Sortilégio...

5 Capítulo 5 NUNCA TE VI, SEMPRE TE AMEI...


Notas iniciais
Bem, final da primeira fase! Espero que gostem! Bjs e obrigada pelo carinho!!!

“Klayi Jag, te bisterdon tumare anava...Te loriava I phuv mure ratesa...Me voliule samurri djibe movoin..”

(Fogo negro queime e apague... Possam seus nomes serem esquecidos...Na vida só se tem um grande amor, o coração jamais esquece. Mas, por hora, não vão mais saber um do outro..).

“Outra vida, Kardia, outra vida, Dégel...”

O ar interno da carroça tomou o corpo do vento e sacudiu os utensílios e madeira. Os cabelos longos e brancos de Makri agitaram-se junto com as palavras ditas com uma voz rouca e um pequeno turbilhão de névoa cinza e densa se fez.

Kardia elevou a mão ao rosto e Esmeralda arregalou os olhos.

Tudo durou não mais que um minuto, embora o tempo tomasse corpo e se tornasse algo estranho e denso, expandindo, aderindo aos espaços da carroça e envolvendo os corpos como um amante fugaz...

Estava feito.

O sortilégio duraria enquanto fosse o tempo de durar e assim, seu povo poderia ir embora em segurança.

A velha cigana sabia o preço de interferir no destino. “Te loriava I phuv mure ratesa...” (Possa eu molhar a terra com meu sangue para pagar...) Disse ela para si mesma, aceitando que um sortilégio sempre exigia seu pagamento em sangue. A atitude de mudar o curso dos acontecimentos, foi tomada para impedir que Kardia atraísse a tragédia para si e pudesse viver para liderar seu povo.

Cansada, Makri deixou a carroça e encontrou Zelos, trôpego e cheirando à bebida.

— O-O...Que tá fazendo aí, Makri...? – perguntou ele exalando o cheiro de vinho.

— Nada que seja da sua conta! – respondeu a cigana.

— E-Eu vi... vi o gajo vindo prá cá e...

— Cale-se! Thie iaca si jungle sar I abraskake!(Seus olhos são feios, invejosos e ruins, iguais aos do sapo) – disse ela, zangada.

— Está... me... amaldiçoando, velha?

— Não! Você já atraiu a desgraça por si mesmo! Se quer um conselho, pare de se meter onde não deve. A Señora Muerte está à espreita... Ela vai querer levar alguém no lugar daquele que eu salvei, portanto, fique longe de Kardia e do gajo.

Zelos levou a garrafa à boca e o vinho escorreu por entre os lábios, pingando na camisa aberta no peito.

— Não tenho medo de nada e nem de ninguém...! — respondeu Zelos atirando a garrafa vazia no chão.

Makri cuspiu, murmurou algo e olhou nos olhos do cigano. Em seguida, ajeitou o xale nos ombros encurvados e rumou em direção a sua carroça.

Zelos cambaleou e olhou na direção de seu cavalo. Sorriu maldoso, tendo a ideia de procurar Hakurei e arrancar dele mais alguma vantagem ao contar que seu filho estava no acampamento e dormindo com Kardia.

Subiu com dificuldade no cavalo negro e rumou na direção da propriedade. No caminho, sob a luz da lua cheia, uma serpente silvou, assustando sua montaria. O cavalo elevou as patas dianteiras, fazendo-o cair com violência sobre um barranco e rolar até despencar dentro de um pequeno riacho próximo da estrada.

O impacto o deixou tonto e seu corpo afundou na água que ondulava e lhe enchia a boca e as narinas... Ébrio, sem saber nadar e atordoado pela queda, Zelos ainda debateu-se por alguns instantes em desesperada agonia.

O corpo do cigano estremeceu e depois se aquietou. Sua vida se esvaiu nas águas lamacentas, afundando lentamente, enquanto o cavalo corria de volta para o seu verdadeiro lar...

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Dégel acordou com o sol alto e uma estranha sensação de vazio. Olhou em volta e notou que havia uma bandeja com pão fresco, leite, queijo e carne sobre a mesinha de cabeceira. Seu corpo estava dolorido o que o fez deitar-se, novamente, e fechar os olhos, adormecendo quase de imediato.

