Space Dementia
4 Capítulo 4
Notas iniciais
— Agora eu entendo porque minha mãe dizia que crianças que riem durante a homilia do padre vão para o inferno. – Máscara cuspiu no chão. Andava a frente do grupo, era o “batedor” e ele odiava a selva.
Sendo criado em uma cidade de concreto sem nenhum verde não era surpresa que ele não gostasse. O grupo marchava para dento da mata há algumas horas e apesar dos protestos de tédio de Ikky e Aldebaram, Camus estava verdadeiramente feliz por nada ter acontecido. Com sorte eles achariam o jato e fariam o resgate sem precisar de incidentes.
Mas sorte era o que eles não tinham.
— Mantenham a formação e evitem o barulho. – o Chefe disse no rádio, quase um sussurro e logo Camus soube do motivo. Nos visores havia indicação de movimento mais há frente, pela avaliação do equipamento eram mutações, muito pequenas para Classe C, mas era bom não arriscar.
Ele fez um gesto e o grupo se espalhou ainda mantendo a formação em “V”, Ikky e Aldebaram como ponta. Eram os mais rápidos e letais, Camus, Shaka e Saga no meio com Hyoga, Afrodite e o general na ponta do “V”. Era uma formação que serviria tanto para ataque quanto para dispersão se fossemos atacados.
— O jato está há 30 minutos ao leste de você Ikky, nós vamos inverter a formação com Shaka, Camus e Saga para essa ponta. Saga você precisa chegar ao jato, Shaka e Camus vão lhe dar cobertura. Nós ficaremos aqui se o ataque acontecer, caso não todos vamos para o jato. – O general deu as ordens e os soldados começaram a se mover silenciosamente. Para o Camus Saga e Shaka não era difícil porque estavam acostumados a florestas. Saga e Camus foram criados em lugares como aqueles, Shaka vinha da antiga índia e estava acostumado a lugares assim.
O calor era enorme apesar da cobertura das arvores, o uniforme estava grudado na pele de Camus que tentou limpar o visor com a luva e ajudou um pouco. Viu Shaka e Saga se movimentarem e tomou a frente, ficando na ponta em que Ikky estava e depois se separaram dos outros, correndo o máximo que a exigência de discrição permitia. As mutações perceberam a movimentação e correram também, o Chefe gritou e os disparos começaram. Camus e Shaka correram juntos com Saga à frente, usando o campo de visualização no visor, a espera de algum ataque. Mesmo com o visor eletrônico, Camus foi surpreendido por um ataque vindo do alto. A coisa caiu em cima dele acabou rolando pelo declive à frente, engalfinhado com a coisa na tentativa de um matar o outro.
Era uma espécie de gorila, mas não era totalmente um gorila. Ele era mais delgado, mais inteligente também e duas vezes mais forte. E o mais legal: Eles comem carne humana.
Quando chegaram ao fim do declive, a queda os afastou e Camus aproveitou para sacar sua pistola do coldre já que a metralhadora ficara no meio do caminho. Ouviu alguns disparos ao longe, parecia um bando bem grande dessas bestinhas. Esperou que ele se lançasse no ar para atirar e descarregou a pistola nele. Uma vantagem dos novos tempos é que as armas eram bem mais letais do que na antiga Terra.
— Você está bem?! – Parker surgiu com Saga logo atrás – Há muitos deles!
— Nós o vimos cair. – Saga se aproximou – Você quebrou alguma coisa?
— Estou bem. – Camus percebeu que o grego estava coberto de sangue – Você está bem?
— Eu tive que explodi-lo. – os três se olharam e riram. – Veja a calda do jato, nós precisamos ir.
Antes de seguir Camus subiu rapidamente o declive para procurar a metralhadora. Antes de descer pode ver o Chefe e os outros.
— Vamos esperar os outros, eles já estão a caminho. – disse.
— Melhor não Camus, se o Chefe nos acha aqui ele vai ser pior que esses macacos-monstros. – Shaka ajeitou o coldre e o seu visor – Nós vamos seguir, eles vão nos alcançar.
