Soulmate - Spideypool
10 "Só uma chance." W.W.
Alguma coisa havia acontecido.
Wade sabia que seus amigos haviam percebido suas emoções instáveis e o fato de Dopinder ter aberto todas as janelas da casa assim que chegou, o lobisomem havia reclamado baixinho que se não fosse muito bem treinado, seu nariz já teria sido a causa da sua morte.
Colossus conseguia sentir a vibração demoníaca e mortal que oscilava dentro de Wade. Não era motivo bobo terem colocado o pacificador de aço junto do promissor demônio de guerra, Colossus era possivelmente um dos únicos que conseguiria lidar com Wade caso algo desse errado. E, ainda se levava em consideração que, apesar de um dos melhores pacificadores, o russo podia muito bem acabar perdendo para o loiro se o mesmo estivesse mais irritado do que ele conseguia aguentar.
Vanessa tentava não deixar o clima na casa de Dopinder cair, era a despedida do lobo. Dopinder fingia não estar triste com isso, já que ele ainda precisava passar por uma porção de testes antes de ser jogado dentro do campo de batalha de verdade, mas a cor de seus olhos o denunciava.
Assim como a emoção dos demônios aparecia em seus chifres – uma preocupação extra para Vanessa, que sabia que o vinho na cabeça de Wade significava que ele estava muito puto, a ponto de querer matar alguém – a emoção dos lobos podia ser traduzida em suas pupilas. Os olhos normalmente sempre castanhos de Dopinder, agora estavam decorando um azul claro e quase brilhante nas pupilas do lobo.
O clima estava tão esquisito que Ellie, o anjo mais esquisito daquela geração que nunca bebia, havia chamado a atenção de todos com um “tsssc” de uma latinha de cerveja sendo aberta por seus dedos.
— Alguém fala que eu estou sonhando. – Colossus perguntou coçando os olhos.
— Realmente é o fim dos tempos. – Dopinder comentou enquanto sua bebida, que anteriormente estava em sua boca, escorria por seu queixo de volta para o copo.
Wade se permitiu soltar tudo o que estava engarrafado dentro de seu peito através de um riso fino. Quatro cabeças se viraram para olhar para o demônio e notar uma leve mudança na cor de seus chifres, logo, a risada fina de Wade havia se transformando em algo mais alto e mais tempestuoso.
Uma gargalhada.
Os amigos não puderam se aguentar e rir juntos. A quanto tempo não ouviam Wade gargalhar daquele modo? O riso solitário de Wade ficou acompanhado da risada alta e esquisita de Colossus, assim como o riso discreto, porém irônico de Ellie; Dopinder os coroava com uma das risadas mais atrapalhadas, que se conectava com seus braços de alguma forma e ele passava a chacoalhar os braços como um dinossauro rex por algum motivo e, havia a risada de Vanessa, melódica, apaixonada, viva, algo que você desejava ouvir pelo resto da vida.
A sinfonia de risos foi tanta que o vizinho de Dopinder bateu em sua parede ressoando na casa do garoto, gritando para que eles calassem a boca.
O ato só reforçou o riso dos garotos. Em pouco tempo, a risada se mistura com música, mais bebida e o adorado pó de anjo de Wade, que apesar de ser um dos que mais consome a droga, ele não curte encorajar seus amigos a usarem com ele.
Eles se divertem da maneira que sempre fazem, algo alto, vivido e barulhento, como se fossem os donos do mundo. E aquela sendo uma ocasião de despedida, eles festejam com ainda mais afinco, a agressividade em suas ações só deixa explícito que aquela é a única forma que podem combater a raiva que sentem perante a guerra e perante aquele sistema.
Wade quebra garrafas vazias de bebidas com um taco de golfe do pai de Dopinder – que foi comprar um maço de cigarro e nunca mais voltou – enquanto Vanessa ensina Colossus a dançar em cima da mesa de jantar; Ellie que nunca tinha ficado bêbada antes, dorme agarrada a uma garrafa de vinho meio vazia, com o rosto sujo de vermelho e marrom, vinho e chocolate. Dopinder é o responsável por esvaziar as garrafas de vidro o mais rápido que consegue e joga-las na direção de Wade, que as quebra logo em seguida.
Apesar do barulho e do caos que a casa se torna, todos se sentem conectados, até mesmo a dormente Ellie, que se envolve em suas asas para não ser acertada pelos cacos de vidro das garrafas sendo estouradas ao seu lado.
Há gritos de vitória, uma cantoria malfeita junto da música que estoura na caixa de som e um ronco alto vindo do sofá. Os amigos se juntam para desenhar coisas na cara de Ellie, que nem mesmo acorda. Quando a fome bate, um entregador de comida japonesa precisa de ajuda para conseguir entregar toda a comida que quatro adolescentes em crescimento poderiam comer.
As caixas de sushi, temaki e yakisoba se espalham, agora vazias, pela mesa danificada pelos passos brutos de dança de Colossus. Os amigos se apertam em um sofá praticamente todo ocupado por uma Ellie que capotou novamente depois de comer dois rolinhos primavera.
