Sortilégio...
12 Capítulo 12 A VIEW TO A KILL...
Notas iniciais
Quando estava dentro do elevador que conduzia ao escritório de investigação, Camus se perguntou se estava fazendo a coisa certa. Kanon era irmão de Saga e já se conheciam de longa data. Pensou nele quando surgiu a necessidade de um investigador.
Conhecia e avalizava a capacidade profissional dele. Era rápido, discreto e muito sagaz. E ele precisava de alguém assim e não tinha tempo de buscar outras indicações. Paciência! Teria de contratá-lo e abstrair que ele era o gêmeo de Saga.
Ao entrar na recepção que exibia uma bela vista e possuía uma máquina de café de última geração, Camus dirigiu-se a uma jovem que ajeitava os óculos sobre o nariz e erguia os olhos do trabalho na sua direção. Ela afastou alguns papeis na mesa e sorriu.
— Pois não? – disse ela fazendo uma varredura completa da aparência do homem a sua frente e adorando o que estava vendo.
— Eu gostaria de falar com o investigador Kanon, mas não marquei hora, portanto estou disposto a esperar se ele puder me atender ainda hoje.
— E nem precisa marcar.A voz grave veio detrás do ruivo que se virou para ver Kanon entrar e aproximar-se da escrivaninha de sua secretária.
— Kanon, perdoe-me em vir assim sem marcar, mas tenho certa urgência e...
— Sempre formal, Camus! Há quanto tempo nos conhecemos e somos amigos? Dois, três anos? Venha, vamos ao meu escritório. Senhorita Yuzuriha peça para que nos tragam um café, por favor!
Camus seguiu com Kanon até uma sala com móveis escuros e tapete oriental. O investigador encostou-se a escrivaninha em forma de L e puxou um charuto de uma caixinha de madeira. Vestia uma camisa azul-escura e uma calça jeans preta estonada. Os coturnos pretos completavam um visual típico de um investigador acostumado ao público informal.
— Se importa que eu fume?
Um movimento negativo de cabeça de Camus foi a resposta.
— Vou ser breve. Preciso que encontre este sujeito. – disse Camus tirando uma ficha da pasta. — Ele se chama Jamian e foi gerente do Pégasus antes de ser demitido por roubo e fraude. Andei investigando por mim mesmo, mas esbarrei em alguns detalhes para os quais não tenho muito tempo, nem habilidade. Fui até o último endereço dele, mas a única informação que tive é que ele sumiu sem pagar o aluguel e... bem, ninguém quis me dizer mais nada.
Kanon sorriu e tragou seu charuto. Só Camus para imaginar que alguém do submundo lhe forneceria informações vendo-o vestido daquele jeito. Terno impecável, aparência de homem bem sucedido, linguagem culta...
— Deixa comigo. Agora, uma questão interessante... Saga contou-me que você está namorando um grego. Ele está bem preocupado...
— Sei. Deixe-me adivinhar... ele pediu para você me investigar.
— Na mosca! Então, já que está precisando dos meus serviços, poupe-me de uma segunda investigação e me diga com quem está transando, ruivo.
Camus riu. Ele e Kanon haviam ficado amigos, mesmo quando a história com Saga não tinha dado certo. O gêmeo mais novo era bem diferente do irmão. Era mais solto e havia escolhido uma profissão que Saga nunca aprovara. Para o grande promotor, ter um irmão que passava todo o tempo vestido como a ralé e envolvido com casos, muitas vezes, escandalosos era uma verdadeira pedra no sapato.
— Ele se chama Milo, é grego, bonito e muito inteligente. Está gerenciando o Pégasus até Saori decidir o que vai fazer com aquele bar.
— E pelo visto está te fazendo muito feliz... – comentou Kanon num tom malicioso.
Camus sentiu o rosto corar, mas ainda assim se manteve firme quando respondeu.
— Eu amo Milo. É estranho dizer isso, porque nos conhecemos recentemente, mas a impressão que eu tenho é que já o conheço há muito tempo e é... recíproco.
— Se importa se eu procurar saber um pouco mais sobre ele? Acho que até para você seria interessante conhecê-lo mais a fundo. Quer dizer... mais fundo você já deve ter ...
— Kanon, apesar da nossa amizade eu acho melhor parar a conversa por aqui. Faça o que eu pedi, estou enviando o cheque para a sua conta ainda hoje. – disse Camus num tom gélido que Kanon achou por bem respeitar.
