Notas iniciais
Oiieee! Aqui vai mais um caps (enorme por sinal i sorry) e queria dizer também para vocês conferirem o aviso da historia que eu alterei e coloquei umas infos importantes lá Queria agradecer os reviews maravilhosos e aos leitores novos e fantasminhas obrigado pro acompanhar a fic No mais ENJOY!

Não houve incidentes durante a madrugada e de manhã quando os helicópteros de resgate chegaram, todos estavam aliviados em sair dali. Regressaram para a base do Cinturão do Sul também sem incidentes, ainda com três capsulas de criogênicas fechadas, apenas Dégel e Albáfica, oficial médico que acompanhava o jato acidentado haviam sido despertados. A missão foi bem sucedida o que era muito bom para todos.

Ao desembarcar o próprio Patriarca foi recebê-los e isso causou certo assombro em todo mundo. Até em Dégel que empalideceu ao ver o grande líder da Nova Terra e antes que o homem se aproximasse deles, olhou para Camus e ia falar alguma coisa, mas o Patriarca já estava junto deles num piscar de olhos.

Não eram todos que tinham o privilégio de conhecer pessoalmente o Patriarca Hades, Camus, por exemplo, nunca o tinha visto pessoalmente e para ele Hades sempre fora uma imagem na televisão que incentivava as pessoas a lutarem pela sobrevivência e para manter o que restou da humanidade unida. Ele não era chamado de Patriarca à toa. Ele fora o salvador do novo mundo, foi o homem que os liderou para a resistência.

Bem verdade que Camus esperava mais. Embora para alguém com quase cinquenta anos ele estivessem bem até. Será que todos no Cinturão Norte eram jovens e saudáveis assim?

— Estou infinitamente grato General Savalas. – ele disse com sua voz suave e baixa. A voz não combinava com o homem robusto e alto que eu via, com os cabelos negros e o rosto quadrado e solene. Era uma voz doce e suave demais – Por ter salvo meu filho. Alguma baixa?

— Nenhuma. – Milo bateu continência para ele, os outros fazendo o mesmo embora Camus ainda tivesse as palavras “meu filho” ecoando em sua minha mente como marteladas. Mas manteve o rosto impassível sem demonstrar sua comoção mesmo sob o olhar atento de Shaka e Saga ao seu lado.

O Patriarca falou com todos e quando ele chegou à frente de Camus, o francês o encarou firmemente e o homem arqueou uma sobrancelha para o tenente.

— Algum problema tenente...?

— Camus Chevalier senhor. – Camus disse em voz monótona, mas percebeu um brilho de reconhecimento nos olhos negros do homem mais velho.

— Ele está atordoado senhor. – Shaka apressou-se em intervir – É sua primeira missão e tivemos muitos problemas. Também é a primeira vez que o primeiro-tenente volta aqui depois da Primeira Catástrofe, era o seu lar.

— Oh! – o olhar dele se suavizou e ele colocou a mão no ombro do ruivo – Sei como está sendo duro para você meu jovem. Eu realmente gostaria que fosse diferente... – ele se afastou e disse algo para Dégel que permaneceu ao seu lado em silêncio o tempo todo. Camus encarou o irmão com uma pergunta muda “Você não vai dizer quem eu sou a ele?”, mas só percebeu medo nos olhos dele. Pelo canto do olho viu que Shaka estava ao seu lado quase em síncope!

O Patriarca disse algumas coisas e depois os dispensaram, todos ficaram esperando Milo dar alguma ordem ou os dispensar, mas ele conversava ainda com o Patriarca e Dégel mais à frente. Camus não tirava os olhos de Dégel e ele o olhava de vez em quando, mas era só isso. Estava claro que ele não ia dizer nada para o Patriarca sobre o irmão.

Afinal ele finalmente tinha encontrado o pai e era nada mais nada menos que o Patriarca, porque ele ligaria para seu irmão adotado? Camus pensou.