Oliver entrou, logo em seguida e colocou a mão na testa do jovem, verificando se ele estava febril. Já fazia três dias que ele só dormia e comia muito pouco. Foi até a janela e abriu-a, deixando entrar o sol no aposento. Olhou na direção da cama, vendo que o jovem não se movia e deixou o quarto.

Ao sair, o criado encontrou Hakurei que estava sério e com ar preocupado.

— Acha que devemos chamar o médico? – perguntou o senhor ao criado.

— Ele não tem febre e parece, apenas, fraco. Vou preparar um tônico revigorante que o deixará novinho em folha. Creio que o rapaz só precisa de descanso, senhor.

— Ele falou alguma coisa? Perguntou sobre... aquele homem?

— Não senhor. Ele não falou nada. Pouco permaneceu acordado durante estes dias.

— Excelente. Hoje acaba o prazo e aquela gente irá embora. Quando isso acontecer, não se fala mais nesse assunto. Tudo estará morto e enterrado!

— Sim, meu senhor.

— Pensei melhor e acho que vou deixá-lo estudar um pouco. Um tempo fora o fará colocar a cabeça no lugar. Depois que ele terminar, poderá voltar para casa, casar e constituir família. Sim, vou fazer isso. Cuide dele, Oliver e deixe-o pronto para viajar, assim que estiver forte. – disse Hakurei.

Oliver sorriu, discretamente e foi logo preparar o tônico do jovem senhor. Suas orações à Virgem de Caravaggio haviam dado resultado e ele tinha de lembrar-se em acender as vinte velas que prometera à santa de sua devoção.

No acampamento, as carroças já estavam alinhadas e prontas para partir. Kardia conversava com alguns homens que haviam procurado por Zelos sem sucesso.

— Ele nos achará, quando voltar. Não vamos ficar esperando. – disse o jovem cigano.

— Tem razão, até é bom que ele fique fora uns tempos. Zelos não age como um cigano e, muitas vezes, é uma vergonha para nós. – completou Justino.

Esmeralda olhou para Makri com a estranha sensação que a velha sabia o que havia acontecido, mas não ousou perguntar. Por um lado sentia-se aliviada por Zelos não estar na caravana e essa sensação sobrepujava-se a sua curiosidade.

Que ficasse longe e não voltasse mais! Ninguém sentiria a falta daquele traste! Pensou a bela cigana sem nenhum pingo de culpa.

Kardia pegou seu violino e tocou, uma última vez naquele lugar. Já tinham queimado a carroça com Manigoldo e seus pertences. As cinzas já haviam sido recolhidas para serem lançadas ao vento em outro lugar, então só restava deixar aquelas terras e ganhar o mundo, como era da natureza dos ciganos.

A música era de despedida e, por um momento, o cigano sentiu um vazio profundo no peito e a música parou. Kardia não conseguia entender a razão de tal sentimento, então guardou o violino e olhou para Esmeralda que acenou-lhe sorrindo.

Partiram todos sob a vigilância distante de alguns homens de Hakurei. Quando a noite caiu, novamente, era como se nunca estivessem estado ali...

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Florença, dois anos depois...

— Dégel! Venha ver! – gritou uma voz feminina no pátio interno da Universidade Florentina dos Médici.

Ajeitando os óculos, o jovem estudante de Direito suspirou marcando a página do livro que estava lendo e foi até a janela. A jovem ruiva que trazia uma pequena cesta em seu braço sorriu e acenou. Era Marin, namorada de seu colega e amigo Ikki. Os dois, tanto ela quanto Ikki sempre tentavam tirá-lo dos estudos com o argumento que ele nunca se divertia e parecia tão velho quanto os professores daquela universidade.

— O que foi desta vez? – perguntou Dégel.

— São os ciganos! Estão na praça tocando e dançando, venha ver! – disse ela sinalizando com a mão.

Dégel franziu o cenho e fez que “não” com a cabeça.

— Tenho que terminar meus estudos e a prova será amanhã. – disse o jovem.

— Não seja desmancha prazeres! Ikki teve que atender o chamado de seu pai e eu não quero ir sozinha... Por favor, você será nosso padrinho de casamento, quando Ikki me pedir em noivado,portanto tem de zelar por mim também. – falou a jovem fazendo biquinho.

— Está bem! Mas, não posso me demorar. – disse Dégel, vencido.

A Piazza della Signoria estava repleta de curiosos e Marin foi abrindo caminho, junto com Dégel que já se sentia incomodado com toda aquela multidão.