— Certo, perdão. – disse Kanon fingindo uma expressão contrita. — Mas é melhor que saiba que aceitei fazer o que Saga me pediu.
— Isso não me interessa, faça o que achar melhor. Bem, vou indo. – disse Camus estendendo a mão para Kanon.
O investigador apertou forte a mão do advogado e sorriu, do jeito aberto e bem-humorado, que era capaz de quebrar o gelo em diversas situações.
— Até mais, Camus. Acho que vou dar uma chegada no Pégasus, hoje à noite. Tranquilo pra você?
— Claro.
No instante em que Camus saía, uma jovem entrou na sala com duas xícaras de café em uma bandeja. O advogado agradeceu, mas dispensou a bebida fumegante e seguiu em frente. Kanon sorriu e bebeu um gole de cada xícara, soltando um suspiro cheio de prazer...
— Bem, acho que terei de tomar os dois, não é? Que sacrifício adorável... – disse ele piscando para a garota.
Após a saída da jovem, ele voltou-se para a vista privilegiada e ficou sério. Nessas horas, quando ficava sozinho, Kanon mostrava-se contemplativo e profundo. Muito diferente do homem malicioso e sarcástico que costumava ser. Seus olhos mostravam-se calmos e inteligentes, olhos de um homem que aprendera os benefícios de penetrar na alma humana para descobrir os mais insondáveis segredos... Às vezes, sentia-se muito velho, como se já tivesse vivido muitos anos e quando Camus comentara sobre seus sentimentos pelo tal grego, ele o compreendera muito bem... Aliás, a própria amizade com Camus era algo estranho. Não se visitavam, não saíam juntos, mas sempre que se reencontravam havia uma afabilidade natural entre eles.
Mistérios... Pensou Kanon enquanto dava mais uma baforada em seu charuto cubano.
0000****0000****0000
Quando Milo se dirigiu ao Pégasus naquela noite, tinha uma série de ideias para melhorar ainda mais os serviços oferecidos e também de implementar novas medidas de segurança como a instalação de uma porta com sensor para metal. O bar estava lotando todos os dias e segurança era algo a ser incrementado, apesar do trabalho de Shina e Aldebaran continuar impecável. Mu também tinha sugerido um espaço para shows de música ao vivo, dança e outras apresentações o que ele achara uma excelente ideia.
Com a chegada dos primeiros clientes, Milo dirigiu-se à entrada e recebeu os que já haviam se tornado habituais com um sorriso espontâneo. Sentia-se feliz de um jeito muito especial e não se lembrava desta sensação que só se assemelhava à que tivera ao comprar seu violino cigano. Assim mesmo, estar apaixonado e também provar-se como profissional parecia superar tudo.
Entre os que estavam chegando, um em especial chamou a atenção de Milo que, franziu o cenho e parou de sorrir.
Mas que diabo esse cara tá fazendo aqui? Pensou o grego ao ver o homem alto, mas que agora vestia roupa alto esporte e tinha um jeito diferente no andar, embora continuasse com aquele tipo de postura arrogante.
Desviando do aglomerado, Milo foi até o homem que, ao vê-lo, agiu como se não o conhecesse. Milo resolveu entrar na brincadeira e interpelou-o, olhando bem no fundo dos olhos claros e perspicazes.
— Resolveu divertir-se com a plebe?
— Perdão... Acho que está me confundindo.
— Acho que não... Seria uma piada cósmica, de muito mau gosto, haver dois Sagas!
— Nisso você tem razão! Por isso eu sou Kanon, irmão gêmeo dele e se olhar bem... verá eu sou a parte boa e bem-humorada dessa história. — disse o investigador rindo.
Milo arregalou os olhos. Primeiro, duvidando daquela cena, depois vendo que, apesar de idênticos havia uma diferença significante entre os dois. O homem a sua frente tinha um olhar penetrante, mas diferente de Saga, os olhos de Kanon pareciam possuir uma malícia divertida e quente.
— Bem, eu sou Milo, o gerente. Em que posso ajudá-lo parte boa da história?
— Você tem senso de humor, uma qualidade que me agrada. Mas deixe eu me apresentar como manda a etiqueta. Me chamo Kanon Kyriakis, sou investigador e estou aqui conhecendo a casa e também à trabalho. – disse Kanon num tom amigável e sincero. Sua intuição sinalizava que Milo era gente boa e ele não costumava se enganar.
— Eu sou Milo Karedes. Muito prazer. – respondeu Milo apertando forte a mão do investigador.
