Soul deep

3 Back To The Start


Notas iniciais
Olá! Desculpem mesmo essa demora para postar um novo capítulo, mas minha vida é tão corrida que eu mal arranjo tempo para sentar e escrever. Mas aqui está ele! E obrigada as que acompanham a fic, de coração ♥

Ele disse para irmos embora daquela cidade, dirigir para longe, além da multidão. Eu soube que nem os céus poderiam me ajudar naquele instante, mas também sabia que nada durava para sempre.

Encarei sua silhueta parado na frente de minha porta. Gabe era alto e sua beleza havia sido acentuada pelo ar de garoto mau que adotara. A jaqueta de couro, as botas, o jeans desgastado... Ele era tão mau, mas fazia isso tão bem.

Eu não poderia ir, ele não poderia ficar. Sabia que aquilo iria me fazer cair contra o chão gelado novamente, encarando a triste realidade que era não poder tê-lo por completo.

– Você tem que ir agora – as palavras que saíram de minha boca fizeram meu coração pesar.

– Eu sei – fora sua resposta.

Apertei a maçaneta gelada entre meus dedos. Olhei atenciosamente para a feição de Gabe com a intenção de que ela ficasse guardada em minha memória. Eu sabia que ele se lembraria de mim, nem que fosse em seus sonhos mais selvagens. Com isso em mente, fechei a porta.

Naquele momento, no corredor estava a pessoa que eu havia esperado com uma esperança cega voltar para mim, mas que por algum motivo se encontrava mais distante do que nunca.

MESES DEPOIS

Netherby, UK.

A estrada de terra fazia o carro tremer, o som estava quase no último e Peter cantava aos berros junto com a voz inconfundível de Ian Brown um dos maiores sucessos do The Stone Roses. A cicatriz que aquela cidade havia deixado em mim, havia se tornado justamente uma simples cicatriz, perdida em alguma parte de meu corpo, completamente esquecida.

Aos poucos a paisagem já conhecida foi aparecendo, o ar que ali era mais puro enchia meus pulmões. Estava feliz em voltar, pois o motivo que me trouxera até Netherby mais uma vez era maior que tudo o que já havia acontecido naquele lugar.

– Ainda falta muito para chegarmos à casa dessa sua tia? – perguntou meu amigo quando a música acabou.

– Você fala como se nunca houvesse ouvido sobre ela – falei rindo.

– De sua tia Sarah que mora com uma gata em um chalé nessa cidade cheia de hippies? Acredite, bem que eu queria.

Não demorou muito para que avistássemos o velho e bom chalé. Ao estacionar na frente, pude notar que muita coisa havia mudado. Para começar o jardim estava arrumado, o gramado estava verde e as flores mais vivas do que nunca. As paredes haviam recebido uma nova pintura e um balanço artesanal completava a decoração. Quando Sarah saiu por fim, percebi que a mudança não havia ocorrido apenas na casa. Ela parecia mais jovem, sua pele estava bem cuidada, seus cabelos reluziam como os de uma criança e seu sorriso refletia a fase completa de felicidade que vivia.

– Você nunca tinha me falado que sua tia era... So fucking pretty – cochichou Peter ao espiar pela janela.

Eu belisquei seu braço e ele logo levou a mão no lugar e passou a reclamar.

– Pare de chorar como um bebê e saia do carro. É hora de conhecer a tia Sarah!

Abri a porta do veículo e logo fui em direção a ela. Os passos que nos separavam pareciam marcados pelo tempo que passamos sem se ver.

– Mal posso acreditar que você está aqui – logo disse após me dar um forte abraço que demorado – Jenna Hudson, em Little Netherby, em minha casa mais uma vez. E tão crescida...

– De todos os lugares do mundo, esse é me preferido – falei em meio a um sorriso.

Tia Sarah me abraçou novamente e passou a mãos pelo meu cabelo. Ela então, só se deu conta da presença de Peter quando o mesmo pigarreou alto.

– Quem é seu amigo? – perguntou.

– Ah, esse é Peter. Peter Craig. Ele vai ficar aqui também, se não houver problema é claro. É inofensivo, eu prometo.

Sarah estendeu a mão para cumprimenta-lo e o mesmo retribuiu o gesto de maneira muito mais sugestiva, até mesmo para um simples aperto de mão.

– Inofensivo é coisa dela – disse ao puxar um sorriso no canto dos lábios.

Eu rolei os olhos não acreditando no que eu estava vendo. Peter estava descaradamente dando em cima de minha tia.

– E onde está o Kai? – perguntei.

– Não sei, em algum lugar da Índia, provavelmente – respondeu indiferente – Não nos vemos há três anos.

Eu sempre soube que aquele relacionamento nunca daria certo. Não que eu fosse uma das maiores entendedoras do assunto, muito menos que acreditasse que o amor possuía um manual de instruções, mas não conseguia ver vida em uma relação onde apenas um doava-se ao máximo enquanto o outro apenas sugava e se alimentava da paixão ao assistir o coração alheio enfraquecer.

Mas se havia males que trazem o bem, aquele fora um deles. Sarah estava feliz por dentro e por fora.