Continuaram usando a calda do jato como referência, sempre atentos a qualquer movimentação. Logo puderam ver pelos diagramas no visor que o Chefe e os outros estavam atrás, mas eles não deram avisos sobre a chegada deles. Silêncio, só o barulho da mata para evitar mais incidentes. Mas isso provavelmente não ajudaria muito porque o cheiro de sangue logo se espalharia e as mutações têm um olfato apurado. É provável que eles tivessem companhia em breve.
Alcançaram o jato. Estava partido ao meio, sinal de que a aterrissagem não foi das melhores. Jato do Governo, tecnologia de ponta, movido à energia nuclear. O piloto devia ser muito bom mesmo para conseguir pousar no meio da mata sem explodir, Saga comentou de passagem.
— Com um bando de macacos assassinos como alguém pode conseguir sobreviver? – Shaka perguntou desgostoso. Era mais do que óbvio que os sobreviventes não se tratavam de seres humanos normais.
O Chefe fez sinal para que eles inspecionassem a nave e Ikky, Máscara e Afrodite foram por um lado, Camus, Hyoga e Aldebaram pelo outro. Não havia vida aparentemente por lá, mas eles precisavam ter certeza. Alguém enviara o sinal de resgate, então alguém tinha que estar vivo. Camus seguiu pela lateral de metralhadora em punho, olhando tudo e confiando que o visualizador para indicar a movimentação de mutações. Fez sinal para Hyoga lhe dar cobertura e entrou no jato partido. Tudo estava uma confusão dentro, pedaços de fuselagem, poltronas e cabos retorcidos por toda a parte. Andou um pouco sozinho até ouvir alguém atrás de si e ver Ikky e Milo se aproximarem. Acionaram as luzes nas metralhadoras e continuaram a andar pelo jato enorme. Era grande demais para passageiros e parecia mais um jato de transporte médico do que um jato comum.
Um barulho chamou a atenção e os três soldados focaram as luzes na direção, mas ainda estava muito escuro para ver. Ikky estava prestes a chamar quando o Chefe fez sinal para que ele se calasse, pararam e ficaram a escuta, as armas em punho a espera até que o barulho aumentou e Camus pode distingui-lo. Eram passos arrastados, estavam andando a esmo embora não tivesse como ter certeza. Camus ergueu a luz até onde achava que eles vinham e quando conseguiu focar a luz começou a tremer.
Não eram os gorilas que encontramos lá fora, era pior. Parecia algo como um morto vivo com unhas e pés enormes, eram quatro e estavam na parte da enfermaria do avião, onde havia cinco capsulas de criogenia no chão. Tentava partir o vidro sem sucesso, Camus paralisou de pavor se lembrando da infância quando muito jovem viu seres como aqueles invadir sua casa depois de uma enorme explosão e assassinar seus pais adotivos. Estava tão apavorado que não conseguia sair do lugar e foi o chefe quem lhe deu um puxão e o jogou contra a parede, Camus ia começar a se debater e gritar, mas Milo tapou sua boca com a própria mão, olhando bem fundo nos olhos arregalados. Ikky havia voltado tão rápido e silencioso quanto conseguiu para chamar reforço ou ver se os outros não estavam mortos lá fora.
Camus fechou os olhos, mas as imagens da infância insistiam em surgir nas suas retinas e ele respirou fundo tentando se acalmar. Milo não se afastou dele pelo contrário, mantendo seus corpos quase grudados naquele espaço mínimo de fuselagem talvez na esperança de escondê-los. A respiração acelerada de Camus parecia ensurdecedora até para si, imaginava o que seria para as criaturas mais a frente. O general ainda mantinha a boca do outro firmemente fechada com a sua mão e mesmo a contragosto o francês era grato por isso ou a qualquer momento achava que poderia sair de lá aos berros.
Eram aliens que estavam ali, um grupo pequeno, mas eram o suficiente para lhe tirar totalmente do controle. “Merda! Eu sempre soube que ia enfrentar todo tipo de coisa quando entrasse na divisão de intervenção, eu estava me preparando para isso. Então porque o descontrole?” Camus se indagava furioso.