Desde que seu pai permitira que ele estudasse, Dégel fazia-o quase vinte e quatro horas por dia e isso o tinha isolado de amizades e divertimentos. Apenas Ikki, seu colega de quarto e na universidade insistia em envolvê-lo nos passeios que fazia com sua namorada, a jovem curiosa chamada Marin.

A música era alegre e, por um instante Dégel deixou a rabugice para trás e acompanhou Marin que se enfiava por entre os espectadores.

Uma jovem de cabelos louros dançava ao som de violas e um pandeiro adornado com fitas multicoloridas. Seus pés, descalços, batiam no chão produzindo um ruído surdo acompanhado de uma corrente dourada com guizos que estavam presas aos seus tornozelos. Ela agitava as saias com vigor e o colorido vertiginoso que resultava da movimentação arrancava aplausos entusiastas de homens e mulheres.

Ikki chegou logo em seguida, tentando achar Marin quando a música, a dança e a beleza da cigana que girava, prenderam seu olhar de uma forma incrível e desnorteante. Os movimentos voluptuosos da cigana pareciam ter o poder de hipnotizar seus espectadores e a ele, que jamais sentira aquele fascínio por uma mulher, nem por Marin com quem pretendia se casar.

Os fulgurantes olhos verdes passavam pelos rostos de todos sem focar ninguém, o sorriso permanente nos lábios rosados eram como um convite à sedução, até que ela o viu, o moreno que a fitava com tanta intensidade fazendo-a sentir o calor daquele olhar em todo o seu corpo.

Esmeralda girou e girou mais algumas vezes, batendo os pés no chão e o pandeiro nas mãos, até que tudo cessou ao mesmo tempo e ela se curvou em agradecimento, olhando de canto para o belo moreno que ainda a fitava.

Então ele surgiu, os cabelos negros e sedosos amarrados com displicência em um rabo de cavalo baixo, deixando perceber as argolas de ouro nas orelhas. O peito viril revelado pela camisa de seda aberta e o sorriso sensual se formando nos lábios ao empunhar seu violino...

A dança cessou, porém a música que o belo cigano iniciou fez toda a praça parar de respirar, principalmente o jovem Dégel que foi tomado por uma violenta sensação de saudade e dor...

Kardia tocava de olhos fechados e o som arrebatava a todos de um modo que logo as reações vieram nas suas mais variadas manifestações: lágrimas emocionadas, exclamações abafadas e risinhos baixos das jovens que se tornavam prisioneiras da beleza selvagem do cigano que tocava.

Quando a música chegou ao seu final, o cigano abriu os olhos e o azul profundo encontrou os violáceos do gajo que o fitava. O coração do cigano palpitou e ele franziu o cenho para, em seguida, sorrir e passar a língua nos lábios de uma forma inconsciente, mas carregada de sensualidade. Esmeralda se aproximou e puxou-o pelo braço e os dois saudaram o público como se estivessem em um teatro.

Os aplausos vieram, assim como moedas de ouro e prata vindas de todos os lados. Esmeralda e os músicos as recolheram entre sorrisos e agradecimentos guardando-as em lenços coloridos para depois colocar nas bolsas de couro.

Kardia ainda olhou para aquele homem que lhe despertara curiosidade e forte excitação. Depois, rompeu o contato visual e foi ter com os outros ciganos que recomeçaram a cantar e dançar, agora com mais entusiasmo.

Dégel deu-se conta que se perdera de Marin e começou a procurá-la ainda sentindo aquela estranha comoção que parecia cada vez mais forte dentro de si. O que estava acontecendo com ele? O que aquele homem tinha de tão especial para fazê-lo sentir-se profundamente tocado? Era um cigano! Por Deus!

Ainda confuso, Dégel encontrou os amigos e os três deixaram a praça, ainda ouvindo a alegria explícita daquele povo. Ao chegar à pensão onde moravam, Dégel e Ikki rumaram para o quarto.

— Por Deus, homem... aquela cigana me enfeitiçou! – disse Ikki levando a mão a testa para limpar o suor. – Não consigo tirá-la da cabeça!

Dégel atirou-se na cama estreita e ficou olhando para o teto. Queria dizer algo para o amigo, mas encontrava-se na mesma situação só que, no seu caso, era um homem que povoava seus pensamentos e de uma forma absurda. Fechou os olhos e inspirou devagar tentando voltar ao normal e esquecer...