— Vão para os alojamentos, vocês estão dispensados por hoje. – Milo olhou para Camus – Você. Quero que me encontre no refeitório depois do almoço. – e ele se foi com o Patriarca e Dégel, que lançou um último olhar angustiado ao ruivo antes de seguir com eles.

Todos foram para os alojamentos tratar do equipamento e tomar um merecido banho depois de dias na floresta. Shaka parecia genuinamente preocupado com Camus e com certeza sabia de tudo, mas não o importunou com perguntas. Seguiram juntos até os chuveiros e deixou o ruivo com os seus pensamentos.

Depois do banho foram para o refeitório comer em silencio com apenas um ou outro comentário sobre a base ou sobre a comida ruim. Acima de tudo estavam cansados e tensos mesmo depois da missão e provavelmente com muito sono.

— Camus porque não se junta à gente no alojamento? Ângelo conseguiu uma garrafa de uísque. – convidou Afrodite.

— Tenho que falar com o general... – Camus afastou sua comida parcialmente tocada – Depois eu vou se ele me dispensar.

— Esperamos você lá. – Hyoga piscou para o francês e foi embora com os outros. Camus ficou no refeitório até ele ficar vazio amarrando e desamarrando os fios do coturno, distraído demais para pensar em algo mais prático.

Camus estava pensando em uma maneira de procurar Dégel depois que falasse com Milo, depois de tanto tempo separados não era possível que tudo acabasse daquela forma. Poderia ir com ele para o Cinturão do Norte, mas descartou a ideia assim que ela se formou em sua mente. Percebera que apesar de precisar de homens na linha de frente da guerra o Patriarca pouco se importava com as pessoas nos campos de treinamento. Para ele aqueles jovens órfãos e sozinhos eram a ralé da sociedade.

Pela visão periférica viu Dégel entrar no refeitório, seus passos ecoando pelo lugar vazio. Continuou a amarrar os cadarços, indiferente à aproximação do outro e mesmo que não admitisse ainda estava magoado com ele por não ter dito nada sobre ser filho do Patriarca e tudo mais.

— Você ainda não aprendeu a amarrá-los direito? – ele se abaixou a sua frente e suas mãos brancas de dedos longos substituíram as de Camus nos cadarços do coturno – Algumas coisas nunca mudam não é?

— Ao contrário de outras... – Camus o fitou com seus olhos avermelhados gelados, Dégel sempre achou curioso o modo como àqueles olhos daquela cor incomum e quente podiam passar tanta frieza.

— Algumas coisas não são como gostaríamos mon ange. – ele terminou e sentou ao seu lado – Não acha que eu posso ficar alardeando por aí que meu pai é o homem mais importante da Nova Terra posso? Existem muitas coisas a considerar antes.

— Por que você não disse a ele sobre mim Dégel? – Camus interpelou olhando para o chão e com medo do que o irmão poderia responder.

— Eu contei, mas não lá na frente de todos, não assim... É complicado demais! Olhe para mim Camus. – relutante Camus o obedeceu, mas não sem esconder o quanto estava magoado – As coisas foram acontecendo... Eu não sabia de nada até me ver frente a frente com ele, nossa mãe tinha avisado a ele sobre mim e foi por isso que ele mandou me buscar. Isso foi antes de acontecer tudo! Eu queria muito que você estivesse comigo, eu tentei tanto...

— De qualquer forma você sabia que isso não ia funcionar. Sou adotado, você filho dele... Por que ela nunca contou?

— Eu nunca vou saber... – Camus emudeceu quando viu o semblante triste do irmão. Ele era só uma criança, mas Dégel era um adolescente e as lembranças eram ainda mais nítidas – Eu sempre achei que William era nosso pai, ele sempre foi um cara legal... Você é jovem demais para lembrar-se dele, ainda era um bebê quando ele se foi. E então de repente eu descubro da pior forma que meu pai é a pessoa mais importante do mundo inteiro e ao mesmo tempo em que eu nunca mais poderia ver você...

