Sortilégio...

13 Capítulo 13 DANCING WITH MEPHISTO


Notas iniciais
Bem, muitas já perceberam que nesta segunda fase, os títulos dos caps são nomes de músicas. O capítulo 13° é de um grupo chamado Enigma. A letra inicia o cap e é bem sugestiva. Se ouvirem a música fica um clima legal! *risos

Follow me

Come and See

Infinity, Eternity

Follow Me

Toi et Moi

Deja, Deja vu

Siga-me,

venha e sinta!

O Infinito, a Eternidade

Siga-me,

você e eu,

o que já vivemos!

A música envolvia os corpos em sua mágica, como se fosse uma amante exigente e sexy insinuando-se através dos risos, olhares e sussurros à meia luz.

Luxúria, beleza, suor, prazer... Todos esses ingredientes fervilhavam no caldeirão mexido por Mu e ele próprio conduzia os passos e mexia o corpo de um jeito sensual e aliciante, arrancando aplausos e assovios.

Aiolia bebia o seu uísque quando as luzes na pista de dança, próxima ao bar, iniciaram um jogo singular de coloridos e vapores de gelo seco que se misturaram ao som. Gostava do ambiente alegre, das cores formando desenhos abstratos nos corpos que dançavam...

Como sempre fazia, Mu descia da sua cabine como se fosse um deus descendo o Monte Olimpo, executava sua dança performática e convidava o público para acompanhá-lo.

O leonino viu-se preso pela presença magnética de Mu que, simplesmente pareceu aterrissar no centro da pista como por encanto...

Os quadris estreitos do DJ ondulavam, suas coxas revelavam as formas perfeitas dos músculos sob o jeans apertado e seus pés batiam no chão produzindo um ruído surdo e compassado que arrancavam gritos histéricos dos espectadores.

Por um instante, Aiolia pareceu ver uma corrente dourada com guizos tilintar presas aos tornozelos do DJ. Forçou os olhos e piscou, notando que era, apenas, a barra desfiada da calça jeans produzindo ilusões sob aquele jogo de luzes. Será que tinha bebido demais?

Os belos olhos verdes de Mu passavam pelos rostos de todos sem focar ninguém, o sorriso permanente que misturava inocência e malícia eram como um convite à sedução e aqueles cabelos cor de lavanda que intoxicavam os sentidos de forma primitiva, completavam o quadro, fazendo-o parecer um ser exótico e um tanto irreal...

Aiolia sentiu-se seduzido de imediato, como se um raio o tivesse atingido e eletrizado dos pés a cabeça. Não era dado a esses ataques de paixão à primeira vista, mas aquele caso era diferente e um tanto atípico. Dentro deste contexto inédito ele tinha duas opções: a primeira seria ignorar o fato. Afinal, era a primeira vez que se sentia tão atraído por um homem. A segunda, seria arriscar um contato e, como se dizia em um jogo de pôquer, pagar pra ver!

O uísque já tinha terminado e Aiolia ainda estava com o copo na mão e constatando outra situação incomum no seu caso. Estava acostumado a ser notado, mas, agora, estava diluído em um mar de gente e essa situação tinha que ser revertida se ele desejava aproximar-se do DJ.

Então, como por encanto, Mu encerrava sua apresentação e vinha direto na sua direção! Aiolia sorriu, agradecendo a boa sorte...

— Milo! É a sua vez agora! – falou Mu suado e ignorando os demais.

— Minha vez? Mas...?

— O Sorento teve um probleminha e vai se atrasar, então eu pensei que você podia tocar violino. O Shiryu pode assumir o seu lugar por alguns minutos. Por favor! – falou o DJ com visível ansiedade.

Aiolia não estava acreditando. O objeto de sua admiração e desejo estava ali, a sua frente e, simplesmente, o estava ignorando por completo.

— Boa noite, meu nome é Aiolia. – disse o leonino não se contendo e estendendo a mão na direção de Mu.

— Hã... Boa noite, Aiolia! Boa noite, Camus. Desculpa o mau jeito é que temos um cronograma de novas atrações a cumprir. — respondeu o DJ apertando a mão de Aiolia sem dar muita atenção ao fato e tornando a olhar para Milo.

