia que esse dia estava cada vez mais próximo.

Eu estava parado em frente ao espelho, observando as criadas darem os últimos pontos no meu traje. Após uma espetada de agulha particularmente dolorosa, gritei:

– Cuidado com a agulha, mulher idiota!

– L-lamento muito, Alteza. Não vai se repetir – gaguejou ela.

– Não gagueje na minha frente. Na verdade, nem fale comigo.

Ela engoliu em seco e assentiu com a cabeça. Sorri comigo mesmo. Para que querer amor quando se tem o temor? Eu queria ser temido, respeitado. Não amado. Por isso não concordei com todas aquelas baboseiras que minha mãe disse sobre eu encontrar uma pessoa especial que pudesse me fazer feliz e me ajudasse a tomar decisões importantes na minha vida. Poder me fazia feliz. Mandar e desmandar me fazia feliz. Ser da realeza me fazia feliz. Mas uma mulher? Eu duvidava muito. Me ajudar a tomar decisões? Eu não precisava de ajuda. Eu não queria ajuda. Muito menos para tomar decisões. Mas meus pais tinham razão numa coisa: Eu precisava de uma rainha para reinar ao meu lado. Precisava produzir um herdeiro. Meus pais sempre foram muito rigorosos em relação a isso, temendo que eu tivesse um bastardo como sucessor, mais ou menos o que Wilheim fizera ao engravidar a princesa de não-lembro-aonde e ser obrigado a se casar com ela com apenas 19 anos. Bem, eu não era estúpido como ele, e sabia muito bem que um príncipe bastardo era uma mancha que As Ilhas do Sul não podiam ter na sua reputação tradicional. Aliás, não entendia como Yran conseguia gostar de se vestir como plebeu e visitar o reino o tempo todo. E, pelo o que eu tinha ouvido falar, estava até namorando uma camponesa. E se ele casasse com ela? Uma princesa camponesa? Isso não soava nem um pouco adequado. Camponesas nasceram para serem camponesas, e não princesas. Ela nunca teria o sangue azul, a nobreza ou os modos de alguém como nós.

Ouvi alguém abrir a porta do quarto e me virei para ver Vegard de braços cruzados, me esquadrinhando com aqueles olhos de águia. De todos os outros 12 idiotas, Vegard era o único que parecia ter algo a ver comigo ou com nosso pai. Ele era ambicioso, sagaz e discreto. Às vezes eu nem percebia quando ele se aproximava de nós. No entanto, ele não tinha coragem para agir, ficava apenas observando e invejando tudo do seu canto. Se ele tinha se dado ao trabalho de vir até mim, só podia ser para debochar e rir na minha cara.

– Ah, é você... – comentei apenas, mantendo uma expressão entediada.

– Quem mais poderia ser, Gardar? Quem mais viria aqui pra ver você antes de se casar? Ninguém, é claro, porque estão todos rindo às suas custas. O mundo dá voltas, não é? Você se casando... Eu jurava que era mais fácil Napoleão levantar do túmulo – debochou ele, com um sorriso de escárnio.

– Vá arrumar outro pra incomodar, Vegard. Caso não tenha notado, eu estou ocupado.

– Estou vendo... Bem, só vim dar um recado.

– E qual seria? – perguntei, desinteressado.

– A sua futura esposa vai lhe dar uma enteada de presente.

Olhei fixamente para Vegard por alguns segundos. Não podia ser verdade.

– Você está blefando.

Ele sacudiu a cabeça.

– Não estou. Você sabe que ela é viúva.

– Sei, mas... – titubeei por um instante, sem saber ao certo como reagir. – Quando pretendiam me contar?

– Não pretendiam. Você ia descobrir por si só. Achei melhor lhe avisar porque assim você teria a opção de desistir.

Fiz uma carranca.

– Já entendi tudo. Você quer que eu desista de casar porque acha que talvez assim haja uma chance de eu não ser coroado. Então você convenceria Triwar a renunciar, passaria a perna em Henktris e ficaria com o trono. Não seja tolo, eu não vou desistir do casamento. Talvez eu até arrume uma finalidade para essa mulher.

