Soulmate - Spideypool

9 "Wade nunca foi um ser misericordioso." P.P.


Notas iniciais
Se alguém estiver lendo isso, os capítulos estão programados para postagem, já que a história já tinha avançado pra caramba em outros sites e eu tinha esquecido de atualizar o Nyah, por isso se estiverem notando que nunca tem notas, é porque só estou atualizando as coisas. Depois posso voltar a colocar notas de cumprimento a vocês, e etc.

Peter desejava ter pensado melhor naquilo.

A tensão já sombria do cemitério fica ainda pior com a névoa de claro ódio que Wade e Quentin compartilham. Peter pode sentir os pelos de seu corpo, inclusive as penas de suas asas, afiarem não só de medo, mas de antecipação para um confronto. Era fácil confundir Peter com um gato eriçado quando isso acontecia, o que não era recorrente, mas ali, naquele momento, todo o mundo parecia ter parado.

O vento sopra sobre seus cabelos, e o mundo parece correr fora dali, mas naquele quadrado de terra, dentro daquele cemitério, o mundo para enquanto anjo e demônio se encaram sem dizer uma única palavra.

Ambos continuam se encarando, como em uma competição para ver quem pisca primeiro. Quentin cede com um sorriso bobo no rosto e um riso duvidoso. Peter encara a expressão dura e fria de Wade, o azul de seus olhos tão frios e afiados, que poderiam cortar a alma de qualquer um que o encarasse por muito tempo.

E mesmo assim, com a aura de perigo e um par de chifres reluzindo em vinho, Peter não podia deixar de pensar em quão bonito Wade estava naquele dia.

Estaria mentindo se dissesse que não passou o final de semana inteiro desejando que a segunda-feira chegasse logo. Estava se acostumando a passar mais tempo com o loiro, então ficarem separados parecia até mesmo...errado.

Dessa forma tentou se ocupar com tudo o que podia, quanto menos tempo para pensar em Wade, menos tempo teria para sentir saudades de alguém que nem mesmo devia estar pensando em si. Foi com esse pensamento que seguiu Quentin e se deixou ser levado para o cemitério. Foi com esse mesmo pensamento que, ao ver Wade, simplesmente não pensou e correu em sua direção.

Wade o tornava uma pessoa impulsiva, até mesmo irracional e Peter não tinha certeza do que fazer com aquele prato confuso de sentimentos em seu corpo.

— Você está certo. – Quentin quebrou o silêncio e apesar do clima hostil, ele parecia se divertir. – Eu sei mais coisas sobre sua família do que você mesmo. Ossos do ofício.

Apesar da voz calma e simpática que Quentin sempre usava com qualquer pessoa, Peter conseguia notar uma intenção obscura em seu timbre. Eles se conheciam demais para ele não notar essa diferença, mesmo sendo tão pequena.

Wade não responde, sequer move seu olhar. Suas asas são as únicas coisas que dão a Peter uma pista de que o garoto ainda está respirando pela forma como sobem um milímetro e descem logo em seguida, aos poucos se abrem e fecham por poucos centímetros, como se quisessem tirar o dono dali antes que algo ruim acontecesse.

Peter não percebe o que está fazendo, até que faz.

— Acho que não devíamos falar do seu trabalho uma hora dessa. – O castanho interrompe, colocando a mão sobre o braço rígido de Wade, ficando entre os dois homens. – Você já terminou os agradecimentos¹, Quentin? Eu não vou demor...

— Já terminei, Pet. – Quentin o corta quando percebe que Peter quer afastá-lo dali. – Além disso, não acho que seus pais ficariam felizes em te encontrar sozinho com o demôn...Wade.

Peter sente à vontade de Wade querer avançar para Quentin sob seus dedos. Ele aperta o braço do loiro levemente, o obrigando a retirar o olhar de Quentin e dirigir a ele. Os chifres vinho mudam para um vermelho quase instantâneo. Peter não sabe qual das duas cores é pior, mas prefere acreditar que Wade quer matar mais a Quentin do que a si, já que sua cor é mais fraca.

