Soul deep
4 What A Strange Night
Estávamos no velho e bom café, enquato uma fina garoa caía lá fora molhando a vidraça. Encarava o céu cinza e mil coisas se passavam por minha cabeça. Afinal, o que eu esperava? Uma inocente parte de mim torcia para que minha relação com Gabe voltasse a ser como fora um dia, mas o meu eu racional não se surpreendera ao saber que ele havia arranjado uma outra pessoa.
Sentia um aperto no coração, mas não era tristeza. Era raiva dos caminhos sinuosos do destino.
— Você ouviu alguma palavra do que eu disse?! — perguntou Charlie estalando os dedos em minha frente para chamar minha atenção.
Desviei meu olhar para ele rapidamente e concordei com um aceno.
— Eu também acho Oasis um pouco superestimado.
Meu amigo encarou-me por alguns instantes em silêncio, mas logo voltou com seu monólogo aleatório, até que então eu o interrompi fazendo-lhe uma pergunta:
— O que o pessoal de Netherby acha de M.J. Wittlemore?
Ele ficou perdido por um segundo, entretanto não demorou para que processasse a pergunta.
— M.J.? Seus poemas são famosos por aqui, principalmente entre o pessoal mais underground e hippie. Eu pessoalmente os acho geniais. Verdadeiros, do tipo que consegue-se sentir a emoção.
Eu murmurei algo como um 'aham' e voltei-me a tomar meu café, que já esfriava.
— Você veio para cá por isso?
— Isso o quê?
— Para descobrir quem é M.J. Wittlemore.
Sorri com o canto dos lábios em meio á um gole.
— É, tipo isso.
Voltamos a conversar quando finalmente minha cabeça havia voltado da lua. Ele me explicava como havia decidido seguir com a música enquanto Freddie — quem diria?! — decidira levar uma vida acadêmica. Os Bad Trippers estavam indo bem, faziam alguns shows em Londres e região. O público parecia e gostar e Charlie estava mais feliz do que nunca.
— E como andam as coisas por aqui?
— Bem, o de sempre. Tranquilo, a mesma poeira de sempre. Mas o festival está á cada ano melhor.
— É, fiquei sabendo. É verdade o que ouvi sobre Catfish And The Bottlemen?
— Sim. Eles irão tocar aqui esse ano. Estão só no começo, mas já são muito bons.
— São mesmo.
— Eu posso te apresentar á eles se quiser....
— Sério?! Seria incrível — provavelmente abri um sorriso maior do que deveria.
— Sério — Charlie riu de minha expressão.
Nosso momento descontraído ía muito bem até que o sino da cafeteria tocou e vi o garoto à minha frente torcer o nariz para quem quer que houvesse chegado. Virei-me para trás para enxergar quem deixara Charlie com tal expressão e tudo que vi foi uma garota ruiva que usava um sobretudo azul escuro e botas até o joelho. Eu podia jurar que ela saiu direto de um editorial da Vogue e que tinha milhares de seguidores nas redes sociais.
— Quem é? — perguntei ainda rindo.
Ele tentou balbuciar algo, mas antes mesmo que respondesse a garota virou-se em nossa direção.
— Olha só quem está aqui?! — ela disse sorrindo — Faz um tempinho que não o vejo, Charlie.
— Pois é — sorriu torto — Ando com tão pouco tempo, a banda e tudo...
— Eu posso imaginar... Um rockstar em ascensão.
Ela riu e eu cansada de ser ignorada pigarreei alto. A garota ruiva então desviou seu olhar para mim e me analisou dos pés á cabeça.
— Ah, Jenna — Charlie começou — Esta é Alice. Alice, esta é Jenna.
Alice. Como uma menina perdida, caiu na toca do coelho e veio parar bem na cafeteria naquela exata tarde chuvosa. E o pior de tudo: era a Alice de Gabriel.
— Muito prazer — disse educadamente — Nova por aqui?
— Mais velha do que imagina.
Ela abriu a boca para falar algo, mas parou no meio do caminho.
— Jenna é uma velha conhecida de todos. Pelo menos do pessoal do sebo, minha e da família Netherby.
Alice arregalou os olhos surpresa.
— Então você conhece os Netherby?
— Sim.
Era claro no rosto dela que queria perguntar se eu conhecia Gabriel, mas ao invés disso simplesmente trocou de assunto.
— Tenho que pegar os cafés e ir. Gabe está esperando no carro. Vejo você a noite?
— Claro. Ah, avise Gabe que deixei as chaves de casa no esconderijo. Ele as esqueceu novamente para variar...
Ela concordou e após se despedir nos deixou a sós novamente.
