Sortilégio...
6 Capítulo 6 STAYIN ALIVE
Notas iniciais
Well, you can tell by the way I use my walk
I'm a woman's man, no time to talk
Music loud and women warm,
I've been kicked around since I was born
And now it's all right, it's okay
you may look the other way
We can try to understand
The New York Times' effect on man
Whether you're a brother or whether you're a mother
You're stayin' alive, stayin' alive
Feel the city breakin' and everybody shakin'
And you're stayin' alive, stayin' alive
Ah, ah, ah, ah, stayin' alive, stayin' alive
Ah, ah, ah, ah, stayin' alive
Você pode dizer pelo meu jeito
Que eu sou um homem das mulheres, sem tempo de falar
Música alta e mulheres quentes
Eu tenho sofrido desde que nasci
E agora está tudo bem, tudo bem
E você pode olhar para o outro lado
Nós podemos tentar entender
O efeito do New York Times no homem.
Se você é irmão ou se você é mãe
Você está vivo, está vivo
Sinta a cidade agitando e todos dançando
E você está vivo, está vivo
Ah, ah, ah, ah, estamos vivos, estamos vivos
Ah, ah, ah
O jovem caminhava balançando o corpo, ao som de um hit dos anos 70 e chamava a atenção com seus longos cabelos loiros, corpo esguio e uma beleza sensual nos traços simétricos que não deixava dúvidas sobre sua origem.
Era grego, despojado e livre, uma espécie de cigano urbano como enfatizava seu melhor amigo Mu, outro jovem exótico que funcionava como uma âncora nos momentos em que a sua ânsia por liberdade tomava proporções além da conta...
As coxas grossas e torneadas estavam cobertas por um jeans surrado e com rasgos propositais que deixavam ver partes da pele bronzeada. A camiseta justa na cor vermelho vivo evidenciava um tórax bem proporcionado e tinha “Gipsy king” escrito em preto bem no meio do peito. Botas de couro pontiagudas em estilo caubói e na cor marrom completavam o visual e ele sorria, cada vez que a voz peculiar do cantor pronunciava stayin' alive.
Milo Karedes parou e olhou a fachada da agência de empregos temporários. Ajeitou a mochila que trazia nas costas, apertou o estojo de seu violino, tirou os fones de ouvido e inspirou fundo. Precisava de dinheiro depois de torrar tudo o que restara da sua herança na compra daquele violino. E que violino! Não sentia um pingo de arrependimento, mesmo que aos olhos de todos tivesse feito a maior loucura da sua vida.
Arrematar um violino cigano em um leilão de antiguidades por aquela fortuna teria matado seu tio do coração se ele já não tivesse morrido de cirrose, dois anos atrás.
Ainda era capaz de sentir a vibração em seu peito quando vira aquele instrumento e o tocara com as pontas dos dedos, sentindo a tensão das cordas e outra coisa tão forte que só percebeu que tinha trancado sua respiração quando o leiloeiro sorriu dizendo: “Bela peça, não? Pertenceu a um cigano do século XVIII e manteve-se inteiro durante todo esse tempo. É uma raridade que eu teria oferecido ao seu tio, mas como ele já não se encontra entre nós, achei que gostaria de adquiri-lo.”
Bem, agora o bicho vai pegar! Disse Milo para si mesmo ao entrar na agência e deparar-se com um imenso formulário para preencher e um funcionário de má vontade que parecia mais interessado em conversar ao telefone, que atendê-lo.
— Estou atendendo uma ligação importante e vou continuar na sala ao lado. Toque a campainha quando terminar de preencher e um dos nossos entrevistadores o atenderá. – disse o funcionário com ares de superioridade antes de levantar-se e deixá-lo ali com um formulário de cinco páginas para completar.
Milo se esforçou para segurar a língua e não responder com um palavrão para o funcionário antipático. Retornou ao questionário e decidiu responder às questões antes que terminasse o dia.
Marque a opção que mais se ajusta a sua personalidade:
A) Ambicioso, não mede esforços para atingir as suas metas de eficiência e sucesso profissional.
B) Racional, planeja com antecedência suas atividades e prima pela organização.
C) Passional, aprecia desafios e suas decisões tendem à espontaneidade e tipo de situação apresentada.
D) Despreocupado, espera para decidir e agir quando confrontado com desafios externos.
E) Intuitivo, deixa que tudo se resolva por si mesmo, afinal não se pode controlar tudo.
Um sorriso irônico se instalou nos lábios carnudos do grego. Será que alguém respondia com veracidade toda aquela baboseira? Aquelas questões eram somente as primeiras de um total de quarenta e todas pareciam uma seleção para algum cargo no FBI, NASA ou talvez para atuar em séries estilo CSI ou NCIS.
Ele queria, apenas, um trabalho temporário e não um cargo em alguma Corporação ou Órgão público.