Impossível! Fechar os olhos era pior e parecia tornar o rosto do cigano mais nítido e seu olhar mais vívido e penetrante.

— Você tem a Marin. Ela é uma boa moça e é apaixonada por você. Esqueça a cigana. – disse por fim, tentando escapar de seus próprios pensamentos.

Ikki bufou e atirou-se na cama, também.

— Eu sei, meu amigo. Mas, pode parecer loucura o que vou dizer... Jamais senti essa... coisa com mulher alguma. Nem com a Marin.

— Você sente desejo, apenas isso. – falou Dégel.

— Se fosse somente desejo eu poderia saciá-lo nos braços das meninas de madame Damaris e imaginar estar com ela. Infelizmente, é pior que isso, parece que eu a estava esperando, entende? Como se tudo o que eu tenha vivido até agora fosse uma ilusão e ela fosse a realidade que eu sempre desejei.

As palavras do amigo tocaram fundo o coração de Dégel e ele levantou-se da cama como se ela estivesse impregnada de pregos. Era exatamente assim que se sentia, preso em uma ilusão prestes a ser desfeita por aquela música e por aquele olhar tempestuoso do cigano.

Angustiado, foi até a janela para inspirar o ar noturno e, ao fechar os olhos, o som do violino retornou à sua mente e ao seu coração como um chamado...

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Esmeralda mal conseguia acreditar no montante de dinheiro que tinham arrecadado. Sentada na carroça, suspirou e sorriu consigo mesmo enquanto observava Kardia afastar-se e ficar observando a linha do horizonte de um céu profundo e estrelado.

Estavam acampados fora da cidade e a fogueira já estava acesa como de costume. Haviam voltado à Itália depois de viajarem pela Espanha e tratarem de negócios com outro grupo de ciganos que rumava para Florença. Acabaram se apresentando nas ruas que fervilhavam de artistas e estudantes como um modo de atrair a atenção e ganhar algum dinheiro.

Fora uma performance intensa e quente. O olhar do gajo moreno ainda estava em suas lembranças e seu corpo, ainda sob o efeito do calor que notou nos olhos azuis. Estava precisando de um banho quente, mas esperou até ver seu líder e amigo voltar. Notara que Kardia estava pensativo e distante. Talvez até um pouco triste e foi ter com ele.

— O que aconteceu? – perguntou ela enlaçando-o pelo braço.

— Nada. Porque a pergunta?

— Está tão pensativo desde que voltamos da cidade.

— Não sei explicar, apenas sinto. Se Makri estivesse viva, pediria a ela que jogasse as cartas para mim ou olhasse na bola de cristal.

— Eu posso jogá-las, se isso vai ajudá-lo. Aprendi alguma coisa com a velha Makri. – disse Esmeralda.

Kardia sorriu e franziu o cenho como se desconfiasse da cigana.

— Faria isso? – perguntou ele.

— Venha! Vou fazê-lo agora! – disse Esmeralda puxando-o pela mão.

O fogo crepitava e Esmeralda estendeu uma toalha vermelha no chão, próximo da fogueira. Sentou-se e colocou a bolsinha de couro que continha o baralho. Fechou os olhos e esfregou as mãos sussurrando uma prece e pedindo proteção.

Acocorado, Kardia apenas observava, uma a uma, cada carta colocada sobre a toalha: O cigano, o livro, o sol, o coração, a serpente, a foice, o caixão e finalizando as alianças.

Esmeralda respirou fundo antes de iniciar a leitura. Olhou nos olhos de Kardia que a observavam com visível preocupação.

— Bem, as cartas mostram que você reencontrará um grande amor, mas... o estranho é que apareceu o cigano, ou seja, um homem. E o livro mostra que este homem é letrado e muito inteligente. O sol diz que vocês irão se reencontrar, porque já se conhecem e o coração de vocês estará unido quando forças ocultas mostradas pela foice... trouxerem a... morte, representada pelo caixão. M-Mas... a morte não irá separá-los por muito tempo, porque vocês pertencem um ao outro e as alianças confirmam que vocês estarão juntos. É isso que as cartas dizem. – finalizou Esmeralda sentindo um nó na garganta.