— Bom, se o Quentin já acabou... – Peter se vira para Wade mais uma vez. – Você já terminou, Wade? Eu gostaria de ir junto... eu sei que eu não tenho nenhum parentesco, mas seus pais foram grandes guerreiros e merecem estar descansando em um lugar legal e recebendo visitas sempre que possível-

Peter estava enrolando e sabia disso. Ele só queria poder ficar perto de Wade por mais alguns minutos, segundos já fariam uma grande diferença. Ele não havia percebido o quanto sentia falta de Wade, até parar e ver Wade.

O loiro sorri da forma atrapalhada de Peter e o castanho precisa se concentrar para não corar ali mesmo. Ver Wade já era um presente, mas ver seu sorriso, ah! Era melhor do que ir ao paraíso. Peter sorri de volta sem nem mesmo perceber e antes que Wade possa retomar a frase perdida de Peter, Quentin bufa entediado ao lado deles.

— Meu Deus, porque você se rebaixaria a esse ponto, Pet? – Quentin questiona, mas sem esperar uma resposta. – Você sempre foi o melhor nas aulas, não acredito que tenha se esquecido de um fato tão importante.

— O que, Quentin? – Peter tentava não soar exasperado por ter que desviar o olhar do sorriso de Wade, que sumiu assim que o outro anjo foi ouvido.

— Ora, gatinho, pode esconder as garras. – Ele dá um riso leve se divertindo ao passar o braço ao redor dos ombros de Peter e puxá-lo para seu lado. – Você pode ter sido muito bem-educado pela mãe e pelo pai, mas chamá-los de grandes guerreiros e merecedores, é um pouco demais, não acha?

— Quentin! – Peter ralha querendo se soltar.

O segundo seguinte é muito rápido. Peter mal terminou de chamar a atenção de Quentin, mas os olhos azuis cheios de malícia do anjo não se desgrudam de Wade enquanto ele vocifera na direção do demônio:

— Uma pena, realmente trágico que eles tenham sido permitidos a serem enterrados com guerreiros de verdade. Um casal de filhos do anticristo, traidores de sua própria espéci-

Um segundo. Um momento. Uma decisão. Uma porrada de mentiras.

Wade estava se segurando. Deus, como estava. Encarar o responsável pelo fim de seus pais e não pular em seu pescoço já era um avanço muito grande para aquele demônio. A vontade não lhe faltava, a oportunidade estava a sua frente, mas ele se segurou. Ele se segurou por si, pela família, pelos amigos, por Peter, por sua bolsa acadêmica. Ele se segurou.

As sacolas em suas mãos já cortavam sua pele pela força que infligia a elas. Suas asas tentavam desobedecer sua mente e tira-lo dali. As asas sempre sabiam o que ia acontecer antes mesmo de ter acontecido. Wade sabia que o vinho em seus chifres estava tão intenso ao ponto de lhe causar uma dor de cabeça.

“Era possível odiar alguém tanto assim?” Wade pensava e então encarava os olhos azuis recheados com a verdade no rosto de Quentin e sabia que sim.

“Eu sei o que você está pensando.” Aqueles olhos lhe provocavam. “Tenta a sorte em me pegar, vamos ver o quão rápido outro raio de chamas cai em sua cabeça.”

Quentin sabia que, comparado a Wade, ele era intocável. Um anjo, um agente, um orgulho para a batalha. Uma aposta que havia dado certo. Entre Quentin, o agente condecorado e Wade, uma promessa para o futuro, Quentin seria escolhido em poucos segundos.

Melhor uma certeza em mãos do que um talvez que por mais promissor que pareça, pode se tornar uma falha.

Quentin era intocável e sabia disso.

Sabia tanto que, fazia questão de lembrar a Wade do seu lugar. Número dois. Um grande talvez. Uma peça no tabuleiro. Nada mais do que um soldado. Um soldado que, comparado a aquele agente, era facilmente descartado. Mãe e Pai. Quentin faz questão de dar atenção a esse detalhe.

Não somente pela mãe e pelo pai que Wade perdeu, mas porque ele sabe que Sr. e Sra. Parker nunca vão poder ser chamados assim pelo demônio². Quentin abre um sorriso sempre que se lembra disso.

Eles deviam ser iguais. Orfãos, soldados, a peça chave para acabar com a guerra. Mas não eram iguais e nunca seriam.