Estava eu, Peter e minha tia tomando uma xícara de chá na cozinha, que também passara pela reforma que havia ocorrido no chalé. Nós falávamos sobre a tarde em que a identidade de M.J. Wittlemore iria finalmente ser revelada. Meus livros iriam ter um rosto para serem associados.

– Por que agora você resolveu fazer isso Jenna?

Eu suspirei uma, duas, três vezes.

– Eu estou cansada de sentir vergonha do que eu sinto. Pessoas se identificam com aquelas palavras nas páginas, então, por que logo eu que as escrevo deveria se esconder nas sombras?

Os dois concordaram com um aceno.

– Bem, eu entendo. Mas caso mude de ideia, só anunciei a chegada de exemplares novos no sebo. É sua escolha aparecer lá ou não.

Eu não mudaria de ideia. Havia pensando naquilo por tanto tempo, não existia porque mudar de ideia tão perto do momento crucial.

– De qualquer modo, ainda tenho um dia inteiro antes de isso acontecer. Agora eu preciso ver o que mudou por aqui, Peter você vem comigo?

– Sabe Jenna, eu estou cansado acho que vou ficar por aqui e tomar um banho... – em nenhum momento da frase ele desviou os olhos de Sarah.

– Você é inacreditável – meu tom era sério, mas foi como se eu falasse com as paredes.

– Ah, antes que eu me esqueça – Sarah se levantou, foi até a geladeira e arrancou um post-it que estava grudado na porta – Charlie me deu isso, ele está na cidade e pediu para que você fosse visita-lo quando chegasse. Aqui está o endereço.

Eu peguei o pedaço de papel de sua mão e acenei com a cabeça.

– Legal, eu vou dar uma passada lá. Vejo vocês mais tarde.

...

Estacionei o carro na frente de um prédio de dois andares feito de tijolos laranja, tal lembrava a arquitetura clássica do famoso bairro de Nova York, Brooklyn. Saí do veículo e adentrei o lugar. Segui uma escada que levava ao segundo andar e ao ver o número na porta, o mesmo que estava no bilhete, bati três vezes na madeira que era pintada de um verde escuro.

Vi a maçaneta girando e parei de respirar assim que a porta se abriu. Ali estava ele.

Gabe.

Ficou pálido como se houvesse visto um fantasma. Seus lábios estavam entreabertos, seus olhos mostravam a aparente confusão. Nunca pensara que o passado iria bater em sua porta naquela manhã nublada.

– Jenna... O que você está fazendo aqui? – sua voz tremia.

– Charlie está em casa? – perguntei indiferente.

– Sim, mas...

– Você pode chama-lo?

Gabriel abriu a boca para falar algo, mas logo desistiu. Ele deu um passo para trás e fez menção para que eu entrasse. E assim o fiz.

– Ele está no quarto, vou chama-lo para você.

Enquanto ele desaparecia em um corredor, passei os olhos ao meu redor. O lugar era bem espaçoso e iluminado. Pensei que seria legal viver ali.

– Charlie está vindo, acabou de sair do banho – falou Gabe ao voltar.

– Obrigada – o agradeci.

Um silêncio constrangedor se seguiu. Gabriel não tirava os olhos de mim e eu só conseguia fitar o chão sob meus pés.

– Então, Jenna... O que te trouxe para nossas terras?

– Eu – engoli seco – Eu vim com meu amigo Peter, tenho um compromisso aqui e aproveitei para visitar Charlie. Sarah me passou o endereço, eu não sabia que você estaria aqui se não...

– Não fique preocupada, isso não me incomoda. É um prazer recebê-la em minha casa.

Senti minhas bochechas corarem. Acho que minha tia devia ter mencionado o fato de que Gabe morava naquele endereço.

– E que tipo de compromisso você teria para fazer aqui? – perguntou.

Eu estava prestes a inventar alguma desculpa qualquer quando Charlie apareceu para me salvar.

– Jenna! – me cumprimentou calorosamente com um abraço – Que bom que você veio.

– Eu teria que aparecer alguma hora, não é? – ri.

Ouvia o que Charlie falava, mas estava prestando atenção em outra coisa. Pelo canto do olho, observei Gabriel se afastando e pegando uma jaqueta preta que estava jogada no sofá, ao se virar, tirei imediatamente os olhos dele.

– Eu estou indo agora, Charlie – avisou – Alice já deve estar me esperando.

– Tudo bem, até mais – despediu-se.

Ele saiu sem mesmo me dar um simples “tchau”.

Tchau Jenna, foi um prazer revê-la – murmurei quando Gabe fechou a porta.

– Não se preocupe – falou Charlie – ele ainda está muito frustrado com tudo o que aconteceu. Você não tem ideia do quanto ele ficou mal Jenna.

– Não devo ter mesmo, afinal, eu só o esperei por quatro anos – ri irônica — E quando finalmente nos reencontramos, ele havia se tornado um completo idiota.

– Não fale assim dele. Você sabe que não é bem assim...

– Seja como for, não quero mais falar sobre isso.

Charlie concordou. Mas então, percebi que eu ainda não sabia de uma coisa.

– Só uma pergunta: Quem é Alice?

Ele me olhou nervoso e mordeu o lábio. Não era preciso nem uma palavra.

Eu já havia entendido o que estava acontecendo.