Kardia olhou para as cartas e levantou-se. Não havia medo em seu olhar, apenas indagações. O cigano não temia a morte, nem inimigos ocultos. A imagem do gajo na praça voltou-lhe a mente. Seria ele este amor que reencontraria? Por segundos, naquele dia achou que já o conhecia, mas era impossível já que nunca o tinha visto antes. Inspirou fundo e tornou a olhar para Esmeralda que recolhia o baralho com mãos nervosas.

— Não se aflija, não temo o destino. O que tiver de ser, será. – disse o cigano.

— Às vezes, eu gostaria de contrariar o destino e pode ser que eu ainda não saiba ler as cartas muito bem. – respondeu a cigana com os olhos úmidos.

Os lábios de Kardia se abriram num sorriso triste.

— Às vezes, mesmo que tentemos nos afastar dele, ele nos encontra... Então, pra que fugir? – disse o cigano abraçando Esmeralda enquanto as lágrimas escorriam pelo belo rosto da cigana.

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Napoleão terminara sua campanha militar em Rivoli, vencendo os austríacos e obrigando-os à rendição. Seu regimento de apenas 2000 homens venceu a batalha na região do Piemonte, província de Turim e depois disso, alguns de seus homens se dispersaram pelas cidades italianas, aproveitando o término da batalha que o elegeu como um dos maiores generais de seu tempo.

A vitória do jovem general o levaria ao Egito, no ano seguinte. Enquanto isso, em Florença um destacamento de 100 homens entrava na cidade querendo diversão e fazendo algazarra.

Os ciganos estavam na praça, cantando e dançando e Kardia esperava que logo, os estudantes viessem como sempre faziam e então ele falaria com o gajo, tentando descobrir o que existia entre eles...

Ikki arrastava Dégel pelo braço, louco para ver a cigana Esmeralda, enquanto o amigo resistia, mesmo desejando ver o cigano do violino, novamente.

— Ikki... eu acho melhor a gente não fazer isso. Pense em Marin! Se ela descobre que você...

— Eu terminei com ela ontem. – respondeu Ikki.

— Como assim terminou? O que ela disse? O que você alegou para terminar o compromisso assim, de repente?

— Bem, ela chorou, tentou unhar meu rosto e depois disse que eu fosse para o inferno. Eu disse a verdade e ela... não acreditou. Disse que eu era um mentiroso, que sabia haver algo errado, que eu sempre a tratei como se fosse uma “irmã” e não uma mulher, que ela sempre soube que eu era um patife e... Enfim, depois de jogar a primeira coisa que achou à mão em mim, ela mandou-me embora.

— E você diz isso assim, com essa... calma?

— É como eu disse naquela noite. Nada mais importa! Eu quero Esmeralda como jamais desejei nenhuma outra. Ela vai ser minha, nem que eu tenha de me tornar um cigano.

— Ninguém se torna cigano, Ikki.

— Como um futuro advogado você é muito conservador, meu amigo.

— E você é revolucionário em demasia. – disse Dégel admirando a ousadia do amigo.

— Me espere na praça que eu vou buscar a encomenda que fiz para dar de presente à Esmeralda. Não vou me demorar. – disse Ikki indo em direção ao Empório, das sedas que ficava em uma ruela próxima à praça.

Nem bem Dégel chegou à praça e lá estavam os ciganos formando uma roda em volta das mulheres que dançavam. O jovem sentiu seu coração bater mais forte ao reconhecer o cigano que, naquele momento não tocava o seu violino e sim dançava com as mulheres num bailado sensual e alegre.

Ficou olhando, fixamente, para os movimentos do corpo de Kardia e seu próprio corpo pareceu arder, ansiar por algo que ele parecia conhecer e, mesmo assim, ignorar a origem de tal sentimento.

A música enchia o ar de tal forma que ninguém percebeu o som dos cascos dos cavalos, nem a gritaria de soldados bêbados que riam e empunhavam suas armas. Tiros foram disparados a esmo e só então, os ciganos cessaram a dança, surpresos com a algazarra dos homens sujos e esfarrapados que adentravam a praça.

Preso no olhar que lançava sobre Kardia, Dégel sentiu apenas uma fisgada de dor e uma ardência que o fez levar a mão ao ventre. Sua mão ficou molhada de sangue e, ao mesmo tempo, imagens lhe vieram à mente numa sucessão de quadros rápidos e vívidos. Nelas, ele estava nos braços do cigano, sentindo-lhe o calor do corpo, provando dos lábios que agora se abriam e gritavam algo que ele mal podia ouvir.