Uma tosse leve, do tipo que alguém faz para chamar a atenção o induziu a erguer os olhos daquele maldito formulário e se deparar com a própria descrição do que seria um homem que misturava o tipo B e o tipo A de personalidade: alto, terno escuro, camisa branca impecável, postura de vencedor.
Continuando sua exploração, Milo constatou que o belo espécime possuía cabelos ruivos na altura dos ombros que estavam bem presos em um rabo de cavalo baixo e um olhar penetrante e frio que o fitava com o cenho franzido. O aparente mau humor não combinava com aquelas feições bonitas e clássicas, acentuadas pela pele clara, que o fazia parecer com um modelo masculino de algum anúncio de ternos de grife.
Milo sentiu um arrepio na espinha e os pelos da nuca se eriçarem. E não apenas por causa daquele olhar que parecia lançar fagulhas azuladas como se fossem dardos, mas por algo subjetivo e inexplicável que gritava em sua mente: Eu já o conheço e muito bem!
Não conseguiu evitar um sorriso malicioso por conta do próprio pensamento. Se tivesse conhecido aquele ruivo no sentido bíblico da palavra, como diria seu amigo Aldebaran, ele jamais teria esquecido...
Com as sobrancelhas erguidas, Camus Leroy exibia um olhar intrigado enquanto encarava Milo e o balcão da recepção vazio, de maneira alternada.
— O recepcionista está na sala ao lado. Mas, se quiser preencher o formulário para emprego, ele deixou alguns ali. – disse Milo apontando para o balcão.
Camus deu um discreto sorriso e foi até o balcão. Com um formulário na mão se acomodou em uma cadeira oposta ao lugar onde Milo se encontrava e passou a inspecionar em silêncio o que estava escrito nos formulários.
— Esse questionário é a coisa mais sem noção que eu já vi. Mas vou te dar uma dica, comece com o teste de personalidade. É divertido. – disse o grego.
Ele não respondeu e prosseguiu analisando o formulário com especial atenção.
Milo olhou-o, de modo mais atento e teve a sua confirmação quanto ao tipo de personalidade do homem a sua frente. Sim, ele era do tipo organizado e fazia tudo meticulosamente, mesmo as coisas mais chatas como ler com atenção aquele formulário do início ao fim. E, pelo visto, não era adepto da camaradagem entre candidatos que procuram vagas em serviço temporário. Devia se achar superior ou algo do gênero.
Arrogante! Mas, bonito e atraente prá cacete... Ah, isso ele era. Disse Milo para si mesmo notando os lábios finos e desenhados do “colega”.
Quando Camus terminou de ler os enunciados do teste, perguntou com voz firme:
— Deixe-me adivinhar, você deve ter respondido D no teste de personalidade e Tenho inclinação para improvisar em vez de planejar com antecedência na questão referente ao tipo de atitude que identifica seu modo de agir. Acertei?
O olhar de desafio e a postura do ruivo fez Milo reagir à altura:
— E você deve ter respondido B para personalidade e tido dificuldades em responder quanto às atitudes, porque não tem aqui neste formulário o item: Sou maníaco por limpeza e organização, constantes, senão tenho um ataque histérico!
O olhar desafiador do ruivo se transformou em um sorriso.
— Desculpe-me, foi apenas uma tentativa de verificar a eficácia destas questões. Eu não estou em busca de trabalho, na verdade estou à procura de um servidor temporário e esta agência me foi recomendada. Aliás, ela não faz jus a tal recomendação e sim, você tem razão, eu gosto das coisas limpas e organizadas o que não é o caso deste lugar.
— Ah! — exclamou Milo, se sentindo um perfeito idiota por achar que um homem daquele tipo e vestido como estava estaria procurando trabalho temporário. – E que tipo de servidor você procura?
— De alguém para gerenciar um bar.
— Então, hoje é seu dia de sorte. Não precisa mais procurar. – disse Milo.
— Por quê? Conhece alguém com experiência no assunto?
— Está olhando prá ele.
Camus baixou o olhar para o jeans surrado que Milo usava e para a camiseta despojada com a frase Gipsy king saltando aos olhos. Franzindo o cenho e dando um meio sorriso ele comentou.
— Você? O trabalho que necessito exige um conhecimento de gerenciamento de pessoal, controle de estoque e contatos com fornecedores.
— Eu posso fazê-lo.
— É capaz de gerenciar um bar de strippers?
Milo o olhou surpreso. O ruivo não tinha cara de quem lidava com esse tipo de bar. Mas, nada mau saber que ele tinha um lado, digamos, safado...
— O tipo de bar não importa. Clientes VIP, putaria, GLS, Pub, Cafeteria... É tudo a mesma coisa em se tratando de administração. – disse Milo dando de ombros.
