Space Dementia
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Chegaram ao Cinturão do sul no final da tarde, como o avião havia saído do Cinturão do Equador para o Cinturão do sul, o provável era que estivesse mais próximo deste. Voltar ao Cinturão do Sul depois de treze anos longe foi uma experiência dolorosa para Camus e ele só se deu conta quando colocou os pés no deck de desembarque, principalmente por descobrir que nada mudara, estava tudo do mesmo jeito.
As cidades foram completamente dizimadas, os poucos sobreviventes estavam espalhados pela Nova Terra. Lá só havia as bases das Forças especiais e quilômetros e mata selvagem e escombros, nada mais. Nada que ele pudesse chamar de casa.
Olhou para a imensidão verde por um longo tempo alem do hangar de pouso do jato. Todos já haviam saído em direção às escadas para o térreo, mas ele continuou parado ali olhando aquilo tudo e sentindo aquele vento úmido no rosto, perdido em lembranças de uma tenra infância quase esquecida.
— Camus. – ouvir seu nome o despertou tão bruscamente quanto se tivesse levado um soco. Camus se virou para a origem do som e a sensação do soco ficou ainda mais nítida.
Era o “Chefe” quem estava chamando.
O “chefe” estava parado há alguns metros e o fitava intensamente com aqueles orbes de supernova, parecia preocupado, o cenho estava franzido. Camus ajeitou sua mochila nos ombros e continuou a caminhar em direção as escadas, aturdido demais para pensar no fato de que ele o chamara pelo primeiro nome e o que aquilo significava. Nem no fato de que Milo estava esperando por ele quando chegou à escada. Não havia mais ninguém lá além dos dois.
— Você está bem? – Savalas perguntou.
Camus assentiu com a cabeça já que não tinha muita confiança em falar agora sem que o choro rompesse. Já estava prestes a rebentar em lágrimas e só pedia intimamente que Milo o deixasse em paz para que pudesse chorar sozinho, não queria parecer frágil na frente dele. Camus Chevalier não era frágil na frente de ninguém.
O que mais o assustava era que desde quando foi separado do irmão, ainda criança, não chorou. Treze anos sem uma misera lágrima, nem quando foi espancado na sua primeira noite na divisão de treinamento, nem quando matou aqueles dois porcos que tentaram estuprá-lo! Tinha jurado a si mesmo que aquele dia há treze anos atrás, era seu último dia de lágrimas e assim vinha sendo até aquele momento.
Começou a descer em silêncio a escada com Milo à frente até que não conseguiu conter as malditas lágrimas que marejaram seus olhos e tropeçou em seus próprios pés, precisou segurar no corrimão para não cair.
— Puta que pariu! – xingou e então o choro finalmente rompeu antevendo uma crise histérica.
O General ia à frente e como Camus estava a alguns degraus acima se deixou escorregar para sentar nos degraus, o choro ruidoso vindo à tona. O ruivo colocou a cabeça entre as mãos e tentou controlar os soluços, sentindo-se um idiota por ter deixado a emoção tomar conta de si daquela forma. Preparou-se para aquele momento durante anos para assim que colocasse os pés no Cinturão do sul ter um ataque histérico? Camus queria morrer!
Camus praguejou quando ouviu o barulho das botas de Milo nos degraus de ferro. O Chefe estava subindo os degraus novamente à expressão determinada, e o ruivo respirou ruidosamente e limpou o rosto antes que o general se colocasse à sua frente, agachado.
— Você está bem? Não minta para mim dessa vez.
— Estou. – reafirmou em voz rouca se levantando rapidamente para não ter que se mostrar ainda mais patético perante o grego – É apenas... Eu não vinha aqui desde... Desde a Primeira catástrofe. As lembranças jorraram... Eu não consegui controlar! – as palavras jorraram dele sem controle, como num rompimento de dique, o que o surpreendeu porque Camus não falava sobre isso com ninguém. Na verdade poucos tinham o privilégio de saber sobre sua vida e esse homem que ele conhecia há apenas alguns meses, parecia arrancar tudo só com aquele olhar.
E o choro veio outra vez e Milo o puxou para si sem se importar com a certa frieza que o ruivo queria demonstrar.