— Bem, não estava no programa, mas enfim, eu vou tocar. – falou Milo.

Camus sorriu. — Sim, por favor, toque, sua música será muito mais apreciada que esse... bate-bate incessante. – disse o ruivo.

Milo foi e Aiolia, ainda chocado com a indiferença de Mu se aproximou de Camus e perguntou:

— Esse DJ, você o conhece bem?

— O Mu? Não. Ele é amigo do Milo, assim como os seguranças. A única coisa que sei é que ele consegue lotar o bar todos os dias e Milo deposita nele uma confiança irrestrita. Por quê?

— Ah. Nada, não. Bem, acho que vou pedir outro uísque. – disse Aiolia, desapontado.

Quando Milo surgiu, no centro da pista, entre a fumaça e as luzes que giravam, um silêncio cheio de expectativa baixou sobre todos. Os cabelos loiros e sedosos estavam amarrados com displicência em um rabo de cavalo baixo, deixando perceber as argolas de ouro nas orelhas e conferindo a ele um ar cigano. O peito viril revelado pela camiseta justa e o sorriso sensual se formando nos lábios ao empunhar seu violino...

Ele fechou os olhos e pareceu ser transportado para outro tempo. Seu corpo transitava entre a realidade visível e outra, além dela, onde era outro homem em contato com outros rostos e outros lugares...

Sempre se sentia assim, ao tocar e, ao contrário do que podia parecer, a sensação era bem-vinda, familiar e deixava-o feliz. Naquele momento não era um homem sozinho, pertencia a algo maior, quente, ancestral...

A música surgia, vibrando entre seus dedos e as cordas tensas do violino. Era uma melodia que misturava música atual com outras que pareciam folclóricas, resultando em um som único e inédito, capaz de seduzir os gostos mais apurados.

Parecia que ninguém respirava e, ao mesmo tempo, um fogo se acendia dentro dos espectadores que iniciavam um bater de palmas rítmico e alegre fazendo com que o andamento da música também se alterasse.

Quando a música chegou ao seu final, Milo abriu os olhos e o azul profundo e selvagem encontrou os azuis emocionados de Camus que o fitava sem nem piscar. O coração de Milo palpitou e ele franziu o cenho para, em seguida, sorrir e passar a língua nos lábios, o ato carregando o ar de sensualidade...

Camus estremeceu por dentro, como sempre acontecia quando ouvia Milo tocar. Às vezes se perguntava o porquê e a única resposta que encontrava era que podia sentir todas as emoções juntas na melodia tocada pelo grego. Era como se ele conseguisse personificar amor, tristeza, sensualidade, perdão, em doses intensas e cruas, sem meio termo, sem hesitação.

Exultante, Mu se aproximou e puxou Milo pelo braço e os dois saudaram o público como se estivessem em um teatro.

— Então pessoal? Ele não é espetacular? – gritou Mu abraçado a Milo.

Os aplausos foram ensurdecedores, houve pedidos de Bis, porém Milo agradeceu e retornou a sua função, enquanto outro músico chegava e dava continuidade às apresentações.

— Você podia ter continuado. Eu nunca me canso de ouvi-lo... – disse Camus quando Milo retornou ao balcão.

Tocar me deu outras ideias... Pensou Milo enquanto falava da forma mais inocente possível. — Quer vir comigo ao escritório, por favor? Quero mostrar uma coisa interessante.

— É alguma outra novidade referente às atrações do bar?- perguntou Camus.

—Hummmm... Digamos que é quase isso. — respondeu Milo mantendo uma postura casual.

Camus concordou e acompanhou Milo. No caminho, o grego cochichou ao ouvido de Shiryu que iria fazer um rápido intervalo e que era para ele cuidar de tudo.

Assim que chegaram ao escritório, Milo trancou a porta e puxou Camus para junto de si, começando a provocar os lábios do ruivo com suaves mordidas enquanto as mãos ágeis tratavam de desafivelar o cinto da calça e abrir-lhe o zíper.