— Levando em consideração quem ele é. – Camus comentou ácido – Grande ato de generosidade salvar seu filho bastardo e transformá-lo em seu braço direito.

— Você está com raiva de mim? – Dégel pousou aqueles olhos enormes e analíticos sobre o mais novo.

— Eu não posso ficar com raiva do que eu não posso mudar Dégel. Você foi salvo e daí? Ele é seu pai e cuidou de você. Como acha que seria sua vida nos centros de treinamento das Forças especiais? Seja grato é só.

— Eu pelo menos estaria lá para proteger você.

Dégel segurou a mão de Camus e ele se permitiu aquele gesto singelo de carinho, como fazia quando era apenas uma criança. A sensação de segurança ainda era a mesma, o aperto era mais forte agora e ainda sim reconfortante. Sim, se ele estivesse lá nas divisões de treinamento e Camus pudesse ter aquele momento, não teria sido tão ruim.

— Nós vamos partir amanhã, eu queria muito que você viesse comigo eu juro! Mas... Estamos trabalhando num negocio enorme, ele pediu que eu esperasse. Você vai voltar com Milo para a divisão de intervenção e ele me prometeu que vai deixar você longe...

— NÃO! – Camus falou enérgico desfazendo o contato – Você não pode fazer isso Dégel! Você quer foder com a minha vida? Com a carreira de Milo? Ele estaria me favorecendo não me incluindo nas missões e pode ser punido por isso! Desculpe grande braço direito do Patriarca, mas você não conhece nada das Forças especiais, só os dados estatísticos. – Camus não conseguiu conter a irritação.

— Mas são ordens minhas!

— E quem disse que você pode mandar nas Forças especiais? Não meu caro a coisa funciona de forma diferente para nós, quem manda nas Forças é o Marechal e seus generais e ninguém manda neles. Se descobrirem que você está favorecendo alguém dentro do regimento essa pessoa vai se ferrar! Eles não vão permitir que a autoridade deles seja questionada e isso... – completou com desdém – é o que você está fazendo pedindo isso ao general Savalas.

— Mas o Patriarca...

— Foda-se o Patriarca! Ele não se importa Dégel! Se ele se importasse crianças não morriam nos treinamentos, garotas e garotos não seriam surrados e estuprados todas as noites dentro dos campos de concentração! O homem que você está tentando defender é o mesmo que deixou seu irmão ser levado para uma divisão de treinamento das Forças especiais, coloque isso na sua cabeça!

Dégel ficou estático ante a eloquência furiosa. Era demais que Camus estivesse falando isso para ele, porém Dégel pensava exatamente como as pessoas do cinturão do Norte pensavam. Que o Patriarca era um deus salvador, quando na verdade ele era um político com interesses apenas, nada mais.

— Olha eu vou ficar bem. Sobrevivi muito bem esses anos todos e agora pouco me importa estar em segurança ou não... Até vocês não estão em segurança lá no cinturão Norte se a gente não trabalhar direito nas fronteiras. Você pode ir sem remorso algum, agora você sabe onde me encontrar. – Camus suspirou e passou a mão nos cabelos vermelhos – Você pode ir sem problemas e um dia quando puder venha me ver. Talvez quando eu tiver livre das Forças eu vá procurar você... Até lá saber que você está vivo e em segurança me deixa feliz.

— Não precisava ser assim. – ele apertou os lábios finos, os olhos marejados desolados. Ele ainda era a manteiga derretida da infância de Camus. Como poderia ser diferente? Dégel sempre foi o mais dócil, o mais doce dos dois – Eu vou voltar para buscar você eu prometo.