“Se isso é um sonho vamos acordar ok?!” Camus pensou alarmado e o empurrou por instinto, ninguém o tocava era uma lei sagrada para si. Milo também parecia constrangido, mas havia surpresa e certa mágoa por ser repelido daquela maneira em seu olhar? Camus se perguntou. Havia receio no olhar dele também por Camus se mostrar hostil, como se tocar em Camus fosse uma invasão muito grave... Para qualquer pessoa era, mas não era o que o francês sentia no momento. Parecia loucura, mas Camus queria os braços dele em volta de si outra vez.
— Desculpe. – ele disse a voz composta – Você consegue ficar ou devo mandá-lo de volta tenente?
— Não será necessário. Já passou, estou perfeitamente bem e isso não vai mais se repetir eu prometo.
Milo assentiu ainda analisando o outro a sua frente, por fim decidindo continuar seu caminho até o alojamento. Quando Camus chegou não encontrou o General e achou melhor assim, parou no batente da porta por um minuto para se recompor antes de entrar e enfrentar os outros. Shaka e o Sargento Romanov dividiriam o alojamento com ele e ao vê-lo o olharam com expressões curiosas, mas nada perguntaram. Camus se dirigiu para o beliche vazio e jogou sua mochila de qualquer jeito no chão, sem falar com ninguém apenas se jogando na cama de bruços. Shaka se aproximou e tocou-lhe o ombro.
— Deve estar sendo duro para você não é? Foi duro ir ao meu Cinturão também, tive uma crise e fui mandado de volta. – Camus se virou era Hyoga quem falava – Pelos menos você está segurando as pontas.
— Vamos deixá-lo sozinho um pouco e depois você pode nos encontrar no refeitório Camus? — disse Shaka de modo amável.
Eles se foram sem esperar a resposta do ruivo que ainda achava estranho toda aquela amabilidade, então não sabia como se comportar a respeito. Mas não ia ficar ali como um animal acuado ou seria ainda pior, despertaria a piedade dos outros e para Camus isso era pior que a morte. Tomou um banho rápido e depois de vestir um uniforme limpo foi se juntar aos outros no refeitório. Todo mundo estava lá incluindo o General e isso o deixou desconfortável.
— Melhor? – Aldebaran passou o braço sobre ele quando foi sentar ao seu lado.
— Desculpem... Pelo descontrole. Eu juro que não vai mais acontecer.
— Não faça promessas que não pode cumprir tenente. – o Chefe disse olhando o teto, ele estava confortavelmente instalado no banco longo da mesa de refeitório – Para onde somos enviados, tudo é motivo para descontrole.
— A nossa vida é uma vida dura Camus. – Afrodite interveio – Nem todos os dias são fáceis então você não precisa ficar com vergonha do que aconteceu. Todo mundo aqui já passou por algo parecido e ainda passa! Nós vivemos num mundo extremamente hostil agora, sem saber direito se vamos sobreviver ao dia... Só queremos que você saiba que pode contar com a gente.
— Perdoem minha frieza, mas é que não estou acostumado a toda essa cordialidade. Na divisão de treinamento não é assim.
— Acredite Camus, nós entendemos. – Ikky disse. Ele era um dos cabos especialistas em combate e era intimidador com todo aquele tamanho e expressão selvagem, talvez fosse toda aquela altura e graça de felino que ele tinha. A pele morena os olhos azuis levemente puxados lhe davam um ar exótico e a cicatriz entre as sobrancelhas eram um contraste selvagem no rosto belo. – Todos nós viemos de uma das malditas divisões de treinamento e não foi diferente para ninguém. A sua divisão não é a pior nem a melhor delas, mas você se saiu bem levando tudo em consideração.
— Claro! – Carlo bateu na própria perna – Eu estava lá quando Camus derrubou vários caras o dobro do tamanho dele e vi como ficaram os dois idiotas que o encurralaram no banheiro.
— Por que todo mundo aqui parece me conhecer? – Camus olhou para todos de cenho franzido.
— Por que você só está aqui por isso. – Milo se levantou do banco flexionando os braços para fazer o sangue correr. Camus observou atento como os músculos se alongavam sobre a pele bronzeada de forma harmônica e o quanto isso poderia ser hipnótico – A divisão de Intervenção estuda por anos os escolhidos para fazer parte dela. Todos que estão aqui já passaram pelos centros de treinamento, cresceram juntos, principalmente os que se destacam como você fez. Muitos dos que estão aqui deram o parecer favorável para a sua vinda tenente Chevalier, acharam que você só tem a acrescentar no grupo.