— Encantadora — murmurei.
Ele me encarou questionador e pude perceber que o mesmo achava que eu havia sido sarcástica.
— O quê? Falo sério. É claro que ela me parece um pouco perfeita demais para alguém como ele, mas ela é legal.
— Uhum. De qualquer modo, você irá ao gig hoje á noite.
— Isso foi um intimato? — arqueei a sobrancelha.
— Sim. Minha banda irá tocar hoje e você irá ir.
Com o passar das horas a chuva foi diminuindo, mas seu rastro estava por toda a cidade. Algo naquelas calçadas molhadas me parecia nostálgico e por um momento poderia jurar que estava em um filme. Peter estava comigo e caminhávamos sob o céu escuro até o local onde a banda de Charlie iria se apresentar. Era uma casa de shows e a fila de pessoas se estendia em frente à entrada do local. Estava ansiosa, porém meus pés pararam no meio do caminho.
— O que foi? — perguntou meu amigo.
Encarei o chão por alguns segundos. Estava com frio na barriga e meu coração parecia pesar em meu peito.
— Ele vai estar lá. Gabe vai estar lá com outra garota.
Peter me olhou triste. Não sabia o que dizer, mas me abraçou docilmente.
— Deus, eu sou patética.
— Você não é patética — disse segurando minha mão — Você é Jenna Hudson e M.J. Wittlemore. Quem mais pode ser duas pessoas ao mesmo tempo?
— Alguém com sérios problemas de personalidade?
Ele riu de meu comentário e me puxou em direção à entrada.
Para a nossa sorte, ser amiga do vocalista da atração principal tem lá seus privilégios. Apresentamos os nossos passes e conseguimos entrar sem ter que esperar na fila. A casa já estava cheia de pessoas bebendo e dançando ao som de The Cure. Peter se perdeu na multidão e eu inconscientemente olhava para todos os lados à procura de Gabriel, mas para minha surpresa foi ele quem me achou.
— Eu devo dizer — seus olhos foram dos meus pés à minha cabeça — você está ridiculamente linda.
Senti minhas bochechas corarem.
— Devo levar isso como um elogio?
Gabe não disse nada. Apenas ficou me encarando com um sorriso no rosto.
— Queria ficar e conversar, mas minha namorada está me esperando — apontou para onde ficava as mesas.
Engoli seco e devo ter feito uma cara feia, pois ele me olhou confuso. Balancei a cabeça indicando que não era nada.
— Charlie deve ter dito que tenho uma...
— Gabe, você não precisa se explicar — o interrompi — Eu a conheci na verdade, ela parece ser adorável apesar de...
Apesar dela ser um pouco metida.
Parei no meio da frase, é claro. Entretanto, insistiu.
— Apesar de?
— Nada. Ela só não parece seu tipo.
Me arrependi de minhas palavras no momento em que Gabriel me olhou torto. Abri a boca para me desculpar, mas ele foi mais rápido.
— Você acha que ela parece ser superficial?
Deixei um suspiro escapar. Ele tinha ficado tão irritado assim?
— Não foi isso que eu quis dizer...
— Eu sei que foi isso o que quis dizer — seu tom havia subido — Todo mundo diz isso. Mas me surpreende que você ache isso, não muito tempo atrás pelo o que eu me lembre você era assim como ela. Só porque agora você acha que é intelectual e ouve bandas independentes não precisa menosprezar os outros.
Arregalei os olhos e arqueei as sobrancelhas.
— Nossa, você realmente está exagerando um pouco. Eu fiz algo que te deixou chateado ou coisa assim? — falei na defensiva.
Gabriel parecia impaciente. Botou as mãos no bolso da jaqueta de couro e deu de ombros.
— Quer saber? Esquece.
Simplesmente assim, ele me deu as costas e saiu andando para o meio das pessoas. Fiquei paralisada onde estava tentando entender o que havia acontecido.
As luzes então se apagaram e me virei em direção ao palco. Pouco tempo depois Charlie apareceu, segurava uma guitarrava e posicionou-se em frente ao microfone. Quando a euforia diminui, usou o momento para anunciar a primeira música.
— Esta é uma canção nova e foi feita para alguém muito especial para mim — ele então olhou diretamente para o ponto em que eu estava — A música se chama Sweet Jenna.
Ao ouvir as palavras, pude jurar que meu sangue havia parado de circular em minhas veias.
Olhei em direção as mesas e vi Gabe junto com Alice, mas ele não olhava para ela. Me distraí por um momento quando Charlie começou a cantar e quando o procurei de volta, já não estava mais lá.
Aquela noite não poderia ficar mais estranha.
Fale com o autor