Prometeram o mundo a Wade Wilson quando o garoto loiro havia voltado do enterro vazio de seus pais. “Você é promissor, vamos cuidar de você, então a única coisa que você terá que fazer é lutar na guerra.” Um mundo de possibilidades finitas foi colocado à sua frente. Quentin havia recebido o mesmo em condições similares.

Aos poucos as diferenças passaram a serem notadas e o que devia ser pequeno, se torna um grande penhasco entre os amigos. Quentin odiava ser repreendido enquanto assistia Wade ser elogiado. “Ele era um anjo,” os mais velhos diziam, “devia fazer de tudo para ficar acima daquele demoniozinho nojento”. E Quentin fez.

O azul sempre brilhante nos olhos do demônio quase foi consumido pelo fogo celestial. Quentin assistiu com prazer enquanto uma rajada verde de fogo era enviada dos céus em direção a Wade. O cheiro era similar a algo que foi esquecido no forno por muito tempo. Os gritos? Altos e horríveis. Quentin tinha certeza de que assistiu Wade chorar enquanto ele sorria.

“Finalmente.” Era a única coisa que Quentin conseguia pensar quando via seu nome encabeçar o quadro onde, anteriormente, o nome de Wade estava sempre no topo. Ele era o melhor agora.

Anjo e demônio haviam passado suas infâncias juntos. Empurrados por um único lado a se odiarem, a quererem se superar, empurrados ao ponto do desespero. Quentin cedeu primeiro.

Uma parcial mentira muito bem elaborada por uma criança que queria seu mundo e suas promessas de grandeza de volta, levaram o corpo de Wade a ruina. Ele devia odiar Quentin, sabia disso. A dor constante o lembrava de assistir o azul dos olhos do anjo refletidos com satisfação e pura maldade.

“Esse devia ser o tipo de coisa que eu faço.” Wade pensava enquanto seu corpo queimava com o fogo dos anjos. Ele queria entender, onde havia errado.

Mesmo após o corpo danificado, Wade deu outra chance ao antigo amigo. Ele devia ter errado, sim. Wade sempre errava em algo. Era esse o motivo de seus pais terem sido levados, certo? Errado.

Logo após ganhar as cicatrizes, Wade descobre que o fim de seus pais nunca foi sua culpa. Ele ouve pela fresta de uma porta mal encostada. “Como você teve a coragem, Quentin! Já não basta ter tirado os pais daquele garoto daqui por uma mentira da sua família?” Ah, é a primeira coisa que Wade pensa, Quentin Beck e Wade Wilson realmente eram ligados, mas não pelo motivo que o loiro imaginava.

Uma relação conturbada, quebrada e pisada. Wade já não conseguia enxergar no azul dos olhos de Quentin a alma daquilo que um dia foi seu amigo. Ele era o culpado por tudo.

Culpado por tudo.

Wade sente as sacolas deslizarem por seus dedos. Tudo parece extremamente parado. As sacolas mal saíram do lugar, pairando no ar, quando Wade pode sentir a pele clara de Quentin debaixo de suas unhas.

Ele pisca e tudo volta a funcionar.

As sacolas caem, Peter se assusta, Quentin geme com um riso preso a garganta. Wade o levanta centímetros do chão, o que é incrível, já que o loiro é centímetros menor do que o mais velho.

Peter precisa de um momento para analisar a cena. Seu cérebro coleta todas as informações. Os chifres em cor vinho, as asas estendidas para trás em posição de ataque, os olhos azuis envoltos de uma esclera negra. Um terceiro e quarto olho se abrindo abaixo dos originais, ambos sem vida, ambos recheados de morte.

— Se.atreva.a.repetir. – Wade retrinca cada palavra na direção do anjo de forma ameaçadora.

Quentin ainda consegue sorrir quando sente seu pescoço ser apertado com mais força.

— Wade! – Peter o chama, mas não tem a coragem de chegar perto daquela imagem assustadora que nunca viu antes.

Por um segundo, o castanho repensa se qualquer parte daquele rumor do colégio possa ter sido verdade. Aquele era o olhar de ódio profundo e praticamente divino de Wade. Peter nunca havia recebido um olhar daqueles. Sabia disso, pois tinha certeza que desmoronaria se sequer chegasse perto de Wade nesse momento.