— Agora eu realmente fiquei surpreso. – todo mundo riu – Eu só acho que vocês estão exagerando. Eu só estava tentando sobreviver. Não é fácil chegar a Greenwich vindo do sul porque todo mundo pensa que você é uma arruaceiro de nascença ou prostituto, era assim antes de se tornar Cinturão e ainda continua sendo... Então nada de méritos só por que sei me defender.
— Se isso ajuda você a se sentir bem! – Aldebaran deu de ombros. Ele era enorme, um brutamontes com um sorriso aquecedor e modos bruscos, mas amável como se tivesse um coração tão grande quanto o seu corpo – E aí chefe? Amanhã nós estaremos dentro do mato enfrentando mutações para resgatar o quê?
— Alguém que é estúpido demais para ficar quieto e deixar que nós façamos o nosso trabalho. – o general resmungou – Seja lá o que estava naquele avião, poderia muito bem ser deixado na maldita mata e nós poderíamos estar fazendo algo útil agora, não resgatando ninguém.
— O que será que faziam tão ao sul? – Mascara da morte interveio e murmúrios de concordância pipocaram em volta.
— Eu pensei que as divisões de Pesquisa do Cinturão do Equador tinham sido fechadas. – Camus comentou e todo mundo o fitou com surpresa – Vocês não sabiam disso? Desde os acidentes com os projetos nucleares e todas aquelas aberrações... Pensei que tudo tinha sido fechado.
— O que sabe sobre isso Camus? – O Chefe cruzou os braços e fitou o ruivo diretamente. Ouvir seu nome naquela voz grave lhe causava uma sensação estranha, como se estivesse sem chão.
— Só que vários acidentes aconteceram no Equador e causaram o fechamento dos centros de pesquisa. Tentei ser transferido para cá várias vezes sem sucesso até que me informaram que o centro estava fechado. – o ruivo deu ombros – Eu sou especialista em artefatos nucleares, eu deveria ter ido para o Cinturão do Equador não voltado para Greenwich.
O Chefe e os outros se olharam, Camus não entendeu todo aquele suspense e ficou calado fitando suas botas. Eles sabiam que alguma coisa estava acontecendo, eu só poderia esperar que eles decidissem incluí-lo no Clube do mistério.
— Vamos dormir, amanhã entraremos na mata bem cedo. – a fala do chefe todos se levantaram – Quanto mais cedo acabarmos com isso, mas cedo voltamos para o regimento.
Murmúrios de concordância ecoaram em volta e todos se levantaram, Shaka se aproximou de Camus com Hyoga e os três engataram uma conversa trivial enquanto voltavam para o dormitório. Milo conversava com os que ficaram.
— Seja o que for que encontraremos naquela mata, quero todo mundo bem atento. Essa missão está me cheirando a algo mais e eu não vou arriscar o pescoço de ninguém por aberrações. – Milo trincou o queixo – Se o Patriarca acha que vou sacrificar meus homens pelos seus monstros está muito enganado!
— Acha que vamos resgatar híbridos? – indagou Afrodite, sério.
— Ou isso ou alguém muito importante para o Patriarca está naquele avião.
— O filho do Patriarca estava no avião. – Máscara falou acendendo um cigarro.
— Como você sabe disso?! – Ikky e Afrodite falaram ao mesmo tempo.
— É só dar um “trato” na pessoa certa. – piscou o italiano maroto e Afrodite revirou os olhos enquanto Milo e Ikky riam.
— Seu porco você comeu aquele almofadinha frangote do Patriarca. – Saga fez uma cara de nojo.
— Eu consegui três garrafas de Johnny Walker, cigarros e trezentas libras ok? – Máscara tragou o cigarro e soprou a fumaça calmamente – E ele só queria ser empalado! Sabe como é, esses almofadinhas tarados por fardas.
— Seu pervertido. – mas Milo gargalhou seguido pelos outros, menos Afrodite que fechou a cara, desgostoso.
Fale com o autor