Cansados, porém cheio e felizes, o grupo se contenta em ficar em silêncio por alguns minutos enquanto a última música de seu repertório toca. Wade toma o momento para fechar os olhos e quase imediatamente ele consegue relembrar a sensação do pescoço de Quentin sobre seus dedos.
Sua mão fecha em um punho com a lembrança. O que Peter tinha pensado sobre sua transformação? Ele nem mesmo teve a coragem de ficar para olhar para o castanho. Ele sabia que sua forma demoníaca era assustadora, ainda mais para aqueles que nunca o tinham visto daquela forma.
Wade não só era forte, sua transformação era uma das mais diferentes quando comparada com outros demônios. Era como se ele fosse de uma espécie completamente diferente. Uma espécie tão poderosa que dava até mesmo medo nos anjos.
“Estúpida transformação”, Wade praguejou em sua mente, quando sentiu o dedo de Vanessa no finco que havia se formado em sua testa.
— Agora eu posso saber porque você queria matar alguém quando chegou aqui? – A garota questiona já sabendo que esse provavelmente era o melhor momento para perguntar, já que Wade estava com a mente muito cheia de pó de anjo para conseguir mentir.
— Fui visitar os meus pais hoje. – Ele explica retirando o dedo dela de sua testa.
— Mas isso não faz sentido, seus chifres estavam em um vinho tão intenso, quando você vai visita-los, eles sempre voltam azu-
— Quentin Beck estava lá. – Wade interrompe a garota.
Um silêncio sepulcral os rodeia. Até mesmo Colossus, que normalmente não devia tomar partidos em brigas, não era o maior fã de Quentin e sua fama.
— Filho da puta. – Dopinder xingou em solidariedade ao amigo. – Me diz que você deu um soco naquele cara.
Wade abre um sorriso pequeno enquanto coça a nuca e Dopinder comemora.
— Ok, ótimo pra você, mas ele é parte importante do governo angelical, tem certeza que foi a melhor abordagem? – Colossus pergunta preocupado.
— Não. – Wade admite. – Foi estúpido, mas ele só...me deixa tão...eu quero matar ele.
— Garrafa? – Dopinder oferece quando Wade fecha as mãos em punho novamente, como se pudesse socar alguém.
Ele aceita de bom grado e joga a garrafa na parede, a espatifando. Um quadro cai no processo, e logo se pode ouvir o vizinho batendo na parede de novo, pedindo silêncio. O que ele recebe em resposta é um “Boooooo” de Vanessa.
— Não sei como ele ainda não mandou a polícia ainda. – Colossus fica admirado.
— Ah, ele é fichado. – Dopinder explica. – Nem se ele quisesse podia chamar a polícia para a gente, ia ser mais problema pra ele do que solução. Além disso, ninguém aqui no prédio gosta da polícia humana, eles metem o nariz onde não devem ser chamados com muita frequência.
Aquilo era verdade. Diferentemente de Wade, que apesar de ser um baderneiro, nunca tinha tido problemas com a policia humana, Dopinder – que não era nada comparado a Wade – vivia sendo perseguido pelos distintivos e armas humanas.
Os relatórios afirmavam que não tinha nada haver, porém Dopinder sabia que ele era alvo por conta de sua pele e por morar em um “local perigoso”. Não que ele tivesse muitas opções de moradia restantes, os lugares que ele podia pagar eram somente aqueles que envolviam ficar próximos de pessoas fichadas, como seus vizinhos, ou adentrar ainda mais próximos de pontos onde a criminalidade humana era intensa.
Não só o preconceito racial, mas Dopinder tinha a infelicidade de nascer como lobo.
Dentre a cadeia sobrenatural, lobos e vampiros eram vistos como mais baixos. Entre lobos e vampiros, lobos ainda assim eram inferiores. Apesar de muito parecidos, lobos eram considerados mais baixos pelo simples fato de parecerem mais humanos do que vampiros.
Wade achava a divisão uma bobagem gigantesca, mas o que ele podia fazer? Era só um demoniozinho odiado entre uma porção de anjos sentados no topo da cadeia tentando ao máximo afastar qualquer coisa impura de sua raça.
— Acho que isso é a única coisa que não vou sentir saudade daqui. – Dopinder conclui.
— Sua perda, porque todo mundo vai sentir saudade desse cantinho. – Vanessa fala o abraçando. – Aqui é o único lugar onde podemos ser nós mesmos.
“Ser nós mesmos.” Wade suspira só com o pensamento. Vanessa estava certa. Por mais que gostasse da Mansão e do Colégio, ele não era a si mesmo em nenhum dos lugares. Aqui, junto dos amigos em uma casa de dois cômodos em um “bairro perigoso”, era onde Wade podia ser quem quisesse.
E pelo Santo Lúcifer, como ele queria ser capaz de gritar a plenos pulmões que ser a si mesmo, significava também ser possível ter uma chance. Só uma chance.