— Eu prometo tentar não morrer antes de te ver de novo. – e isso foi o mais próximo de uma promessa que se pode cumprir nas atuais circunstancias. Tentar sobreviver para vê-lo novamente era o que Camus acreditava que conseguiria. Num ímpeto eles se abraçaram novamente, dessa vez o abraço foi mais intenso e terno, um passando conforto ao outro e a felicidade por finalmente se reencontrarem.

Partiram na manhã seguinte de volta a Greenwich e Dégel deu um jeito de ir se despedir. Camus viu o Patriarca ao fundo olhando a despedida deles e não se importou. Não havia ressentimentos no ruivo, ele só não poderia esperar ter a mesma sorte que seu irmão, mas isso não queria dizer que tinha ódio de Hades por separá-los. A catástrofe fez as pessoas ainda mais individualistas, todo mundo queria apenas sobreviver e o resto que se danasse.

Ambos sabiam que o afastamento deles seria menos doloroso agora que ambos sabíam onde encontrar um ao outro. Depois de fazer Dégel pedir desculpas a Milo e retirar aquela promessa descabida de manter Camus longe das missões, os três se despediram e foram para seus respectivos jatos. Chegaram ao regimento à noite já e como bônus da missão cumprida com êxito todos conseguiram a noite de folga. Quem ficou feliz demais foi Mu que teria a noite inteira para que Camus contasse tudo sobre a missão.

— Que tal uma cerveja em tenente? – ele parecia tão entusiasmado – Tem um pub aqui perto e nós podemos nos divertir e sair um pouco desse regimento.

— Eu sinceramente não estou com vontade Mu.

— Camus você está de folga!

— E amanhã já temos prática armada no pátio seis pela manhã e a ressaca não vai me ajudar a me sair bem numa luta subtenente Ngapoi. – retrucou Camus desgostoso. Ele só queria ficar no seu beliche nada confortável por aquela noite e dormir – E por acaso você está de folga também?

— Sim! Eu acabei de chegar de Oregon, fui fazer uma intervenção lá. Uma equipe enorme você devia ter ido. – ele bateu nos joelhos e se levantou – Vá se vestir que eu vou trocar o uniforme e pegar o carro, encontro você no portão oito daqui a vinte minutos.

Camus suspirou olhando o teto e depois foi tratar de se vestir, sabia que aquele ariano empolgado era difícil de conter e dessa forma não teria alternativa. Trocou-se rapidamente escolhendo algo para vestir em seus parcos pertences e se dirigiu ao porão oito esperar o Ngapoi. Teve a surpresa de ver Milo montar uma Harley Davidson intimidante e antes que o portão fechasse ele fez um sinal de sentido para Camus com um sorriso estonteante, partindo a toda a velocidade. O ruivo ficou olhando a poeira por um tempo pensando que realmente Milo combinava muito com jeans, couro e velocidade e de repente se sentindo quente por pensar essas coisas.

— Aí caprichou na produção Camus! – Mu estacionou o cadilac do seu lado e era um cadilac clássico com rodas cromadas e muito bonito.

— Eu só coloquei uma roupa, você também não está mal. – Camus havia escolhido uma blusa vinho de tecido maleável e mangas compridas que moldavam seu corpo esguio e ainda sim atlético, calça de couro justa com um cinto de ráfia. – Você deve gastar todo o seu dinheiro nele não é? Um bom carro Mu, mas deve custar os seus rins.

— Algumas vantagens de ser um nortista. – ele sorriu – Pronto?

Camus estalou a língua e se acomodou no banco e Mu deu a partida tagarelando a respeito de algo que ele havia visto no refeitório, Camus não prestou atenção devida porque a imagem de Milo não lhe saia da mente, só sabia que era algo a respeito da Capitã Marin Craig e da Primeiro-Tenente Shina Macqueen. Os soldados da Divisão de intervenção tinham esses raros privilégios como sair um pouco e para se divertir, Alguns pubs se aventuravam a funcionar quando eram próximos às bases ou dentro dos centros dos cinturões. Era como que voltar aos anos oitenta com uma trilha sonora de dois mil e tantos, mas era o melhor que conseguiram depois do grande caos.