— Então, Milo, Camus procurou-me esta manhã e pediu-me para localizar o ex- gerente, um tal Jamian Callum, então resolvi vir e falar com você. Eu poderia dar uma olhada no escritório, ver se ele deixou algo pessoal?
— O escritório foi limpo, mas algumas coisas que a faxineira achou, deixei guardado em uma gaveta.
— Perfeito. Posso aproveitar agora, enquanto a casa ainda não está lotada?
— Claro, me acompanhe.
0000****0000****0000
Jamian entrou debaixo da ducha quente e esfregou-se rápido. Não gostava de tomar banho, mas não podia chamar a atenção exalando mau cheiro quando entrasse no Pégasus. Elevou o rosto para deixar a água escorrer e sentiu aquele medo irracional de se afogar.
Merda! Detesto água, detesto banho! Disse baixinho para si mesmo enquanto fechava o registro e se enrolava na toalha.
O quarto onde se encontrava, agora, não era uma pocilga. Com a venda de alguns papelotes de crack e cocaína, ele conseguira algum dinheiro e se hospedara em um hotel simples, porém confortável e próximo do Pégasus. Podia ver o luminoso do bar através da janela e cada vez que o maldito cavalo alado brilhava, ele sentia um aperto nas entranhas...
Aquele gerente de merda deve estar se achando... Pois que continue assim, logo, logo a alegria dele vai terminar!
Vestiu uma camisa de seda verde e uma calça escura. Havia comprado sapatos novos e cortado o cabelo. Olhou-se no espelho e quase não reconheceu a imagem refletida. Sorriu expondo os dentes amarelados e depois fez aquele barulho com a língua, como se isso os limpasse. Passou os dedos nas sobrancelhas escassas que faziam os olhos parecerem saltados e deixou o quarto.
Na rua, Jamian olhou o movimento e pegou seu celular. Ligou para seu parceiro. O homem atendeu-o com uma voz sonolenta e ouviam-se duas vozes femininas soltando gritinhos abafados ao longe.
— Chega de vadiagem, seu idiota! Eu já estou indo até o bar. Pega a mercadoria e me encontra lá. – disse Jamian.
A resposta veio monossilábica. Mesmo à contragosto, o homem se levantou da cama de motel e atirou duas notas de cinquenta dólares na direção das duas mulheres seminuas e rosnou um: Vou querer desconto na próxima vez!
Ainda na rua, Jamian viu uma velha mendiga empurrando um carrinho de compras cheio de objetos. A mulher possuía longos cabelos brancos que, se não estivessem sujos e enredados, seriam belos e sedosos. Ela cantava baixinho e quando chegou perto de Jamian, estendeu a mão e falou:
— Tem uma moeda para esta pobre velha?
Jamian olhou-a, de cima a baixo e sentiu uma antipatia instantânea por aquela mulher, assim como uma vontade irresistível de humilhá-la. Abriu a carteira exibindo, de propósito, um maço de notas. Então buscou a moeda de menor valor e atirou-a na direção da velha, mas visando que ela caísse no chão.
— Aqui está... Pegue! – disse ele rindo.
A moeda de um centavo quicou na calçada e acabou caindo dentro de um bueiro. A velha acompanhou a trajetória com o olhar e depois tornou a olhar para Jamian. Ao invés de raiva, os olhos esbranquiçados mostraram compaixão e a voz, antes trêmula, agora era firme e melodiosa.
— A vida toma diversos rumos e cada um deles nos dá a chance de reescrever o destino. Todos nós cometemos erros, meu filho... Reveja os seus, enquanto ainda é tempo. “Te aves yertime mander tai te yertil tut Del”. (Eu te perdoo, possa Deus te perdoar também) – disse ela tocando-o no braço.
O toque da velha pareceu queimá-lo e Jamian recuou, metade surpreso, metade irado.
— Tire essas garras asquerosas de cima de mim, velha suja! – rosnou ele, empurrando-a com violência.
A mendiga caiu por cima do carrinho bem no momento em que Camus chegava ao Pégasus acompanhado de seu amigo e sócio, Aiolia. Os dois viram a cena de longe e correram para acudir a senhora, enquanto Jamian desaparecia em meio aos transeuntes.
— Senhora? Machucou-se? – perguntou Camus preocupado ao levantar a velha.
— Não, meu filho... Obrigada. – disse ela alisando a saia esfarrapada.
— Tem certeza? – completou Aiolia.
A velha sorriu exibindo dentes perfeitos, embora amarelados. Correu os olhos de Camus a Aiolia, falando em seguida:
— Dois homens tão formosos... Essa velha nem se lembra mais porque foi ao chão.