— Milo... o que está fazen... – gemeu Camus ao sentir a mão do grego adentrando sua roupa e tocando seu sexo por cima da cueca.

— Shhhhh... fique bem quietinho....

Camus fechou os olhos de forma involuntária quando a pressão dos dedos de Milo fez o sangue afluir até sua ereção, tornando-a ainda mais túrgida e os lábios do grego roçarem devagar em seu pescoço, causando arrepios que percorriam todo o seu corpo.

— Milo... o...o Aiolia e... o K-Kanon... – balbuciou Camus entre gemidos longos. Seu corpo se contorcendo com o prazer do toque intenso de Milo.

— Não existe Aiolia, nem Kanon... somente você e eu. – contestou Milo com a voz rouca.

Para Milo era excitante ver aquelas reações, ouvir os gemidos roucos, a forma como Camus mexia o corpo de encontro a sua mão. Amava-o, desejava-o e, mesmo que não quisesse admitir, estava com ciúmes e pensava se o gêmeo de Saga tivera algo com Camus. Ele era tão diferente do irmão... Difícil não gostar dele...

— Tão duro assim... diz que só fica assim comigo. – sussurrou Milo rente ao ouvido de Camus. O desejo juntando-se a uma necessidade de dominação, de ter Camus totalmente entregue, totalmente seu...

Camus sentia seu baixo ventre latejar, espasmos elétricos percorrendo seus músculos, sua pele, seus nervos e a voz de Milo como um sortilégio, encantando-o, fazendo-o perder a noção de tudo, até de si mesmo...

— S-Só... s-s-ó... com v-você...- sibilou entre os dentes cerrados.

A mão se mantinha, acariciando com mais força o sexo do ruivo, fechando-se e apertando, enquanto a outra mão se emaranhava nos cabelos presos, soltando-os e massageando-os. Moveu os quadris contra a pélvis de Camus e insinuou a coxa entre as pernas dele, sem muita força para não interferir no que fazia. O suficiente para mostrar que também estava excitado, mas não se satisfaria, só queria dar prazer.

Murmurou algumas obscenidades, deixando um ofego atingir o ouvido de Camus. Sabia que ali havia um ponto sensível. Mordiscou de leve e desceu, percorrendo a nuca, retirando os fios ruivos e passando os dentes longa e prazerosamente...

Chegando ao pescoço alvo, sugou-o, enquanto acelerava os movimentos da mão sobre o falo gotejante de Camus.

— M-Milo....e-eu....

Camus não terminou a frase e acabou gozando naquela mão quente, fechando os dedos com tanta força nas costas de Milo que deixaram marcas sobre a camiseta. Ele bateu com a testa no tórax do grego, deixando-a encostada por um longo tempo, enquanto seu peito arfava, tentando normalizar a respiração, sentindo que só não molhara toda a calça que usava, porque o fizera nas mãos do grego.

— Deus, Milo!

O gozo escorria pelos dedos de Milo que fechara os olhos, reabrindo-os ao ouvir as palavras carregadas. A mão saiu da calça e foi levada à boca. Lentamente, Milo sorveu do gozo de Camus com movimentos sensuais feitos com a língua...

Em seguida, os lábios se buscaram famintos. Milo agarrou os quadris de Camus com força, aprofundando mais o beijo e correspondendo a pressão que recebia da língua sôfrega do ruivo.

Camus, novamente tinha o corpo levado pelo prazer e pelo impulso. Mas, desta vez, queria o domínio e o queria de forma mais desesperada que na primeira vez em que possuíra o grego, ali mesmo no Pégasus, na mesa de bilhar... Invertendo as posições, colocou as costas de Milo na parede e os lábios se acariciaram com certa brutalidade.

Agarrou aquelas coxas grossas do grego, usando de apoio a madeira que revestia a parede e aprofundou o beijo com vontade. Não sabia o quê o levava a agir assim, nem o porquê de tanta luxúria quando estava com Milo. O fato era que, o senhor certinho desaparecia por completo e dava lugar a um homem de desejos intensos e primitivos.