— Tente respirar fundo. – ele murmurou tão baixo que Camus teve que se esforçar para ouvir, mesmo aquela voz tão grave – Foque na minha voz, você precisa controlar o pânico. Não deixe que ele o domine Camus, foque na minha voz e relaxe. – ele falava próximo ao seu ouvido, estavam tão próximos naquela fresta estreita – Vamos ruivo você consegue.
A voz dele era como um mantra entrando pela mente de Camus, aplacando o medo e causando um efeito relaxante. Apesar do aperto firme em sua boca e no seu corpo, ele conseguia passar uma sensação de proteção que era estranha e ao mesmo tempo confortadora a Camus.
— Vou soltar você agora tudo bem? – ele o olhava atencioso – Devagar... Eu vou te soltar e nós vamos sair daqui e ir até as capsulas, os sobreviventes estão lá e nós precisamos despertá-los. – Camus assentiu e ele tirou a mão da sua boca lentamente – Isso significa matar os aliens.
Camus mordeu o lábio e Milo se viu preso naquele gesto simples e ainda sim excitante sem perceber a hesitação do ruivo que ainda que passado o pânico achasse a perspectiva de ter que enfrentar os Aliens nada animadora. O chefe ainda olhava atentamente para Camus esperando algum ataque ou coisa parecida, apesar de ter libertado a sua boca ele ainda mantinha o tenente firmemente preso entre ele e a parede.
— Você pode me soltar agora, eu não vou surtar. – Camus disse baixinho ainda preso naquele olhar fulminante. Milo pareceu despertar e foi afrouxando o aperto e eles se separam, bem na hora em que o resto da equipe apareceu e os Aliens notaram a presença e então o módulo soldado entrou em ação e eles começaram a lutar.
Camus sacou sua metralhadora e começou a atirar, afastando o General e aproveitando a cobertura de Ikky e Máscara. Metralhadoras de feixes são mais eficientes contra aliens que balas, então rapidamente conseguiram abater os Aliens. Camus estava decepcionado consigo mesmo, havia ficado quase histérico por pouca coisa! Eles nem eram aliens de verdade, apenas uma mutação do DNA alienígena com o DNA humano, eram comuns depois da invasão na Primeira catástrofe.
— Oh yeah! Acho que já ficamos aqui o suficiente não Chefe? –Máscara falou – Encontramos mais mutações lá fora, não vamos conseguir sair daqui fácil.
— Achamos o jato, achamos os sobreviventes e agora podemos ir embora.
— Achamos os sobreviventes? – o subtenente Saga olhou para ele com dúvida. O General foi até as capsulas na enfermaria e depois de limpar o visor olhou dentro de cada uma delas – Saga e Ikky aqui eu vou destravar as capsulas. O resto vasculhe o jato para saber se estamos livres de problemas, todo mundo se comunicando pelo rádio, nada de heroísmo! Vamos ter que ficar aqui algumas horas até que possamos seguir com as vitimas.
— Você sabia que eles estavam em criogenia? – Saga perguntou para o General.
— Foi uma medida de sobrevivência. – o Chefe digitou no painel embutido nas capsulas alguns números e elas começaram a destravar – Isso é medida de emergência quando oficiais são pegos por inimigos ou acontecem acidentes assim oficial Parker.
— Mas eu pensei...
— Agora vocês precisam ficar de vigia enquanto eu e Saga vamos ajudá-los a despertar. Sono de quarenta horas. Não devem estar tão desorientados.
— Os níveis vitais estão excelentes! – o soldado deu lugar ao médico Saga Papadopoulos e ele começou a trabalhar. Camus, Afrodite e Shaka se afastaram mais um pouco, Parker ainda parecia contrariado, mordia a bochecha e tinha a expressão carregada.
— Se não são híbridos porque então nos arriscar tanto para salvá-los? Quem são eles? – ele perguntou baixinho.
— Não sei talvez... – pela visão periférica Camus viu alguém sair da primeira capsula e então teve seu ataque de pânico que o bom General teve tanto trabalho em evitar.