Ódio puro parecia flutuar no ar ao redor do loiro. Nada poderia retirá-lo daquela bolha. Pelo menos nada voluntariamente.

— Garotos!

Peter é o primeiro a ouvir e, novamente, não demora mais do que um segundo para que a cena tenha mudado a sua frente. Wade é empurrado para longe por dois vultos brancos, enquanto Peter voa em direção a Quentin, se prostrando a sua frente.

O castanho assiste os olhos adjacentes de Wade sumirem, assim como sua esclera retornar ao branco usual. Seus chifres, porém, continuam com a cor vinho. Sua mãe, trajando uma armadura prateada completa, retira o capacete da cabeça e as peças são sugadas de volta para dentro de sua pele.

Mary Parker era um soldado antes de se tornar cientista e um dos seus dons para se tornar a melhor no ramo, é que nem mesmo a ética dos anjos a havia parado. Ganhou fama transformando a si mesma na primeira cobaia para seu projeto de armaduras auto absorvíveis.

Richard Parker, com seus inconfundíveis óculos e cabelo grisalho que lhe revelava a idade, batia as asas na frente dos olhos de Wade. Especialista em como controlar feras agressivas. Ele usa seus métodos para retirar aquele monstro que parecia se manifestar em Wade.

“Wade.” Peter pensa. Como tudo aquilo havia acontecido?

Uma tosse seca atrás de si lhe traz para fora de sua própria cabeça antes que ele possa pensar mais em Wade e sua transformação.

— Você está bem? – Peter pode ver uma marca negra de cinco dedos no pescoço de Quentin. – Isso devia ter...

— Sumido? – Quentin testa a voz com seu risinho. – Energia demoníaca. Muita energia.

Peter volta seus olhos para Wade, que parece trocar algumas palavras com os Parkers. Como ele podia carregar tanta energia demoníaca em poucos segundos? O castanho podia jurar que o loiro não havia passado mais do que cinco segundos com a mão ao redor do pescoço de Quentin.

Energia demoníaca, o tipo de energia que demônios usavam em seus ataques. O tipo difícil de ser concentrada a esse nível por um garoto do ensino médio. O tipo que Peter acaba se lembrando que já viu antes. Essa não é a primeira vez que Quentin apanha de Wade e com certeza não vai ser a última.

— Impossív-

— Impossível? – Quentin adivinha. – Demônios são criaturas perigosas, Pet. Você viu o que ele pode fazer. Devia tomar mais cuidado ao ficar perto de uma coisa assim.

— Ele não é uma coisa. – Peter defende. – E eu tomo cuidado.

— Indo para a casa dele todas as noites?

— C-Como você sabe? – Peter ainda não havia contado aos pais quem era o seu novo aluno, mas talvez fosse lógico que Quentin soubesse, já que ele era o espião mais promissor dos anjos.

— Eu ainda não tinha certeza, mas agora tenho. – O olhar de decepção em Quentin era palpável. – Somos os responsáveis pela morte dos traidores que são os pais daquele delinquente, Peter. Você tem um desejo de morte ou algo assim?

Peter era sempre calmo. Peter era sempre racional. Bom, quase sempre.

— Os Parkers são responsáveis pela morte deles. Você não é um Parker, Quentin Beck. – O tom de Peter era frio, mas ainda assim polido. – E você não tem o direito de chamar os pais do Wade desse jeito.

— Você sabe que é a verdade.

— Devo dizer o mesmo dos seus pais? – Peter lança, se virando, não desejava mais olhar para Quentin agora.

— Uau, essa doeu.

— Você pediu. – Peter responde de costas para o outro, vendo seus pais voltarem. – Onde... Cadê?

Peter avança ao perceber que Wade já não está mais ali. “Não,” ele pensa. “Não, eu preciso me esclarecer. Me desculpar por Quentin.” Seus pais balançam a cabeça negativamente, preocupados.

— Quem começou? E o que você disse? – Richard questiona.

— Eu posso ter dito alguma coisa, mas a cara dele me irrita. – Quentin respondeu se esquivando da segunda pergunta. – Na verdade, isso é culpa do Peter, ele que correu para ir atrás daquele demoniozi- Ei! Onde você vai?