Quem o visse frio e impassível nos tribunais, defendendo um cliente ou palestrando na universidade sobre penalidades e direitos, jamais acreditaria que era o mesmo homem que agora despia a camiseta do grego quase rasgando-a, enquanto continuava a beijá-lo e mordê-lo como se o estivesse devorando.

Uma batida insistente na porta quebrou o momento quente e Milo, mesmo ofegante, resolveu atender, gritando:

— O que foi?

— Milo, desculpe interromper seu intervalo, mas é que estamos tendo problemas na rede elétrica. – disse Shiryu.

— Está bem, já estou indo. – respondeu Milo revirando os olhos.

Camus levou a mão aos cabelos, respirou fundo e olhou para Milo. Os dois sorriram porque podiam ver, simultaneamente, o rubor nas faces afogueadas. Milo vestiu a camiseta e depositou um beijo rápido nos lábios de Camus.

— Eu vou ver o que está acontecendo. Acho que a nossa conversa vai ter que ficar pra mais tarde... — disse o grego repetindo o gesto sugestivo de lamber os dedos.

Aquilo não contribuiu para desfazer a ereção túrgida e dolorida do ruivo. Ele riu, inspirou e expirou, mas ela continuou ali, como uma testemunha implacável que ele havia despertado uma força selvagem dentro de si e ela cobrava um alto preço.

— Vou ficar aqui, mais um pouco. – disse Camus com a voz enrouquecida.

Milo gargalhou e saiu fechando a porta. Era verdade que tinha sido desagradável ter sido interrompido, mas ver o rosto transtornado e aquele senhor volume entre as pernas de Camus não tinha preço...

Na pista de dança, as luzes oscilavam como se fosse um efeito especial e os clientes, menos atentos, achavam que tudo fazia parte do show. Em um canto, Jamian observava o movimento, tentando encontrar o objeto do seu desejo: Milo. De vez em quando, tocava no punhal que resgatara no banheiro feminino e tentava ver se o idiota que escolhera para parceiro já tinha voltado e se misturado ao público.

Minutos depois, lá vinha ele, o idiota corpulento que suava, mas sorria fazendo o sinal de positivo com o polegar. Atrás dele vinha o gerente, o que arrancou um sorrisinho maligno e satisfeito de Jamian. Entretanto, quando ele ia ao encontro de Milo um toque suave em seu braço chamou a sua atenção.

— D-Desculpe-me é que... eu...fico um pouco ansiosa quando tem muita energia dissonante no ambiente.

Jamian franziu o cenho e olhou para a mulher agarrada ao seu braço. Ela não era nenhuma beldade, mas também não era feia. Era um rosto comum, porém tinha grandes olhos cor de mel que chamavam a atenção pela expressão sem vida. Levou alguns segundos para Jamian dar-se conta que ela era... cega!

— E como você percebe isso? – perguntou ele fitando-a com atenção.

— Você percebeu, não é? Geralmente quando um homem percebe minha deficiência ele se afasta. Ainda mais num lugar como esse cheio de gente bonita. Obrigada por não se afastar tão... rápido. Eu não enxergo, mas posso sentir certas coisas...

— Você veio com alguém?

— Vim com um grupo de amigas, mas todas enxergam e já devem estar acompanhadas. Eu sou independente, sabe? Geralmente, volto pra casa de táxi. Já estou acostumada. É só alguém chamar um pra mim. E você? Um homem como você também deve estar acompanhado.

— Um homem como eu?

— É, você é diferente dessa... garotada. Posso sentir isso.

É cega mesmo! Pensou Jamian, mas em seu íntimo algo se abriu. As únicas mulheres que o aceitavam eram as prostitutas e isso tinha um preço, geralmente, muito mais caro que para os demais clientes. Ainda não compreendia como aquela mulher o estava tratando tão bem.

— Sou diferente mesmo. Sou feio pra burro e não sei como tratar uma mulher direita. No final das contas, esses garotos tem mais sorte que eu. – disse ele um tanto ríspido.

O gesto que ela fez, o desconcertou ainda mais. A mão macia e delicada tocou-o no rosto e ela sorriu.