***
Quando Camus abriu os olhos estava no canto da enfermaria do avião, enroscado no saco de dormir e Saga estava próximo remexendo na sua mochila.
— Onde estão todos? – perguntou com a voz rouca, se levantando e o médico veio até ele – Ikky e Ângelo estão lá fora vigiando, os outros estão vasculhando o jato. – ele mediu seu pulso, tomou temperatura e depois o olhou bem nos olhos – Você está bem? Desculpe, mas nós precisamos apagar você.
— Eu sou um completo desastre! – murmurou Camus – Essa merda de lugar tá acabando comigo! Droga minha primeira missão e estou surtando desse jeito... – Saga viera sentar ao seu lado o olhar penalizado dele deixou Camus ainda mais furioso consigo mesmo – Tive um ataque quando vi os aliens, se não fosse o General...
— O nome dele é Milo, por que você não o chama assim?
— Por que ele é um general! – Camus puxou a franja vermelha com irritação, Saga revirou os olhos – Que vergonha! Eu poderia morrer agora, ele deve estar me achando um estúpido... Vocês todos! Eu não sei o que me deu juro que eu pensei que era meu ir...
Os outros estavam voltando com algumas coisas, malas metálicas e havia duas pessoas a mais ali. Um era um soldado que usava um uniforme igual aos outros...
Camus poderia reconhecer aquele rosto em qualquer lugar, em qualquer vida.
Estava tudo lá. O rosto afilado com a boca de lábios delicados que poderia se abrir num sorriso imenso e cheio de calor, os olhos enormes e violáceos, que eram tão lindos quanto exóticos. O cabelo preto estava comprido, e o ruivo se lembrou de quando era uma criança e ficava no colo dele enroscando os dedos em uma mecha até adormecer. A voz era grave e baixa agora, mas ainda tão doce quanto ainda se lembrava.
Como se o olhar de Camus o chamasse Dégel se virou para onde o francês estava, e o segundo se sentiu enfraquecer também. Aqueles mesmos olhos castanhos até a luz do sol incidir neles e avermelhá-los, os cabelos rubros daquele jeito incomum. Fazia tanto tempo...
Era um reencontro de treze anos, mas apesar da alegria de finalmente se descobrirem vivos, havia agora uma barreira formada pelos anos de distancia e pela vida dura que cada um teve. Ambos agora eram receosos com sentimentos, preferindo-os sufocá-los ao invés de expor, principalmente para Camus que achava que sentir era sinônimo de fraqueza. Dégel por outro lado, era mais receptivo e foi ele quem deu o primeiro passo indo até o irmão com as mãos levemente tremulas.
— Camus? – a voz traiu a emoção e saiu levemente embargada.
— Dégel. – a voz de Camus era apenas um sussurro dolorido
— Vamos lá abrace ele por deus! – exclamou Milo de repente impaciente pela inatividade dos outros dois!
— Me perdoem. – Dégel disse gentilmente ainda desnorteado e Camus se levantou rapidamente um tanto corado – Nós podemos... Eu queria...
— Claro Dégel. – o general bateu no ombro dele afável e depois falou para todos – Vamos guardar tudo, Hyoga emitiu um pedido de resgate para a nossa base, nós precisamos de ajuda para levar tudo isso daqui. Camus assim que estiver tudo resolvido eu preciso que você se junte a nós para as próximas diretrizes tudo bem?
Camus assentiu e Milo e Aldebaram foi se juntar a Afrodite e Saga no canto da enfermaria. Dégel e Camus foram para a rachadura no avião, era longe o suficiente sem estar totalmente desprotegidos.
Um segundo de hesitação e enfim um abraço apertado.
— Eu nunca pensei... Achava que você estava morto!
— Eu também! Tentei tanto encontrar você. – Dégel segurou seu rosto entre as mãos os orbes violáceos vasculhando a expressão temerosa do outro – Eu pensei... Todos os dias eu me lembrava de você e prometia que ia encontrá-lo... Eu nunca imaginei que você tinha ido parar nas Forças especiais. Por quê?