Peter pode ouvir Quentin chamar por si lá atrás, mas ele deixa os pais e o quase irmão postiço onde eles estavam, indo para frente e para frente, até onde Wade estava caído a alguns minutos atrás.

— Onde...

Ele não precisa terminar a sentença quando o cabelo loiro de Wade dá seu último vislumbre já no final da rua. Sacolas em mãos e rosto limpo, como se nada tivesse acontecido. Ele não olha para trás e aos poucos vai diminuindo, até sumir.

Peter sente o vazio voltar ao peito. Ele se afasta querendo que a sensação vá embora, mas ela o acompanha. O que era aquilo? O que tinha sido tudo aquilo? O castanho podia saber mais do que era exposto a mídia, privilégio de fazer parte de uma das famílias mais conceituadas dos anjos, mas ainda assim, ele sentia que muita informação ainda faltava em seu quebra-cabeça.

O castanho volta para Richard repreendendo Quentin, uma cena comum nas memórias de Peter.

Quentin ficou órfão aos 8 anos. Se é que, um massacre da família número um de anjos, os Beck, podia ser contado como ficar somente órfão de pai e mãe. Quentin perdeu irmãos, tios, tias, primos e primas, além dos avós, pai e mãe em uma única noite, sendo ele o único restante.

Peter não devia ter mais do que cinco anos quando Quentin se mudou para sua casa. Ele ainda era muito novo e não entendia o que havia acontecido com a família do seu novo irmão mais velho, mas sabia que sua mãe estava sendo gentil como sempre era com as outras crianças ao leva-las para casa. Quentin não era o primeiro a ser salvo pelos Parker.

Enquanto Peter ia para o primário, Quentin foi enviado para uma Academia. Peter nunca havia visto o lugar e jamais o deixaram visitar o irmão mais velho naquele lugar, mas Quentin sempre voltavam com manchas negras pelo corpo. Ele sempre precisava acalmar um Peter chorão quando ele retornava das férias e as manchas ainda não tinham sumido.

“Energia demoníaca. ” Quentin explicava. “Você vai aprender mais quando for mais velho, mas é esse o tipo de força que os demônios tem e é esse o tipo de força que eu preciso derrubar.”

Peter nunca tinha entendido que Quentin queria derrubar, literalmente, o dono da energia demoníaca. Wade Winston Wilson era o parceiro e suposto amigo de Quentin na academia. O que quer que os juntasse na hora da refeição, não valia quando ambos estavam em treinamento. Wade nunca foi um ser misericordioso.

O garoto loiro, que também havia acabado de perder os pais, era o primeiro no ranking da academia, Peter sabia porque era só disso que Quentin reclamava do lugar. “Aquele demônio isso, aquele demônio aquilo” era o que ele sabia falar 24 horas por dia. Peter não queria ser indelicado, mas perdeu o interesse pelos comentários reclamões do irmão lá pelo terceiro ou quarto dia de suas férias.

Anjos tem esse poder, onde você consegue escolher o que deseja ouvir. Sempre que Quentin começava a reclamar, sua voz era substituída por uma canção ou pelo conto de seu último livro favorito, ou até mesmo pelo completo silêncio na cabeça de Peter. Ele só voltava a ouvi-lo quando Quentin voltava a ser o menino legal e aventureiro que Peter conhecia.

Atualmente, Peter se sentia um pouco culpado por não ter dado atenção as reclamações de Quentin antes. Talvez, talvez se tivesse se esforçado um pouco mais, as coisas não estariam tão diferentes de quando eram crianças.

Quentin parou de reclamar desse tal de Wade Wilson em algum ponto quando Peter notou que não precisava mais usar seus poderes com ele a um tempo. De certa forma, Quentin parecia mais feliz, como se algo tivesse dado muito certo em sua vida. Ele recebeu um prêmio de ouro pela primeira vez na academia, algo como ter subido no ranking agora que Wade era o segundo. Quentin nunca havia parecido tão feliz em escutar que era o primeiro em algo.