— Suas feições me lembram um pássaro e os pássaros representam a liberdade. Não acho que seja feio, mas seu coração está cheio de rancor e ódio. Isso afasta as pessoas.

— Não devo ser boa coisa, porque até minha mãe quis se livrar de mim. Fui largado numa cesta de lixo e encontrado por um policial que pensou ter ouvido o choro de um animal abandonado. Dali, eu fui levado para o hospital e depois para o orfanato. Eu era um bebê feio e desnutrido, do tipo que ninguém em seu juízo perfeito quer adotar. Tive uma porção de doenças e só sobrevivi por teimosia mesmo. Cresci e deixei a porcaria daquele orfanato onde os maiores sempre me batiam. O que acha que devo sentir? Gratidão? Era preferível que eu tivesse morrido naquela cesta, seria bem melhor que passar pela vida sendo... escorraçado ou ignorado.

Jamian não entendia como estava falando de si e contando sobre a sua vida, algo que nunca compartilhara com ninguém. Agora se via partilhando não só fatos, como também o que sentia e com uma estranha.

— Você sobreviveu e tornou-se homem. A vida apostou em você. Então porque não aposta nela também?

— O que está querendo dizer com isso?

— Que a sua vida é muito mais importante que as dores, maus tratos, gente insensível. Que se cortar esse ciclo de morte e ressentimento, você descobrirá que pode sentir amor.

— Amor? Eu? – perguntou Jamian rindo. – Bem se vê que você é...

— Cega?

— Eu não quis dizer...

— Assim como você, eu já sofri muito e odiei com todas as minhas forças. Eu tinha uma carreira, amigos e dinheiro, até sofrer um acidente e perder tudo. Sabe o que é dormir cheia de expectativas e acordar em um hospital em uma total escuridão? E, além disso, descobrir que todo o dinheiro que possui não pode trazer sua visão de volta? Junte a isso o fato de descobrir que aqueles que você considerava amigos eram, na verdade, companheiros de boa sorte que se foram quando a sorte acabou e o dinheiro usado para dar festas também.

— Como você vive hoje? Quer dizer, você deve ter alguém prá ajudar, não é?

— Vivo sozinha, embora divida um apartamento com uma amiga. Sei que entende o que eu quero dizer... Mas, conto com a bondade de alguns, como pude contar com você agora. Obrigada por me ouvir. Eu já vou indo. – disse ela sorrindo.

— Como é o seu nome?

— Lúcia. E o seu?

— Jamian.

— Muito prazer, Jamian. Agora, posso abusar mais um pouco de você e pedir que me deixe em um táxi?

Ajudar a garota implicava em ter de modificar seu plano. Jamian hesitou por alguns segundos e Lúcia percebeu.

— Ah, me desculpe. Já estou atrapalhando, não é? Esqueça o táxi, eu posso pedir a alguém da portaria para me ajudar. Prazer em conhecê-lo, Jamian. – disse ela sorrindo e já andando em direção à saída.

Jamian ficou parado vendo a jovem esbarrar em algumas pessoas e o quanto ela era ignorada pela maioria que, simplesmente, a empurravam também, sem nem perceber a sua deficiência.

Instintivamente, sentiu despertar um lado protetor inacreditável. Desde quando se importava com alguém? Com muitas perguntas dentro de si, rumou em direção à saída, deixando seu comparsa confuso e nervoso.

Mas que porra Jamian está fazendo? Pensou Crowley, sentindo o suor verter e escorrer pelas costas. O homem estava tão preocupado ao ver que Jamian estava saindo que nem notou dois pares de olhos fixados em si. Kanon e Shina perceberam a linguagem corporal nervosa do homem e começaram a ir na sua direção. Quando Crowley percebeu o movimento, se apavorou e começou a abrir caminho de um modo quase desesperado.

Merda! Será que aqueles dois me viram passar alguma coisa? Cogitava Crowley, enquanto andava na direção dos banheiros para livrar-se de alguns comprimidos de ecstasy e papelotes de cocaína que havia escondido dentro da cueca.

