Notas iniciais
Enjoy yourselves.

[Crônica 1] – Neriah Archenckowitz / Fada Azul / Suicide Killer

“Em tempos de revolução, cuidado com a primeira cabeça que rola. Ela abre o apetite ao povo.” (Victor Hugo)


- 15 mil por cabeça. — estabeleceu Bo, categórico. — Isso é o suficiente pra iniciar a conversa. Mas dependendo do tipo de serviço, como você sabe, haverá adicionais.

A garota estava debruçada no balcão, com os olhos fixos em Bo. Apenas uma luminária estava acesa, bem acima da cabeça dos dois homens à meia distância. O resto do estabelecimento estava imerso na escuridão, assim como o lugar onde a menina estava. Ainda assim o azul violeta dos olhos dela queimava na penumbra. Havia neles uma expectativa contida.

O homem sentado mais além no balcão, de costas pra ela conversava com Bo. Estavam iniciando uma sociedade.

- Eu já conheço o processo, Herald. Há quanto tempo eu estou nessa com você?

Bo estava bebendo uísque em um copo de vidro grosso.

- Eu pensei que você estava fora da ativa... — continuou o homem — Mas é bom saber que você está de volta e me quer na equipe.

Bo deu um sorriso seguido de um gole na bebida.

- Eu já estou muito gasto e o serviço é pesado... Sou apenas um manager agora.

- E quem vai fazer o trabalho além de mim, então?

Bo apertou os olhos.

- Eu confio em você há muito tempo, Clevon... Mas preciso de você apenas pra parte técnica, agora.

- Como é? E quem vão ser os homens de campo, então? Fale logo!

Ele fez um sinal com o copo pra menina às costas do homem. Debruçada do jeito que estava parecia ainda mais jovem. Os cabelos ruivos caiam sobre os ombros, tão lisos e tão sedosos que não precisavam de muita luz pra brilhar. Os olhos que agora estavam cravados no homem eram inocentes demais pra ser de uma assassina. Ela não parecia ter mais do que 15 anos.

- Como é? Essa garota?– Ele se virou para Bo, num gesto claro de que estava deixando a menina fora da conversa. Havia um misto de surpresa e indignação na voz dele. – Você não pode estar falando sério... É só uma criança! Ela nem consegue segurar uma faca direito!

Os cantos da boca de Bo se esticaram num sorriso sombrio.

- Ela é uma imune. Ela não precisa de facas, parceiro.

Ao ouvir o homem chamá-la de criança, a garota levantou. De repente havia algo além de seus olhos brilhando na escuridão. Era uma pistola prateada que parecia muito mais pesada do que ela conseguia carregar. Ela deu a volta no balcão, entrou, segurando a pistola, e se postou ao lado do Bo, que acendia um cigarro com um isqueiro prateado. A expectativa tinha sido substituída por uma determinação estranha... Ou uma espécie de desafio?

Neriah Archenckowitz puxou o ferrolho da arma produzindo um estalo que ecoou no bar vazio como uma provocação. De repente ela não parecia mais tão infantil.

- Confie em mim, sócio, os negócios vão pra frente... – disse Bo expelindo a fumaça pelo nariz e pela boca com um prazer contemplativo – O serviço continua garantido como sempre.

15 de outubro de 5845, 22h15min, Zona Oeste de Nebula.


A cidade estava uma desordem naqueles dias nebulosos. As pessoas podiam sentir a tensão por baixo do asfalto das ruas, crescendo do subsolo, como estática, avivando. Arrepiando os cabelos da nuca.

Vista de cima, Nebula era perfeita. Silenciosa. Linda. Parecia estar congelada no tempo e no espaço.

Uma garota observava a noite da cobertura de um dos mais altos prédios da cidade. Ela devia ter seus vinte e poucos anos e de lá, ela podia divisar tudo ao redor: além dos incontáveis edifícios civis, o prédio do governo, do exército, o antigo palácio real, o centro comercial, e mais à frente, a chefatura de polícia. As luzes da cidade pareciam pedaços de estrelas, amarelas, tremeluzindo à distância, até onde se perdia de vista. No céu límpido e cristalino, se via, ao fundo, próximo à linha do horizonte, um halo de luminosidade que subia da Metrópole dos Ratos.