Tirando as palavras contra seus pais, o que mais machucava Wade era perceber que ele não poderia. Não. Que ele NÃO PODIA sequer pensar em um futuro com o cara que ele gostava. Olhar para Quentin ao lado de Peter era o mesmo que constatar de novo e de novo que, não importava o que Wade fizesse, ao fim do dia ele sempre seria um demônio e sua chance nunca poderia chegar por isso.
O loiro sentiu um calor inexplicável subir por seu corpo, assim como sua visão ficar turva. Era assim que devia se sentir quando encarava a verdade? Seu coração pareceu apertar e depois disparar com força. O mundo girou e não havia nada em que Wade pudesse se segurar.
— Ugh. – Um barulho foi ouvido do sofá levando a atenção de Wade de seu mal-estar para uma garota careca se descobrindo de suas asas.
— Nossa finalmente a bela adormecida resolveu acord-
Dopinder não poder sequer terminar sua frase, pois Ellie vira a cabeça para olhar para ele – péssima decisão – e o movimento faz suas bochechas se encherem e logo toda bebida que ingeriu começar a sair nas calças do garoto.
— EEEEEW! – Vanessa reclama, enquanto Colossus ri e Dopinder fica congelado no lugar sem saber o que fazer.
— Aí minha cabeça. – Ellie reclama. – Onde a gente está?
Por um momento, os sintomas de Wade parecem acalmar e ele pode rir, deixando Peter e Quentin de lado em sua mente, se concentrando em ajudar uma amiga de ressaca e em se despedir de um amigo que não deveria partir.
[...]
No dia seguinte, Wade se arrepende de sequer ter aberto os olhos.
A segunda chegou mais rápido do que ele esperava. Dopinder já está acordado e com as malas prontas. A despedida é rápida, já que ninguém realmente quer ver Dopinder partir.
Se ele estivesse indo para uma colônia de férias, todos ficariam felizes de acompanha-lo, mas após o efeito do pó de anjo ter passado, Wade só consegue pensar que está mandando o amigo em direção a morte.
— Me espere vivo, ok? – Wade pede quando lhe dá um último abraço.
A sensação da noite anterior – o calor, a tontura, a visão turva e o coração batendo a mil por hora – é ainda mais frequente. Wade sente que está passando muito mal, mas tenta segurar da melhor forma que pode, até Dopinder entrar no táxi.
Quando o carro amarelo cruza a esquina se perdendo de vista, as pernas de Wade fraquejam e ele tem sorte de Colossus ser rápido ou teria caído de bunda no chão.
— Opa, o que aconteceu? – O pacificador questiona.
— Estresse? – Ellie questiona. – Duvido que seja ressaca.
Diferentemente de Ellie, Wade tinha uma tolerância gigantesca para qualquer bebida, a única coisa que podia derruba-lo era usar muito pó de anjo. Sendo um anjo, Ellie não se sentia necessariamente bem usando o pó, mas foi um pouquinho dele misturado com as bebidas que a apagou pela noite inteira no dia anterior, para se ter uma ideia do quão forte aquele tipo de droga era.
— Ele está com febre. – Vanessa conclui com a mão na testa do loiro. – Espera...que dia é hoje?
— 25, eu acho. – Ellie responde e logo entende. – Ow, eu achei que ele não tinha chegado lá ainda.
— A primeira vez foi mês passado. – Vanessa revela. – Eu não imaginei que a frequência dele já ia ser tão certeira.
— Pelo amor do Santo Xavier, do que vocês estão falando? – Colossus pergunta, completamente confuso e preocupado com o amigo meio desmaiado em seus braços.
— O Wade é um demônio mestiço, certo? – Ellie se dá ao trabalho de esclarecer. – É difícil descobrir qual será a especialidade de um demônio mestiço já que existem sete possibilidades.
— Acho que ele sabe disso, Ellie, o Piotr é inteligente.
— Desculpa, acho que ainda estou meio afetada por causa de ontem. – Ela aperta a ponta do nariz, se repreendendo. – Enfim, dos sete pecados capitais, se originaram os sete demônios principais¹ e como o pai do Wade era um incubo e sua mãe um demônio da ira, o Wade tinha a possibilidade de ser um íncubos ou um demônio da ira.
— Ah, saquei. – Colossus conclui.
Wade era tão promissor e especial, porque desde seu nascimento, suas características demonstravam que ele havia herdado mais do que um dos sete pecados capitais, o que devia ser impossível, mas em um mundo sobrenatural, quase nada é realmente impossível até que se prove o contrário.
Sua mãe sendo herdeira da casa da Ira, lhe dava a possibilidade de justificar o porquê de ser tão poderoso. Já que juntamente dos poderes de seu pai, um descendente da casa da Luxúria, Wade não havia escolhido uma ou outra, ele havia sido mesclado com ambos pecados, lhe fazendo ser um dos demônios mais poderosos já existentes.
E nesse momento, esse mesmo demônio havia acabado de entrar em seu segundo ciclo de desejo.²
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