— Eu nunca soube, eu só tinha treze anos. – Camus se soltou do irmão – Depois que levaram você eu fiquei sozinho e fui para o abrigo até ir para a divisão de treinamento. Por que levaram você? Você descobriu?
Dégel desviou o olhar e se afastou ele parecia esconder algo muito grave e só então Camus prestou atenção no irmão mais velho. Apesar das horas adormecido ele parecia muito bem, diferente de um soldado ou algo parecido “ele não está nas forças especiais” concluiu, estava cuidado demais para alguém que tivesse na guerra. “Não caro irmão, você não está na Guerra”, pensou analítico.
— É muito complicado... Se nós conseguirmos sair vivos daqui eu conto tudo a você. – ele se voltou para o ruivo novamente – Por agora, basta que você saiba que eu estou muito bem e que vou dar um jeito de tirar você das forças especiais... Posso fazer isso.
— Eu não quero sair! – Camus disse entredentes, com um olhar frio – Eu quis quando tinha treze anos, não agora depois de todo esse sofrimento e luta para me tornar o que eu sou. Tarde demais... Você é do governo agora? É isso? – o que provavelmente era verdade. Foram ali para resgatar alguém importante e se Dégel estava no avião...
— Mais ou menos... Não posso contar muita coisa a você agora.
Camus o olhou detidamente, tentando ver na sua expressão algo que indicasse o porquê de todo aquele mistério, mas não havia nada ali na expressão serena. “Você é muito bom em esconder o jogo” outra observação. Dégel sentiu os olhos perscrutadores do irmão, mas nada disse. Seria melhor que Camus não soubesse de nada por enquanto. Sua mente ágil e inteligente já pensava em um modo de contornar aquilo sem que o Patriarca soubesse que seu irmão estava vivo.
— Vamos voltar. – Camus se afastou sem fitá-lo – Eu estou no meio de uma missão aqui. O General não vai gostar se me demorar muito.
— Milo? – Camus se virou enfim para fitar Dégel com uma sobrancelha arqueada. Então ele conhecia o chefe da divisão de intervenção o suficiente para chamá-lo pelo primeiro nome? – É muita coincidência ele estar aqui também... Incrível como tudo está acontecendo.
— Você o conhece? – perguntou enfim enquanto retornavam para o avião
— Ele é irmão do meu melhor amigo, confiaria minha vida a ele... E fico aliviado que ele é seu chefe por aqui, a Divisão de intervenção é terrível.
— Todas as divisões das Forças especiais são Dégel, a Intervenção é uma “mãe” se você conhecesse a divisão de treinamento. – deu de ombros – Mas o Chefe... – hesitou ao falar de Milo e Dégel percebeu – É um cara legal.
— Por que você não o chama de Milo? Todo mundo parece chamá-lo assim e ele não vê problema nenhum nisso.
— Não consigo. Na minha divisão chamei meu oficial pelo nome uma vez e quase fiquei sem os dentes. – Camus fitou Milo que falava com os outros enquanto fitava o fogo. Camus sabia que nada aconteceria se ele o tratasse pelo nome, ele não era assim. Depois de todo o esforço e gentileza que demonstrou... Mas tratar as pessoas pelo primeiro nome era uma boa forma de mantê-las afastadas também.
— Mon ange, você não deveria ter sofrido todas essas coisas. – Dégel pousou sua mão no ombro de Camus com pesar, lamentando o fato de ele ter tido mais sorte que o irmão. Ele era tão jovem, tão pequeno!
— Se culpar agora não vai ajudar. – Camus se afastou para se juntar aos outros
— Tudo bem tenente? – Milo o olhou e Camus assentiu – Ótimo, vamos lá para fora render Ikky e Ângelo – e ele se levantou num gesto gracioso.
— Mas... Milo, ele acabou...
— Sinto muito Dégel. – ele bateu no ombro dele de leve – Mas sou eu que controlo a minha equipe. Nós somos a equipe de resgate que veio tirar vocês daqui então deixe de se comportar como o braço direito do Patriarca e me escute sem questionar, quando você voltar para a Capital você pode dar as ordens que quiser.
