Soulmates
1 Soulmates
Notas iniciais
Era só um sábado.
Um sábado frio, escuro e com um significado diferente para mim. Normalmente eu iria para a sala em um sábado de manhã, não para um cemitério. Hoje fazia dois anos que você se fora. Fazia dois anos que eu vivia a base de lembranças, a base de incertezas, a base de lágrimas.
Peguei meu casaco e fui. Saí do nosso apartamento e senti uma falta terrível de quando você voltava umas três vezes para ver se a porta estava realmente fechada. Antigamente essa mania era causadora de uma irritação sem tamanho em mim, mas hoje eu apenas sentia falta dela. Sentia falta de qualquer coisa que você fizesse.
Caminhava pelas ruas cobertas de neve, com as mãos dentro do bolso do meu sobretudo preto, sem vida. Olhei para o lado e vi uma livraria. Você amava livrarias. Dizia que era ali, em meio a tantos livros que você encontrava o que mais procurava: O amor. Mal sabendo que ele estava ao seu lado desde que nascera.
Caminhei mais algumas quadras olhando para ora para o céu, ora para o chão. O céu estava nublado, combinando perfeitamente com meu estado de espirito: Escuro, frio e nada agradável. O chão estava coberto por neve, aceitável na estação em que estávamos. Uma rajada forte de vento atingiu meu rosto, fazendo com que eu quisesse sua mão na minha. Querendo estar em nossa cama, com você em meus braços, sentindo seu corpo encaixar-se perfeitamente ao meu.
Parei na banquinha que ficava na porta do cemitério da cidade para comprar Tulipas Vermelhas, as suas preferidas. Comprei apenas três, não precisava de muito para saber o que eu queria dizer-te. Com o coração comprimido, entrei naquele lugar que com o tempo, se tornara minha segunda casa.
Parei em frente a sua lápide, passando a mão por ela, tirando o excesso de pó. Li aquelas palavras que de um jeito tolo, tentavam passar todo o meu sentimento por você: "Um pedaço de nosso mundo desapareceu quando você fechou os olhos. Para sempre."
Ri forçadamente. Um pedaço? Claro que não fora um pedaço, fora o meu mundo inteiro que desapareceu. O mundo todo perdeu o sentido quando eu vi que você não sorriria mais para mim.
Sentei na grama que jazia ali e coloquei as flores em um lugar especifico para elas. Olhei para a sua foto. Você estava sorrindo, olhando diretamente para a câmera, fazendo-me sorrir perante a lembrança. Você era tão lindo. Você é tão lindo. Tão meu. Respirei fundo e comecei a falar, sentindo as lágrimas escorrerem por meu rosto.
–Já faz dois anos. Dois anos! – Disse em meio a um soluço, deixando-me ser fraco naquele momento — Faz dois anos que eu vejo você sorrir para mim. Que eu não sinto mais o teu corpo quente contra o meu, fazendo o frio parar. Faz dois anos que eu não sei o que é ser feliz, sorrir com vontade, chorar de felicidade. Faz tanto tempo que eu não sei o que é acordar com beijos. Faz tempo que eu não entrelaço minha mão a sua, faz tempo que eu olho para a nossa aliança e choro. É ruim quando isso acontece, porque antigamente, quando eu chorava, você estava lá. Você secava minhas lágrimas e me permitia chorar em seu peito. Faz dois anos que eu não sou fraco como gostaria de ser, Bill! Dói tanto, tanto... – Terminei, sentindo a dor da perda, a dor da saudade, ficar cada vez mais forte. – Mas não se sinta culpado. Nada do que está acontecendo aqui é sua culpa, nada! Quem poderia saber que aquela doença te levaria a morte? Bom, nós sabíamos, mas tínhamos esperanças. Eu tinha esperanças de acordar, olhar para o lado e ver um Bill saudável, sem aquela doença percorrendo todo o seu sangue. Mas não foi assim, certo? Eu não vi você saudável e você morreu. Simples assim. – Sorri fraco, lembrando-se de tudo. – Mas eu não vim aqui me lamentar, vim aqui para dizer o que você já sabe: Eu te amo. Eu te amo mais a cada segundo que passa. Eu te amo mais a cada vez que eu sinto a tua falta. Eu te amo mais a cada vez que eu lembro o que nós tivemos. Durou pouco, mas foi tudo o que eu sempre quis. Obrigado, meu anjo – Terminei sorrindo.
Fechei meus olhos e senti uma brisa acariciar meu rosto. Era ele. Levantei da grama, já sem o sorriso no rosto, e caminhei para fora daquele lugar. Observei o tempo novamente e quando olho para o lado, vejo uma senhora sorrindo para mim.
–Você está bem? – Ela pergunta delicadamente, sempre sorrindo.
–Estou sim, muito obrigado. – Respondo-lhe sorrindo. Respondo-lhe fingindo.
Porque, afinal, fingir é a coisa que eu melhor faço desde que você partiu.
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