Não era sempre que se podia ver um firmamento tão espetacular. A poluição constante borrava o céu e os pulmões dos habitantes de Nebula. Ela não conseguia nem se lembrar da última vez que vira o céu tão bonito.

Muitos metros abaixo de seus pés havia um trânsito infernal. Devia estar barulhento lá embaixo, mas ali, muitos metros acima do solo, ela só podia sentir o vento gelado e o silêncio da noite, transmitindo-lhe uma vaga sensação de vazio.

A garota retirou um rifle de precisão recém montado de dentro de uma bolsa escura, que ela chutou pra um canto. Apoiou-o sobre a clavícula, destravou-o com um clique baixo e fez mira, apontado em um ângulo perigoso para baixo.


Com um silvo, o transformador de um poste de luz muito abaixo explodiu.

Menos de uma fração de segundo depois, a menina voava, braços e pernas soltos pelo ar, caindo feito uma borboleta de asas despedaçadas.

"Então é assim que os suicidas se sentem?" pensou. "Pelo menos eles morrem tendo uma sensação maravilhosa."

Ela abriu os olhos e as estrelas continuavam lá, fulgurando. A resistência do ar impulsionava seus braços e pernas para frente, e o vento fortíssimo transformava seu cabelo numa enorme bagunça. Aproveitando ao máximo aquela sensação de liberdade e já sabendo que ela em breve acabaria, e que não acabaria bem, com um movimento suave ela girou o corpo e começou a cair de barriga. Ela achou que as avenidas, vistas de cima, pareciam veias, pulsando, brilhantes, com o fluxo ininterrupto de carros fluindo. A cidade estava viva. Mas por quanto tempo?

Os capôs dos carros começavam a se aproximar cada vez mais depressa. Era o fim.

Então, uma súbita queda de gravidade; com um solavanco, o corpo dela fez a trajetória contrária — como se tivesse abrindo um pára-quedas invisível — e ela estancou no ar, à uns dez metros do chão, pairando alguns instantes sobre o trânsito. O som do vento que enchia os seus ouvidos durante a queda foi substituído pelo caos das buzinas. Ela começou então a descer graciosamente no meio daquela balbúrdia, como uma pluma, bem no momento em que o sinal abria.

Quando seus tênis tocaram asfalto sujo do cruzamento da Tenth Avenue com a Backleberry Street, no pequeno espaço entre dois carros a confusão estourou.

As luzes dos postes começaram a piscar, freneticamente antes de apagarem de vez, com um zumbido de inseto gigante. O céu, que estava limpo, começou a ser fechar instantaneamente. Os cabelos loiros da menina começaram a se erguer, eletrizados e num piscar de olhos, ouve um clarão. Dois carros emparelhados ao lado dela voaram por cima dos carros vizinhos com o impacto do raio que caiu ali. O barulho do trovão foi suprimido pelo ranger dos metais dos carros.

A aparição da garota no meio do trânsito, a explosão do transformador de energia e o subseqüente raio que caiu no meio dos carros já foram suficientes para causar alguns engavetamentos. A escuridão repentina e o desligamento dos semáforos cooperaram para que um verdadeiro pandemônio se instalasse. Houve gritaria e corre-corre, todos tentando ir pra mais longe possível do estranho fenômeno. Ela aproveitou a confusão de motoristas e passageiros fugindo dos carros próximos para se escafeder dali. Enquanto acotovelava a multidão para passar ouviu alguém comentando que o blecaute tinha sido causado por interferência eletromagnética. Outros falavam de um ataque terrorista... Os Imunes que estavam de volta. Havia gente tentando ligar pra polícia, mas os celulares não funcionavam. Baterias desmagnetizadas.

Um dos carros envolvidos na batida explodiu, gerando um clarão alaranjado e uma movimentação ainda maior na multidão. Então ela ouviu as sirenes dos carros de polícia e dos bombeiros, várias viaturas, pela barulheira que faziam.

Tudo estava correndo rigorosamente dentro dos planos. O trânsito estava completamente parado, num raio de duas quadras. Finalmente conseguiu sair da avenida, do meio das pessoas e se afastou pela Backleberry Street.