— N-Não!! – gritou Kardia ao perceber que Dégel fora ferido e caía há alguns metros, em meio ao movimento dos soldados.

— Kardia... – murmurou Dégel, enquanto sentia o sangue invadir-lhe a boca e via os olhos do amado arregalarem-se, enquanto vinha em sua direção.

O cigano correu e tomou Dégel em seus braços. Em desespero tocou-lhe o rosto e seu peito doeu tanto que ele sentiu como se fosse morrer. As lembranças do amor que vivera com o gajo inundaram seus sentidos como uma violenta enxurrada e ele estremeceu, sentindo o corpo de Dégel amolecer.

— Kardia... Eu lembro... lembro de amar você... de estar em seus braços... Eu te amo tanto... – disse Dégel sorrindo e tocando o rosto do cigano.

— Dégel! Eu também... eu também lembro, meu amor! – disse Kardia sentindo as lágrimas saltarem dos olhos. – Por favor, por favor... não morra!

O jovem fidalgo suspirou e a mão que tocava o rosto de Kardia caiu inerte. De seus olhos rolaram duas lágrimas e ele fechou os olhos, acolhido pela morte nos braços do homem que amava.

Kardia gritou e chorou com Dégel em seus braços. Os soldados dispersaram e fugiram. Os ciganos se aproximaram de seu líder, vendo-o em total desespero.

Ikki, que voltava com um embrulho nas mãos estranhou a movimentação e quando chegou perto viu que Dégel estava morto.

— Meu Deus! O que aconteceu aqui? – perguntou o jovem levando as mãos à cabeça.

— Foram os soldados. Eles entraram atirando a esmo e uma bala perdida o atingiu. – disse Esmeralda que permanecia ao lado de Kardia.

Ikki fechou os olhos e inspirou fundo, tentando conter a culpa e a angústia pela morte do amigo. Depois, tomou as providências necessárias para que Dégel fosse levado e tratou de enviar uma mensagem para a família do jovem morto.

Kardia estava inconsolável e cheio de ira. Não queria se afastar do corpo, porém Esmeralda o puxou, lembrando-o que era o líder dos ciganos, que precisava ir em frente e que tinha de deixar que cuidassem do funeral de Dégel.

O jovem fidalgo foi levado de volta para seu pai e os ciganos deixaram Florença.

Em todo o caminho Kardia permanecia silencioso e sombrio, deixando Esmeralda preocupada.

— Precisa comer alguma coisa. Tome, beba este chá e coma um pedaço de pão. – disse ela quando, após dois dias de viagem, acamparam próximos de Perúgia, o lar de Dégel.

— Deixe-me sozinho, Esmeralda... – falou Kardia afastando-se dela.

A cigana inspirou e voltou-se para os demais que olhavam a cena, mas não ousavam falar. Justino levantou-se e quando ia dizer algo, sons de cascos de cavalo chamaram a atenção. Um homem moreno adentrava o acampamento fazendo uma saudação:

— Baxt hai sastimos tiri patragi! (Boa sorte e boa saúde) – disse Ikki elevando a mão direita.

Esmeralda arregalou os olhos e Ikki sorriu, de forma discreta. Tinha valido a pena decorar aquela saudação cigana e usá-la para criar um impacto na sua apresentação. Pensou ele ao ver o brilho nos olhos de Esmeralda.

— Fui eu quem trouxe o corpo de Dégel e ajudei a sepultá-lo no cemitério da família. Agora sou um homem livre que não quer mais voltar para a agitação da cidade. Perdi meu amigo, e estou diante da mulher mais fascinante que já conheci. Quero conhecê-la e desposá-la, senhorita Esmeralda. Aceitam que eu viva entre vocês? – falou Ikki.

Justino olhou-o dos pés à cabeça e os outros cochicharam. A tradição rezava que ciganos se uniam a ciganos e gajos com os de sua gente. As mulheres riram baixinho e Kardia aproximou-se de Ikki, olhando-o sério e de forma intensa.