Kanon havia assistido às apresentações e se permitido relaxar um pouco. Já tinha feito um levantamento do que achara no escritório, principalmente de recibos encontrados e sabia onde começar a procura. Ouvir Milo e o tal Sorento o fizera pensar no quanto se afastara da alegria genuína, da conexão invisível que leva as pessoas a celebrar a vida, ao invés de afundarem-se em crimes, escândalos e sordidez.

Mas agora, quando as luzes começaram a piscar, ele voltara à realidade e ao senso agudo de observação que o caracterizava e aquele homem chamara a sua atenção...

Crowley fingiu entrar no banheiro masculino e misturou-se a um grupo de jovens que bebia cerveja, próximo dali. Ao se sentir seguro, respirou fundo e estava voltando ao salão quando uma voz grave e outra feminina o interpelou:

— Algum problema, senhor? – perguntaram Shina e Kanon, ao mesmo tempo.

— N-Não! Porque a pergunta? Eu estou bem e exijo os meus direitos! Nenhum de vocês tem o direito de me interpelar e... me constranger. – respondeu Crowley voltando a suar.

— Mas é claro que tem... – disse Kanon pegando-o pelo braço. – E vamos respeitá-los. Só queremos conversar...

— Eu estou reconhecendo você... Na segunda noite de funcionamento do bar, você aprontou e eu tive de interferir. – falou Shina estreitando os olhos.

— E-Eu... não sei do que a senhorita está falando... E-Eu... é a primeira vez que venho aqui. – mentiu Crowley. Onde aquele filho da puta do Jamian se meteu? Pensava em meio ao pavor.

Alheio ao que acontecia dentro do Pégasus, Jamian estava na calçada com Lúcia e quando o táxi parou, ele não conseguiu deixá-la embarcar sozinha. Vá que aquele cara fosse um tarado ou criminoso e resolvesse abusar da moça? Resolveu acompanhá-la mesmo sabendo que ele próprio não era alguém para se confiar. A jovem sorriu e corou, fato que o deixou contente por dentro, como nunca se sentira antes. Ela me vê de um jeito diferente... Quase gosto de mim ao me ver da forma como ela acha que eu sou.

Lúcia tocou a mão de Jamian e agradeceu a gentileza. O simples ato o fez estremecer e, ao mesmo tempo, lembrar-se dos planos que fizera para aquela noite. Deixei aquele idiota sozinho. Só espero que ele não faça merda!

— Obrigada por me acompanhar... Mesmo dividindo o apartamento com uma amiga, ela não costuma passar as noites de segunda e quarta em casa, então... posso convidá-lo para tomar um café. Você aceita?

O convite inesperado fez Jamian gelar. Se aceitasse, tudo o que planejara iria por água abaixo. Será que seria do tipo idiota que largava tudo por causa de uma mulher? Onde estavam os seus brios de assassino? Um sorriso daqueles e já estava se derretendo?

— Não se sinta obrigado a isso, se não quiser. O que fez por mim hoje já valeu uma vida. – disse Lúcia.

— Eu aceito. – disse Jamian, a frase cuspida sem nenhum arrependimento.

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Milo havia checado as luzes e o gerador de emergência. Uns fios soltos chamaram a sua atenção, mas logo tudo se normalizou. Aldebaran havia mantido a ordem na pista de dança e no salão com sua voz firme e sua presença forte. Era incrível o que um homem como ele conseguia fazer sem perder o bom-humor e a capacidade de agregar as pessoas.

— Meu caro Deba, você é meu bruxo! Obrigado por segurar as pontas por aqui. – disse Milo sorrindo.

— Shina e aquele investigador pegaram um cara suspeito. Levaram ele para o escritório. – disse Aldebaran.

— Para o escritório? Agora?

— Agorinha mesmo.

Acho que o Camus ainda tá lá. Tenho que...

Nem bem Milo finalizara seu pensamento, um som de tiro, vindo da direção do escritório, irrompeu o ar.

Notas finais
OBRIGADA a todas pelos reviews carinhosos, pela presença, pelo silêncio, pelas conversas pelo MSN, pelos e-mails, enfim por tudo! TUDO MESMO! Bjs, XD ***origem do nome Lúcia: vem do latim e significa: LUZ, ILUMINADA