– Como quiser – disse ele, sorrindo como um lobo. – Já que está tão decidido a ser rei, faça o favor de ser bom no seu ofício. É claro que estou certo da sua incompetência, mas pelo menos tente. Assim não vai cair tão mal pra sua reputação quando renunciar.

– Ah, vá embora daqui, diabo! – esbravejei.

Vegard riu e saiu calmamente. Se todos os outros fossem como Vegard, aí eu teria com o que me preocupar, pensei. Felizmente, eles não eram. As criadas finalmente anunciaram que tinham terminado o trabalho nas vestes e saíram. Desci do banquinho em que estava e observei meu reflexo no espelho.

– Um príncipe como eu merecia roupas melhores – resmunguei.

Ajeitei o casaco e a gravata uma última vez e suspirei. Será que era verdade? Eu ia ganhar uma enteada? E se ela fosse uma criancinha chata? Eu detestava crianças. Se eu fosse mesmo ter um filho, eu o criaria a minha imagem e semelhança. Não seria um pivete baderneiro. Desviei meu pensamento para a noiva. E se ela fosse uma velhota feia? Eu certamente não era mais tão jovem e belo, mas daí a casar com uma velha acabada era demais. Sacudi a cabeça e afastei os pensamentos negativos. Era hora de ir.

Na igreja, eu já começava a bater o pé no chão, impaciente, quando a noiva chegou. Não era uma velha, afinal. Aparentava ter uns 35 anos, tinha um corpo esbelto e esguio e a pele quase pálida de tão branca, enquanto que o cabelo era negro. Usava um vestido bege simples. Ao menos não é velha ou feia, pensei. Talvez eu tenha dado sorte.

Após o rito nupcial, conheci a minha esposa durante o baile de casamento. Só o que eu sabia sobre ela até agora era que seu nome era Lydia e que tinha uma filha do primeiro casamento de cinco anos de idade. Enquanto eu dançava a valsa com ela, tentava descobrir mais sobre sua vida, mas ela parecia insegura. Perdi a paciência e perguntei como seu ex-marido tinha falecido. Ela ruborizou no mesmo instante e não soube responder. Sorri.

– Você o matou, não foi? – indaguei.

– Eu... Eu... É uma acusação muito grave! Como ousa perguntar isso? – disse ela, tentando parecer brava.

– Esqueça a encenação, eu já entendi tudo. Você o matou, sim. Por quê? – Ela hesitou e eu insisti. – Pode confiar em mim, é a sua única alternativa, mesmo.

– Não conte para ninguém – pediu ela. – Sim, eu o matei. Ele era velho e doente, então eu simplesmente coloquei veneno no seu chá matinal. Ninguém desconfiou. Depois da sua morte, fiquei livre para achar um marido melhor e mais jovem.

– Não contarei. Mas você não vai tentar me matar, vai? Porque aí teremos problemas.

– Não vou, senhor, eu juro! Só... Não bata em mim, por favor.

– Se você se comportar e fizer tudo direito, não vejo por que eu deva bater em você.

– Muito obrigada – agradeceu Lydia. – Eu serei uma boa esposa, prometo.

– Ótima notícia.

É, ela ia servir para os meus propósitos. O que eu precisava era de uma aliada, e Lydia serviria perfeitamente para isso. Eu iria executar meu plano, e todos iriam me idolatrar. Eu receberia a veneração que merecia, as pessoas me obedeceriam e logo tudo seria do modo que eu desejava que fosse. Era assim que deveria ser.

Notas finais
* Neste capítulo Gardar tem 38 anos. 7 anos antes de ser coroado. Ninguém nasce mau. Escrevi este capítulo para mostrar o lado do vilão, o porquê de ele ter feito o que fez. No fundo, eu tenho pena do Gardar, porque ele é só um homem perturbado, invejoso e com um coração que nunca foi descongelado. Agora é tarde demais. Bem, bjs, comentem e até a próxima!