Ikki notou as olheiras profundas do cigano e isso tocou-o de forma profunda. Pensou em Dégel e compreendeu que, mesmo sendo um tipo de amor não aceito pela sociedade, ainda assim o cigano amara seu amigo como poucas pessoas ousavam ou sabiam amar. Sentiu orgulho daquele povo e rezou para que o líder o aceitasse.

— Você era amigo dele. Viveu ao lado dele durante o tempo em que eu... estive afastado de tudo. Diga-me, gajo... Dégel foi feliz?- perguntou Kardia.

— Dégel sempre foi quieto, estudioso. Poucas vezes eu o via sorrir, era como se ele guardasse um segredo tão profundo que nem mesmo ele conhecia o conteúdo deste segredo. Isso o deixava solitário e eu, praticamente, fui seu único amigo. Mas, quando ele o viu tocar, o coração dele se abriu e o segredo se revelou. Acredito que, naquele breve momento, ele foi feliz. – respondeu Ikki com sinceridade.

Kardia fitou Ikki, sem nada dizer. Depois tocou-o nos ombros e falou:

— Seja bem-vindo, gajo. Viva entre nós e aprenda o modo cigano. Se Esmeralda o quiser, não a impediremos de casar com você. Nenhuma tradição deve prevalecer sobre os sentimentos.

Esmeralda abriu um sorriso, sentindo um tanto de culpa por deixar-se invadir pela felicidade, enquanto Kardia sofria a sua perda. Porém, o cigano tomou-lhe a mão e beijou-a. Seu olhar enterneceu-se por ela e ele sussurrou:

— Viva por nós! Deixe que o destino a acolha em sua abundância e felicidade.

Ditas as palavras, Kardia chamou Justino e entregou-lhe o anel de ouro e rubi que usava.

— Se algo me acontecer, você é o líder. Este anel é o meu voto, dizendo que o nomeio meu sucessor. – disse Kardia.

— O que vai fazer homem? – perguntou Justino.

— Vou até o túmulo de Dégel.

— Sei que vocês tinham uma grande amizade, mas o senhor Hakurei vai matá-lo se o vir lá. Ele deixou bem claro que nunca mais aceitaria os ciganos em suas terras.

— Não me importa. Dégel espera por mim, vou tocar a sua música uma última vez.

Justino não discutiu e, ao anoitecer, Kardia montou seu cavalo, indo até as terras de Hakurei. O ar gélido combinava com a luz prateada da lua cheia, os campos estavam cobertos de orvalho como se fossem pequenas lágrimas a derramar-se por entre gramas e folhas.

O cemitério era nas terras baixas, longe da mansão e próximo de uma floresta semelhante àquela onde haviam tido sua primeira noite de amor.

Uma laje de mármore negro contendo o nome de Dégel se sobressaía em meio às cruzes e túmulos mais antigos. Kardia desmontou e tocou a pedra fria. Seus olhos estavam secos, mas seu coração ainda chorava, dilacerado pela dor da perda.

Suas mãos estavam quase congelando com o ar frio, mas mesmo assim ele retirou o violino da bolsa que trazia às costas e o encaixou entre o queixo e o ombro.

A música iniciou lenta e melancólica, mas aos poucos foi tornando-se alegre e vibrante. Os cabelos negros se agitaram, o suor tomou-lhe o rosto e o corpo... Kardia tocou, febrilmente, sem parar um só instante e as lágrimas voltaram a escorrer pelo belo rosto.

O tempo pareceu congelar e o cigano fechou os olhos, fazendo cessar a música. Encostou-se na laje fria e foi escorregando as costas até sentar no chão. Estava vestido com a mesma roupa festiva que usara na noite em que tomara Dégel em seus braços. A seda fria aderia ao corpo e não o protegia do ar cada vez mais gélido, mas ele não se importou.

A imagem do sorriso tímido de Dégel, do toque prazeroso de suas mãos macias, o corpo unido ao seu dançou a frente de seus olhos úmidos e Kardia sorriu, sentindo o torpor tomar conta de seu corpo.

— Dégel... — sussurrou ele, enquanto o ar gelado o abraçava como um aconchegante e mortal xale...

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O amanhecer no acampamento cigano chegou com o barulho de mulheres limpando os fogareiros e arrastando alguns barris. As crianças brincavam com o gelo que ainda restava nas folhas, grama e arbustos. Aquela tinha sido uma noite muito fria e dentro das carroças os fogareiros haviam ficado acesos para espantar o frio, por isso a movimentação de limpeza, antes do café.