Olhando-a caminhar no meio do fluxo de passantes que trafegava àquela hora pela rua (a maioria correndo em direção ao cruzamento para ver o que diabos estava acontecendo) não se percebia nada de diferente maioria além da direção que estava tomando. Vestindo um casaco escuro e pesado, as únicas coisas que se destacavam na figura eram seus coturnos pesados, de cano curto e a basta cabeleira loira que caia sobre os ombros. Ela sabia se esconder bem em meio à multidão.

Depois de alguns minutos, a energia voltou provida de um gerador de emergência, restabelecendo boa parte da iluminação dos prédios e da rua. Tudo perfeitamente cronometrado. Logo à frente, a menos de seis metros, se erguia o imponente Imperial Hotel.

Ela enfiou mais as mãos nos bolsos do casaco e galgou a escadaria de mármore branco do luxuoso hotel. No saguão, uma verdadeira balbúrdia. Os ruídos se misturavam em uma cacofonia sons e entonações vocais dos hóspedes assustados e irritados. A garota atravessou o saguão e se dirigiu imediatamente em direção ao elevador. Havia tanta bagunça no ambiente que ninguém percebeu aquela menina que entrava no elevador, apertando o botão do 25º andar.

A porta se abriu no andar indicado e entrou no elevador um homem bigodudo e muito gordo. Ele usava óculos, e estava vestindo um robe meio justo para o seu tamanho por cima do pijama, alpercatas brancas e suava em bicas. Parecia ter sido surpreendido pelo blecaute no meio do seu lanchinho noturno, por que tinha pasta de amendoim grudada no bigode e farelo de pão espalhado pela enorme pança.

Olhou de esguelha para a garota no fundo do elevador. Ela sorriu pra ele, que esboçou uma careta por debaixo do bigode que achou que podia parecer com um sorriso. Passou a mão na careca oleosa, puxando pra trás os últimos fios grisalhos que não tinham desertado ainda, visivelmente nervoso.

- Pode apertar o quinze pra mim, por favor? — a garota se dirigiu a ele.

Ele apertou meio contrariado e esperou. A menina loira olhou para cima, e o ponteiro do elevador estava no 23º andar.

- Doutor Pope? — Ela chamou-o mais uma vez.

O homem gordo fez uma cara de quem não entendeu. Apertou os olhos inchados de insônia.

- Eu tenho uma entrega para o senhor...

Ela enfiou a mão do casaco e de um coldre interno sacou uma enorme pistola prateada; O médico arregalou os olhos ao ver a menina apontar, bem no meio das sobrancelhas, aquele canhão que em sua mão pequena parecia ainda maior. Vendo a cara de espanto dele, a menina sorriu.

- Acalme-se. Eu não pretendo matá-lo com isso aqui... Seria desperdício de balas. É só pra garantir que você não vai ter nenhuma reação inesperada... Pra caras nojentos como você eu guardo meu segredinho especial.

Então, sorrateiramente, o gorducho levou a mão a um cordão prateado escondido dentro do robe. Apertou o pingente, em formato de uma serpente enrolada em uma espada, e ele começou a brilhar, depois de um leve click.

- Tsc, tsc, tsc... Seu cordão de pânico não vai funcionar, Doutor... A polícia está muito ocupada lá embaixo. Sabe como é né, o blecaute, os acidentes... As ruas estão bloqueadas... Acho que eles vão demorar um pouquinho pra chegar até aqui...

A garota loira tinha o olhar incrivelmente vazio quando largou o corpo no chão, um enorme saco de banhas, que despencou no exato instante que a porta se abriu no 15º andar. A cabeça do homem, redonda como a lua e vermelha como um tomate pendeu pra um lado; havia baba escorrendo no canto da boca retorcida num esgar de dor.

Ele morrera eletrocutado. O coração fraco tinha sido despedaçado por um infarto.

Ela não se deteve muito olhando a cena. Apertou o botão do térreo, mantendo a porta aberta e depois deixou o elevador social e foi pelo elevador de serviço até o terraço do prédio. Ao chegar lá, deu uma boa olhada ao redor — a cidade continuava, viva, pulsando. Uma enorme coluna de fumaça se erguia à oeste, no cruzamento da Backleberry com a Tenth.