Sendo perto das bases os pubs eram frequentados em sua maioria por militares, mas isso não significava estranheza e sim um ambiente levemente familiar. O pub estava lotado agora, mas nem todos os rostos eram conhecidos. Ou eram novos recrutas ou militares de outras bases. Procuraram uma mesa um pouco no canto e Mu foi pegar duas cervejas para eles enquanto Camus olhava em volta sem interesse. Descobriu mais à frente Ikky e Shaka e eles vieram cumprimentar e aproveitaram para se instalar.

— E então Camus resolveu esticar também? – Shaka perguntou educado.

— Mu queria sair... É bom sair um pouco da base também.

— Ah claro é ótimo. – Ikky esticou as pernas – Mu hein? Ele parece esquisito, mas sei lá vai ver tem alguma coisa embaixo daquele uniforme.

— Eu gostaria de descobrir. – Camus retorquiu com um meio sorriso e depois comentou – Tô brincando! Nós somos só amigos.

— Levando em consideração sua fama ele tem muita sorte de poder andar com você. – Shaka riu – Ele é um menino legal o Mu, mesmo que seja do Cinturão Norte.

— Vocês não vão...

— Tudo bem relaxa ruivo. – Ikky interveio apaziguador – O chefe é do Cinturão do Norte, há pessoas legais lá, mesmo que a maioria seja um grande monte de esterco!

— Ah oi pessoal. – Mu olhou para Camus aflito e Ikky tirou as pernas do caminho para que ele sentasse o que ele fez meio acanhado do lado do francês – Aqui está sua cerveja.

— E então Mu, soubemos que você foi para a intervenção em Oregon. E aí muitos alienígenas? – Shaka perguntou – Ikky porque você não vai pegar uma rodada hein? Traga fritas também.

— Eu não sou seu empregado!

— Não seja resmungão, eu vou da próxima. – Shaka tirou a franja da testa e segredou aos outros dois – Ele está com um humor do cão por causa da briga com o Hyoga! Eu já disse que essa tensão entre os dois é tesão reprimido, mas como são teimosos. Vamos Mu, conte-nos sobre a sua missão. A nossa missão foi entediante! Apenas mutações e nenhuma era classe C.

— Ah em Oregon está infestado de aliens, foi um massacre. –Mu tomou um gole da cerveja e olhou para Camus. Agora que ele tinha uma plateia considerável para contar sua missão estava quase quicando no acento – Era um enxame! Nós tivemos que usar as bombas de raios gama.

— Olha só o que eu perdi! – Ikky voltava com duas cervejas e um prato de fritas e eles desataram a falar sobre a missão, Camus apenas tomava um gole de sua bebida e ouvia calado. Foi nesse embalo que passaram cinco rodadas até Camus descobrir que sua bexiga era muito pequena. Pediu licença e foi ao banheiro do outro lado do pub, sentindo um alivio imenso ao sair de lá. Ponderou se deveria parar de beber se quisesse fazer um bom point amanhã no treino. Começou a tocar “Papillon” e ele ficou parado escutando, a cabeça mexendo levemente por conta das batidas incessantes. Era uma de suas músicas favoritas da época pré-catástrofe e lhe lembrava do período de paz. Todo mundo pareceu ter a mesma ideia porque a pista de dança pequena ficou apinhada, mas Camus apenas se deixou levar pelo som um tanto bêbado demais para se importar, o suor ia ajudar a eliminar o álcool do corpo.

Ficou assim até abrir uma brecha no mar de pessoas e Camus ver alguém no canto dançando com total desenvoltura ao som de “Dancing with my self”.

— Você dança muito bem. – comentou quando conseguiu ficar perto o suficiente.

— E você também. – ele tomou um gole da sua bebida e Camus riu de lado, não sabia por que estava puxando assunto com Milo, talvez fosse a bebida que tivesse lhe dado coragem. Ou que não conseguia ficar indiferente aquele grego com sorriso arrebatador – Veio sozinho?