Em sua carroça, Esmeralda lavou o rosto e limpou os dentes, escovou os cabelos amarrando-os para trás e vestiu a capa, devido ao frio intenso. Ouviu sons do lado de fora e saiu o mais rápido que podia.

Curiosa, ela caminhou até a frente da carroça de Justino que conversava com Ikki.

— Bom dia, senhorita! – disse Ikki sorrindo, enquanto amarrava dois cavalos à carroça onde tinha sido hospedado por Justino.

Ele usava uma camisa vermelha sem gola e tinha um lenço amarrado ao pescoço. Parecia não sentir frio, mesmo que ao falar, sua boca exalasse um vapor enevoado.

Esmeralda ficou a admirar os músculos e os tendões dos braços fortes, contraídos pelo esforço e pensou como um homem letrado podia ter um corpo tão bonito...

O moreno rapidamente afastou-se dos cavalos e foi até ela. Abraçou-a e beijou-a como se ela fosse a sua mulher e Esmeralda surpreendeu-se aceitando o ato como algo muito natural.

Com esforço, a cigana interrompeu o beijo quando ouviu Justino falar que Kardia não voltara, embora seu cavalo estivesse pastando próximo ao acampamento..

— Ele ficou fora toda a noite? – perguntou ela.

— Sim, disse que ia até o túmulo do gajo. Inclusive, deu-me o seu anel caso algo acontecesse. – respondeu Justino com o cenho franzido.

Esmeralda sentiu-se invadida por um horrível pressentimento. Lembrou-se das cartas, da dor de Kardia e de Makri, naquela noite em que a velha lançara o sortilégio. Havia esquecido, mas agora tudo estava tão claro como a luz daquela manhã...

— Ikki, leve-nos até lá! – disse a cigana.

Quando chegaram ao cemitério, viram Kardia sentado no túmulo e segurando o violino como costumava fazer. De longe, parecia estar apenas descansando e Esmeralda permitiu-se um fio de esperança que se rompia cada vez que chegava mais perto. Ao vê-lo inerte, a cigana ajoelhou-se ao lado do amigo, chorando e tocando-lhe a face fria com ternura.

— Meu rei... – sussurrou ela entre as lágrimas.

Kardia estava com os olhos abertos e, os lábios arroxeados esboçavam um meio sorriso como se ele tivesse visto algo muito belo ou prazeroso. O violino em suas mãos ainda estava coberto por finos cristais de gelo, assim como a sua roupa colada ao corpo.

Esmeralda fechou-lhe os olhos e olhou para Ikki, sem saber o que dizer. O moreno franziu o cenho e olhou em volta. O cemitério era grande e distante da casa. Pensou no que Dégel gostaria e então tratou de organizar uma frente de trabalho improvisada.

— Vamos enterrá-lo aqui mesmo, ao lado do túmulo de Dégel. – disse Ikki.

— Não! – gritou Esmeralda. — Antes precisamos fazer os rituais e...

— Se fizerem isso, logo não poderemos enterrá-lo aqui. Se o sepultarmos agora, ele fica ao lado de quem amou e ninguém terá coragem de profanar um túmulo. Nem mesmo o pai de Dégel. – disse Ikki.

Justino, que acabava de se dar conta que o amor de Kardia não era, apenas, uma forte amizade ficou um tanto chocado, mas ainda assim, assentiu a favor da proposta de Ikki e logo, Kardia estava enterrado ao lado da sepultura de Dégel.

O novo líder levou o violino para o acampamento e lá, homenagearam Kardia colocando o instrumento em um pequeno altar. Após o tempo de luto, levaram o violino consigo e Justino o carregava como um amuleto da sorte, não permitindo que ninguém mais o tocasse. Essa honra seria sempre de Kardia, o cigano que ousara amar, acima de tudo, até de si mesmo e das tradições...

Notas finais
Obrigada a todas que acompanharam esta primeira fase! Os comentários, as questões,o entusiasmo, tudo isso é o alimento diário da minha alma!!! Bjs no coração de todas! ***As frases que aparecem em negrito e também em letra normal são em romani, a língua cigana e foram, exaustivamente, pesquisadas para dar veracidade à fic. ***A citação sobre Napoleão é verdade em parte. O momento em que os soldados entram nas cidades italianas fazendo algazarra é uma invenção minha.