Sorrisos e desencontros
6 Um mergulho profundo dentro de si
As pessoas falam sobre o amor como se apenas fosse gentil e paciente. O amor também é sombrio... e acima de tudo, destrutivo.
Deveres, deveres e mais deveres. Era só o que ela havia escutado desde criança. "Coluna ereta" "Seu cabelo está desarrumado" "Não sorria em público" "seja mais recatada" "prenda seus cabelos" tudo isto para uma pequena Maeve que ainda não entendia o porquê de não poder brincar com várias outras crianças sentindo o vento jogar seu cabelo sobre o seu rosto e rindo com a sensação de ser verdadeiramente feliz. Por muitas vezes desejara não ser da realeza. Mas a realidade é que ela era. E princesas tem seus deveres. Quando desabrochou e viu-se pela primeira vez sangrando, sua mãe lhe explicou quais deveres ela teria num futuro não tão distante. Futuro que aliás a partir daquele momento estaria mais perto a cada segundo. Ser vendida para um estranho igualmente da realeza e torcer para ter a sorte de lhe prover herdeiros do sexo masculino o mais rápido possível. E mesmo que assim o fizesse, daqui a alguns anos seria trocada por outra mulher. Homens são conhecidos por serem criaturas instáveis.
Ou tudo isso em palavras mais bonitas, como sua mãe havia lhe falado: "casar-se com um príncipe e lhe presentear com herdeiros, e com sorte, algum dia ser rainha" nada daquilo lhe atraía. Não diferente da maioria das mulheres, Maeve sonhava com um homem que lhe amasse, e que lhe desse filhos como uma extensão deste amor. Não por obrigação.
Pensou em fugir de tudo aquilo... mas para onde iria? Uma vez tentou, não importava para onde, mas sempre queria correr e correr daquele lugar, mas os guardas de seu pai sempre a encontravam. Outra vez havia passado quase a noite inteira na floresta e antes que observasse ao longe as tochas dos guardas se aproximando, desejou que alguém viesse lhe salvar, lhe tirar daquele lugar e destino horrível. Mas ninguém veio.
Ao ser entregue diante de seu pai, ele decidiu que aquilo bastava, que seria a última de suas obstinações. Ameaçou enviá-la para um convento caso tentasse fugir novamente. Maeve sabia que ele falava sério. Seria um prejuízo, de certo, mas ele ainda poderia fazer outras filhas, e ela tinha irmãos com os quais seu pai poderia firmar acordos com reinos distantes.
Era o fim. Não importava o que fizesse seu destino estava traçado.
A resignação doía, porém ainda era melhor ser princesa e ter poder para mudar a vida de algumas pessoas do que ser enterrada e esquecida em um convento. Além disso, não teria amor do seu marido, mas teria filhos, poderia amar eles e encontrar um pouco de felicidade em sua vida.
Quando era seu aniversário de 14 anos sua mãe lhe deu a notícia de que ela, Maeve e seu pai iriam até o reino do rei David, com a intenção de firmar um acordo nupcial com o filho mais velho e herdeiro, Louis. Maeve não falou nada, sequer ouviu sua mãe balbuciando sobre a sorte que teria com sua filha se tornando rainha de um reino tão grande e importante.
Maeve havia aprendido a apreciar as coisas simples da vida, para muitos, ela tinha tudo, mas olhando de perto, ela não tinha nada.
Sonhos, desejos e ambições eram algo para outra vida, caso isto houvesse. Acenar, reverenciar e fingir estar feliz era a maneira de continuar sobrevivendo, daquele momento por diante. Durante a viagem para o reino de Westminster, ao olhar as grandes árvores coníferas que embelezavam a região, lembrou-se de uma frase que sua mãe havia lhe dito certa vez: "Felicidade é a única coisa que princesas não podem ter."
A vegetação daquele reino era de fato linda, foram recepcionados por guardas reais, a apresentação seria na sala do trono mais tarde, após estivessem descansados da viagem. Sua mãe ordenou que vestisse o vestido que haviam combinado e permanecesse em seu quarto, arrumada e preparada até que fosse chamada. "Embrulhada como um verdadeiro presente"-havia pensado, mas não falou nada.
Sua mãe demorava muito a chegar, então decidiu que sairia e observaria ao redor do castelo. Colocou um capuz, não sabia se estava com frio ou apenas nervosa.

Passou pelos guardas e andou lentamente, viu ao longe flores lindas... em uma área atrás da barreira que separava o castelo da floresta.
Abaixou-se e atravessou, eram lindas flores, de um vermelho vívido que nunca havia visto antes.
"-My lady, perdoe-me o incômodo, mas não deveria estar na floresta desacompanhada." -Escutou um rapaz dizer-lhe, atrás de si.
"Nem você deveria, não é?- ela respondeu, sem levantar.
Maeve já preparava-se para se desculpar pela atitude rude, então virou-se e viu o quão lindo ele era. Tinha cabelos pretos como os seus, e inspirava um olhar revolucionário e perigoso. Era como se seus sonhos tivessem tomado forma humana. Antes que pudesse perceber, estava sorrindo.
"-Gosta de flores?"-perguntou ela, ainda sorrindo.
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