— Não estou com Mu e encontrei Ikky e Shaka... – Camus apontou com a sua cerveja para a mesa onde Mu, Shaka e Ikky estavam num papo muito animado.

— Mu Ngapoi hein? – ele olhou o ruivo de soslaio, sem disfarçar que o olhava de cima abaixo.

— Eu? Não, não somos só amigos... – Apesar de ser a mesma pergunta de Ikky, Camus não conseguiu deixar de corar agora sob o olhar intimidante do general. Talvez porque a pergunta de Milo viesse carregada de um interesse genuíno e não de simples malícia como a de Ikky – Mu é meu amigo.

— Tudo bem você pode fazer o que quiser. – Milo desviou o rosto para que Camus não visse o sorriso de satisfação que aquela informação lhe deu – Não interessa o que você faz fora do regimento, na verdade não interessa se você faz lá dentro também porque por mais que se tente evitar, sempre acaba acontecendo. – ele bebeu o resto da bebida.

— Mas não há nada entre mim e Mu e nem com ninguém! – retrucou Camus ríspido – Sou só eu.

— Vamos tomar um pouco de ar?

Sem esperar que ele respondesse Milo o pegou pela mão e saiu em direção à saída com ele. Camus estava aturdido para impedir e distraído demais olhando a forma como a calça jeans moldava as pernas musculosas e a bunda redonda e firme de Milo. Ele usava um casaco de couro e blusa branca, os cachos loiros estavam em desalinho, caindo nos olhos azuis.

Foram para o estacionamento, meio vazio àquela hora, apenas algumas outras pessoas aproveitando a brisa amena, a maioria casais e foi nesse momento que Camus reagiu olhando desconfortável em volta e se desvencilhando da mão de Milo.

— Por que você...

— Para conversarmos e refrescar um pouco. – comentou o grego se se encostando à moto – Ah nossa isso é muito bom. – ele levantou o queixo e fechou os olhos sentindo a brisa no rosto – Está muito quente lá dentro.

— Tem razão. – Milo tirou a jaqueta e jogou na moto – Dégel disse para que eu ficasse de olho em você, mas acho que ele falou isso mais como irmão ciumento do que qualquer outra coisa. Você sabe se cuidar.

— A última vez que nos vimos eu era uma criança então você pode ter uma ideia da minha fragilidade para ele. – Camus ajuntou sério – Há muito tempo que não existe essa criança que ele conhece.

— Como você está lidando com tudo isso? Ter encontrado seu irmão e sabendo quem ele é... Tudo que aconteceu...

— Saber que ele está vivo já me conforta bastante. – deu de ombros, sentia-se estranhamente confortável em conversar com Milo – Não tenho raiva ou coisa parecida com o fato de que ele teve mais sorte do que eu... As coisas são assim! O importante é que eu o vi de novo e que ele ainda se lembra de mim e tudo mais... Acho que tive sorte porque muita gente perdeu seus amigos, parentes na primeira catástrofe e ainda perde para as mutações e os aliens... Pelo menos ele está vivo e bem!

— Sim você tem razão. Não pode deixar de saber também que ele ficou verdadeiramente feliz em reencontrar você, era uma coisa que ele nem tinha mais esperanças e que ele se culpava todo o tempo. Dégel ama você, mas ele tem responsabilidades agora você entende não entende?

— Claro.

Ficaram em silêncio um tempo apenas um do lado do outro aproveitando a brisa. Era estranho para Camus estar ao lado dele no regimento e agora era quase como natural, talvez porque não existisse o General... Era só o Milo. E constatar isso era mais perigoso na opinião de Camus.

— Você quer voltar? – ele perguntou a Camus que negou com a cabeça e ele continuou calado por um tempo até falar – Não parece muito de conversar Chevalier. Admira-me muito que você tenha a fama de encrenqueiro.