Camus sentiu compaixão por alguém da idade daquela mulher perambulando pelas ruas e sendo tratada com desrespeito. Aliás, essa era uma das razões dele dedicar parte do seu tempo na defesa dos desfavorecidos. Odiava injustiça e odiava, ainda mais, ver como o ser humano era capaz de crueldade com seu semelhante.
— Por favor, aceite isso para ajudá-la no que precisar. – disse Camus abrindo a carteira e tirando uma nota de cem dólares.
Aiolia seguiu seu exemplo e também contribuiu com a mesma quantia. A velha arregalou os olhos esbranquiçados e afastou-se dos dois.
— Não, não precisa... é muito dinheiro para uma velha como eu.
— Por favor, aceite. – disse Camus, colocando o dinheiro entre as mãos ressequidas e Aiolia seguiu-lhe o exemplo.
A mulher pegou a mão de cada um dos dois, fechou os olhos e disse:
— “Thie dieles o diel lachi thierain, baxt hai sastimos tiri patragi”! (Que Deus lhes proteja e lhes dê uma boa estrela, boa sorte e boa saúde)
Depois das palavras, ela ainda manteve as mãos de ambos nas suas e os dois sentiram um intenso calor no centro da palma da mão, seguida de um esfriamento rápido. Algo esquisito, porém não havia sido desagradável e parecera que, por alguns segundos, o cansaço que sentiam do trabalho cotidiano se evanescera...
— Boa noite, meus jovens! E, mais uma vez, obrigada pela bondade com essa pobre velha. – disse ela desfazendo o contato.
— Boa noite, senhora! – retribuíram os dois, ao mesmo tempo.
A velha afastou-se devagarinho e cantando baixo. Enquanto isso, Camus e Aiolia buscavam a entrada do Pégasus que já estava lotada...
0000****0000****0000
Milo já havia mostrado tudo a Kanon e agora ambos estavam cuidando do seu trabalho. O grego havia voltado ao salão e andava verificando o serviço e o investigador permanecia analisando os objetos que encontrara. A música alta já estava deixando todos animados e Mu que já era aclamado como um deus DJ dançava e selecionava os hits do momento.
Jamian, passada a confusão fora do Pégasus, esperou um tempo e depois entrou no bar em meio a um grupo de jovens que viera do Texas e desejava conhecer o point mais badalado do Brooklyn. Fingiu estar com eles, embora sua vestimenta não tivesse nada a ver com camisetas, all star preto e jeans justíssimo.
Quando ele passou por Shina, a segurança sentiu os pelos da nuca se eriçarem e entrou em contato com Aldebaran que ficava no mezanino vendo tudo do alto.
— Deba, fica de olho num cara que parece um cigano. – disse ela pelo rádio.
— Um cara esquisito com uma camisa de seda verde?
— Esse mesmo. Ele não tá armado, porque eu revistei. Mas, não sei... senti um arrepio quando ele passou por mim.
— Fica tranquila que eu to de olho.
Camus e Aiolia se acomodaram num canto do balcão onde podiam ter uma boa visibilidade de tudo e pediram uma bebida. As duas doses de uísque com gelo vieram rápidas e os dois conversaram sobre assuntos triviais. Milo percebeu que Camus chegara e foi na sua direção.
Enquanto isso, Jamian observava tudo de longe. O movimento, as pessoas, os funcionários. De vez em quando, lançava um olhar sorrateiro para Milo, vendo-o ser recebido, com sorrisos, por grande parte dos clientes. Irritado e nervoso, disfarçou e foi em direção aos banheiros.
Nesse meio tempo, uma briguinha de namorados chamou a atenção de Aldebaran e Jamian aproveitou para espiar se havia alguém no banheiro feminino. Olhou para os lados e entrou, rapidamente. Ali, em um azulejo solto e colocado de forma a esconder um pequeno espaço que ele já usara para atos ilícitos, ele encontrou o punhal que continha muitas... respostas.
Seu plano sofrera alterações, porém a perspectiva de colocá-lo em prática fazia seus olhos brilharem e a sua boca, salivar. À contragosto, colocou um par de luvas cirúrgicas e pegou o punhal de duplo fio. Mesmo limpo, ele parecia ter absorvido o cheiro do sangue e isso o excitava... Tocou na ponta da lâmina com um brilho quase insano nos olhos, afinal a perspectiva de matar quem o incomodava sempre era tentadora...
Fale com o autor