Colocando o formulário sobre o balcão e enfiando as mãos nos bolsos. Camus murmurou com um sorriso:
— Estou brincando. Não se trata de um clube de strip-tease. Mas preciso de alguém que, realmente saiba o que fazer.
— Por acaso você é um dos colaboradores na elaboração destes testes idiotas? – perguntou Milo, irritado.
— Não. Sinceramente falando, concordo com você quanto à eficácia deste tipo de teste. Mas, são ossos do ofício, como se diz popularmente! Alguma coisa o teste detecta... E você não me parece...
— Olhe o meu currículo. Creio que ele fala por si. – disse Milo interrompendo a fala de Camus e tirando uma pasta de dentro da mochila.
Camus fez o mesmo que fizera com o formulário. Abriu a pasta e leu com atenção. Então tornou a olhar para Milo.
— Bem, aqui mostra que você tem experiência em várias coisas e teve vários empregos, inclusive de gerenciamento em bares. Também notei que não se manteve em nenhum dos empregos por mais de quatro meses.
— Meu tio adoeceu e buscava tratamento em vários lugares. Eu era o único que podia acompanhá-lo nestas viagens e depois, ainda tinha a universidade que eu precisava concluir.
— Por que muda, constantemente, de emprego?
Porque não consigo ficar em um mesmo lugar durante muito tempo! Pensou Milo, mas sabia que se dissesse a verdade, nada de chances com aquele homem.
— Ainda não achei o emprego ideal, por isso vivo de empregos temporários. Mas, se quiser, pode ligar para qualquer um dos meus antigos patrões. Não ouvirá nenhuma reclamação. Só elogios.
— É mesmo? Você tem forte senso do seu valor, não é?
Tudo o que dissera era um blefe. A maioria dos patrões que tivera eram amigos de seu tio que lhe ofereciam empregos nas férias e que ele procurava para não sentir-se um parasita, vivendo na opulência de um tio rico e solitário que cuidara dele, após a perda de seus pais.
Na verdade, a liberdade com que fora criado lhe incutira um espírito livre, uma total ausência de laços com obrigações ou limitações. Após a morte de seu tio, seus vínculos se restringiam aos amigos, mais especificamente Mu e Aldebaran. Porém, agora, quando tinha usado o dinheiro que lhe asseguraria conforto por um bom tempo para comprar o tal violino, precisava, desesperadamente, de um emprego para viver com dignidade. Então, um pouco de exagero em sua autoconfiança não seria nada mal, não é mesmo?
— Olhe, eu sou perfeitamente capaz de fazer este trabalho. Minha experiência de “tudo um pouco” me torna apto de saber como é feita a limpeza na cozinha até a manutenção do estoque e atendimento ao cliente. Se me der esta oportunidade não se arrependerá.
Milo não sabia se os argumentos que usava, estavam convencendo o ruivo, mas de uma coisa estava certo: o homem o fitava com total atenção e, por um momento, ele se distraiu com a intensidade do brilho daqueles olhos azuis que tinham um tom diferente dos seus. Já tinha sido olhado por todo o tipo de homem, mas aqueles olhos eram incomuns e magnéticos...
Piscando por duas vezes, para afastar a imagem que o estava distraindo, Milo deu a sua cartada final.
— Você precisa de alguém que tenha jogo de cintura, então você precisa de mim.
Camus reclinou as costas no espaldar da cadeira e pensou nas últimas palavras ditas por aquele estranho: você precisa de mim. Era difícil para um homem como ele, acostumado a viver sozinho, admitir que precisava de ajuda. Mas o homem a sua frente tinha razão, ele precisava e rápido. E o mais irônico era que bastava olhar para a figura expansiva e sorridente e constatar que ambos eram, radicalmente, opostos em personalidade e modo de encarar o mundo.
Ele observou Milo por mais um tempo, apenas para confirmar a primeira impressão. Ele parecia um cigano a julgar pelo bronzeado que revelava que passava horas ao ar livre. Podia ver que o corpo era malhado, mas não do tipo conseguido em academias como os de seus colegas executivos e o modo como ele olhava... Era inquietante e provocava algo nele, uma misteriosa excitação como se o seu corpo o conhecesse intimamente. Mon Dieu!
— E então? Já são quase seis da tarde e acredito que não encontrará alguém disponível nesta agência para as suas necessidades. Quer me dar uma chance? Posso começar agora mesmo. – falou Milo interrompendo as divagações de Camus.
O ruivo consultou o relógio e viu que Milo tinha razão. Precisava abrir o maldito bar ainda naquela semana e, pelo visto, procurar em agências não era uma opção das mais interessantes. Buscou os olhos de Milo que continuavam fixos nos seus.
— Está bem. Você terá a sua oportunidade. Vamos até o bar.