— Ah, mas Parker me falou que você é o pior de nós. – Camus comentou de passagem – O que andou fazendo Milo Savalas para merecer a fama de o pior dos encrenqueiros?

— Eu caçava aliens. – ele respondeu olhando Camus bem nos olhos, a expressão indecifrável – Caçava-os para matá-los, foi quando me encontraram e eu entrei para as Forças Especiais.

— E por que você fazia isso?

— Por vingança. – Milo deu de ombros, olhando o chão – Os aliens mataram toda a minha família, eu achava justo matá-los e ainda acho por isso estou na intervenção.

E então ambos se compreenderam, porque um entendia a dor do outro. Num impulso Camus colocou a mão sobre o ombro dele num gesto de compaixão, como o que Milo teve quando o viu chorando no outro dia no Cinturão do Equador. Tantas histórias, tantos motivos os levam a fazer coisas... A lutar.

— E é por isso que você é o melhor amigo de Dégel, ele também não se deixaria ficar de braços cruzados, mesmo que ele seja frágil e tolo daquele jeito.

— Seu irmão é a única pessoa mais próxima de mim agora, nós nos tornamos amigos porque ele tinha acabado de se mudar para o Cinturão do Norte e ele e meu irmão implicavam demais e só depois eu vim descobrir por que. – Milo deu uma risadinha maliciosa – Duvido que Dégel tenha contado a você, mas ele e Kárdia... Eles são namorados!

— Namorados? – Camus engasgou e depois corou intensamente sem querer. Agora entendia porque Dégel não comentara nada sobre Kárdia a ele, essa era uma conversa longa. Milo gargalhava por conta do embaraço do ruivo, imaginando se Camus teria algum tipo de preconceito com relação a isso. Não eram poucos os soldados que se permitiam experimentar ambos os sexos na unidade, embora uma minoria sentisse aversão e outra permanecesse gay. Quando se está na linha de frente de uma guerra com poucas chances de vencer, qualquer oportunidade de aproveitar a vida é aproveitada da melhor forma.

Milo não se sentia mal com isso, para ele o calor de um corpo em uma cama macia era tão bom quanto uma comida saborosa ou um entardecer na praia, independente se esse corpo é de uma bela mulher ou de certo ruivo que não conseguia deixar de pensar.

— Você não vai querer ouvir a minha vida agora vai? É triste e eu falo demais. – Camus deixou que a ironia ficasse explícita nas duas ultimas palavras para aliviar o clima estranho que se instalou. Ele falando demais era um paradoxo – Quando me empolgo então melhor não.

Milo gargalhou e Camus riu um pouco também, se ajeitando na moto para sentar, mas o fez de uma maneira muito desajeitada e Milo resolveu ajudar. Segurando-o pelos quadris estreitos sentou Camus no banco da moto tão facilmente que o deixou em sobressalto, o francês se segurou nos braços bronzeados para manter o equilíbrio e os rostos ficaram a centímetros um do outro.

De novo aquela proximidade e dessa vez não teve o medo para deixar Camus confuso. Dessa vez ele estava vendo nitidamente a respiração entrecortada Milo, os olhos de supernova brilhando de expectativa, o lábio inferior estava preso entre os dentes e Camus teve vontade de tocá-los.

Camus levou a mão para o seu rosto e acariciou o maxilar, puxando levemente o lábio com o polegar para libertá-lo Milo fechou os olhos com o contato. Sem pensar muito se aproximou e o beijou, devagar, sentindo a textura dos lábios cheios com os seus de forma tímida. Milo apertou a carne do quadril do ruivo sobre a calça e Camus sentiu um buraco no estomago. Não era medo, era uma coisa... Diferente.