Ela sorriu, sentindo o coração desacelerar lentamente. Puxou a cabeça para trás, arrastando com dificuldade a peruca loira que escondia seus cabelos, junto com uma película adesiva ultra forte. Faíscas de cobre dançaram no ruivo do cabelo dela. Enquanto removia os grampos que o prendiam, reparou que uma tempestade se começava a se formar logo acima do lugar onde o raio tinha caído e começava a manchar o horizonte brilhante de Nebula – culpa do seu magnetismo.

Neriah gostava de chuva. De ouvir a chuva, de sentir a chuva, de cheirar a chuva.

Ela retirou as luvas rapidamente e as guardou no bolso. Olhou pra mão, que ainda tremia, em espasmos causados pela descarga elétrica. Os dedos estavam escuros na ponta. Seus nervos latejavam, do braço direito até o meio da coluna e então na cabeça, feito fitas de dor. Olhando pra mão aberta, ela quase podia descrever a rota de cada um por dentro da carne.

Sentia-se suja. Precisava urgentemente de um banho.

- Clevon, na escuta? Entrega feita sem interferência. – ela falou pra um fone que saia de seu casaco.

Fechou as mãos em dois punhos apertados e saltou pro telhado do edifício mais próximo, sumindo na escuridão, no momento que ouviu sirenes de polícia se aproximarem do prédio.

Bo Herald vivia uma vida dupla: era o cozinheiro e dono do bar Quatro Asas. Devia ter pra lá dos seus 50 anos e sua estrutura física se assemelhava a dois ovos: o que compunha a cabeça era quase completamente desprovido de cabelos na parte superior. O que tinha restado da basta cabeleira castanha dos seus tempos de juventude agora caia em mechas finas e um tanto arrepiadas, que ele costumava a manter presas numa trança longa, compondo um visual pra punk nenhum botar defeito.

O ovo que era o corpo estava costumeiramente de avental, isso se ele estivesse nos fundos do bar, na cozinha. Lá, era o seu santuário e absolutamente ninguém tinha a permissão de entrar caso ele não estivesse presente. Era na cozinha que ele guardava a sua adorada coleção de facas e cutelos, que manejava com a habilidade de um atirador de facas de circo.

Aliás, aprimorar a própria mira era a sua maior paixão depois da gastronomia barata que oferecia a seus clientes.

Quando não estava na cozinha, seu habitat sagrado, Bo estava disputando nos dardos com quem quer que estivesse disposto a apostar. Nessas ocasiões ele estava sempre vestindo suas camisas de gosto duvidoso — leia-se excessivamente estampadas – em pavoroso dueto com o costume branco completo.

O estabelecimento o qual lhe pertencia, o supracitado Quatro Asas era igualmente notório: Apesar do nome lhe conferir uma imagem de flutuante, aéreo, ele se localizava no porão de um prédio velho de dois andares, na esquina da Rua Sheer com a Seventh Avenue, no bairro Ohatsu. O "pé-sujo" era famoso entre os seus freqüentadores — os perdedores, os azarados e os desocupados — por oferecer o melhor peixe com fritas da cidade. Era nesse ambiente predominantemente masculino que Neriah Archenckowitz morava.

Neriah trabalhava como garçonete, balconista reserva – o balconista e barman oficial se chamava Clevon Marshall, um homem alto, beirando a meia idade, de cabelos loiros e uma trança longa – e também era responsável pelas entregas dos pedidos feitos pelo bar, tanto os comuns quanto os especiais.


Além de um bar, restaurante e ponto de encontro para os desocupados de Nebula, no Quatro asas ocorriam outros tipos de negociações; Resumindo, o telefone do bar funcionava tanto para encomendar uma porção de macarrão com queijo quanto uma morte acidental pra um mafioso.


Nos tempos áureos, Bo fazia os serviços. Altamente requisitado, o ainda jovem atirador de facas tinha de selecionar os trabalhos que deveria fazer. Mas, como fazem a maioria dos artistas mais brilhantes, Bo, quando estava em seu auge, se aposentou por motivos desconhecidos. O bar Quatro Asas tornou-se um bar comum.


Somente cinco anos depois, o bar retornou às atividades, logo depois da chegada de Neriah.


Era pra este Quatro Asas que Neriah voltava, correndo por cima dos telhados, sentindo as primeiras gotas da chuva bater no rosto, lavando-o.



Notas finais
Logo logo saí o próximo.
Acompanhem e deixem reviews!