Milo exibiu um sorriso tão radiante e tinha dentes tão bonitos e brancos que foi impossível para Camus não corresponder. Ele chegou a sentir uma pontada na virilha ao prestar atenção naqueles lábios cheios e convidativos que eram perfeitos para beijar e morder até não poder mais... Mas o que era isso? Exclamou Camus para si mesmo, estranhando seus pensamentos que, raramente, eram direcionados ao sexo desta maneira tão... instintiva!
Antes que saíssem, o recepcionista entrou na sala dizendo:
— Demorei, mas... — Naquele momento ele tomou conhecimento da presença de Camus. Olhou-o com interesse e foi gentil e atencioso, muito diferente do que fora com Milo. — Boa tarde, me chamo Tony. Em que posso ajudá-lo?
Camus ergueu as sobrancelhas e o fitou com frieza e censura no olhar. Detestava mau atendimento e nunca permitia que seus subordinados tivessem um comportamento desleixado com os clientes.
— Receio que se atrasou. Não vou precisar dos seus serviços, obrigado. – disse Camus.
O recepcionista corou, entendendo o recado.
— Olhe aqui o seu formulário... Enfie no rabo! Pensou Milo sorrindo. Não consegui terminar a maratona de perguntas, mas... de qualquer forma, já consegui um emprego. Pena que a sua agência tenha perdido uma boa comissão! – disse o grego colocando as longas alças da mochila sobre um ombro e apanhando o estojo do violino que havia deixado na cadeira ao lado da sua.
Camus permaneceu calado e observando enquanto via Milo sair de cabeça erguida e ostentando um sorriso confiante. Achou patética e hilária a expressão assustada que o recepcionista exibia enquanto falava:
— O senhor está cometendo um grande erro! É muito mais seguro contratar um temporário através de uma agência. Nós asseguramos a idoneidade de nossos funcionários.
— Ah, é? E quem assegura a sua? Seu atendimento fala por si mesmo, senhor... Tony. Tenha uma boa tarde.
Logo em seguida, Camus encontrou Milo que o esperava na calçada. Seguiram a pé em direção ao bar que ficava há algumas quadras de onde se encontravam. Estudantes, artistas de rua que pareciam estátuas vivas, executivos e trabalhadores circulavam vertiginosamente por onde passavam e Milo parecia bem à vontade com todo aquele movimento.
— Então, você toca violino. Eu gosto muito da sonoridade deste instrumento – falou Camus.
— Este é especial, arrematei em um leilão. – disse Milo sorrindo.
— Deve ter sido caro...
— Muito, mas valeu a pena.
— Vejo que além de ter talento para a música, você é confiante demais.
— Porque está dizendo isso?
— Ofereceu-se para trabalhar comigo e nem mesmo sabe o meu nome. – respondeu Camus lembrando todos os detalhes do currículo do grego. Milo Karedes. Vinte e quatro anos de idade. Bacharel em música. Carteira de motorista. Vários empregos e pouco tempo em cada um.
— Você não me parece ser do tipo perigoso, embora esse seu terno caro possa muito bem vestir um mafioso. – retrucou Milo percorrendo os olhos pelo corpo de Camus.
— As aparências enganam... E você nem perguntou sobre salário, benefícios e tudo mais.
— Um homem de personalidade B como você deve saber que existe uma remuneração básica para esse tipo de serviço estipulada pelo sindicato. – disse Milo com tranquilidade.
Camus ficou em silêncio. Na verdade não sabia nada sobre bares além do preço pago por uma boa bebida e o ambiente esfumaçado e barulhento, propriamente dito.
Recebera uma ligação de sua prima pedindo que a ajudasse com o bar. Para variar, Saori mudava de interesse como mudava de roupa. Primeiro tinha sido a clínica de Bronzeamento, depois a Sauna feminina e por último um bar chamado Pégasus comprado em sociedade com seu mais recente namorado, um jovem chamado Seiya que adorava cavalos e estava montando um Haras no Texas.
Depois de flagrar seu gerente desviando dinheiro do caixa e comprando bebida de péssima qualidade, ela resolvera deixar o problema em suas mãos, inclusive processar o homem e achar outro gerente apropriado para o bar. Dito isso com aquele tom choroso e olhar suplicante que ele conhecia muito bem, ela fora viajar com o namorado, sem data para voltar.
— Na verdade não sei nada sobre bares. Meu nome é Camus Leroy, sou advogado e estou fazendo um favor para minha prima que viajou e me deixou neste campo minado. Portanto, estou literalmente, em suas mãos. – disse Camus.
— Não se preocupe... – disse Milo abrindo um largo sorriso. – Vou cuidar de você, direitinho, senhor Camus...
Camus apertou o molho de chaves que trazia no bolso, sentindo um nó no estomago e pensando se fizera certo em jogar todas as suas fichas naquele homem...
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