Um barulho ensurdecedor os interrompeu e muitas pessoas saíram do pub correndo. A porta havia sido derrubada e as pessoas jorravam da abertura em meio a uma confusão. Camus se desvencilhou de Milo tremulo e ofegante e saiu para o caos generalizado tentando identificar o motivo, no meio de tudo conseguiu achar Ikky.

— O que foi que aconteceu?

— Briga! Soldadinhos da divisão nove que não esquecem os rifles em casa. – ele cuspiu no chão – Você precisa de uma carona ruivo? Mu foi embora com Shaka há vinte minutos.

— Ele foi embora?! Eu estou aqui há muito tempo e não o vi sair... – Camus se lembrou tarde demais de Mu, olhando para o lugar em que ele havia estacionado o cadilac, mas estava vazio e isso o fez praguejar – Eu nem o vi ir embora e aparentemente ele também não me viu.

— Acho que ele estava bem distraído – Ikky deu de ombros – O que você está fazendo aqui fora? Vi você dançando e depois não vi mais – ele olhou por cima do ombro e viu Milo olhando-o sugestivamente – E aí Chefe? Não se preocupe já estamos voltando para a base.

— Contanto que vocês estejam no treinamento as sete amanhã. – Milo se aproximou deles – Eu pouco me importo se você vai dormir agora.

— Boa Chefe! E aí Camus você vem? – Ikky resolveu provocar. Já sabia do interesse de Milo no ruivo, mas gostava de tirar Milo do sério quando não estavam na Divisão e quando estavam lá também.

— Vou sim Ikky. – Camus começou a dizer quando sentiu a mão de Milo em seu ombro

— Pode deixar que eu o levo. – Ikky tentou, mas não conseguiu disfarçar a surpresa e Camus sentiu seu rosto esquentar. “Isso não está acontecendo” pensou consigo apreensivo.

Ikky levantou as mãos em sinal de rendição e depois de lançar um aceno ele se foi e Camus e Milo ficaram olhando as pessoas saindo do pub destruído até que Milo pegou no ombro do outro e disse:

— Você quer mesmo voltar para a base agora?

— Quero Chefe! – Camus disse apressado se voltando para onde estava a moto – E já que vai me levar é melhor se apressar porque temos treino muito cedo.

— Você não parecia estar com toda essa pressa antes. – atalhou o grego um tom mais alto. “Que ruivo difícil!”.

— Mas agora estou e se você não quiser me levar não tem problema. – Camus respirou fundo e saiu andando, alguns quilômetros de caminhada seriam ótimos para acalmar seus pensamentos e sensações confusos. Nem acreditava que estava beijando Milo há alguns minutos atrás.

— Olha ruivo, é só dizer não! Não vou ficar aqui implorando por uma foda. – rebateu Milo irritado, sua paciência no limite.

— Ótimo. – Kamus gesticulou sarcástico – Então não, Savalas! Agora adeus. – gritou já a meio caminho da saída do estacionamento e Milo bufou irritado acelerando a moto para alcançar o francês.

— Anda Camus sobe aí.

— Não se preocupe estou perfeitamente bem.

— Por deus que homem difícil! Anda ruivo sobe aí eu não disse que ia levá-lo? – exasperou-se Milo – Então eu vou levá-lo.

Camus parou e ainda olhando de lado para Milo subiu na moto e os dois dispararam rumo à base em silencio. Milo estava muito irritado! Como aquele francês tolo o provocava para depois tirar o corpo fora daquele jeito? Por seu turno, Camus morria de arrependimento de ter beijado aquele grego promiscuo que na verdade só o via como um pedaço de carne. Era igual aos outros.

Notas finais
Ah a Musica que o Camus dança no caps é Papillon - Editors EU NÃO CONSEGUI COLOCAR A JOÇA DA FOTO mas segue o link https://scontent-mia.xx.fbcdn.net/hphotos-xfp1/v/t1.0-9/s720x720/10592824_854124027962840_8690491405702685652_n.jpg?oh=758a9be71f37d70767eab9ecb91811e2&oe=554E2B26