Milo não usava o tom de comando, mas a firmeza era inquestionável. Camus guardou a informação sobre o “braço direito do Patriarca” num lugar da mente para analisá-la depois. Afinal explicava muita coisa e sem dizer nada foi pegar seu equipamento para passar a noite lá fora. Em sua opinião era mais do que justo já que estava descansado e bem depois de ter sido “apagado” para conter seu ataque de estresse.
Ângelo e Ikky ficaram satisfeitos em trocar a guarda, trocar o frio da floresta que anoitecia com o calor aconchegante do fogo dentro do avião. Camus foi se acomodar na raiz de uma arvore onde tinha ao mesmo tempo uma boa visão do jato e uma boa cobertura para se esconder. Milo se juntou a ele um tempo depois, o espaço era pequeno, mas os acomodou.
— Você está borbulhando de perguntas. – ele observou depois de um tempo em silêncio – Pode perguntar o que quiser, vou tentar responder.
— Vo... O senhor sabia que...
— Primeiro: Pare de me chamar de senhor, me faz parecer ter oitenta anos e eu tenho cara de ter oitenta anos? – Milo o fitou com um olhar zombeteiro – Segundo: Eu não sabia que você era a irmão de Dégel até seis horas atrás. Foi uma surpresa vê-lo se desfazer em lágrimas em cima de você desmaiado no chão, eu sabia da existência desse irmão, ele me falou tudo sobre... Como você foi adotado pela mãe dele e como ele amava você... E como vocês foram separados.
Camus mordeu o canto da boca e continuou com os olhos na floresta, não se sentindo confortável com o fato de o Chefe saber sobre o seu passado embora até poucas horas atrás não soubesse quem ele realmente era. Isso era muito confuso e constrangedor também que ele soubesse de tudo.
— Como você conhece Dégel? Você sabia que ele estava aqui?
— Sabia. – Milo mordeu o lábio. Depois de Mascara falar a respeito do filho do Patriarca no jato ele juntou as peças e sabia que o amigo estava no avião – Por isso fiz questão de vir ou Kárdia jamais me perdoaria! Eu não poderia deixar o príncipe de gelo dele no meio da floresta.
— Príncipe... Do que você está falando chefe?! – Camus se remexeu no espaço apertado e a perna tocou a de Milo de leve – Quem é Kárdia? Por acaso é o melhor amigo do Dégel?
— Ah melhor amigo! Essa é boa! – e ele soltou um riso baixo e grave – Kárdia vai ficar muito feliz quando ouvir essa. Ruivo se o seu irmão não contou a você, não sou eu que contarei.
— Se você é amigo do meu irmão isso significa que você é do Cinturão do Norte e não devia estar aqui, ou pelo menos não precisaria. – Camus resolveu mudar de assunto por ora, não iria tirar as respostas de Milo, Dégel teria que contar a ele.
— É como você disse. – ele ajeitou a metralhadora entre as pernas longas e suspirou – Eu sou antissocial e encrenqueiro.
Riram. Camus entendeu que Milo não ia se derramar todo em confissões, ele o entendia. Ficaram em silêncio por um tempo, observando. Havia alguma movimentação no jato, mas eram apenas Ikky e Hyoga verificando a sala, a ordem era para construírem barricadas na enfermaria. Atrasaria o ataque se eles fossem abatidos do lado de fora. Milo estava ao lado de Camus atento aos sons da floresta, mas de soslaio observando o perfil do ruivo a luz da lua. Maçãs do rosto levemente proeminentes, rosto delineado e lábios desenhados e avermelhados. Entendia porque Camus era arredio e frio, aquela beleza instigante e ao mesmo tempo fria era tentadora demais e Milo imaginava tudo que o ruivo passara nos campos de treinamento. Camus por seu turno tentava entender por que alguém como Milo Savalas não preferia o conforto do Cinturão do Norte à vida dura das Forças Especiais? Era a segunda vez que ele fazia aquela pergunta.
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