Sozinha? Não mais...

1 Sozinha? Não mais...


Notas iniciais
Este conto é bem antigo, um dos meus primeiros escritos que reencontrei recentemente fuçando nas minhas coisas. Por favor, entendam antes de criticar que se trata de um trabalho iniciante. Ainda assim, garanto que dei o meu melhor na época. Espero que se divirtam!

Como fazia todos os dias após a aula, Malena estava observando o lago espelhado da cidade, sozinha, pensando em pequenas coisas que a divertiam... Os simples pensamentos levavam a jovem para um lugar distante, um lugar onde suas alegrias brincavam e sorriam, um lugar que talvez jamais conheceria. Sentada na grama levemente gelada, passava as mãos claras no cabelo dourado, brincando com as ondas que nem chegavam a formar cachos.

O silêncio espalhava morbidez no ar, mas a mistura de tons fluorescentes no céu tornava tudo poético. As árvores se exibiam em tímidos movimentos causados pela brisa e os pássaros voavam em graciosos cantos. Tudo estava perfeito, tudo a agradava.

O vestido de Malena era de um roxo claro e meigo, com uma fita da mesma cor, mas num tom mais escuro, na cintura. Ela se deitou na grama, contemplando o céu do fim de tarde. Desta vez, sua mente estava vazia, mas ainda assim podia sentir que seus sonhos vagavam ao seu redor, brincando perto do lago, mesmo que ela não estivesse mais os repassando na cabeça.

Todos os dias a garota só podia desfrutar de meia hora naquele lugar sereno. Seus horários deviam ser cumpridos com exatidão, sem passar nenhum minuto. Não costumava falar muito, nem procurava fazer parte de nenhuma turma na escola. Seus interesses eram bem diferentes e geralmente as pessoas não simpatizavam com eles.

Quando Malena sentia vontade de subir em uma árvore, por exemplo, na hora do intervalo no colégio, simplesmente subia! Estava perto de completar dezesseis anos (ou seja, escalar árvores já não era coisa que garotas de sua idade fariam) e, mesmo assim, agia sem pensar duas vezes satisfazendo seus excêntricos impulsos. Todos os alunos evitavam se aproximar e apenas se dirigiam a ela quando precisavam muito, por exemplo, quando a professora determinava um grupo de trabalho e selecionava cada membro, sem que ninguém pudesse questionar.

Como se ela precisasse! A melhor companhia, em sua opinião, era a natureza e suas surpresas. O que queria era apreciar a intensidade e a beleza das coisas. Sua curiosidade desenhava um círculo onde não havia começo, nem fim: apenas existia e não parava de rodar. Esperava alguma coisa? De certo sim, mas de maneira paciente e, caso não acontecesse, ela se conformaria. Seu maior desejo era...

— Quem está aí? — perguntou, depois que escutou um graveto estalar, provavelmente ao ser pisado.

— Não se preocupe... Eu não sou nenhum monstro do Lago Ness. — respondeu um rapaz que se dirigia a ela em passos calmos. — Uma paisagem como esta não deve ser ignorada!

Sem responder, Malena se levantou e buscou distância do garoto. Seus olhos castanhos se fixaram sem medo nos olhos claros do jovem. Alguns segundos demorados passaram até que ela decidiu se pronunciar:

— Você está me atrapalhando... Não tem desconfiômetro? — em seu rosto agora se estampava irritação, como se ele tivesse invadido sua casa pelos fundos, um completo intruso.

— Nossa, não sabia que este lugar tinha dono! Desculpe, madame, já vou me retirar. — disse tudo ironicamente e se largou na grama, erguendo uma das sobrancelhas, provocando a jovem.

— Vai mesmo ficar aí? Então serei obrigada a te expulsar aos murros!

— Oh, Deus! Vou morrer!

Malena fez “tsc”, indignada. Logo desistiu de bater boca, dirigiu-se para o outro extremo do lago e se sentou na grama, bem distante do intrometido. Tentou fazer de conta que ele já não estava ali. Seus longos cabelos ondulavam com o vento, dando a impressão de que ela era uma moça adorável e delicada... Longe de ser! Não que fosse estúpida e selvagem, mas sua vontade de estar sozinha a deixava assim, sempre rabugenta.

— Meu nome é Lauro! — gritou o atrevido, enquanto atirava uma pedra nas águas cinzentas da lagoa.