Peter se sentiu estranho. Quentin normalmente não ligava para ser o primeiro. Ele não era o primeiro na competição de comida. Nem mesmo nas brincadeiras de quintal. Ele com certeza não era o primeiro nas matérias, mas parecia muito feliz com ser o primeiro no ranking. Apesar disso, Richard e Mary não estavam felizes.

Havia gritos por toda parte agora. Fosse no colégio, na casa ou nos encontros de família, Richard e Mary não pareciam felizes com algo que Quentin havia feito. Peter já sabia o que era ter feito besteira e ser repreendido pelos pais, mas nunca imaginou que um castigo podia durar tanto.

O garoto suspira ao ver o pai finalmente terminar o sermão para Quentin, que simplesmente revira os olhos, como se já não aguentasse mais ouvir aquele tipo de baboseira. Peter podia não saber antes, mas agora sabia que o castigo que Quentin havia ganhado tinha um bom motivo.

Ele não sabia exatamente o que Quentin havia contado aos seus superiores na Academia, mas foi o suficiente para Wade ser expulso para a Academia do Mal e então ser alvejado com fogo celestial ao tentar entrar na Academia ao qual anteriormente pertencia.

Todos já haviam tido um vislumbre das marcas de queimaduras brilhantes no corpo de Wade Wilson, era difícil não notar quando Peter dedicava metade do seu tempo de treino em desviar seu olhar para o abdômen sarado de Wade. Apesar de lindo e muito bem trincado, Peter se sentia péssimo ao ver a coloração proeminente das queimaduras. Ele sabia de quem era a culpa e não queria se envolver nisso.

Saber da verdade sobre as cicatrizes, assim como sobre outros esqueletos que Quentin tinha escondido em seu armário, os havia distanciado. Antes, Peter o teria chamado de irmão na frente de todos e lhe abraçado, um Parker a mais na família. Agora, ele fazia questão de lembrar a Quentin quando podia que ele não era um Parker e nunca seria.

Sabia que estava sendo duro quando lembrava Quentin disso, mas qual seria a melhor forma de lidar com o que sentia? A raiva em perceber que Quentin era capaz de fazer algo tão desumano a outro ser, ou a necessidade de proteger o pescoço do cara que viveu embaixo do seu teto e não dar a Wade outro motivo para assassinar o Beck que fingia ser um Parker.

Para Peter, Quentin ainda tinha que pagar e muito com o que tinha feito a Wade em sua infância, mas ele preferia ser o alvo de vingança pela morte dos pais do demônio, do que deixar Quentin levar a culpa por algo que Parkers e Beck tinham culpa.

Peter podia desejar negar o quanto quisesse, mas o sangue dos Wilson estava impregnado em suas mãos e nunca iria sair.

O garoto suspira, sentindo sua mãe embala-lo ao seu lado, com Quentin ao outro.

— Meus meninos.

Ela sempre os chamava assim quando sentia que ambos precisavam de um pouco de carinho e compreensão. Peter aceita o gesto de bom grado, olhando uma última vez para trás, imaginando a silhueta de Wade indo embora. O vazio em seu peito aperta.

Estava ansioso para vê-lo na segunda.

Notas finais
Obs: ¹ - Os agradecimentos que eu citei, são uma forma de reverência, conversas e tradições que os anjos tem com os sobrenaturais mortos. Os pais do Quentin e do Wade estão enterrados no mesmo cemitério, apesar da diferença dos túmulos e cuidados. Acreditasse que quanto mais agradecimentos e cuidados o túmulo recebe, maior é a sorte do sobrenatural em sua reencarnação, podendo conceder a eles a sorte de voltar como um sobrenatural novamente ao invés de humano. ² - Caso não tenha ficado claro para alguns, em algumas culturas, ao invés de chamar de sogro e sogra, as pessoas chamam de mãe e pai quando adentram a família. Então quando o Quentin enfatiza isso, ele deixa claro que sabe que o Wade gosta do Peter e, o próprio Quentin chama os Parkers mais velhos assim para mexer com o Wade deixando claro que se ele quisesse, ele poderia se tornar um par para o Peter, enquanto o Wade não. Apesar disso, ele considera a Mary e o Richard como seus pais e o Peter como um irmão parcial, então também usa o tratamento no sentido familiar.